Abdulrahman Mohamed Babu

Abdulrahman Mohamed Babu (1924—1996) was foi um marxista and nacionalista pan-africano nascido em Zanzibar, que teve um papel fundamental na revolução de Zanzibar em 1964, foi ministro no governo de Julius Nyerere após a ilha ser unida com Tanganyika no continente para formar a Tanzânia. Ele foi preso por Nyerere em 1972, e, após ser solto depois de uma campanha internacional, continuou sendo um crítico incansável do imperialismo, autoritarismo e modelos de desenvolvimento excessivamente estatistas (assim como o capital privado).

Primeiros anosEditar

Abdulrahman Mohamed Babu nasceu em 1924 em Zanzibar, na África Oriental — então um protetorado britânico, sob o controle nominal do Sultão hereditário. A economia da ilha era centrada em exportar cravos e cocos, e sua população incluía árabes, negros africanos e indianos.[1] Após servir nas forças britânicas durante a Segunda Guerra Mundial, e um período como encarregado em uma plantação de cravos, Babu foi estudar na Grã-Bretanha em 1951, onde primeiro foi atraído ao anarcocomunismo e depois ao marxismo-leninismo.[2]

AnticolonialismoEditar

Influenciado pelo aumento dos movimentos anticoloniais e impressionado pelo poder crescente da União Soviética, Babu se jogou no movimento pela independência.[3] Ele foi líder do primeiro partido nacionalista de massas da ilha, o Partido Nacionalista de Zanzibar (Zanzibar Nationalist Party, ZNP), e participou da Conferência de Todos os Povos Africanos em Accra, Gana em 1958, onde conheceu Kwame Nkrumah, Frantz Fanon and Patrice Lumumba, visitando em seguida a China de Mao Zedong em 1959. Babu construiu relações estreitas com a liderança chinesa e era visto pelos britânicos como o 'sinófilo mais conhecido' na área.[4]

Babu foi preso por dois anos pelos britânicos. Na independência em 1962, o governo foi transferido para uma coalizão resultante da ala de direita do ZNP e de um grupo dissidente do moderado Partido Afro-Shirazi de Abeid Karume, que manteve o Sultão como monarca constitucional.[5] A esquerda do ZNP, incluindo Babu, saiu do partido para formar o revolucionário Partido Umma, que construiu uma base popular que ultrapassou linhas raciais.

A revolução de Zanzibar, 1964Editar

No começo de 1964 houve uma onda massiva de manifestações, e o Partido Umma teve um papel fundamental, importante por ter impedido que a revolução tomasse um caráter racial, e.g., africanos contra árabes.[5]

Um novo governo foi formado pelo Partido Afro-Shirazi e o Partido Umma, com Abeid Karume como presidente e Babu como ministro das relações exteriores, constituindo o Concelho Revolucionário de Zanzibar. Pressionado pela Grã-Bretanha, Karume impôs uma junção entre Zanzibar e Tanganyika em abril de 1964, embora isso teve pouco apoio do seu governo ou do seu povo. Babu era um dos membros progressistas e de esquerda do governo zanzibari que foi retido no novo gabinete em Dar es Salaam. Seus contatos com a China continuaram, e sua afinidade ideológica e trabalho com a Xinhua fez dele um bom canal de comunicação com Pequim.[4] Enquanto isso ele conheceu e se tornou amigo — e provável influência — de Malcolm X.[6]

Pós-uniãoEditar

Isso também deu a Babu um papel fundamental no estabelecimento da Ferrovia TAZARA com auxílio dos chineses. Julius Nyerere queria fortalecer os laços próximos de Zanzibar com a China e criar benefícios para o país inteiro. Babu foi nomeado chefe da delegação de comércio que precedeu a delegação presidencial de Nyerere à China em 1964. Devido a sua experiência pessoal com os chineses e sua afinidade ideológica com o modelo de desenvolvimento marxista-leninista, Babu tomou a iniciativa e mencionou as dificuldades que seu governo enfrentou tentando garantir o financiamento para a Ferrovia TAZARA. No dia 1 de julho de 1965 o governo chinês fez uma oferta de ajuda ligada aos governos da Tanzânia e Zâmbia, no valor de £75 milhões e £150 milhões para construir a linha férrea.[4] Outro resultado de sua viagem foi um acordo comercial (separado do acordo de auxílio de £11 milhões) de £5 milhões por ano durante cinco anos. Sob este acordo os tanzanianos deveriam comprar o que pudessem dos chineses mas os chineses deveriam comprar produtos da Tanzânia no valor de £5 milhões por ano. Os chineses pagariam o saldo em dinheiro pelo o que não fosse comprado da Tanzânia.

PrisãoEditar

Babu rejeitou o modelo de socialismo africano de Nyerere por não tratar da dependência do país em exportar matéria prima, um legado colonial; por replicar, em suas políticas rurais, políticas ortodoxas sob o pretexto do radicalismo 'ujamaa'; e por nacionalização irresponsável e não sustentável, especialmente de pequenos negócios, geralmente de propriedade da minoria indiana.[7] Já que a tarefa principal era desenvolver a força produtiva de modo a acabar com padrões neocoloniais, deslocar a produção, não providenciar financiamento aos aldeões, e mirar em uma integração "mais justa" ao capitalismo mundial, como fez Nyerere, não surtiriam efeito.[8]

Em 1972, Karume foi assassinado, e Babu, junto com outros 40 membros do Partido Umma foram presos por suposto envolvimento, apesar de falta de evidência, levando à sentenças de morte três anos depois, mas acabaram sendo soltos após campanha internacional.[9] Babu e outros 12 prisioneiros foram soltos por Nyerere em uma lei de anistia.

Modelo de desenvolvimento e carta a MugabeEditar

Em seu bem conhecido livro, Socialist Africa or African Socialism, que foi escrito na prisão,[8] e no seu trabalho após ser solto, Babu frisou a importância de mudança econômica fundamental. Mudanças internas no país, mais do que mudanças no âmbito global, eram chave, e para isso era necessário uma gestão cuidadosa das contradições entre o povo, incluindo a burguesia nacional, como Mao Zedong aconselhou.

Em sua Carta aberta a Robert Mugabe de 1980, ele disse que a experiência mostra que 'a tomada de fazendas produtivas' pelos estados 'tem invariavelmente levado ao colapso quase total da produção agrícola e os tem levado a contrair grandes dívidas estrangeiras para importar comida'.[10] Ele disse que o estado deveria promover cooperativas em vez de fazendas de camponeses junto às grandes fazendas comerciais de propriedade branca, obrigando as últimas a apoiar as primeiras, e separar os latifundiários brancos mais progressistas dos 'reacionários'. A renda crescente vinda das zonas rurais impulsionaria o mercado interno, o que impulsionaria a industrialização.

Ele também se posicionou repetidamente contra estados pós-coloniais autoritários, e defendeu uma democracia mais genuína, o que ele via como contrária ao capitalismo e o imperialismo. Ele desejava uma 'África socialista e unificada'.[6]

Últimos anosEditar

Durante a maior parte dos anos após ser solto por Nyerere, ele viveu nos Estados Unidos ou na Grã-Bretanha, mas permaneceu envolvido com política africana, incluindo esforços para forjar uma alternativa ao neoliberalismo. Ele viveu durante anos na Inglaterra como intelectual. Porém, voltou para a Tanzânia em 1995 para se candidatar pela Convenção Nacional por Construção e Reforma—Mageuzi, uma formação mista que concorreu na primeira eleição multipartidária em décadas.[11] Manipulações legais o impediram de concorrer, e as eleições não foram justas; o partido incumbente foi reeleito. As antigas acusações e consequente prisão de Babu permitiram que a Comissão Eleitoral rejeitasse sua candidatura à vice-presidência.[12]

Babu faleceu aos 72 anos em 5 de agosto de 1996 no Hospital Chest de Londres.

Referências

  1. Amrit Wilson, 2007, "Abdul Rahman Mohamed Babu: Politician, Scholar and Revolutionary," The Journal of Pan African Studies, volume 1, número 9, p. 8-25
  2. Amrit Wilson, 2007, "Abdul Rahman Mohamed Babu: Politician, Scholar and Revolutionary," The Journal of Pan African Studies, volume 1, número 9, p. 9
  3. «A biographical note on A. M. Babu». Consultado em 26 de novembro de 2016. Arquivado do original em 20 de fevereiro de 2007  |archive-url= e |arquivourl= redundantes (ajuda)
  4. a b c Altorfer-Ong, Alicia (2009). "Tanzanian 'Freedom' and Chinese 'Friendship' in 1965: laying the tracks for the TanZam rail link" (PDF). LSE Ideas. London School of Economics (LSE): 655–670. Retrieved 2010-09-16
  5. a b Amrit Wilson, 2007, "Abdul Rahman Mohamed Babu: Politician, Scholar and Revolutionary," The Journal of Pan African Studies, volume 1, number 9, p. 11
  6. a b Amrit Wilson, 2007, "Abdul Rahman Mohamed Babu: Politician, Scholar and Revolutionary," The Journal of Pan African Studies, volume 1, número 9, p. 21
  7. Amrit Wilson, 2007, "Abdul Rahman Mohamed Babu: Politician, Scholar and Revolutionary," The Journal of Pan African Studies, volume 1, número 9, p. 13-15
  8. a b Babu, Abdulrahman Mohamed, 1981, African Socialism or Socialist Africa?, Zed Press, London
  9. Amrit Wilson, 2007, "Abdul Rahman Mohamed Babu: Politician, Scholar and Revolutionary," The Journal of Pan African Studies, volume 1, número 9, p. 16
  10. Amrit Wilson, 2007, "Abdul Rahman Mohamed Babu: Politician, Scholar and Revolutionary," The Journal of Pan African Studies, volume 1, número 9, p. 17-18
  11. «I feel Prof. Babu's death deeply.». Consultado em 26 de novembro de 2016. Arquivado do original em 27 de setembro de 2007  |archive-url= e |arquivourl= redundantes (ajuda)
  12. Davies, Carole Boyce, ed. (2008). Encyclopedia of the African Diaspora: Origins, Experiences, and Culture. A-C. Volume 1. Santa Barbara, CA: ABC-CLIO. p. 139. ISBN 9781851097005