Admiral Scheer (cruzador)

O Admiral Scheer foi um cruzador pesado operado pela Reichsmarine e depois pela Kriegsmarine e a segunda embarcação da Classe Deutschland, depois do Deutschland e seguido pelo Admiral Graf Spee. Sua construção começou junho de 1931 na Reichsmarinewerft Wilhelmshaven e foi lançado ao mar em abril de 1933, sendo comissionado na frota alemã em novembro do ano seguinte. Era armado com uma bateria principal composta por seis canhões de 283 milímetros montados em duas torres de artilharia triplas, tinha um deslocamento carregado de mais de quinze mil toneladas e meia e conseguia alcançar uma velocidade máxima de 28 nós (52 quilômetros por hora).

Admiral Scheer
Bundesarchiv DVM 10 Bild-23-63-64, Panzerschiff "Admiral Scheer" (cropped).jpg
República de Weimar  Alemanha
Operador Reichsmarine (1934–35) Kriegsmarine (1935–45)
Fabricante Reichsmarinewerft Wilhelmshaven
Homônimo Reinhard Scheer
Batimento de quilha 25 de junho de 1931
Lançamento 1º de abril de 1933
Comissionamento 12 de novembro de 1934
Estado Parcialmente desmontado;
restante enterrado
Destino Afundado por ataques aéreos
em 9 de abril de 1945
Características gerais (como construído)
Tipo de navio Cruzador pesado
Classe Deutschland
Deslocamento 15 420 t (carregado)
Maquinário 8 motores a diesel
Comprimento 186 m
Boca 21,34 m
Calado 7,25 m
Propulsão 2 hélices
- 52 050 cv (38 300 kW)
Velocidade 28 nós (52 km/h)
Autonomia 9 100 milhas náuticas a 20 nós
(16 900 km a 37 km/h)
Armamento 6 canhões de 283 mm
8 canhões de 149 mm
3 canhões de 88 mm
8 tubos de torpedo de 533 mm
Blindagem Cinturão: 60 a 80 mm
Convés: 17 a 45 mm
Torres de artilharia: 80 a 140 mm
Aeronaves 2 hidroaviões
Tripulação 30 a 33 oficiais
586 a 1 040 marinheiros

O navio teve uma carreira bem ativa, participando de patrulhas de não-intervenção na Guerra Civil Espanhola, durante a qual também realizou um bombardeio do porto de Almeria em maio de 1937. Seu primeiro ano da Segunda Guerra Mundial transcorreu sem atuar ativamente, mas passou por reformas no início de 1940. Sua primeira operação no conflito foi atacar embarcações mercantes no Oceano Atlântico e depois brevemente também no Oceano Índico. O Admiral Scheer afundou dezessete navios entre novembro de 1940 e março de 1941, fazendo dele a embarcação de superfície alemã de maior sucesso nesse tipo de ação durante a guerra. Ele retornou para a Alemanha ao final da operação.

O Admiral Scheer foi então transferido para a Noruega com o objetivo de atacar comboios Aliados para a União Soviética. Se envolveu em meados de 1942 em uma surtida para o Mar de Kara a fim de atacar navios soviéticos, mas sem grande sucesso. O cruzador voltou para a Alemanha no final do ano e pelos dois anos seguintes foi usado como navio-escola no Mar Báltico. No final de 1944 foi colocado para apoiar operações em solo contra o Exército Soviético. Foi para Kiel em março de 1945 para passar por reparos, porém foi afundado em 9 de abril por um ataque aéreo britânico. Seus destroços foram parcialmente desmontados depois do fim da guerra, com o restante sendo enterrado no porto.

CaracterísticasEditar

 Ver artigo principal: Classe Deutschland (cruzadores)
 
Desenho do Admiral Scheer

O Admiral Scheer tinha 186 metros de comprimento de fora a fora, boca de 21,34 metros e um calado máximo de 7,25 metros. Seu deslocamento projetado era de 13 660 toneladas e o deslocamento carregado era de 15 420 toneladas,[1] porém a Alemanha afirmou oficialmente que a embarcação estava dentro do limite de 10 160 toneladas imposto pelo Tratado de Versalhes.[2] Seu sistema de propulsão era composto por oito motores a diesel MAN dois tempos de ação dupla com nove cilindros divididos. Eles eram capazes de produzir até 53 260 cavalos-vapor (39,2 mil quilowatts) de potência, suficiente para uma velocidade máxima de 28 nós (52 quilômetros por hora). A uma velocidade de cruzeiro de vinte nós (37 quilômetros por hora), a autonomia era de dez mil milhas náuticas (dezenove mil quilômetros). Ao entrar em serviço sua tripulação era composta por 33 oficiais e 586 marinheiros, mas após 1935 ela cresceu consideravelmente e passou a ser de trinta oficiais e entre 921 e 1 040 marinheiros.[1]

O armamento principal do Admiral Scheer consistia em seis canhões SK C/28 de 283 milímetros montados em duas torres de artilharia triplas, uma na frente e outra a ré da superestrutura. A bateria secundária tinha oito canhões SK C/28 de 149 milímetros em torres únicas instaladas a meia-nau, quatro em cada lateral. A bateria antiaérea originalmente tinha três canhões L/45 de 88 milímetros, mas estes foram substituídos em 1935 por seis canhões L/78 de 88 milímetros. Estas armas foram todas removidas em 1940 e substituídas por seis canhões L/65 de 105 milímetros, quatro canhões SK C/30 de 37 milímetros e até 28 canhões Flak 30 de 20 milímetros. Ao final da guerra a bateria antiaérea tinha novamente sido reorganizada, consistindo em seis canhões Flak 28 de 40 milímetros, oito canhões de 37 milímetros e 33 canhões de 20 milímetros. Por fim, haviam oito tubos de torpedo de 533 milímetros em dois lançadores quádruplos montados na popa. O cinturão principal de blindagem tinha entre sessenta e oitenta milímetros de espessura. O convés superior tinha dezessete milímetros de espessura, enquanto o convés blindado principal ficava entre dezessete e 45 milímetros. As torres de artilharia principais tinham frentes de 140 milímetros e laterais de oitenta milímetros. O navio também era equipado com dois hidroaviões Arado Ar 196 e uma catapulta de lançamento.[1]

HistóriaEditar

Início de serviçoEditar

 
O Admiral Scheer em 1935

O Admiral Scheer foi construído pela Reichsmarinewerft Wilhelmshaven.[1] Rearmamento naval não era popular com os partidos Social-Democrata e Comunista no parlamento alemão, assim um novo navio da Classe Deutschland só foi aprovado em 1931. Ele foi encomendado com o nome provisório de Ersatz Lothringen, com seu orçamento tendo sido aprovado depois do Partido Social-Democrata se abster da votação para impedir uma crise política.[3] Seu batimento de quilha ocorreu em 25 de junho de 1931,[4] sob o número de construção 123.[1] Foi lançado ao mar em 1º de abril de 1933, quando foi batizado por Marianne Besserer, filha do almirante Reinhard Scheer, o homônimo da embarcação.[5] O cruzador foi finalizado pouco mais de um ano e meio depois em 12 de novembro de 1934, mesmo dia em que foi comissionado na frota alemã.[6] O antigo pré-dreadnought Hessen foi tirado de serviço e sua tripulação transferida para o Admiral Scheer.[5]

O capitão de mar Wilhelm Marschall foi colocado no comando do cruzador assim que ele foi comissionado.[7] A embarcação passou o restante do ano realizando testes marítimos e treinando sua tripulação.[8] Uma nova catapulta e um sistema de pouso a velas instalados em 1935 para que pudesse operar seus hidroaviões em mares bravios.[9] O Admiral Scheer foi declarado pronto para seu primeiro grande cruzeiro em outubro de 1935, visitando Madeira entre os dias 25 e 28 de outubro, retornando então para Kiel em 8 de novembro. No verão seguinte viajou pelo Skagerrak e pelo Canal da Mancha até o Mar da Irlanda, visitando Estocolmo na Suécia durante a viagem de volta.[8]

Guerra Civil EspanholaEditar

 
O Admiral Scheer atracado em Gibraltar em meados de 1936

A primeira operação internacional do Admiral Scheer começou em julho de 1936, quando foi enviado para Espanha a fim de evacuar cidadãos alemães presos em meio à Guerra Civil Espanhola. A partir de 6 de agosto serviu junto com seu irmão Deutschland em patrulhas de não-intervenção próximo dos litorais mantidos pela facção republicana.[5] Marschall foi substituído pelo capitão de mar Otto Ciliax em setembro como o oficial comandante.[7] O navio realizou quatro viagens para patrulhas de não-intervenção até junho de 1937. Seu objetivo oficial era controlar a quantidade de material bélico que entrava na Espanha, porém ele também registrava os navios soviéticos que levavam suprimentos para os republicanos e protegiam as embarcações que entregavam armas alemãs para a facção nacionalista. O Deutschland foi atacado e danificado por aeronaves da Força Aérea da República Espanhola próximo de Ibiza no dia 29 de maio de 1937, com o Admiral Scheer recebendo ordens para bombardear o porto republicano de Almeria como retaliação.[10] O cruzador chegou no local às 7h29min do dia 31 de maio, o aniversário da Batalha da Jutlândia na Primeira Guerra Mundial, abrindo fogo contra baterias costeiras, instalações navais e navios no porto enquanto a hasteava a Bandeira Imperial de Guerra. Foi substituído em suas funções na Espanha por seu irmão Admiral Graf Spee em 26 de junho, permitindo que voltasse a Wilhelmshaven, onde chegou em 1º de julho. O Admiral Scheer mesmo assim retornou para o Mar Mediterrâneo entre agosto e outubro do mesmo ano.[5]

Segunda Guerra MundialEditar

A Segunda Guerra Mundial começou em setembro de 1939, mas o Admiral Scheer permaneceu ancorado na rada de Schillig, próximo de Wilhelmshaven, junto com o cruzador pesado Admiral Hipper. Dois grupos de cinco bombardeiros britânicos Bristol Blenheim atacaram os navios em 4 de setembro. O primeiro grupo surpreendeu os artilheiros antiaéreos a bordo do Admiral Scheer, que mesmo assim conseguiram abater uma das aeronaves. Uma bomba acertou seu convés, mas não explodiu, com outras duas detonando na água próximas a embarcação. As bombas restantes também não explodiram.[11] O segundo grupo de Blenheim enfrentou defesas antiaéreas alemãs em alerta, com quatro dos cinco bombardeiros sendo abatidos. O Admiral Scheer escapou ileso do ataque.[12] O capitão de mar Theodor Krancke assumiu o comando do cruzador em novembro.[13]

O navio passou por uma reforma enquanto seus dois irmãos estavam em operações contra embarcações mercantes Aliadas no Oceano Atlântico.[14] As modificações ocorreram no primeiros meses de 1940, incluindo a instalação de uma nova proa clipper curvada.[13] Além disso, sua grande torre de comando foi substituída por uma estrutura mais leve e ele foi reclassificado de navio blindado para cruzador pesado.[10] Armas antiaéreas adicionais foram instaladas junto com um equipamento de radar aprimorado. Bombardeiros britânicos atacaram o Admiral Scheer e o couraçado Tirpitz entre os dias 19 e 20 de julho, porém não acertaram.[15] Foi declarado apto para o serviço no dia 27[13]

Surtida no AtlânticoEditar

O Admiral Scheer partiu em outubro de 1940 para sua primeira surtida de combate. Atravessou o Estreito da Dinamarca na noite de 31 de outubro e entrou no Oceano Atlântico.[16] Seu equipamento de interceptação de rádio identificou o comboio HX 84, que tinha deixado Halifax na Nova Escócia. Os hidroaviões localizaram o comboio em 5 de novembro.[14] O cruzador auxiliar HMS Jervis Bay, a única escolta do comboio, tentou impedir que ele atacasse o comboio, que recebeu ordens de se espalhar sob a cobertura de uma cortina de fumaça.[16] O primeiro disparo do Admiral Scheer acertou o Jervis Bay, desabilitando seus equipamentos de rádio e de direção. Projéteis do segundo disparo acertaram a ponte de comando e mataram o capitão Edward Fegen, seu oficial comandante.[17] O Jervis Bay afundou em apenas 22 minutos, mas o duelo atrasou o Admiral Scheer o suficiente para que a maioria do comboio escapasse. A embarcação alemã afundou apenas cinco dos 37 navios do comboio, porém um sexto foi depois afundado pela Luftwaffe.[18]

O cruzador encontrou e capturou o navio refrigerador britânico SS Duquesa em 18 de dezembro. Este enviou um sinal de socorro, algo que o Admiral Scheer deliberadamente permitiu que ocorresse com o objetivo de atrair as forças navais britânicas na região.[19] Krancke queria atrair os navios de guerra inimigos a fim de desviar a atenção do Admiral Hipper, que tinha acabado de passar pelo Estreito da Dinamarca.[20] Os porta-aviões HMS Formidable e HMS Hermes, o cruzador pesado HMS Dorsetshire, os cruzadores rápidos HMS Neptune e HMS Dragon e o cruzador auxiliar HMS Pretoria Castle convergiram para caçar a embarcação alemã, mas não conseguiram encontrá-lo.[19]

Entre 26 de dezembro e 7 de janeiro de 1941, o Admiral Scheer se encontrou com os navios de suprimento Nordmark e Eurofeld, o cruzador auxiliar Thor, mais os navios capturados Duquesa e SS Storstad. Ele transferiu uns seiscentos prisioneiros para o Storstad enquanto reabasteciam do Nordmark e do Eurofeld.[21] O Admiral Scheer capturou mais três navios mercantes entre 18 e 20 de janeiro,[22] incluindo o navio-tanque norueguês SS Sandefjord. O cruzador seguiu para o Oceano Índico em fevereiro.[23]

ReferênciasEditar

  1. a b c d e Gröner 1990, p. 60
  2. Pope 2005, p. 3
  3. Meier-Welcker et al. 1983, p. 435
  4. Sieche 1992, p. 227
  5. a b c d Williamson 2003, p. 24
  6. Gröner 1990, p. 62
  7. a b Williamson 2003, p. 22
  8. a b Whitley 1998, p. 69
  9. Gröner 1990, p. 61
  10. a b Ciupa 1997, p. 20
  11. Watson 2006, p. 71
  12. Watson 2006, pp. 71–72
  13. a b c Watson 2006, p. 72
  14. a b Williamson 2003, p. 33
  15. Rohwer 2005, p. 33
  16. a b Showell 2003, p. 66
  17. Edwards 2003, p. 90
  18. Rohwer 2005, p. 48
  19. a b Rohwer 2005, p. 52
  20. Edwards 2003, p. 99
  21. Rohwer 2005, p. 53
  22. Rohwer 2005, p. 56
  23. Williamson 2003, p. 34

BibliografiaEditar

  • Ciupa, Heinz (1997). Die Deutschen Kriegsschiffe 1939–1945. Rastatt: Moewig. ISBN 978-3-8118-1409-7 
  • Edwards, Bernard (2003). Beware Raiders!: German Surface Raiders in the Second World War. Annapolis: Naval Institute Press. ISBN 978-1-55750-210-0 
  • Gröner, Erich (1990). German Warships: 1815–1945. I: Major Surface Vessels. Annapolis: Naval Institute Press. ISBN 978-0-87021-790-6 
  • Hümmelchen, Gerhard (1976). Die Deutschen Seeflieger 1935–1945. Munique: Lehmann. ISBN 978-3-469-00306-5 
  • Meier-Welcker, Hans; Forstmeier, Friedrich; Papke, Gerhard; Petter, Wolfgang (1983). Deutsche Militärgeschichte 1648–1939. Herrsching: Pawlak. ISBN 978-3-88199-112-4 
  • O'Hara, Vincent P.; Dickson, W. David; Worth, Richard (2010). On Seas Contested: The Seven Great Navies of the Second World War. Annapolis: Naval Institute Press. ISBN 978-1-59114-646-9 
  • Pope, Dudley (2005). 73 North: The Battle of the Barents Sea. Ithaca: McBooks Press. ISBN 978-1-59013-102-2 
  • Rohwer, Jürgen (2005). Chronology of the War at Sea, 1939–1945: The Naval History of World War Two 3ª ed. Annapolis: Naval Institute Press. ISBN 1-59114-119-2 
  • Showell, Jak P. Mallmann (2003). German Naval Code Breakers. Annapolis: Naval Institute Press. ISBN 978-1-59114-308-6 
  • Sieche, Erwin (1992). «Germany». In: Gardiner, Robert; Chesneau, Roger (eds.). Conway's All the World's Fighting Ships, 1922–1946. Londres: Conway Maritime Press. ISBN 978-0-85177-146-5 
  • Watson, Bruce (2006). Atlantic Convoys and Nazi Raiders. Westport: Praeger. ISBN 978-0-275-98827-2 
  • Whitley, M. J. (1997). Battleships of World War II. Annapolis: Naval Institute Press. ISBN 978-1-55750-184-4 
  • Williamson, Gordon (2003). German Pocket Battleships 1939–1945. Oxford: Osprey Publishing. ISBN 978-1-84176-501-3 
  • Zetterling, Niklas; Tamelander, Michael (2009). Tirpitz: The Life and Death of Germany's Last Super Battleship. Havertown: Casemate. ISBN 978-1-935149-18-7 

Ligações externasEditar