Adversus Judaeos

Adversus Judaeos (em grego: Κατὰ Ιουδαίων; romaniz.: Kata Ioudaiōn , "Contra os judeus"[1]) é o nome mais conhecido de uma série de homilias escritas no século IV por São João Crisóstomo. Steven Katz afirma que elas são "um ponto de inflexão na história do antijudaísmo cristão cuja consequência final se desenrolou no antissemitismo político de Adolf Hitler"[2]. James Parkes afirmou que estas homilias sobre os judeus são "as mais horríveis e violentas denúncias sobre o judaísmo encontradas nas obras de um teólogo cristão"[3]. Estes sermões de Crisóstomo reforçaram a ideia de que os judeus seriam, coletivamente, responsáveis pela morte de Jesus.

Propósito e contextoEditar

Durante os primeiros dois anos como presbítero em Antioquia (386-387), Crisóstomo denunciou os judeus e os cristãos judaizantes numa série de oito sermões proferidos aos cristãos de sua congregação que ainda participavam dos festivais ou observavam costumes judaicos[4]. É tema de disputa se o alvo principal eram os judaizantes ou os judeus em geral, mas é claro que suas homilias expressam, da forma mais convencional, a retórica convencional conhecida com "psogos" ("culpa" em grego).

Um dos objetivos destas homilias era evitar que cristãos participassem de costumes e festividades judaicas, evitando assim a erosão da fé judaica: foram criticados principalmente a observância do sabá, a submissão à circuncisão e a peregrinação aos locais santos judaicos[5].

Em traduções acadêmicas mais recentes, que alegam que o alvo de Crisóstomo eram os membros de sua própria congregação que continuavam a observar os costumes judaicos, aparece um título para os sermões mais simpático, "Contra os Cristãos Judaizantes"[6].

Alegações controversasEditar

Crisóstomo alegou que, nos sabás e festivais judaicos, as sinagogas se enchiam de cristãos, especialmente mulheres, que adoravam a solenidade da liturgia judaica, adoravam ouvir ao xofar do Rosh Hashaná e aplaudiam os pregadores famosos, como era o costume[7]. Uma teoria apologética mais recente defende que ele estaria tentando persuadir os judeo-cristãos, que, por séculos, mantiveram conexões com judeus e com o judaísmo, a escolherem entre o judaísmo e o cristianismo[8].

Ele defendia que os judeus eram responsáveis pela crucificação de Jesus ("deicídio" - veja deicídio judaico) e acrescentou que eles continuavam a comemorar a morte de Jesus[9]. Depois, Crisóstomo comparou a sinagoga a um templo pagão, representando-a como fonte de todos os vícios e heresias[7]. Ele a descreveu como "um lugar pior que um bordel ou um bar: refúgio de malandros, toca de feras selvagens, templo de demônios, esconderijo de ladrões e pervertidos, caverna de demônios, uma assembleia de assassinos de Cristo"[10]. Paládio, o biógrafo contemporâneo de Crisóstomo, relata também que ele alegava que os sacerdotes judeus podiam ser comprados e vendidos por dinheiro[7]. Finalmente, Crisóstomo declarou que, de acordo com os sentimentos dos santos, odiava a sinagoga e os judeus[11], afirmando que "demônios vivem na sinagoga" e "nas almas dos judeus", descrevendo-os como cada vez mais "dignos do abate"[12].

Referências

  1. João Crisóstomo, Contra os Judeus (vol. 68 of Fathers of the Church), trans. Paul W. Harkins (Washington, D.C.: Catholic University of America Press, 1979) p.x
  2. Katz, Steven (1999), «Ideology, State Power, and Mass Murder/Genocide», Lessons and Legacies: The Meaning of the Holocaust in a Changing World, Northwestern University Press 
  3. James Parkes, Prelude to Dialogue (London: 1969) p. 153; cited in Wilken, p. xv.
  4. See Wilken, p.xv, and also "John Chrysostom" in Encyclopedia Judaica
  5. Wilken, p.xv.
  6. Veja, por exemplo, Discourses Against Judaizing Christians (vol. 68 de Fathers of the Church), trad. Paul W. Harkins (Washington, D.C.: Catholic University of America Press, 1979); e também [1] Arquivado em 6 de dezembro de 2000, no Wayback Machine.
  7. a b c "John Chrysostom" in Encyclopedia Judaica.
  8. Rodney Stark, The Rise of Christianity. How the Obscure, Marginal Jesus Movement Became the Dominant Religious Force in the Western World in a Few Centuries, (Princeton University Press:1997)p.66-67.
  9. William I. Brustein, Roots of Hate: Anti-Semitism in Europe before the Holocaust, (Cambridge University Press:2003) ISBN 0-521-77308-3, p.52.
  10. Laqueur 47–48
  11. Walter Laqueur, The Changing Face of Antisemitism: From Ancient Times To The Present Day,(Oxford University Press:2006) ISBN 0-19-530429-2, p.47-48
  12. João Crisóstomo, Contra os Judeus, 1:6

Ligações externasEditar

 
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