Afonso Henriques, conde de Gijón e Noronha

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Afonso Henriques, conde de Noronha (Gijón, 1355— depois de 1407), foi o mais poderoso senhor feudal das Astúrias que intentou tornar independente do reino de seu irmão João I de Castela e depois de seu sobrinho o rei Henrique III.

Afonso Henriques
Conde de Gijón e de Noronha
Armas do conde Afonso Henriques
Nascimento 1355
  Gijón
Morte post 1407
Cônjuge Isabel de Portugal
Descendência Ver descendência
Pai Henrique II de Castela
Mãe Elvira Íñiguez de la Vega

BiografiaEditar

Filho primogénito, embora natural, do rei de Castela Henrique II e de Elvira Íñiguez de la Vega, havido antes de seu casamento,[1][2][3][a] Um ano antes de chegar ao trono de Castela, deu-lhe seu pai o senhorio de Noreña e como senhor deste lugar, Afonso confirmou um documento em novembro de 1368.[4] Na primavera de 1372, Afonso foi nomeado cavaleiro pelo seu pai em Santiago de Compostela e provavelmente foi então quando recebeu os títulos de conde de Noreña e de Gijón.[4][b] Também herdou os bens que seu pai havia herdado antes de ser rei de seu aio, o rico-homem Rodrigo Álvares,[c] em Astúrias e outros lugares como as vilas de Paredes de Nava, Sahagún, Valencia de Don Juan e o senhorio de Cabreira e Ribeira no Bierzo.[5]

O seu casamento com Isabel de Portugal fez parte da aliança estabelecida num dos artigos da paz que celebraram os reis Henrique II e Fernando I de Portugal na cidade de Santarem, a 19 de Março de 1373. O conde Afonso não concordou de boa vontade com o casamento, nem quando foi tratado, nem mais tarde quando se cuidou de o efectuar, porque a condessa Isabel tinha somente oito anos de idade à data em que este casamento se tratou, e ele tinha dezoito. Fugiu para Avinhão no Reino de França para melhor se furtar ao casamento que lhe queriam impor e só de lá voltou forçado pelas ameaças do pai.[6] Assim, depois da sua chegada o casamento realizou-se em Novembro de 1378, mas o conde Afonso não consumou o matrimónio, conseguindo iludir seu pai e a Corte a esse respeito, durante os dois meses que estiveram em Burgos e Palência.

Morto o rei Henrique II, seu pai, obteve a anulação do matrimónio, por sentença de Guterre de Toledo, Bispo de Oviedo, chanceler-mor da rainha Joana, em Medina del Campo, em 12 de Dezembro de 1379, em que foram testemunhas Pedro Tenorio,arcebispo de Toledo, Afonso, bispo da Guarda, Gil Doçem, natural de Portugal, e Rodrigo Arias Maldonado. Este divórcio não surtiu efeito no entanto, dado que veio a consumar o matrimónio.

Na primavera de 1381, João I, seu meio-irmão estava preparando a guerra com Portugal e, sabendo que todas as "gente da guerra" das Astúrias estavam fora da região, Afonso ofereceu a Inglaterra, aliado de Portugal, o porto da cidade de Gijón e prometeu ajudar-lhes a conquistar todo o território. O rei de Castela, quando soube dos planos de seu irmão lhe encurralou em Gijón. O bispo de Oviedo, Guterre de Toledo intercedeu em seu favor e em 26 de julho desse ano o conde Afonso fez "juramento et pleitos et omenajes" na Catedral de Oviedo e obteve o perdão real.[7] No entanto, o conde persistiu em seus planos e preparou uma nova sublevação. O rei João I lhe encomendou a missão para a negociação com Portugal e no início de 1382 foi a Bragança com a permissão de seu irmão, mas, em vez de defender a causa de Castela, Afonso ocultou suas intenções e tentou obter o apoio de Inglaterra a Portugal para as suas próprias reivindicações.[8]

Em Zamora, a 23 de junho de 1382, o rei de Castela confiscou todas as terras e bens que Afonso tinha nas Astúrias e nas montanhas de Leão e, um ano mais tarde, depois das Cortes de Segóvia, em setembro de 1383, o rei doou todos os bens nas Astúrias ao bispo Guterre e à Catedral de Oviedo, incluindo o condado de Noreña.[9][10][d] Depois daquelas Cortes em Segóvia, foram descobertos novos tratados de Afonso com o rei de Portugal e o conde foi feito prisioneiro na Puebla de Montalbán por ordem do rei João I, guardado pelo arcebispo de Toledo, Pedro Tenorio.[11]

Depois da morte de D. Fernando I de Portugal, Afonso assim como a condessa Isabel, sua esposa, foram feitos prisioneiros dado que eram possíveis pretendentes ao Trono de Portugal visto que Isabel era filha natural deste rei e João I recear que os direitos de seu meio-irmão e cunhado lhe diminuíssem os seus, de pretendente ao Trono de Portugal, por ser casado com Beatriz, filha legítima de El-Rei Fernando I.

Todos seus bens no reino de Castela foram confiscados em julho de 1386, [9] Por sua morte esta princesa voltou a Portugal, a procurar a protecção de seu tio, o rei João I de Portugal  “o de boa Memória”, o qual lhe fez novas mercês de bens.

Últimos anosEditar

Pouco se sabe dos últimos anos do conde Afonso, excepto que foi preso por ordem do rei em Saint-Jean-de-Luz, embora tenha sido libertado pouco tempo depois, e que se dizia que estava envolvido numa conspiração do rei de Portugal contra Henrique III em 1397, embora nunca se soubesse ao certo.

Passou vários anos em Baiona. Em março de 1396, Juan Hurtado de Mendoza, mordomo-mor do rei Henrique III de Castela, escreveu ao conselho de Burgos sobre as informações que tinha recebido dos homens que tinha em Baiona e do bispo dessa cidade sobre o conde de Noreña. Uma das notícias era sobre Isabel de Portugal, que tinha deixado Castela para Baiona e "a raiva do Conde por isso, e a sua intenção de a enviar como emissária ao Rei de Castela".[12] A 8 de Janeiro de 1397, o rei Carlos III de Navarra ordenou o pagamento de dois panos que a rainha Leonor de Trastamara tinha enviado de presente à esposa do conde Afonso em Baiona.[13] A documentação do reinado de Henrique III confirma a presença do conde Alfonso em Baiona durante vários anos. A 1 de Janeiro de 1407, Henrique, filho de Alfonso, recebeu vinte libras para ir ver o seu pai que estava em Baiona. O último documento onde o conde Afonso é mencionado nesta colecção de documentos —embora não implique necessariamente que tenha morrido pouco tempo depois—, é uma carta do rei Martim I de Aragão dirigida a Afonso, na qual este lhe ordenou "que se afastasse da fronteira com Castela e regressasse aos territórios aragoneses, proibindo-o de passar mais longe para a cidade de Saragoça e de se aproximar de Castela a mais de vinte léguas". Esta ordem foi o resultado de cartas enviadas pelos reis de Castela e do infante Fernando (irmão de Henrique III) quando souberam que o conde estava "deitado a uma liga da fronteira entre Aragão e Castela", apesar de Henrique III lhe ter concedido autorização para viver em Aragão, como tinha pedido Martim I a pedido de Afonso ".[14]

Nem a data nem o local da sua morte são conhecidos. Poderia ter sido em Portugal, em Marans,[15] ou em Baiona depois de 1407.

Matrimónio e descendênciaEditar

 
Castelo de Noreña no século XIX. Desenho da época.

Casou em Burgos em 1378 com Isabel de Portugal, senhora de Viseu, filha natural do rei Fernando I de Portugal,[16] havida antes do seu casamento, e foram o tronco da família portuguesa Noronha. Os filhos dos condes que passaram a Portugal com sua mãe foram:[17]

  • Pedro de Noronha (Castelo de Gijón, 1379 - 20 de Agosto de 1452), arcebispo de Lisboa,[18][16]
  • Fernando de Noronha (1380 -?), 2.º conde de Vila Real pelo seu casamento com Brites de Meneses,[18] 2ª condessa de Vila Real e filha herdeira de Pedro de Meneses, conde de Viana e Vila Real.[19]
  • Sancho de Noronha, 1º conde de Odemira,[18], commendador-mor da Ordem de Santiago, alcaide-mor de Estremoz e Elvas, senhor do Vimieiro, Mortágua, Aveiro e outras terras,[20] casou com Mécia de Sousa, 4ª senhora de Mortágua.
  • Henrique de Noronha, capitão, participou na tomada de Ceuta. Sem geração masculina legítima.[18] Passou vários anos na corte do rei Carlos III de Navarra e da sua esposa, a tia de Enrique, Leonor de Trastamara. A 1 de Janeiro de 1407 recebeu vinte livres, cobrados ao Tesouro Real de Navarra, "por yr ver su padre que era en Bayona". No dia 24 do mesmo mês, recebeu mais 200 libras, "depois de ter estado muito tempo na casa do Rei de Navarra" quando, após a morte do Rei Henrique III, quis voltar a viver em Castela.[21]
  • João de Noronha, sem descendentes.[18] Passou também vários anos em Navarra, na casa da sua tia, a rainha Leonor de Trastámara, e do seu marido, o rei Carlos III. A 30 de Julho de 1412, confirmou ter recebido dinheiro do Tesouro Real de Navarra "para as despesas de quatro homens de armas e cinco bestais montados que o acompanharam na sua viagem de Toulouse a França para participar na guerra que estava a ser travada no Languedoc em ajuda e a favor do Rei Carlos VI de França e para aí permanecer na companhia do Marechal de Navarra".[22] Foi feito cavaleiro pelo infante Duarte, em Ceuta, em cujo cerco tomou parte junto com o rei e onde foi ferido. Veio a morrer em Almodôvar, Portugal, de doença proveniente deste ferimento.
  • Constança de Noronha, que foi a segunda mulher de Afonso, 1.º duque de Bragança, sem descentes deste matrimónio.[18]

Fora do casamento teve:

Com Inês Soto de los Infantes, provavelmente da linhagen dos Miranda em Astúrias, teve a:[23]

  • Juana de Lodeña, abadessa no Mosteiro de Santa Clara la Real em Toledo.[e]

Também teve a:

  • Beatriz de Noronha (ou Brites de Noronha) a esposa de Rui Vaz Pereira,[24] “o Velho”, filho de Gonçalo Pereira, senhor de Cabeceiras de Basto.
  • João Henriques de Noronha, casou com Beatriz, senhora de Mirabel
  • Martim Enríquez, que, segundo fontes francesas, esteve ao serviço do rei Carlos VII de França em 1444.[25]
  • Leon Alfonso. Em Fevereiro de 1385, Carlos III de Navarra ordenou o pagamento de cerca de sessenta sueldos a Jacobon, judeu de Pamplona, pelas despesas efectuadas "para a companhia do seu filho Leonel nas festas de Natal, entre elas, as referentes à entrega de um jupão a Leonet Alfonso, filho do conde Dom Afonso". [26] Em Maio de 1393, "Leonet, filho bastardo do Conde D. Afonso", e outros nobres, foram entregues ao representante do rei João I de Portugal como reféns por Castela, em cumprimento da trégua de quinze anos que tinha sido acordada entre os dois reinos.[12]
  • Diego Enríquez de Noroña, cavaleiro da Ordem de Santiago e comendador de Los Santos,[27] casado com Beatriz de Guzmán, filha bastarda de Henrique de Guzmão, II conde de Niebla e V senhor de Sanlúcar.[28]

NotasEditar

[a] ^ Segundo Francisco de Rades y Andrada, historiador Espanhol do século XVI em sua Crónica das ordens de Santiago, Alcántara e Calatrava. p. 31, Elvira (a chama Inês Dias de la Vega), era a filha de Diego Lasso de la Vega e de Elvira de Salcedo. O rei Henrique a chama Elvira Íñiguez no seu testamento outorgado em 29 de maio de 1374.Testamento de Henrique II nas Crónicas de los reyes de Castilla D. Pedro I, D. Enrique II, D. Juan I, D. Enrique III, Tomo II, pp. 106-121 de Pedro López de Ayala. Também aparece como Elvira em 22 de fevereiro de 1375: "Traslado autorizado de uma sentença dada pelos Ouvidores do Rei Enrique II a favor de Ruy Díaz de Terrazas e outros vizinhos de Belorado, numa demanda apresentada por dona Elvira Íñiguez de Vega, mãe de Alfonso, conde de Gijón, filho bastardo do rei, para que lhe restituíssem os bens que estes haviam adquirido por compra já que, segundo ela, lhe tinham sido vendidos por Pedro Fernández de Terrazas em troca de outros bens recebidos do rei."[29]
[b] ^ António Caetano de Sousa em Provas da história da Casa Real Portuguesa (Lisboa, 1739), T.I, p. 427 diz que Afonso foi nomeado conde em 1373. No entanto, Afonso já era conde em 1372 conforme é registrado em vários documentos. Num documento de 1372 no Mosteiro de San Vicente em Oviedo, confirmou como "conde de Noreña y señor de Cabrera y de Ribera".[30]
[c] ^ Como é referido na Crónica de El-Rei Afonso XI, ao capítulo 140. Rodrigo Álvares adoptou ao infante Henrique por filho no ano de 1334.
[d] ^ "Preuilegio de commo el my noble rey don Iohan dio la casa e sennorío de Norenna con todos sus cotos e aldeas e iuguerías e yantares e comiendas e pertenencias e con todos los otros sus derechos a don Gutierre, obispo de Ouiedo, e a su Iglesia", Segóvia 20 de setembro da era 1421 (ano 1383). Entre os que assinaram o privilégio: "El infante don Enrrique, fijo primero heredero (...) don Alfonso (Henriques, conde de Gijón e Noronha), hermano del rey, conde de Valencia (de Don Juan) (...) don Enrrique, hermano del rey (...) infante don Iohan, fijo del rey de Portugal, uasallo del rey (...)"[31]
[e] ^ Em 16 de maio de 1489, o mosteiro transferiu a Diego de Miranda os bens que Juana de Lodeña, filha do conde Afonso e de Inês Soto de los Infantes, herdou do seu pai e levou ao convento em Soto de los Infantes, Salas, Miranda, Grado, Navia, Cangas, Tineo, Allande e Babia. Fonte: Archivo de Valdecarzana, I.D.E.A. citado pela autora.


Referências

  1. Uría Maqua 1975, p. 179.
  2. Sousa 1946, p. 181, Tomo I.
  3. Abranches de Soveral 1998, p. 16.
  4. a b Uría Maqua 1975, p. 182.
  5. Uría Maqua 1975, p. 178-179.
  6. Braamcamp Freire 1921, p. 47.
  7. Fernández Conde 1978, p. 114–115.
  8. Fernández Conde 1978, p. 115.
  9. a b Fernández Conde 1978, p. 124.
  10. Lopes 1897, p. 155-156, Vol. I, Cap. LIII.
  11. Fernández Conde 1978, p. 122, n. 103.
  12. a b Ortego Rico 2015, pp. 243-244, doc. 932.
  13. Ortego Rico 2015, p. 399, doc. 1548.
  14. Ortego Rico 2015, p. 830, doc. 3138.
  15. López de Ayala 1780, pp. 106-121, Tomo II.
  16. a b Sousa 1755, p. 84.
  17. Braamcamp Freire 1921, p. 47-48.
  18. a b c d e f Braamcamp Freire 1921, p. 48.
  19. Sousa 1755, p. 98.
  20. Sousa 1755, p. 656.
  21. Ortego Rico 2015, pp. 828, doc. 3130 e p. 829, doc. 3134.
  22. Ortego Rico 2015, pp. 855-856, doc.3223.
  23. Cuartas Rivero 1983, p. 25.
  24. Sousa 1755, p. 586.
  25. Uría Maqua 1978, p. 237.
  26. Ortego Rico 2015, p. 58 doc. 227.
  27. Vilar y Pascual, Luis de (1864). Diccionario Histórico, Genealógico y Heráldico de las familias ilustres de la Monarquía Española. Tomo VII. Madrid: Librería de don Miguel Guijarro. pp. 150, 162–164 
  28. Ladero Quesada, Miguel Ángel (2012). «Don Enrique de Guzmán, el "buen conde de Niebla" (1375-1436)». Madrid: Universidad Complutense: Servicio de Publicaciones y Departamento de Historia Medieval. En la España medieval (em espanhol) (35): 211-247. ISSN 0214-3038 
  29. Blanco García 1971, p. 743.
  30. Uría Maqua 1975, p. 182-183.
  31. Rodríguez Díaz 1995, p. 540-545, documento 103.

BibliografiaEditar