Abrir menu principal

Wikipédia β

Amade ibne Tulune


Amade ibne Tulune (em árabe: أحمد بن طولون; transl.: Aḥmad ibn Ṭūlūn , lit. "Amade, filho de Tulune"; 20 de setembro de 835 - 10 de maio de 884) foi o fundador da dinastia tulúnida que governou o Egito e Síria entre 868 e 905. De início um soldado escravo turco, em 868 foi enviado pelo califa abássida Almutaz (r. 866–869) como governador do Egito. Explorando a situação política volátil e a preocupação do regente abássida, al-Muafaque (r. 870–891), com as guerras contra o Império Safárida e a Rebelião Zanje, dentro de quatro anos estabeleceu-se como governante virtualmente independente ao evitar o agente fiscal califal, Amade ibne Mudabir, tomar controle das finanças egípcias e estabelecer um grande força militar pessoalmente leal a ele. Amade também cuidou de estabelecer uma administração eficiente no país. Através de uma série de medidas, tal como as reforças do sistema de tributação e os reparos do sistema de irrigação, o rendimento fiscal anual cresceu acentuadamente. Como símbolo do novo regime, construiu uma nova capital, al-Cata'i, ao norte da antiga Fustat.

Amade ibne Tulune
Emir tulúnida do Egito e Síria
Dinar de ouro de Amade cunhado em Fustat em 881/882
Reinado 15 de setembro de 868-10 de maio de 884
Antecessor(a) Azjur, o Turco (Egito)
Amajur, o Turco (Síria)
Sucessor(a) Khumarawayh
Descendência Khumarawayh
Abas
Ali
Mudar
Rabia
Chaibam
Casa Tulúnida
Nome completo
أحمد بن طولون
Nascimento 20 de setembro de 835
  Bagdá
Morte 10 de maio de 884
  al-Cata'i
Pai Tulune

Após 875/876, entrou em conflito aberto com al-Muafaque, que tentou depô-lo sem sucesso. Em 878, com o apoio do irmão de al-Muafaque, o califa Almutâmide (r. 870–892), Amade tomou controle da governança da Síria tão longe quanto os distritos fronteiriços com o Império Bizantino, embora o controle do Tarso em particular provou-se tênue. Em sua ausência na Síria, seu filho mais velho e representante, Abas ibne Amade ibne Tulune, tentou usurpar o trono no Egito, acarretando na prisão dele e a nomeação de seu segundo filho, Khumarawayh, como herdeiro. A deserção de 882 de um comandante sênior, Lu'lu', para al-Muafaque, e a deserção de Tarso, forçou Amade a retornar à Síria.

Quando o agora virtualmente impotente Almutâmide tentou escapar do controle de seu irmão para os domínios de Amade e foi capturado por agentes de al-Muafaque, Amade convocou uma assembleia de juristas em Damasco para denunciar al-Muafaque como usurpador. Sua tentativa de retomar Tarso em outubro de 883 fracassou, e ele adoeceu. Retornando ao Egito, morreu em maio de 884 e foi sucedido por Khumarawayh.

Amade destaca-se como o primeiro governador de um importante província do Califado Abássida a estabelecer-se como mestre independente da corte abássida e por passar o poder ao seu filho. Foi assim também o primeiro governante desde os faraós a fazer o Egito um poder político independente novamente, com uma esfera de influência compreendendo Síria e partes do Magrebe, o que definiu o tom dos posteriores regimes dos ikchídidas e fatímidas que centraram seu poder no país.

Índice

VidaEditar

Infância e começo da carreiraEditar

 
Dirrã de Almamune (r. 813–933)
 
Dinar de ouro de al-Musta'in. (r. 862–866)

Amade nasceu no no vigésimo terceira dia do mês do Ramadã 220 A.H. (20 de setembro de 835) ou ligeiramente depois.[1] Seu pai, Tulune, foi um dos escravos turcos inclusos como um tributo enviado pelo governador de Bucara para o califa abássida Almamune (r. 813–933) no ano 815/816 (200 A.H.). A corte abássida recrutou escravos turcos para servir como soldados (gulans), e Tulune fez carreira, vindo a comandar posteriormente a guarda privada do califa.[2] O jovem Amade recebeu uma educação completa, envolvendo treinamento militar em Samarra e estudos de teologia islâmica em Tarso, adquirindo reputação não apenas por seu conhecimento mas também por seu estilo de vida piedoso e ascético.[3][4] Enquanto em Tarso, Amade lutou nas guerras fronteiriças com o Império Bizantino.[5] Em 854/855, seu pai morreu, e Amade foi apenas capaz de continuar seus estudos em Tarso ao requirir um subsídio do governo.[6]

Enquanto retornando para Samarra, encontrou-se com um grupo invasor de beduínos que haviam roubado um emissário califal retornando de Constantinopla. Amade resgatou os bens preciosos e, assim, ganhou o favor do califa al-Musta'in. (r. 862–866). Quando o califa abdicou e partiu em exílio em 866, ele escolheu Amade para ser seu guarda. A mãe do novo califa, Almutaz (r. 866–869), tramou para remover o deposto al-Musta'in, e ofereceu a Amade o governo de Vasit se ele matasse-o. Amade recusou-se e foi substituído por outro, que tratou de realizar o feito. Amade desempenhou nenhuma parte no assassinato, mas deu a seu mestre um sepultamento e voltou para Samarra.[6][7]

No meio tempo, sua mãe casou-se pela segunda vez, com o general turco Bakbak.[3] Já sob al-Mu'tasim (r. 833–842), líderes turcos seniores começaram a ser nomeados como governadores das províncias califais com forma de apanágio. Assim, eles garantiram acesso imediato a receita fiscal provinciana para si e suas tropas, contornando a burocracial civil. Os generais turcos geralmente permaneciam em Samarra, enviado representantes para governar em seu nome.[2][8] Assim, quando o califa Almutaz deu a Bakbak o comando do Egito em 868, Bakbak enviou seu afilhado Amade como seu tenente e governador residente. Amade entrou na capital egípcia, Fustat, em 15 de setembro de 868.[3]

Governo do EgitoEditar

 
Dinar de ouro de Almutaz (r. 866–869)
 
Dirrã de al-Muhtadi (r. 869–870)
 
Síria abássida (Bilad al-Sham) no século IX

A posição de Amade após sua nomeação estava longe de ser pacífico dentro de sua província. Como governador de Fustat, ele vigiou a guarnição da província e era o chefe da comunidade muçulmana como reconhecido por seu título de "observador do exército e da oração da sexta-feira" (wāli al-jaysh waʾl-ṣalāt), mas a administração fiscal, em particular a coleta do tributo latifundiário (caraje) estava nas mãos do poderoso administrador veterano Amade ibne Mudabir. O último foi nomeado como agente fiscal (amil) já desde ca. 861, e tinha rapidamente se tornado o homem mais odiado no país por ter dobrado os impostos e impostos novos aos muçulmanos e não-muçulmanos. Por quatro anos, os dois homens lutarem via seus emissários e parentes na corte califal em Samarra para se neutralizarem; no fim, Amade conseguiu assegurar que Amade ibne Mudabir fosse transferido para a Síria em julho de 871. Amade então assumiria o posto de amil.[3][9] Amade usou a oportunidade para também expulsar Xucair, o chefe do serviço postal, que também serviu como rede de inteligência do governo.[10]

No tempo da nomeação de Amade, o Egito estava passando um processo de transformação. Em 834, sua antiga elite muçulmana, as famílias de colonos árabes (junde) de Fustat, perderam seus privilégios e pagamento do governo, e o poder passou para oficiais enviados pela corte abássida. Aproximadamente ao mesmo tempo, pela primeira vez a população muçulmana começou a superar os cristãos coptas, e os distritos rurais estiveram amplamente sujeitos à arabização e islamização.[11] A rapidez deste processo, e o influxo de colonos após a descoberta de minas de ouro e esmeralda em Assuão, significou que o Alto Egito em particular estava apenas superficialmente controlado pelo governador local.[12][13] Além disso, a persistente luta intestina e tumultos no coração do Estado abássida - a chamada Anarquia de Samarra - levou ao aparecimento de movimentos revolucionários milenaristas na província sob uma série de pretendentes alidas.[9] Um deles foi ibn al-Sufi, um descendente do filho de Ali (r. 656–661), Omar, rebelou-se no final de 869 e massacrou a população de Esna.[14]

No inverno de 870, ele derrotou um exército enviado contra ele por Amade, mas foi repelido para os oásis do deserto na primavera. Ele permaneceu ali até ser derrotado em um conflito com outro poderoso regional, Abu Abdalá ibne Abal Hamide Alumari (Abdallah ibn Abd al-Hamid al-Umari), em 872, fugindo para Meca. Lá, ibn al-Sufi foi apanhado e preso por um tempo por Amade. Um de seus apoiantes, Abu Ruh Sukun, rebelou-se nos oásis em 873/874 e foi bem-sucedido o suficiente para Amade oferecer-lhe uma anistia. O vingador de ibn al-Sufi, Alumari, foi outro descendente de Ali que havia criado um principado autônomo em torno das minas de ouro, derrotando as forças enviadas contra ele. Outra revolta eclodiu em 874/875 liderada pelo governador de Barca, Maomé ibne Alfaraje de Fergana (Muhammad ibn al-Faraj al-Farghani). Amade tentou reconciliar-se com ele primeiro, mas foi posteriormente forçado a enviar um exército para sitiar e arrasar a cidade, embora as represálias foram limitadas. A reimposição de sua autoridade sobre Barca, contudo, levou ao fortalecimento de laços com Ifríquia no Ocidente.[14]

No meio tempo, na Palestina, o governador local, Issa ibne Xaique Chaibam, utilizou a anarquia no Iraque para estabelecer um regime beduíno quase-independente, interceptando as caravanas de impostos do Egito e ameaçando Damasco. Quando o califa al-Muhtadi (r. 869–870) ascendeu ao trono em julho de 869, ofereceu anistia ao general, e escreveu para Isa, oferecendo um perdão em troca da devolução do tesouro tomado por ele erroneamente. Quando Issa recusou-se, o califa ordenou que Amade marchasse contra ele.[15] Amade começou a comprar grande quantidade de escravos africanos negros (Sudan) e gregos (Rum) para formar um exército no inverno de 869/870, mas logo que chegou com ele em Alarixe no verão de 870 recebeu ordens chegaram para que retornasse.[16][17][18] A revolta de Issa foi esmagada logo depois por outro soldado turco, Amajur, o Turco, que continuou a governar a Síria pelos abássidas até sua morte em 878.[19] Este episódio, contudo, foi de grande importância, pois permitiu a Amade recrutar seu próprio exército com sanção califal. O exército tulúnida, que posteriormente cresceu para relatados 100 000 homens — outras fontes fornecem uma discriminação de 24 000 gulans turcos e 42 000 escravos africanos negros e gregos, bem como um corpo de mercenários composto principalmente de gregos[20][21] —tornou-se a fundação do poder e independência de Amade.[3][22] Para sua própria proteção, Amade relatadamente empregou um corpo de gulans de Gor.[23]

 
Minarete espiralado da Mesquita de Amade no Cairo, que é amplamente influenciado pela Grande Mesquita de Samarra, perto de onde ele cresceu.

Bakbak, o padrasto de Amade, foi morto em 869/870, mas felizmente para ele no verão de 871 a supervisão do Egito passou para outro turco, Iarjuque, com cuja filha ele casou-se. Iarjuque não só confirmou Amade em seu posto, mas também conferiu-lhe a autoridade sobre Alexandria, Barca e os distritos da fronteira síria.[3] Em 873, Amade confiou o governo de Alexandria para seu filho mais velho, Abas ibne Amade ibne Tulune[9] O poder crescente dos tulúnidas foi manifestado pelo estabelecimento de uma nova cidade palácio ao norte de Fustat, chamada al-Cata'i, em 870. O projeto foi emulação consciente de, e rival, à capital abássida Samarra. Tal como Samarra, a nova cidade foi designada como quartel do novo exército de Amade com o objetivo de reduzir fricções com a população urbana de Fustat. Cada unidade recebia um alocamento ou ala (dai o nome da cidade) para assentar-se, em honra a qual a ala foi nomeada. A peça central da nova cidade foi a Mesquita de Amade, que foi construída em 878–880 sob a supervisão do arquiteto mesopotâmio cristão ibne Catibe de Fergana. Um palácio real esteve adjacente a mesquita, e o resto da cidade dispôs-se em torno deles. Além dos edifícios do governo, incluía mercados, um hospital (al-bimaristan) que fornecida serviços livres de custo, e um hipódromo.[24][25][26] Amade, no entanto, preparou-se para residir no mosteiro copta de Cusair fora de Fustat.[27]

Novo regime de AmadeEditar

A administração do Egito já estava bem desenvolvida antes da chegada de Amade, com alguns departamentos (divãs) responsáveis pela coleta de impostos fundiários, a supervisão do do correio, os celeiros públicos ("divã alara" - dīwān al-ahrāʿ), as terras do delta do Nilo ("divã asfalalarde" - dīwān asfal al-arḍ), e possivelmente o erário privado ("divã alacaxe" - dīwān al-khaṣṣ) para uso pessoal do governador.[28] Uma chancelaria ("divã alinxa" - dīwān al-inshāʾ) possivelmente também já existia, mas pode ter sido estabelecida sob Amade, quando remodelou a administração egípcia segundo moderno do governo abássida central. Muitos dos oficiais empregados por Amade foram como ele treinados na corte califal de Samarra. O chanceler de Amade era o capaz Abu Jafar Maomé (morto em 891), enquanto outras posições importantes na administração foram mantidas pelos quatro irmãos al-Muhajir e ibn al-Daya.[28]

Referências

  1. Becker 1987, p. 190.
  2. a b Corbet 1891, p. 528.
  3. a b c d e f Hassan 1986, p. 278.
  4. Corbet 1891, p. 528–529.
  5. Bianquis 1998, p. 95.
  6. a b Corbet 1891, p. 529.
  7. Becker 1987, p. 190–191.
  8. Kennedy 2004, p. 172, 308.
  9. a b c Bianquis 1998, p. 92.
  10. Brett 2011, p. 558.
  11. Brett 2011, p. 550–556.
  12. Brett 2011, p. 557.
  13. Bianquis 1998, p. 92–93.
  14. a b Bianquis 1998, p. 93.
  15. Cobb 2001, p. 38–39.
  16. Bianquis 1998, p. 94.
  17. Brett 2011, p. 559.
  18. Gil 1997, p. 300.
  19. Cobb 2001, p. 39–41.
  20. Kennedy 2004, p. 308.
  21. Bianquis 1998, p. 98.
  22. Becker 1987, p. 191.
  23. Gordon 2000, p. 617.
  24. Brett 2011, p. 559–560.
  25. Bianquis 1998, p. 99–100.
  26. Corbet 1891, p. 530–531.
  27. Bianquis 1998, p. 100.
  28. a b Bianquis 1998, p. 97.