Antropofagia na Mesoamérica

A existência de antropofagia na Mesoamérica à época pré-colombiana é objeto de debate entre os historiadores. Alguns defendem a existência da antropofagia embora não haja consenso nos motivos e proporções do mesmo. A "teoria hegemônica" acredita que a antropofagia era ritual, inspirada por motivos primariamente religiosos. O fato de não existir qualquer menção a antropofagia em códices e fontes pré colombianas é o principal motivo que leva alguns historiadores a questionar se os astecas realmente o praticavam. Conhecemos a antropofagia asteca principalmente através do trabalho dos frades espanhóis (especialmente Durán, Motolinía e Sahagún). Muito pelo contrário, os escritores náuhuas do Vale do México dos séculos XVI e XVII (especialmente Tezozomoc e Chimalpahin) dificilmente mencionam o canibalismo, e quando o tema aparece em seu trabalho, ele toma a forma quase exclusiva de relatos de canibalismo por engano.[2]

Cena interpretada como canibalismo no Códice Magliabechiano, fólio 73r. Proveniente do século XVI, o códice foi feito no início do período colonial espanhol, usando papel europeu, historiadores questionam a veracidade das informações contidas, pelo fato do códice ter sido feito sob supervisão espanhola.[1]

De acordo com o Frade espanhol Sahagún, os astecas costumavam cozinhar o corpo da pessoa sacrificada para preparar o prato chamado de tlacatlaolli e era repartido num banquete. Em outras, matavam escravos ou "tlaaltitin", oferecidos por comerciantes ou artesãos por ocasião da sua própria festa religiosa. O corpo da vítima era entregue ao sacrificador, quem oferecia uma parte às autoridades. As coxas podiam ser enviadas para o palácio real; as vísceras para alimentar os animais do imperador: pumas, jaguares, serpentes. Com o restante do corpo o sacrificador organizava um banquete. A porção de carne que consumia cada pessoa era reduzida, aproximadamente média onça.

Panorama de antropofagia na AméricaEditar

A antropofagia na América foi descrita pelos primeiros europeus nos séculos XV e XVI, de fato o dicionário da língua espanhola da Real Academia Espanhola deriva a palavra "caníbal" de caríbal, e define-o como adjetivo referido a nativos das Antilhas que eram considerados antropófagos.

Particularmente na Mesoamérica, as crônicas de Índias relatam estes fatos de modo aterrador, como atos denigrativos e incompreensíveis opostos à fé cristã, e como uma clara justificação para impor a religião dos conquistadores espanhóis, pois consideraram que estes atos eram coisa do diabo. As práticas de guerra, o cativeiro de inimigos, as práticas de esfolar os prisioneiros de guerra, o derramamento de sangue, o auto-sacrifício de sangue, os sacrifícios humanos, e a antropofagia faziam parte da vida quotidiana e da complicada religião politeísta de muitas culturas mesoamericanas.

Cultura maiaEditar

Os sacrifícios humanos estão documentados na cultura maia, mas a respeito das práticas de antropofagia há poucos registros. Um deles é o relato de Jerónimo de Aguilar que, junto a Gonzalo Guerrero, sobreviveu ao naufrágio do Golfo de Urabá. Em agosto de 1511 sucedeu um naufrágio de expedicionários que viajavam da atual província de Darién para a ilha de São Domingos, e foram surpreendidos por uma tormenta; apenas uma vintena de expedicionários sobreviveu num batel, e foram arrastados para norte pela corrente do canal de Iucatã; ironicamente, os espanhóis também praticaram a antropofagia por razões de sobrevivência. Finalmente, tocaram terra na zona norte da península de Iucatã, onde foram capturados pela tribo maia dos cocomes; de acordo a Aguilar, quatro dos companheiros, entre eles o capitão, foram comidos pelos nativos.

Cultura tlaxcaltecaEditar

De acordo às crônicas da conquista, após ganhar batalhas e submeter os povos indígenas, Cortês costumava convencê-los de abandonarem as práticas de sacrifícios humanos e de antropofagia. Teve longas conversações com os maias de Cozumel, com os maias chontais em Centla, com os totonacas de Cempoala, e mesmo com os seus mais numerosos e fortes aliados, os tlaxcaltecas. As principais autoridades da república tlaxcalteca, mesmo foram batizados na fé cristã.

A matança de Cholula e a matança do Templo Maior muitas vezes foram justificadas como castigos exemplares para impedir os sacrifícios humanos que praticavam cholultecas e astecas. Contudo, este castigo nunca foi aplicado aos tlaxcaltecas, evidentemente pela conveniência da aliança, durante o sítio de Tenochtitlan, relataram-se os seguintes acontecimentos:

Cultura huastecaEditar

Foram três as tentativas do governador de Jamaica, Francisco de Garay, de conquistar a região do rio Pánuco; as duas primeiras expedições, de Alonso Álvarez de Pineda e Diego de Camargo, fracassaram e não foram muito documentadas, a terceira expedição foi comandada pessoalmente por Garay; enquanto o governador viajou para o México para se entrevistar com Hernán Cortés, os soldados amotinaram-se e fustigaram os nativos huastecos roubando-lhes galinhas, mantas e mulheres. A resposta não se fez aguardar:

Depois deste acontecimento, Cortés empreendeu uma forte campanha militar na zona, nesta ocasião, mais pelo desejo de vingança que por ambição ou conquista, pois a zona não era rica em minerais nem pedras preciosas, nem os nativos tinham grandes cidades. O próprio Díaz del Castillo faz menção das despesas de campanha como quantificação das perdas econômicas.

ChichimecasEditar

Os chichimecas, que na realidade eram um conjunto de diversos povos aos quais foi atribuído generalizadamente este nome, também foram registrados realizando práticas de antropofagia:

astecasEditar

A antropofagia nos astecas foi a mais estudada depois da conquista do México. Aparentemente, os espanhóis não foram testemunhas diretas desta atividade devido às circunstâncias do encontro com este povo, porém receberam ameaças diretas. Isto sucedeu depois da matança do Templo Maior. Os astecas também se aperceberam da prisão de Motecuhzoma Xocoyotzin, e encontravam-se seriamente ofendidos pelos fatos ocorridos:

Díaz del Castillo relatou o fato de jeito semelhante durante o sítio de Tenochtitlan, num momento posterior à captura dos espanhóis que foram sacrificados, e esfolados em Tlatelolco: Mirai quão maus e velhacos sois, que ainda as vossas carnes são tão más para comer que amargam como o fel, que não as podemos tragar pelo amargor.[10]

Primeiras observaçõesEditar

Os cronistas da conquista do México, testemunharam as estratégias de combate dos astecas, aperceberam-se que o objetivo principal era a captura de guerreiros inimigos e não necessariamente dar-lhes morte nas batalhas:

Como um segundo ponto, os cronistas relataram que após ter sido sitiada a cidade de Tenochtitlan por mais de noventa dias, e encontrar-se em circunstâncias de fome, pois não tinham fornecimentos de água nem alimentos, os astecas não recorreram à antropofagia como um recurso para pacificar a fome. López de Gómara, e Díaz del Castillo coincidiram na observação:

Primeiros estudos do século XVIEditar

Frei Bernardino de Sahagún, um dos primeiros estudiosos da religião e costumes dos astecas, escreveu a Historia general de las cosas de la Nueva España baseando-se em pesquisas de primeira mão dos nativos mexicanos. No século XX, Ángel María Garibay ressalta a importância da obra de Sahagún para o conhecimento das ideias religiosas do grupo racial náuatle, e de toda a Mesoamérica, devido às grandes afinidades nos sistemas de crenças entre todos os povos, mesmo a cultura maia foi influenciada pelas culturas do altiplano no período pós-clássico mesoamericano.

O segundo dos doze livros da Historia general de las cosas de la Nueva España, chama-se Que trata do calendário, festas e cerimônias, sacrifícios e solenidades que estes naturais desta Nova Espanha faziam a honra dos seus deuses e detalha os sacrifícios humanos realizados quotidianamente e ao menos nos meses de Tlacaxipehuliztíli, Tepeihuitl, dedicados respectivamente aos deuses Xipe Totec e Tláloc, as cerimônias incluíam a prática de antropofagia:

Particularmente para a cerimônia de Xipe Totec, Sahagún descreveu que as vítimas que regularmente eram comidas eram cativos de guerras, que eram mantidos prisioneiros e com vida para ser sacrificados no mês de Tlacaxipehuliztíli  :

Teóricos do canibalismo alimentarEditar

Edward Payne na sua History of the New World Called America, de 1892, especulou que os sacrifícios humanos respondiam aos desejos e interesses das classes dominantes e afirmou que a ideologia que motivava o rito de ingerir a carne humana era produto das condições materiais de existência na época.

Em 1977, Michael Harner voltou a lançar a velha teoria de Edward Payne, afirmando que, frente às grandes deficiências proteínicas na dieta dos habitantes do Vale do México, dada a ausência de grandes mamíferos domésticos, as elites astecas deveram começar a comer os plebeus.[20]

O antropólogo Marvin Harris, autor do livro Caníbais e reis insistiu em que a carne das vítimas era parte da dieta aristocrática, como recompensa, dada a falta de proteínas na dieta comum. Assim, a economia asteca não seria bem generosa para permitir alimentar os prisioneiros como escravos, pelo qual estes eram "carne em movimento".

O professor em Paris do Museu do Homem, Christian Duverger, autor de um estudo sobre o sacrifício asteca, A flor letal, escreve: "Digamo-lo para começar: o canibalismo asteca não foi inventado integramente pelos espanhóis para justificar a sua sangrenta conquista. Também não pode ser dissimulado atrás de uma coartada mística, pois não é reduzível à antropofagia ritual (…). Não! A antropofagia faz parte da realidade asteca e a sua prática é muito mais corrente e muito mais natural do que às vezes acostuma ser apresentada." E acrescenta: "Abramos os códices: braços e pernas surgem de uma jarra colocada sobre o fogo; uns índios conchegados devoram, a mão, a carne dos membros de um sacrificado".[21] Contudo, Duverger omite que a imagem evocada do códice Magliabechiano (ver ilustração) representa ao lado dos "índios conchegados", que devoram carne humana, uma deidade asteca e que este documento é um texto de meados do século XVI cujo conteúdo é de caráter primariamente religioso.

Porém, a princípios de 2005 foi publicada uma nota jornalística, "Os astecas sim eram caníbais; são encontrados em Ecatepec utensílios de cozinha ao lado de ossos humanos". A nota do jornal mexicano La Crónica, baseada em Discovery Channel, diz que "os astecas cozinhavam, esfolavam e comiam seres humanos, de acordo com afirmações de arqueólogos mexicanos, incluído o diretor do Museu do Templo Maior".[22]

Evidência contra a hipótese de canibalismo alimentarEditar

Ortiz de Montellano,[23] entre outros, apresentou evidências de os astecas terem uma dieta equilibrada e que a contribuição nutricional do canibalismo não era muito efetiva. Os astecas pareciam possuir suficientes fontes de proteínas, pois domesticaram três espécies de animais para consumir a sua carne: peru, pato crioulo (Cairina moschata) e cão. Além disso, embora não domésticos, a grande quantidade de veado selvagem e outras fontes de proteínas animais na região reduz a credibilidade da hipótese que privilegia o canibalismo por razões alimentícias como explicação dos sacrifícios astecas. "A própria descrição da forma de cozinhar esta carne", diz Sophie D. Coe, "da qual estava ausente o pimento, sugestiona que não se tratava de uma comida ordinária mas de um rito religioso."[24] De acordo a Coe, Harner foi induzido ao erro porque o momento no que escreveu o seu artigo era o da "grande toleima proteínica" nos Estados Unidos, quando alguns antropólogos mediam cada civilização segundo a quantidade de proteínas animais que, em média, consumiam os cidadãos.

Michel Graulich declarou que: O banquete antropófago era um evento religioso e social muito importante. Comiam o morto divinizado, unidos com ele, mas também era uma ocasião para convidarem e honrar os familiares, para fazerem relações com personagens importantes, para ganharem prestígio, e em tudo isto podia ser gasto o produto de anos de trabalho.[25]

Ver tambémEditar

Referências

  1. Isaac, Barry L. (janeiro de 2005). «AZTEC CANNIBALISM: Nahua versus Spanish and mestizo accounts in the Valley of Mexico». Ancient Mesoamerica (1): 1–10. ISSN 0956-5361. doi:10.1017/s0956536105050030. Consultado em 8 de janeiro de 2021 
  2. Isaac, Barry L. (janeiro de 2005). «AZTEC CANNIBALISM: Nahua versus Spanish and mestizo accounts in the Valley of Mexico». Ancient Mesoamerica (1): 1–10. ISSN 0956-5361. doi:10.1017/s0956536105050030. Consultado em 8 de janeiro de 2021 
  3. Cervantes de Salazar, Francisco (1565) Crónica de la Nueva España livro II cap. XXII texto no site Cervantes Virtual
  4. «López de Gómara, Francisco (1552) Historia de la conquista de México cap. CXXXV O dano e fogo às casas, texto no site arteHistoria, Junta de Castela e Leão». Consultado em 15 de fevereiro de 2009. Arquivado do original em 10 de abril de 2008 
  5. «Cortés, Hernán (1522) Terceira carta de relação texto no site arteHistoria, Junta de Castela e Leão». Consultado em 15 de fevereiro de 2009. Arquivado do original em 4 de dezembro de 2008 
  6. «López de Gómara, Francisco (1552) Historia de la conquista de México cap. CXLI "Determinação de Cortês em assolar o México", texto no site arteHistoria, Junta de Castela e Leão». Consultado em 15 de fevereiro de 2009. Arquivado do original em 10 de abril de 2008 
  7. Díaz del Castillo, Bernal (1568) Historia verdadera de la conquista de la nueva España tomo II, cap. CLJII pp. 338-339 texto no site Cervantes Virtual
  8. «López de Gómara, Francisco (1552) Historia de la conquista de México cap. CCXXJIII texto no site arteHistoria, Junta de Castela e Leão». Consultado em 15 de fevereiro de 2009. Arquivado do original em 10 de abril de 2008 
  9. «López de Gómara, Francisco (1552) Historia de la conquista de México cap. CV As ameaças que faziam os do México aos espanhóis texto no site arteHistoria, Junta de Castela e Leão». Consultado em 15 de fevereiro de 2009. Arquivado do original em 10 de abril de 2008 
  10. Díaz del Castillo, Bernal (1568) Historia verdadera de la conquista de la nueva España tomo II cap. CLIII pp.253-254 texto no site Cervantes Virtual
  11. Díaz del Castillo, Bernal (1568) Historia verdadera de la conquista de la nueva España tomo II cap. CLVI pp. 285. texto no site Cervantes Virtual
  12. Muñoz Camargo, Diego (1585) Historia de Tlaxcala cap.II texto no site Cervantes Virtual
  13. Cervantes de Salazar, Francisco Crónica de la Nueva España cap.XVIII, XIX e XXII texto no site, readme.it
  14. «López de Gómara, Francisco (1552) Historia de la conquista de México capítulo CXLI Determinação de Cortês a assolar o México texto no site arteHistoria Junta de Castela e Leão». Consultado em 15 de fevereiro de 2009. Arquivado do original em 24 de dezembro de 2008 
  15. Díaz del Castillo, Bernal (1568) Historia verdadera de la conquista de la nueva España cap.CLVI pp. 280 ao final e 281 texto no site Cervantes Virtual
  16. «Sahagún, Bernardino (1558) Historia general de las cosas de la Nueva España livro II, cap. II texto no site arteHistoria, Junta de Castela e Leão». Consultado em 15 de fevereiro de 2009. Arquivado do original em 16 de maio de 2008 
  17. templo ou adoratório dos indígenas pré-hispânicos na Mesoamérica
  18. «Sahagún, Bernardino (1558) Historia general de las cosas de la Nueva España livro II, cap. XIII texto no site arteHistoria, Junta de Castela e Leão». Consultado em 15 de fevereiro de 2009. Arquivado do original em 5 de maio de 2008 
  19. «Sahagún, Bernardino (1558) Historia general de las cosas de la Nueva España livro II, cap. XXI texto no site arteHistoria, Junta de Castela e Leão». Consultado em 15 de fevereiro de 2009. Arquivado do original em 16 de maio de 2008 
  20. Harner, Michael, "The Ecological Basis for Aztec Sacrifice", American Ethnologist, 4, 1977.
  21. Duverger, Christian, A Flor Letal: Economia do Sacrifício Asteca, o México: Fundo de Cultura Econômica, pp.182s
  22. Os astecas sim eram caníbais
  23. Ortiz de Montellano, B.R. "Aztec Cannibalism: An Ecological Necessity?" Science, 200, 611-617.1978 [1] Arquivado em 5 de agosto de 2009, no Wayback Machine.
  24. Coe D., Sophie, Las primeras cocinas de América, FCE, México, 2004, p. 148
  25. «Revista arqueologia mexicana vol. XI, n. 63 pp.16-21 texto no site arqueomex.com». Consultado em 15 de fevereiro de 2009. Arquivado do original em 24 de fevereiro de 2007 

BibliografiaEditar

Ligações externasEditar