Arlete Hilu

traficante brasileira de bebês e crianças para esquema de adoção ilegal fora do país

Arlete Honorina Vitor Hilu é uma ex-traficante de crianças condenada, natural de Itajubá (MG), que viveu no Paraná, no Rio de Janeiro e em Santa Catarina. Seu paradeiro é desconhecido ao menos desde 2016, quando tinha 72 anos e vivia no litoral de Santa Catarina. Na ocasião, concedeu entrevista exclusiva[1] ao programa Repórter Record Investigação, da Record TV.

Arlete Honorina Vitor Hilu
Data de nascimento 01 de janeiro de 1941 (81 anos)
Local de nascimento Itajubá, Minas Gerais
 Minas Gerais
Nacionalidade(s) Brasileira
Crime(s) Tráfico de crianças
Falsidade ideológica
Formação de quadrilha
Retirada ilegal de crianças do país
Pena 2 condenações de 2 anos cada (1988, 1992)
Situação Solta, sem condenações pendentes, atualmente inimputável
Arlete Hilu se apresentava ora como advogada, ora como assistente social, mas não há informações precisas sobre sua profissão.

BiografiaEditar

Arlete Hilu nasceu na cidade de Itajubá, Minas Gerais, em 1941. A data precisa de seu nascimento é controversa.

Na década de 1980, um esquema liderado por ela tirava bebês e crianças do Brasil e os levava para adoção por famílias estrangeiras, de forma clandestina. Pelos crimes de tráfico de crianças, falsidade ideológica, formação de quadrilha e a retirada ilegal de crianças do país, Arlete foi condenada duas vezes.

Esquema de tráfico de criançasEditar

Primeiro casoEditar

Embora o nome de Arlete Hilu apareça vinculado a milhares de casos de crianças retiradas ilegalmente do Brasil e adotadas por casais estrangeiros, com destaque para famílias em Israel e na Europa, o primeiro caso de que se tem notícia foi registrado em Curitiba (PR)[2] em 1983 e ficou conhecido como "caso Fabinho", com o sequestro de um bebê recém-nascido de dentro de uma maternidade na capital paranaense.[2]

O caso atraiu a atenção da imprensa e mobilizou a sociedade, sendo solucionado em poucas semanas.[2] A partir da resolução do caso, surge uma denúncia de venda de crianças para "exportação (...) para Israel",[2] todos com a intermediação de Arlete Hilu, que cobrava altos honorários em dólares, com a suposta cumplicidade ou ao menos conivência de membros do Juizado de Menores e até de agentes da Polícia Federal.[2]

Apesar de o "caso Fabinho" ser o primeiro amplamente conhecido, existe a suspeita de que a quadrilha de Arlete tenha começado a agir em 1968,[3] quando ela tinha apenas 27 anos.

Adoções em IsraelEditar

O esquema de Arlete Hilu era particularmente atuante em Israel, onde estima-se que cerca de 3 mil crianças[4] teriam sido adotadas com sua intermediação. O número é tão alto que existe no país do Oriente Médio um movimento organizado por jovens que foram adotados ainda bebês ou crianças de forma ilegal e que hoje desejam conhecer a família biológica.[4]

A jornalista e documentarista israelense Nili Tal retratou, no filme "The Girls from Brasil"[5] (2007), uma viagem que fez ao Brasil junto a quatro jovens israelenses em busca de suas mães biológicas. Em uma entrevista[6] à época, a documentarista explicou que em Israel "não temos crianças (disponíveis) para adoção. Por isso, famílias israelenses que queriam filhos viajavam para países do 3º mundo antes que Madonna e Angelina (Jolie) o fizessem. Nos anos 1980, elas descobriram a oportunidade de adotar no Brasil. Era longe e caro, mas toparam".

O filme de 2007 foi um desdobramento de um outro caso, de 1986, em que Arlete Hilu também esteve envolvida. O episódio gerou comoção e ficou muito conhecido em Israel após a Suprema Corte do país ordenar o retorno ao Brasil de uma criança, de nome de nascença Bruna,[7] adotada por uma família israelense no esquema ilegal. Em 2006, vinte anos depois do caso, a jornalista voltou ao país com outras jovens que haviam passado pela mesma situação.

Uma das crianças[8] que foi adotada nos anos 1980 por pais israelenses chegou a aprender português e passar uma temporada no Brasil atrás de pistas que pudessem levá-la à mãe biológica.

Prisão em IsraelEditar

Em 16 de abril de 1986, Arlete Hilu foi presa[9] em Tel Aviv, Israel, por entrar no país com passaporte falso, o que mais tarde lhe renderia a acusação, no Brasil, de falsidade ideológica. Arlete alegou ser advogada para tentar se livrar da prisão[9] em Israel. Na sequência da prisão, ficou detida por 14 dias no país por determinação do Tribunal de Justiça local. Na ocasião, conforme reportado pela imprensa à época,[9] a polícia israelense suspeitava de que ela fosse "a líder de um 'negócio' de transferência ilícita para Israel de bebês brasileiros para serem adotados por casais daquele país, que os adquiriram pagando vultosas quantias em dólares".[9]

Casos em outros paísesEditar

Havia ainda interceptadores na Europa, no Canadá e nos Estados Unidos. As crianças da região Sul, mais precisamente do Paraná, Vale do Itajaí (SC) e Camboriú (SC), eram as mais procuradas por serem brancas, com traços europeus. Como nos estados do Sul houve grande colonização de países europeus, tais traços foram mantidos ao longo de gerações entre grande parte da população local. "As que tinham olhos claros valiam mais no 'mercado'".[4]

De acordo com dados de João Santos Filho, que em 1985 era presidente da extinta Comissão Nacional do Menor (embrião do atual Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente - Conanda[10], criado a partir de previsão no artigo 88 do Estatuto da Criança e do Adolescente/ECA)), a quadrilha de Arlete Hilu comercializava "cerca de 2 mil bebês por mês".[11] O ex-presidente do órgão disse à imprensa, em 1986, que o grupo agia "em todo o Brasil".

CondenaçõesEditar

Em 1988, Arlete Hilu foi condenada a uma pena de 2 anos de prisão pela Justiça brasileira pelos crimes de tráfico de crianças, falsidade ideológica e formação de quadrilha, e também por ter retirado clandestinamente crianças do país. Ela ficou presa ao longo de dois anos na Penitenciária Estadual do Paraná. Em 1992, foi presa novamente por continuar comandando o esquema de venda de crianças.

Anos antes, em 1982, Arlete teve prisão preventiva decretada no Paraná, mas conseguiu escapar, aparentemente para o Rio de Janeiro (RJ), levando à revogação da ordem de prisão.[3] Dois anos depois, em 1984, quando outros casos foram denunciados, ela conseguiu fugir novamente, apesar de a casa em que estava ter sido cercada pela polícia.[3]

Os processos envolvendo Arlete e as adoções ilegais correm em segredo de justiça há mais de 20 anos.[12]

Envolvimento de autoridadesEditar

O esquema supostamente envolvia propinas a Juizados de Menores, cartórios, policiais federais, juízes, além do envolvimento direto de advogados, médicos[3] e enfermeiros em maternidades. A quadrilha cobrava até 25 mil dólares de casais e de famílias estrangeiros pela intermediação. Em entrevista concedida em 2016, Arlete Hilu afirmou que as crianças eram vendidas aos pais adotivos por "1,2 mil, 1,3 mil dólares",[1] mas há controvérsias sobre os reais valores.

Segundo relato[11] de 1986 na imprensa, "organizações internacionais, empenhadas nas campanhas de controle de natalidade, (...) estão envolvidas diretamente com o tráfico de crianças". A reportagem ainda informa que existiam à época, em São Paulo (SP), "agências montadas com a finalidade de encaminhar para o exterior bebês brasileiros".

PesquisaEditar

Casos envolvendo Arlete Hilu e de outras histórias de adoção ilegal de crianças brasileiras por pais estrangeiros têm sido pesquisados pelo jornalista investigativo brasileiro Gabriel Toueg desde pelo menos 2013.

Cobertura da ImprensaEditar

O esquema de Arlete Hilu foi acompanhado extensivamente pela imprensa brasileira, com destaque para o jornal Correio de Notícias em seu início. Entre o fim da década de 1980 e o início da década seguinte, houve também destaque dos casos na imprensa internacional.[13][14][15]

Cultura PopularEditar

O drama das crianças ficou amplamente conhecido no Brasil durante a exibição da novela Salve Jorge, da TV Globo, de autoria de Gloria Perez. O folhetim, que esteve no ar em horário nobre entre 2012 e 2013, não apenas abordou o assunto como o fez mesclando a história fictícia da personagem Aisha (interpretada pela atriz Dani Moreno) com depoimentos reais de crianças que hoje vivem em outros países e seguem buscando suas famílias biológicas. Na novela, Aisha[16] é nascida no Brasil e filha adotiva do casal turco Berna (Zezé Polessa) e Mustafa (Antonio Calloni). Ela faz faculdade, tem uma boa relação com os pais adotivos, mas - assim como nos casos reais, está obcecada pela ideia de conhecer suas origens brasileiras.

Referências

  1. a b «Repórter Record Investigação desvenda esquema de tráfico internacional de crianças». Record TV. 4 de março de 2016. Consultado em 25 de novembro de 2022. Cópia arquivada em 4 de agosto de 2021 
  2. a b c d e COSTA, Maria Cecília Solheid da (1988). Os "filhos do coração", adoção em camadas médias brasileiras (PDF). Rio de Janeiro: UFRJ. p. 71 
  3. a b c d «Gangue de Hilú começou a agir em 1968». Arquivo da Biblioteca Nacional. Correio de Notícias  [1]
  4. a b c «Curitiba já abrigou grupo de traficantes de crianças». Gazeta do Povo. 16 de julho de 2011. Consultado em 25 de novembro de 2022 
  5. Nili Tal, The Girls From Brazil
  6. FORD, Joshua (23 de fevereiro de 2008). «Adoption Stories from Israel, The Girls From Brasil - an interview with Nili Tal». The Blog at 16th and Q. Consultado em 25 de novembro de 2022 
  7. SILVA, Marleth (19 de maio de 2018). «Sobre Bruna e a exportação de crianças pobres». Gazeta do Povo. Consultado em 25 de novembro de 2022. Cópia arquivada em 4 de agosto de 2021 
  8. TOUEG, Gabriel (25 de novembro de 2012). «Israelense adotada no Brasil nos anos 1980 busca os pais biológicos». Estadão. Cópia arquivada em 4 de agosto de 2021 
  9. a b c d «Arlete Hilú presa em Telavive». Correio de Notícias: 7. 17 de abril de 1986. Consultado em 27 de novembro de 2022. Cópia arquivada em 4 de agosto de 2021 
  10. Presidência da República > Colegiados > Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente > O Conselho
  11. a b «Há estrangeiros envolvidos no tráfico [de crianças]». Arquivo da Biblioteca Nacional. Correio de Notícias. 4 de abril de 1986. Consultado em 25 de novembro de 2022. Cópia arquivada em 4 de agosto de 2021 
  12. TOUEG, Gabriel (20 de dezembro de 2016). «O deboche da mulher que integrou uma quadrilha de tráfico de bebês». Consultado em 30 de junho de 2018 
  13. «"Israelis Hear About Bribery in Latin America Adoptions» [Israelenses ficam sabendo de subornos em adoções latino-americanas]. The New York Times. The New York Times (em inglês). 18 de julho de 1988. Consultado em 27 de novembro de 2022 
  14. BYRNE, Louise (10 de outubro de 1992). «Baby trade flourishes between Brazil and Europe» [Comércio de bebês floresce entre Brasil e Europa]. Scripps Howard News Service. Scripps Howard News Service. Consultado em 27 de novembro de 2022. Cópia arquivada em 4 de agosto de 2021 
  15. «Brazil's baby smugglers do a booming business» [Traficantes brasileiros de bebês têm negócio em alta]. Associated Press (AP). Associated Press (AP). 25 de novembro de 1992. Consultado em 27 de novembro de 2022. Cópia arquivada em 4 de agosto de 2021 
  16. «Salve Jorge - Personagens». Memória Globo. Consultado em 25 de novembro de 2022