Boemundo III de Antioquia

Boemundo III de Antioquia (1144-1201), cognominado o Gago, foi príncipe de Antioquia de 1163 até à sua morte. Era filho da princesa Constança de Antioquia com o seu primeiro marido Raimundo de Poitiers.

Boemundo III
Denier de Boemundo III
Príncipe de Antioquia
Reinado c. 1144 - c. 1201
Reinado 1163 - 1201
 
Nascimento c. 1144
Morte 1201
Pai Raimundo de Poitiers
Mãe Constança de Antioquia

Conflito com ConstançaEditar

Raimundo de Poitiers morreu na batalha de Inabe em 1149, pelo que foi Constança de Antioquia, a filha e herdeira do príncipe Boemundo II de Antioquia, quem governou o principado até Boemundo III atingir a maioridade. Mas quando a sua mãe se casou pela segunda vez, com Reinaldo de Châtillon, este assumiu o governo de Antioquia até ser aprisionado por Noradine em Alepo em 1160, onde permaneceria até 1176.

Apesar de o filho ter atingido a maioridade aos 15 anos de idade, Constança recusou-se a entregar-lhe o controlo do estado até o rei Balduíno III de Jerusalém intervir e declarar Boemundo o líder do principado. Recusando aceitar esta decisão, em 1163 Constança pediu ajuda ao Principado Arménio da Cilícia, mas os cidadãos de Antioquia revoltaram-se e exilaram-na; com a sua morte ainda nesse ano, Boemundo pôde assumir o governo sem mais oposição.

Reinado de Amalrico de JerusalémEditar

Em 1164, Boemundo III de Antioquia e Raimundo III de Trípoli levantaram o cerco de Noradine à praça cruzada de Harim. No entanto, a decisão de atacarem o exército muçulmano em retirada resultaria na batalha de Harim, com a derrota e a captura dos dois líderes cristãos. Em campanha no Egito, o rei Amalrico I de Jerusalém voltou à Síria em 1165 para assumir a regência do Principado de Antioquia e do Condado de Trípoli.

Boemundo seria libertado com o pagamento de um avultado resgate de 150 000 dinares em 1165, com a intervenção do rei de Jerusalém e do imperador bizantino Manuel I Comneno, o seu suserano nominal e cunhado, casado com a sua irmã Maria de Antioquia. A ajuda deste último terá sido essencial para a sua rápida libertação, uma vez que Noradine provavelmente pretendia evitar uma intervenção do Império Bizantino na Síria; em contrapartida, Raimundo III de Trípoli, vassalo de Jerusalém e não de Constantinopla, ficaria em poder dos muçulmanos até 1173.

Devido à acção do imperador, Boemundo foi visitá-lo em Constantinopla e reafirmar a sua vassalagem, concordando inclusivamente em restabelecer o patriarca grego Atanásio em Antioquia. O patriarca latino Aimério de Limoges protestou contra esta concessão, impôs um interdito (o equivalente à excomunhão para um território) sobre a cidade e só voltaria ao principado depois da morte de Atanásio em c.1170.

Em 1166, o governador bizantino da Cilícia Andrónico Comneno iniciou uma ligação amorosa com Filipa, irmã de Boemundo III. Esta relação desagradou tanto ao conde antioqueno e quanto a Manuel I Comneno, que era casado com a irmã de Filipa, Maria de Antioquia, o que tornava a relação incestuosa pela lei canónica medieval. Andrónico foi forçado a fugir para Jerusalém, onde seduziu a rainha Teodora, sobrinha do imperador e por isso uma parente ainda mais próxima.

Reinado de Balduíno IV de JerusalémEditar

Como resposta à aliança de Melias da Arménia com Noradine em 1172, Boemundo invadiu o Principado Arménio da Cilícia. Em 1177, juntamente com Raimundo III de Trípoli e Filipe da Alsácia, conde da Flandres, que chegara à Terra Santa em peregrinação, cercou a praça de Harim, mas acabariam por levantar o cerco sem reconquistar a cidade.

Entretanto, a política do Reino de Jerusalém era dominada pela questão da sucessão de Balduíno IV o Leproso. Sem descendentes, esta deveria ser assegurada pelo casamento da sua irmã Sibila, viúva de Guilherme Espada Longa e mãe de Balduíno de Monferrato: o rei pretendia unir a irmã a um candidato europeu que pudesse trazer reforços para o Levante; Raimundo de Trípoli e Boemundo de Antioquia, primos direitos de Balduíno e Sibila, marcharam em 1180 sobre Jerusalém para tentar forçar o rei a casar a irmã com um favorito seu, provavelmente Balduíno, irmão mais velho de Balião de Ibelin. Em resposta, Balduíno IV apressou-se a casá-la com Guido de Lusignan, irmão mais novo do condestável Amalrico, evitando a intervenção dos primos.

No mesmo ano Boemundo abandonou a sua esposa Teodora Comnena, outra sobrinha do recém-falecido imperador Manuel I, homónima da consorte de Balduíno III de Jerusalém. Casou-se com uma mulher chamada Sibila que, segundo Guilherme de Tiro, «tinha a reputação de praticar as artes do mal», pelo que foi excomungado pelo papa Alexandre III e Antioquia voltou a ficar sob interdição eclesiástica. Mas «a isto [...Boemundo] prestou pouca atenção. Pelo contrário, continuou nas suas acções iníquas com redobradas energias», segundo o arcebispo cronista.

Consequentemente, Boemundo aprisionou o patriarca Aimério e outros bispos, e saqueou as suas igrejas. Em 1181, o patriarca latino de Jerusalém Heráclio de Auvérnia foi enviado para mediar o conflito, juntamente com Reinaldo de Châtillon, Raimundo III de Trípoli e os grão-mestres Arnaldo de Torroja da Ordem dos Templários e Roger de Moulins da Ordem do Hospital. Boemundo recusou-se a aceitar a negociação e expulsou os mediadores, bem como vários dos nobres de Antioquia que se lhe opunham.

Em 1183, Antioquia foi assediada por Saladino. Boemundo acabaria por negociar um tratado de paz com o sultão e depois vendeu a cidade de Tarso a Rúben III da Arménia, de modo a tornar os seus territórios mais facilmente defensáveis. Entretanto, em Jerusalém as condições físicas de Balduíno IV deterioravam-se, pelo que Balduíno V de Jerusalém foi coroado ainda durante a vida do tio, segundo a tradição da dinastia capetiana de França.

Declínio dos cruzados no LevanteEditar

 
O Próximo Oriente em 1190, depois das conquistas de Saladino

Balduíno IV morreu em 1185, e Balduíno V no ano seguinte; Boemundo III, Raimundo III e os nobres do seu partido foram incapazes de evitar a subida ao trono de Guido de Lusignan e Sibila. Este reinado seria desastroso para o Reino de Jerusalém, que teve os seus exércitos derrotados por Saladino na batalha de Hatim em 1187. Boemundo III de Antioquia não esteve presente no confronto, mas o seu primogénito Raimundo estava na vanguarda, com as forças de Raimundo III de Trípoli que escaparam ao inimigo.

Pouco depois desta vitória decisiva, Saladino invadiu o Principado de Antioquia, mas Boemundo III conseguiu defender-se com a ajuda de uma frota siciliana. Raimundo III de Trípoli morreria pouco depois de Hatim, tendo nomeado o filho mais velho de Boemundo como seu sucessor. No entanto, Boemundo III ignorou estas disposições: com o objectivo de manter o seu herdeiro Raimundo em Antioquia, em 1189 instalou o seu segundo filho, Boemundo IV, como conde de Trípoli.

Em 1190, Boemundo III recebeu os sobreviventes do contingente germânico da Terceira Cruzada; o imperador Frederico Barbarossa tinha morrido a caminho, e parte dos seus restos mortais foi enterrada em Antioquia. Mas Boemundo não participaria na cruzada, preferindo manter a neutralidade e evitar provocar Saladino.

Pouco depois do regresso dos cruzados à Europa, Leão II da Arménia conquistou o castelo de Bagras, na fronteira norte de Antioquia, que tinha sido tomado por Saladino em 1189. Boemundo III e os Cavaleiros Templários, os proprietários originais, exigiram a sua restituição. Em 1194, Leão atraiu Boemundo a Bagras sob o pretexto de negociações e aprisionou-o na capital da Cilícia, Sis. Sob coação, Boemundo foi forçado a ceder-lhe o seu principado.

Porém, o príncipe herdeiro Raimundo IV de Trípoli e o patriarca Aimério de Limoges, apoiados pela população latina e grega de Antioquia, recusaram-se a abrir as portas da cidade e repeliram um ataque arménio. Em consequência, foi acordada uma paz e Boemundo foi libertado sob a mediação de Henrique II de Champagne, embora tenha sido forçado a abandonar qualquer pretensão à suserania da Arménia Menor. Em 1195, a paz foi selada com o casamento do herdeiro Raimundo com Alice da Arménia, uma filha de Rúben III.

Raimundo morreria em 1199 pelo que, quando Boemundo III também morreu em 1201, iniciou-se um conflito pela sucessão em Antioquia, entre o seu segundo filho Boemundo IV e Raimundo-Rúben, filho de Raimundo e Alice.

Casamentos e descendênciaEditar

Boemundo III de Antioquia celebrou o seu primeiro casamento em c.1170 (talvez 1168 ou 1169), com Orguilleuse d'Harenc (ou Harim). Esta união duraria até c.1175, quando se separaram ou quando a esposa morreu, e dela nasceram:

Em c.1175 (talvez 1176 ou 1177) Boemundo contraiu novo matrimónio, com Teodora Comnena, filha do duque de Chipre João Comneno Ducas com Maria Taronitissa. Até à sua separação em 1180, nasceram:

  • Constança de Poitiers, morreu jovem
  • Manuel de Poitiers (1176-1211), sem casamentos nem descendência

Depois de abandonar Teodora, o príncipe casou-se com Sibila em 1180/1181, de quem se divorciaria a c.1199. Dela nasceram:

  • Alice de Poitiers (m.1233), casada em 1204 com Guido I Embriaco, senhor de Gibelet
  • Guillherme de Poitiers, documentado vivo em 1194

A c.1199, Boemundo celebrou o seu último casamento, com Isabel, de quem nasceu:

  • Boemundo de Poitiers (m.1244), senhor consorte de Batroun, casado com N Plivane, herdeira e senhora de Batroun

BibliografiaEditar

Precedido por
Constança
 
Príncipe de Antioquia

1163 - 1201
Sucedido por
Boemundo IV

Ligações externasEditar

 
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