Brigada de Infantaria Paraquedista

BIG INF PQDT

A Brigada de Infantaria Paraquedista (Bda Inf Pqd) (pré-AO90: Brigada de Infantaria Pára-Quedista) é uma das brigadas do Exército Brasileiro. Sediada no Rio de Janeiro, é subordinada ao Comando Militar do Leste, na mesma cidade, em conjunto com o Comando de Operações Terrestres, em Brasília. Embarcadas em aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB), suas unidades podem rapidamente chegar a qualquer ponto do território nacional. É composta de soldados voluntários, que se distinguem por uma série de tradições, e considerada de elite. Já foi empregada em diversas rebeliões, contingentes internacionais e operações de garantia da lei e da ordem, e seus integrantes participaram de várias crises políticas e militares.

Brigada de Infantaria Paraquedista
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País  Brasil
Estado  Rio de Janeiro
Corporação Coat of arms of the Brazilian Army Exército Brasileiro
Subordinação Comando Militar do Leste
Sigla Bda Inf Pqdt
Criação 1945
Patrono General Roberto de Pessôa
Lema Brasil Acima de Tudo![1]
Grito de Guerra Brasil Acima de Tudo!
Mascote Condor
História
Guerras/batalhas

Logística
Efetivo 5.400 (2015)[2]
Comando
Comandante Gen Bda Helder de Freitas Braga[3]
Comandantes
notáveis
Nestor Penha Brasil
Hugo de Abreu
Sede
Rio de Janeiro  Rio de Janeiro
Bairro Vila Militar
Endereço Avenida General Benedito da Silveira, S/N, Vila Militar, Rio de Janeiro - RJ
Internet http://www.bdainfpqdt.eb.mil.br

FunçõesEditar

Embora subordinada ao Comando Militar no Leste, no Rio de Janeiro, pode ser empregada diretamente pelo Comando de Operações Terrestres, em Brasília.[4] Pode formar até três forças-tarefa com seus batalhões de infantaria paraquedista,[5] cada qual capaz de ser aerotransportado ou lançado de paraquedas; no segundo caso, realiza um assalto aeroterrestre para criar uma cabeça de ponte aérea. Seus deslocamentos podem rapidamente atingir regiões distantes, mas são custosos, pois exigem a participação da FAB.[6][a] As forças-tarefas devem atuar nos seus destinos em até 24[7] ou 48 horas.[8]

HistóriaEditar

OrganizaçãoEditar

 
Salto paraquedista

O primeiro salto de paraquedas a partir de uma aeronave militar em vôo no Brasil foi feito em 1922.[9] Na FAB, criada em 1941, o paraquedismo militar foi praticado desde seus primeiros anos. Porém, esses programas eram voltados aos aviadores e não a grandes saltos de tropa, como aqueles realizados pelos paraquedistas alemães (Fallschirmjäger) e americanos, ambos os quais atraíam interesse no Brasil. Conceitos de instrução militar que décadas depois seriam características marcantes da Brigada, como o preparo psicológico, já estavam em discussão.[10][11]

Nesse contexto, em 1944 o capitão Roberto Pêssoa, que já tinha tido contato com as forças aeroterrestres alemãs, foi indicado para o curso de paraquedismo em Fort Benning, EUA. No ano seguinto, um decreto-lei determinou a fundação da Escola de Paraquedistas. Sob supervisão de Pêssoa, outros 46 oficiais brasileiros estudaram em Fort Benning até 1948, tornando-se conhecidos como pioneiros. Serviram de instrutores da Escola, cujas atividades iniciaram em 1949. Pêssoa ambicionava seu comando, mas esse lugar foi assumido pelo coronel Nestor Penha Brasil, criando uma rivalidade pessoal. Penha Brasil foi o oficial com o mais longo período no comando, permanecendo até 1955.[12]

Em 1952 foi criado o "Núcleo da Divisão Aeroterrestre", do qual a Escola de Paraquedistas tornou-se uma parte.[13] A ideia era expandir o Núcleo até uma divisão completa,[14] com três regimentos de infantaria a três batalhões cada. Entretanto, ele "nunca teve mais que um regimento de infantaria aeroterrestre incompleto, um grupo de artilharia, uma companhia de engenharia e um pelotão de comunicações",[15] somando 2.086 praças em 1960, o que não chegava ao efetivo de uma brigada. O regimento tinha apenas um batalhão de infantaria, e o grupo de artilharia não cumpria sua organização doutrinária, consistindo numa bateria de obuses de 75 mm e outra de 105 mm.[16]

Em 1968 o Núcleo tornou-se a "Brigada Aeroterrestre", com ambições de expansão menores.[17] Em 1971, novamente mudou de denominação, agora para "Brigada de Infantaria Pára-Quedista". O termo "aeroterrestre" engloba tanto forças paraquedistas quanto aerotransportadas, e a mudança de nome admitia a não constituição da segunda categoria.[18] No período da "Brigada Aeroterrestre", não havia mais regimento de infantaria, mas o batalhão existente foi acrescido de dois novos, formando o 1º, 2º e 3º Batalhões de Infantaria Aeroterrestre.[19] Com a redenominação de 1971, tornaram-se, respectivamente, o 26º, 27º e 25º Batalhões de Infantaria Paraquedista.[20]

As operações especiais foram estudadas pelos precursores paraquedistas e adquiriram um curso próprio em 1957, além de um destacamento, expandido em 1983 ao 1.º Batalhão de Forças Especiais. Inicialmente fez parte da Brigada,[21] mas atualmente pertence ao Comando de Operações Especiais, em Goiânia,[22] no qual o paraquedismo militar também é praticado.[4]

Em 2010, havia o plano de transferir a Brigada ao centro do país, para Anápolis, Palmas ou o Triângulo Mineiro, onde estaria mais perto de áreas como a Amazônia e sem a interferência do movimentado tráfego aéreo carioca.[23]

AtuaçãoEditar

 
No Complexo do Alemão

Paraquedistas foram deslocados contra as revoltas de Jacareacanga e Aragarças, em 1956 e 1959, mas não travaram combate.[24] Em 1961, quando o Terceiro Exército recusou a autoridade do ministro da Guerra Odílio Denys como parte da Campanha da Legalidade, o Núcleo serviu de reserva estratégica do ministro. Ernesto Geisel, chefe do Gabinete Militar da Presidência, sugeriu desembarcar paraquedistas em Curitiba, no território do Terceiro Exército, mas Denys recusou.[25]

A instabilidade política no governo de João Goulart teve reflexos no Núcleo. Alguns paraquedistas participavam dos movimentos políticos de praças, como o subtenente Jelcy Rodrigues Corrêa, mas não eram numerosos.[26] Em 1963, após a derrota da revolta dos sargentos, deflagrada em Brasília por esses movimentos, uma companhia aeroterrestre foi usada como força de ocupação.[27] Pouco depois, enquanto o presidente pedia o estado de sítio, foi denunciado um atentado que teria sido ordenado pelo ministro da Guerra contra o governador oposicionista da Guanabara, Carlos Lacerda. Uma sindicância concluída num prazo "excepcionalmente rápido" aceitou a versão oficial de que não houve atentado, mas o comandante, o general Alfredo Pinheiro Soares Filho, muito próximo do presidente, foi transferido.[28] Com o advento da ditadura militar, os expurgos, a princípio contra o pessoal associado ao regime anterior, alcançaram o Núcleo, atingindo inclusive o general Alfredo Pinheiro, transferido para a reserva.[26] O Núcleo foi investigado pelo Inquérito Policial Militar (IPM) nº 104.[29] Vários dos indiciados no IPM depois participaram da organização da Guerrilha do Caparaó (1966–1967).[30]

Quase uma década de instabilidade entre os paraquedistas culminou em 1969,[31] quando o tenente-coronel Dickson Melges Grael, que comandava o 1º Grupo de Artilharia Aeroterrestre, insurgiu-se contra a Junta Governativa Provisória. A decisão de aceitar as demandas dos sequestradores do embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, havia sido impopular no oficialato. Grael liderou um grupo de 26 oficiais da Brigada e três da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais ao Aeroporto do Galeão para impedir o embarque de prisioneiros políticos liberados em troca do embaixador. A operação falhou e resultou na substituição do comandante da Brigada, Adauto Bezerra de Araújo, pelo general Hugo de Abreu, que assumiu sem nem mesmo ter curso de paraquedista. Ele comandou de 1970 a 1974,[32] período longo comparado a seus antecessores nos anos 60,[33] sendo conhecido como o "pacificador dos paraquedistas".[31]

Elementos da Brigada combateram a Guerrilha do Araguaia de 1972 a 1975. A bem-sucedida operação Marajoara, na sua fase final, contou com 750 homens da Brigada Paraquedista e do Centro de Instrução de Guerra na Selva.[34] Sua participação se deveu à sua qualidade de adestramento[35] e habilidades na selva desenvolvidas desde o resgate ao avião Presidente, caído na região amazônica em 1952. Foi importante naquele momento a capacidade de rápido acesso a qualquer ponto no território nacional, justificando também a participação em Aragarças e Jacareacanga.[36] A Guerrilha deixou grande impacto na sua memória coletiva.[37] Na primeira metade dos anos 70 a Brigada especializou-se na "guerra revolucionária", participando da repressão da luta armada não só no Araguaia, como também no Rio de Janeiro. Após 1975, com o esgotamento dos adversários e a abertura política, a instrução voltou a focar nas operações aeroterrestres, embora unidades especializadas prosseguiram nos seus estudos de contrainsurgência.[38]

Em 1977 foi integrada aos preparativos do presidente Geisel para demitir seu ministro do Exército, o general Sílvio Frota. Hugo de Abreu, agora chefe do Gabinete Militar, deixou um emissário na Vila Militar para que, se necessário, a Brigada pudesse ser usada em qualquer lugar do país. No dia da demissão, solicitou que um batalhão fosse deixado pronto para embarcar para Brasília, o que combinou também com a 5ª Força Aérea de Transporte. Seu temor era uma reação de batalhões leais ao ministro, o que não se materializou.[39]

A Operação Traíra, lançada em 1991 contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, empregou o 1º Batalhão de Forças Especiais, que ainda pertencia à Brigada, junto com os helicópteros da Aviação do Exército.[40]

De 1992 a 2020, participou de 40 das 138 operações de garantia da lei e da ordem das Forças Armadas, sendo a segurança de pleitos eleitorais a categoria mais numerosa. Destacaram-se por suas dimensões as operações Arcanjo, em 2010, e São Francisco, em 2014, consistindo nas ocupações dos complexos do Alemão e da Penha, na primeira, e da Maré, na segunda. A Brigada também contribuiu efetivos para a intervenção da Organização dos Estados Americanos na República Dominicana, em 1965, e vários contingentes de paz das Nações Unidas.[41]

PessoalEditar

 
No desfile de Sete de Setembro, 2003

É composta apenas de soldados voluntários, ao contrário da maioria das outras unidades, nas quais o serviço militar obrigatório é necessário para preencher as fileiras. Isso, associado à mística paraquedista, eleva o moral da tropa,[42] que é tida como de elite, com o 26º batalhão, o "Santos Dumont", sendo o mais prestigiado dos três.[43] A Brigada se distingue por uma série de tradições e símbolos. Entre eles estão o "boot" marrom, o brevê prateado, com asas e um paraquedas no centro, a boina grená e o símbolo da águia com asas abertas. Há a ideia de reduzir o distanciamento entre oficiais e praças, já que correm riscos iguais. As tradições reforçam tanto a igualdade dentro da Brigada quanto a diferença entre seus membros e os demais militares.[44]

Os voluntários típicos vêm das Zonas Norte e Oeste do município e da Baixada Fluminense. Para suas condições ("Poucos chegaram ao ensino médio"), os salários são atrativos (em 2010, R$ 800, chegando a R$ 2 mil para um cabo) e as chances de emprego na vida civil são melhores, especialmente na segurança privada. Porém, todas as regiões da cidade e do estado apresentam candidatos, e jovens do restante do Sudeste e do Sul vão ao Rio de Janeiro para a possibilidade de servirem na Brigada. O recrutamento é criterioso, aceitando até o primeiro teste físico apenas mil de seis mil voluntários apresentados no ano anterior, e o treinamento, exigente.[23][45] A proporção do efetivo em funções administrativas é grande, incluindo de militares de Intendência ou formados em Administração, Contabilidade e Direito.[46]

No Exército há preocupação com o desejo do narcotráfico de recrutar soldados paraquedistas que já saíram do serviço. As habilidades adquiridas no treinamento são recursos poderosos para as gangues, que também visam o resto do Exército e os Fuzileiros Navais. A possível relação dos voluntários com o tráfico é monitorada durante a seleção, e essa preocupação foi um dos motivos da ideia de transferir a unidade para o Planalto Central. Comparadas às centenas de paraquedistas que deixam o serviço todo ano, as estimativas de participantes no tráfico são pequenas (por exemplo, 15–20 em 2002), embora o número real possa ser muito maior.[47][23]

O risco de lesões faz parte do paraquedismo. Entre os paraquedistas da Brigada, as mais numerosas são nos membros inferiores, especialmente no tornozelo. O atendimento médico é no Destacamento de Saúde da Brigada e Hospital de Guarnição da Vila Militar.[48]

Organizações Militares atuaisEditar

 
Precursores paraquedistas

Todas as organizações subordinadas estão no Rio de Janeiro.[49]

  • Comando da Brigada de Infantaria Paraquedista
  • Companhia de Comando da Brigada de Infantaria Paraquedista
  • 25º Batalhão de Infantaria Paraquedista
  • 26º Batalhão de Infantaria Paraquedista
  • 27º Batalhão de Infantaria Paraquedista
  • 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista
  • 20º Batalhão Logístico Paraquedista
  • Batalhão de Dobragem, Manutenção de Paraquedas e Suprimento pelo Ar (DOMPSA)
  • Companhia de Precursores Paraquedista
  • 1º Esquadrão de Cavalaria Paraquedista
  • 21ª Bateria de Artilharia Antiaérea Paraquedista
  • 1ª Companhia de Engenharia de Combate Paraquedista
  • 20ª Companhia de Comunicações Paraquedista
  • 36º Pelotão de Polícia do Exército Paraquedista
  • Centro de Instrução General Penha Brasil
  • Destacamento de Saúde Paraquedista

A cavalaria paraquedista é uma categoria única.[50] Foi criada como força motorizada, com jipes e motocicletas, e a intenção de futuramente usar veículos blindados, o que não chegou a ocorrer.[51] O DOMPSA e os precursores também são peculiares à Brigada, ambas com cursos próprios. O batalhão tem oficiais e sargentos de Intendência e faz o lançamento aéreo de cargas, além de zelar pelos paraquedas e outros materiais aeroterrestres. Os precursores saltam antes da tropa comum, operam as zonas de desembarque, ajudam a reorganizar os paraquedistas que desceram, fazem reconhecimento e coletam inteligência.[52][53]

Ver tambémEditar

Notas

  1. Kuhlmann 2007, p. 117, nota que "Apesar de poder ser lançada em pontos bem distantes, carece de meios adequados para operações aeroterrestres,como viaturas adequadas ao aerotransporte ou lançamento. Esse fato foi verificado pessoalmente quando, no período de 1989 a 1994, foi observado que o plano de embarque e carregamento do 8º Grupo de Artilharia de Campanha era inviável, exigindo muito mais aeronaves do que o grupo de artilharia norte-americano que atuou na II Guerra Mundial (citado no livro GAVIN, James M., Até Berlim - As batalhas de um comandante pára-quedista (1943-1946). Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1982, Vol. 1 e 2). O problema persiste, de acordo com informações recentes. Além dessa incapacidade funcional, depende da Força Aérea para o seu lançamento, fato que, em momento de guerra, pode causar a inviabilização pela utilização dos meios aéreos para finalidades intrínsecas à Força Aérea."

ReferênciasEditar

Citações

  1. Bruno 2010, p. 108.
  2. Serrão 2017, p. 88.
  3. Bda Inf Pqdt — Comandante. Consultado em 27 de agosto de 2021.
  4. a b Machado 2017, p. 520.
  5. Cortinhas 2020.
  6. Magalhães 2019, p. 2-3 e 6.
  7. Serrão 2017, p. 87.
  8. Bruno 2010, p. 52.
  9. Viana 2020, p. 64-65.
  10. Viana 2020, p. 81-86.
  11. Viana 2016, p. 195-197.
  12. Viana 2016, p. 197-202.
  13. Viana 2020, p. 139-140.
  14. Kuhlmann 2007, p. 109-110.
  15. Pedrosa 2018, p. 107-108.
  16. Pedrosa 2018, p. 213.
  17. Viana 2020, p. 197-198.
  18. Viana 2020, p. 244-245.
  19. Pedrosa 2018, p. 165.
  20. Pedrosa 2018, p. 184.
  21. Viana 2020, p. 171-172 e 257-258.
  22. COPESP – Breve Histórico do Comando de Operações Especiais. Consultado em 28 de agosto de 2021.
  23. a b c O Globo, 4 de abril de 2010.
  24. Viana 2020, p. 272-274.
  25. Markun & Urchoeguia 2017, cap. 13.
  26. a b Casali, s/d.
  27. Parucker 2006, p. 143.
  28. Viana 2020, p. 224-227.
  29. Viana 2020, p. 210.
  30. Viana 2020, p. 284.
  31. a b Viana 2020, p. 261.
  32. Viana 2020, p. 202-205.
  33. Viana 2020, p. 241.
  34. Viana 2020, p. 274-279.
  35. Magalhães 2019, p. 8.
  36. Viana 2020, p. 254 e 271-272.
  37. Viana 2020, p. 279-282.
  38. Viana 2020, p. 248-250.
  39. Abreu 1979, p. 132-133 e 146-147.
  40. Silva 2020, p. 6.
  41. Viana 2020, p. 335-340.
  42. Kuhlmann 2007, p. 1.
  43. Bruno 2010, p. 52-53.
  44. Machado 2017.
  45. Viana 2020, p. 21-22.
  46. Serrão 2017.
  47. Varsori 2020.
  48. Baptista et al. 2007.
  49. Bda Inf Pqdt — Organizações Militares. Consultado em 24 de agosto de 2021.
  50. Paula 2020.
  51. Pedrosa 2018, p. 174.
  52. Cortinhas 2020, p. 9.
  53. Viana 2020, p. 170-171.

FontesEditar

Ligações externasEditar