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Disambig grey.svg Nota: se procura o bairro da capital da Bahia, veja Cabula (Salvador).

Cabula é o nome pelo qual foi chamada, na Bahia, uma religião afro-brasileira surgida no final do século XIX, de caráter secreto, sincretizadora de leque malê, banto e espírita. É classificada como candomblé de caboclo, uma modalidade derivada da nação angola que incorporou o culto dos antepassados indígenas e é considerada como precursora da umbanda. Essa vertente desenvolveu-se principalmente nos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Olga Cacciatore o definiu como um "um culto afro-brasileiro de características sincréticas, com traços de cultura cabinda, angola e muçulmana, por influência malê, identificável pelo gorro usado pelos participantes do ritual".[1]

HistóricoEditar

Segundo a descrição preconceituosa realizada na obra de 1934 "O Negro Brasileiro" do médico e antropólogo Artur Ramos, de um ritual existente na capital baiana e identificado possivelmente no final do século anterior, que ele diz ser denominado Acabula[2]

A população negra estabelecida no bairro do Cabula (local de marcada influência africana e sede de importantes locais de culto afro-brasileiro como o Ilê Axé Opó Afonjá) seria remanescente do Quilombo do Orobó, rebelada em 1826 e a seguir praticamente dizimado, guardando no nome do lugar a origem religiosa pois, em quicongo, o nome significaria "lugar de afastamento dos males", já que este é o objetivo do toque musical chamado cabula que antecede os rituais de origem angolanas.[2] Já para Olga Cacciatore o termo derivaria por corruptela de cabala — termo que teria sido passado aos bantos pelos malês convertidos ao islã.[1]

Os primeiros relatos acadêmicos derivam do registro feito, no Espírito Santo, pelo bispo católico D. João Batista Correia Néri em uma Carta Pastoral; seu registro fora inicialmente descoberto por Nina Rodrigues e mais tarde reusado por Artur Ramos, apresentando grandes semelhanças entre o culto ali praticado e aquele registrado no que mais tarde receberia o nome de macumba, no Rio de Janeiro.[1]

D. Néri percebera, durante uma viagem às terras de sua diocese (então composta por todo o território do estado), nas proximidades da cidade de São Mateus, "três freguesias largamente minadas por uma seita misteriosa" que, despertando-lhe a curiosidade, empreendeu então uma investigação onde apurou — pelo depoimento de pessoas de todas as camadas sociais, e durante o espaço de quinze dias — que os participantes ou aqueles que da seita tenham se afastado, teriam de manter em segredo suas práticas sob pena de morte por envenenamento.[1]

A despeito da ameaça, o bispo obtivera dos relatos as informações que fizeram-no concluir que os rituais secretos, praticados principalmente pelos negros e, segundo ele, mais difundidos após a Lei Áurea, contaria na época com cerca de oito mil seguidores, entre negros e brancos.[1]

Terminologia históricaEditar

Segundo a Carta Pastoral do bispo D. Néri, o adepto era denominado cafioto, termo que guarda semelhança com a macumba carioca pois, segundo Magalhães Correia este era o termo pelo qual estes se denominavam primitivamente; entre si eram chamados de cambas (do quimbundo Kamba) significando "camarada" onde os homens eram mucambos e as mulheres macambas; os iniciados recebiam a denominação de camanás (que também era sinônimo de irmão de culto), ao passo em que os estranhos e profanos eram os caialos; o lugar das reuniões e cultos era chamada camucite.[1]

LiturgiaEditar

Assim como na umbanda, o traje ritual era composto de calça e jaleco brancos, com pés descalços; Cacciole informa que havia ainda o gorro (ou camate), ao estilo muçulmano e também "largos cinturões com amuletos"; no rito propriamente a pesquisadora indica que havia espelhos, pedras, cachimbos, infusões com raízes e outros apetrechos dispostos em sinais cabalísticos (como o Signo de Salomão), cruzes e velas (que guardam semelhança, ainda, com a macumba).[1]

As reuniões eram chamadas de "Mesa" e seus cultos, "trabalhos" e "mesas" se davam no meio da mata; o dirigente da Mesa, tal como o sacerdote das religiões dos bantos, se chamava embanda, auxiliado por um cambone; a reunião dos camanás ou iniciados recebia o nome de engira e nestas a incorporação dos "tatás" (espíritos) ocorria — derivado do quimbundo para "pai", indica a presença de um espírito familiar, seguindo a tradição dos bantos de realizarem um transe de possessão (o termo, pronunciado tata, persiste nos terreiros de umbanda que mantém-se fiéis às tradições angolanas).[1]

D. Néri relatou que os rituais podiam ocorrer nas casas, mas mais comumente se davam nas florestas, no meio da noite: "à hora aprazada, todos de camisa e calças brancas, descalços, uns a pé, outros a cavalo, com o embanda à retaguarda, dirigiam-se silenciosos ao templo, o camucite. Um camaná ou um cambone ia à frente, conduzindo a mesa, isto é, a toalha, a vela e pequenas imagens. Em determinado ponto do caminho tomavam uma vereda, só conhecida dos iniciados, para chegar ao camucite, o sítio sob uma frondosa árvore, no meio da mata."[1]

No relato do prelado católico haviam "duas mesas capitulares: a de Santa Bárbara e a de Santa Maria, subdividindo-se em muitas outras, com as mesmas denominações" e que, embora em relatos não confirmados, também haveria uma terceira mesa dedicada a Cosme e Damião e que esta seria "mais misteriosa e mais central e que exercia uma espécie de fiscalização suprema sobre as duas outras e cujos iniciados usavam nas reuniões compridas túnicas pretas, que cobriam o corpo todo, desde a cabeça até os pés, à semelhança do saco dos antigos penitentes".[1]

Era a seguir entoado um primeiro cântico (nimbu) após o qual se dava a possessão do embanda, segundo D. Néri: "o embanda em contorsões, virando e os olhos [com] trejeitos, [batia] no peito com as mãos fechadas e, compassadamente, emitindo roncos profundos, afinal, [dava] um grito estridente, horroroso", ao que a seguir era servido pelo cambono por infusão de raízes ou um copo de vinho.[1]

Novo imbu era entoado dedicado ao "baculo do ar" como se lhes pedissem permissão para que entrasse no transe, caindo por terra (notando aqui uma incoerência no relato do bispo, uma vez que o transe já havia ocorrido após o primeiro canto).[1]

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l Valdeli Carvalho da Costa. «Cabula e Macumba». Síntese, nº 41, pp. 65-85, 1987. Consultado em 30 de julho de 2019. Cópia arquivada em 30 de julho de 2019 
  2. a b Janice de Sena Nicolin. «História e Cultura da África Reterritorializada no Cabula - A Sociabilidade Cabuleira». artebagacodeart.art.br. Arquivado do original em 30 de abril de 2014 
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