Casa Branca do Engenho Velho

casa de candomblé

O terreiro da Casa Branca do Engenho Velho (Ilê Axé Iá Nassô Ocá), mantido pela Sociedade São Jorge do Engenho Velho, é um templo de candomblé do município de Salvador, no estado brasileiro da Bahia.[6]

Terreiro da Casa Branca
(Ilê Axé Iá Nassô Ocá)
Vista interior do barracão
Tipo Templo
Inauguração Na Barroquinha: década de 1830[1][2]
No Engenho Velho: 1890[3]
Presidente Neuza Conceição Cruz[4]
Religião Candomblé Queto
Regentes: Xangô, Oxum, Obaluaiê[1]
Património
Classificação nacional IPHAN (1986)[5]
Geografia
País Brasil
Local Salvador, BA
 Brasil
Coordenadas 12° 59' 49" S 38° 29' 42" O

Fundado na década de 1830, é o terreiro de culto afro-brasileiro mais antigo do qual se tem registros na capital baiana, e possivelmente o mais antigo em funcionamento no Brasil.[6][7] Constituído de uma área aproximada de 6.800 m², com as edificações, e áreas verdes, é o primeiro monumento da cultura negra considerado Patrimônio Histórico do Brasil, tombado pelo IPHAN em 1986.[6]

DescriçãoEditar

 
Símbolos de Xangô no telhado
 
Bandeira branca

O Terreiro é de Oxóssi e o Templo principal é de Xangô. O Barracão que tem o nome de Casa Branca, é uma edificação alongada com várias divisões internas que encerram residências das principais pessoas do Terreiro, como também espaços reservados aos quartos de Orixás, quarto de [[Axé] (candomblé)|axé]], Salão onde se realizam as festas públicas, bem como a cozinha onde se preparam as comidas sagradas.[8] Uma bandeira branca hasteada no Terreiro indica o carater sagrado deste espaço. No telhado do Barracão, símbolos de Xangô identificam o Patrono do Templo.

O terreno fica situado numa encosta que se estende até uma cota de 30,00 m com declividade de 30%, no lado direito da atual avenida Vasco da Gama, no sentido de progressão para o Rio Vermelho, entre as Ladeiras Manoel do Bonfim e do Bogum, na Unidade Espacial C-5 em Salvador. Ocupa uma área de 6.000 m² com várias casas de Orixás ao redor do Barracão.

HistóriaEditar

 
Vista da encosta do terreiro, em foto antiga

No período da escravidão no Brasil,[9] os negros formavam suas comunidades nos engenhos de cana. Na Bahia, princesas, na condição de escravas, vindas de Oió e Queto, fundaram um centro num engenho de cana. Depois se agruparam num local denominado Barroquinha, onde fundaram uma comunidade de Nagô Ilê Axé Airá Intilé também conhecida como Candomblé da Barroquinha, que segundo historiadores, remonta mais ou menos 300 anos de existência, dentro do perímetro urbano de Salvador.[10]]

Sabe-se que esta comunidade fora fundada por três negras africanas cujos nomes são: Adetá ou Iá Detá, Iá Calá, Iá Nassô e os babalaôs Assicá e Banboxê Obitikô[11]. Não se tem certeza de quem plantou o axé, porém o Engenho Velho se chama Ilé Iá Nassô Ocá. Os africanos que se encontravam ali, lugar deserto naquela época, porém próximo ao Palácio de sua Real Majestade, tiveram receio da intervenção das autoridades no seu Culto, daí, Iá Nassô resolveu arrendar terras do Engenho Velho do Rio Vermelho de Baixo, no trecho chamado Joaquim dos Couros, lugar onde se encontra até hoje, estabelecendo aí o primeiro Terreiro de Culto Africano na Bahia.

A Iá Marcelina da Silva, sucedeu Iá Nassô. Após a morte desta, duas das suas filhas, Maria Júlia da Conceição e Maria Júlia Figueiredo, disputaram a chefia do candomblé, cabendo à Maria Júlia Figueiredo que era a substituta legal (iaquequerê) tomar a posse de Mãe do Terreiro. Maria Júlia da Conceição afastou-se com as demais dissidentes e fundaram outra Ilé Axé, o (Terreiro do Gantois).

Substituiu Maria Júlia Figueiredo na direção do Engenho Velho, a Mãe Sussu (Ursulina de Figueiredo). Com a sua morte nova divergência foi criada entre suas filhas, Sinhá Antonia, substituta legal de Sussu, por motivos superiores não podia tomar a chefia do Candomblé, em consequência o lugar de Mãe foi ocupado por Tia Massi (Maximiana Maria da Conceição).

Vencendo o partido da Ordem, dissidentes inconformados fundaram então uma outra Ilé Axé, o (Ilê Axé Opô Afonjá), casa onde foi confirmado como Ojubonã de Xangô, o Babalaô Pierre Fatumbi Verger. Sendo assim a primeira casa no Brasil a dispor de ligação direta com a cultura iorubá, renascendo outro Fatumbi no Aiê ao nascer um no Orum, no mesmo dia e mês, promessa de Olorum.

Maximiana Maria da Conceição, Tia Massi foi sucedida por Maria Deolinda, Mãe Oquê. A direção sacerdotal do Engenho Velho foi posteriormente confiada à Marieta Vitória Cardoso, Oxum Niquê, recentemente desaparecida.

Atualmente, assumiu a chefia da Casa, a Ialorixá Altamira Cecília dos Santos, filha legítima de Maria Deolinda dos Santos, carinhosamente chamada de "Papai Oquê".

Situação atualEditar

 
Coroa de Xangô, no interior do barracão

No iníco, as atividades do Ilé Axé sofreram perseguições da Sociedade e por parte da Polícia. Já no período da República, o candomblé fora proibido de exercer as suas atividades e os Terreiros ficaram subjugados à Delegacia de Jogos, Entorpecentes e Lenocínio.

Hoje porém a situação é diferente. Existe na Prefeitura de Salvador, o Projeto Mamnba da Pro-Memória, sob a direção do Antropólogo Ordep José Trindade Serra, cujo objetivo é proceder o Mapeamento de Sítios e Monumentos Religiosos Negros na Bahia.

Em 14 de junho de 1986, o Ministério da Cultura, a Prefeitura Municipal de Salvador e o Ministério da Relações Exteriores, em conjunto lançaram oito postais sobre a Ilé Axé Iá Nassô Ocá e a revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional publicou - A Coroa de Xangô no Terreiro da Casa Branca - em separata do número 21/1986. Chegou então a hora da proteção a todos os Terreiros de Candomblé do Estado. Língua iorubá nos Currículos de 1º e 2º graus.

Diante da solicitação da Sociedade Beneficente São Jorge do Engenho Velho, conforme fundamentação e comprovação firmada pelo presidente, Sr. Antonio Agnelo Pereira, cultor de etnografia afro e diplomado em Língua iorubá pelo Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia, o Conselho Estadual de Educação aprovou introdução da língua iorubá nos Currículos de 1º e 2º Graus nos Colégios de Rede de Ensino do Estado.

O Ilé Axé Iá Nassô é o 1º Templo de Culto Religioso Negro no Brasil - Casa Branca do Engenho Velho.

É o primeiro Monumento Negro considerado Patrimônio Histórico do Brasil desde o dia 31 de maio de 1984 (Tombamento do Terreiro do Engenho Velho):

  • O Tombamento Terreiro Casa Branca, foi realizado em 14 de Agosto de 1986 pelo IPHAN.[12][13]
  • Livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico Inscrição:093
  • Livro Histórico, Inscrição:504, Nº Processo:1067-T-82

Antes disso, em 1982, o Terreiro já havia sido tombado como Patrimônio da Cidade do Salvador 1ª Capital do Brasil.

Em 1985 o Terreiro do Engenho Velho foi considerado Axé Especial de preservação Cultural do Município de Salvador.

A Sociedade São Jorge do Engenho Velho, representante legal da Comunidade do Ilé Axé Iá Nassô Ocá foi considerada de utilidade pública Municipal e Estadual. É Membro do Conselho Geral do Memorial Zumbi dos Palmares.

Atualmente está feito o Plano de preservação do Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho e prepara-se o Projeto de Recuperação da área em convênio com o Ministério da Cultura e a Prefeitura Municipal do Salvador.

O Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho, mais antigo do Brasil, tem como Ialorixá a Venerável Altamira Cecília dos Santos, secundada pelas veneráveis Iaquequerê Juliana da Silva Baraúna e Otum iaquequerê Areonite da Conceição Chagas.

Possui um vasto Colégio Sacerdotal composto pelas Iabomim, Ogãs e Olossés, além de muitas iaôs e Abiãs. Deu origem a inúmeros Templos afro-brasileiros, e possui ligação e respeito a cultura iorubá, representada na Bahia por Fatumbi e na África pelos Babalaôs .

Sociedade São Jorge do Engenho Velho (1943)Editar

A Sociedade Beneficente e Recreativa São Jorge do Engenho Velho que representa o candomblé da Casa Branca, foi fundada a 25 de julho de 1943, registrada no Cartório Especial de Títulos e Documentos em 2 de maio de 1945 sob nº 15.599, declarada de utilidade pública pela Lei Municipal 759 de 31 de dezembro de 1956, é regida por Estatuto e tem personalidade jurídica.

Sua Diretoria é composta por um presidente, um vice, 1º e 2º secretário, 1º e 2º tesoureiro. Assembleia geral, com presidente, 1º e 2º secretários. Comissão fiscal, composta por três membros. Atualmente a Diretoria da Sociedade é exercida pelo Sr. Antônio Agnelo Pereira. Ministro de Oxalá, Oxogum e Obalaxé do Ilé Iá Nassô Ocá, Casa Branca. A Diretoria de Honra da Entidade é composta pela Trilogia Sacerdotal do Axé, atualmente representada nas pessoas da Iá Altamira Cecília dos Santos, Iá Juliana da Silva Baraúna e Iá Areonite da Conceição Chagas. Existe ainda a Diretoria do Patrimônio e uma Comissão de Defesa do Patrimônio.

SacerdotisasEditar

 
Casa dos Ancestrais

Calendário de festasEditar

As obrigações religiosas da Ilé Axé começam no fim de maio ou princípio de junho com a Festa de Oxóssi. No dia de Corpus Christi tem a tradicional Missa de Oxóssi

A Festa de Airá tem lugar a 29 de junho.

Na última sexta-feira de agosto, realiza-se a Cerimônia das Águas de Oxalá, seguindo-se os três domingos consecutivos, nos quais se festeja Odudua no primeiro, Oxalufã no segundo e a Festa do Pilão em homenagem a Oxaguiã, no último domingo.

Na segunda-feira imediata, festeja-se Ogum e na seguinte Omolu.

Havendo no entanto, um espaço para iniciação de novas filhas, prossegue as festas em louvor a Iansã, Xangô, Festa das Iabás e Oxum, terminando o ciclo festivo no final de novembro.

O Alaiandê Xirê Ipadé Lomim - Encontro das Águas na Avenida Vasco da Gama, aconteceu de 15 a 18 de novembro de 2007 na Casa Branca do Engenho Velho, devendo retornar ao referido terreiro na 12ª edição, em 2009

Referências

  1. a b SANTOS, J. T. (coord.). "Ilê Axé Iyá Nassô Oká (Terreiro da Casa Branca)". In: Mapeamento dos terreiros de Salvado [Online]. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais, UFBA, s.d. link.
  2. MORIM, Júlia. Terreiro Casa Branca/Ilê Axé Iyá Nassô Oká. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. link.
  3. SERRA, Ordep. Ilê axé Iyá Nassô Oká/Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho - Laudo Antropológico de autoria do professor doutor Ordep José Trindade Serra da Universidade Federal da Bahia. 2008. link.
  4. a b Line, A. TARDE On. «Mãe Neuza Cruz, filha de Xangô, é a nova ialorixá da Casa Branca». Portal A TARDE. Consultado em 9 de dezembro de 2020 
  5. INFOPATRIMÔNIO. "Salvador – Terreiro da Casa Branca". In: Procure bens culturais [Online]. s.d. link.
  6. a b c «Terreiro Casa Branca / Ilê Axé Iá Nassô Ocá». Fundaj. Consultado em 12 de abril de 2019 
  7. Reginaldo., Prandi, J. (1991). Os candomblés de São Paulo : a velha magia na metrópole nova (PDF). São Paulo: Editora Hucitec. p. 16. ISBN 8531400341. OCLC 25711183 
  8. SILVA, Vagner Gonçalves da. "Planta do Terreiro do Engenho Velho (Salvador - BA)". In: Candomblé e Umbanda – caminhos da devoção brasileira. São Paulo: Selo Negro Edições, 2005. p. 64. link.
  9. Templo Iorubá
  10. OLIVEIRA, José Abade. Notícia sumária sobre a Casa Branca. In: III Conferência Mundial da Tradição dos Orixás e Cultura, Nova Iorque, 1986. [Cf. "Transcrição completa do livreto em homenagem a mais antiga casa de axé do Brasil", in Blog do Oríosê, novembro de 2011, link.
  11. Um resgate da história do Candomblé da Barroquinha
  12. Revista do IPHAN escreve sobre os terreiros tombados pdf
  13. Velho, Gilberto (abril de 2006). «Patrimônio, negociação e conflito». Mana. 12 (1): 237–248. ISSN 0104-9313. doi:10.1590/S0104-93132006000100009 
  14. «Nova mãe de santo do terreiro Casa Branca é escolhida, em Salvador». G1. Consultado em 9 de dezembro de 2020 

Ligações externasEditar

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