Castelo de Alferce

Disambig grey.svg Nota: Este artigo é sobre o Castelo de Alferce, igualmente conhecido como Cerro do Castelo de Alferce. Se procura o sítio arqueólogico com nome semelhante, igualmente situado no concelho de Monchique, veja Cerro do Castelo da Nave.
Castelo de Alferce
Castelo de Alferce 17 - Monchique - 08.11.2019.jpg
Vista geral da colina onde se situa o Castelo de Alferce, em 2019.
Mapa de Portugal - Distritos plain.png
Construção (Idade do Bronze - Período islâmico)
Estilo
Conservação Mau
Homologação
(IGESPAR)
SIP
(DL Portaria n.º 429-A/2013 de 28 de Junho de 2013)
Aberto ao público Sim
Site IHRU, SIPA34026
Site IGESPAR12002901
Castelo de Alferce
Localização do Castelo
37° 19′ 17,19″ N, 8° 29′ 27,47″ O

O Castelo de Alferce, oficialmente conhecido como o Sítio Arqueológico do Cerro do Castelo de Alferce, e igualmente conhecido como Castelo da Pedra Branca, é um monumento situado na freguesia de Alferce, parte do concelho de Monchique, na região do Algarve, em Portugal. Corresponde a uma antiga povoação fortificada da Idade do Bronze, tendo sido transformada numa fortaleza durante o domínio muçulmano.[1] O Castelo foi classificado como Sítio de Interesse Público em 2013.[1][2]

Zona a Norte do Castelo de Alferce. A povoação à direita é o Alto de Baixo.

DescriçãoEditar

Localização e composiçãoEditar

O castelo está situado nas imediações da aldeia de Alferce,[3] no alto de um cabeço elevado, denominado de Cerro do Castelo.[1] Este monte estava situado num ponto isolado,[4] fazendo parte da zona oriental da Picota, na Serra de Monchique.[1] Este cerro, que atinge uma altura de 488 m., apresentava boas condições naturais de defesa,[5] e possibilitava a viligância de uma grande extensão de território, que incluía a Picota, a faixa litoral, as estradas de Silves a Monchique, e a bacia da Ribeira de Odelouca.[6]

O castelo possuía três ordens de muralhas.[1] A muralha exterior foi instalada de forma a adaptar-se ao terreno, rodeando todo o cerro, e protegendo uma vasta área, com cerca de 2,1 Ha, de forma alongada no sentido Norte-Sul.[1] No interior existia uma segunda muralha, enquanto que uma terceira foi identificada como um reduto fortificado no centro do cerro.[1] Esta fortificação situava-se no ponto mais alto do monte, tendo sido identificado como um qasr ou alcácer (recinto fortificado muçulmano),[7] e estava situado a cerca de 36 m da segunda muralha.[2] Também no recinto da segunda muralha existia uma zona residencial, situada imediatamente a Oeste e Norte do forte, e que foi identificada devido aos vestígios de cerâmica.[1] Uma possível segunda zona habitacional foi encontrada junto ao cume do cerro, no lado Oeste, entre as cinturas de muralhas central e exterior.[2] Ambas as cinturas de muralhas e o forte foram construídas com blocos de sienito, unidos com barro de grão fino.[2] O forte também apresentou vestígios de reboco com cal, tendo sido construído com um aparelho de pedras muito regular.[2] A alguma distância do lanço Leste da muralha foi descoberta uma cisterna, construída com um aparelho argamassado de cal, e que tinha 4 m de comprimento por 2,2 m de largura, e 1,5 m de altura.[2] O alcácer apresentava uma forma pentagonal, tendo em cada canto uma torre quadrangular, anexada de forma exterior à muralha.[3] Por seu turno, a muralha intermédia também era pentagonal, embora não apresentasse a mesma orientação do que o alcácer, uma vez que a sua quinta parede estava orientada para poente, enquanto que a do alcácer estava virada para nascente.[3] Os motivos para esta divergência não são conhecidos, embora Fábio Capela, arqueológo da Câmara Municipal de Monchique, tenha avançado que poderia ter sido por motivos militares ou para uma melhor adaptação ao terreno.[3]

ProtecçãoEditar

O Sítio Arqueológico do Cerro do Castelo de Alferce foi classificado como sítio de interesse público pela Portaria n.º 429-A/2013, de 28 de Junho, publicada no Diário da República n.º 132, Série II, de 28 de Junho de 2013.[1]

 
Vestígios de uma muralha, com uma disposição das pedras no sistema de espinha.

HistóriaEditar

Ocupação originalEditar

O sítio arqueológico foi habitado em dois períodos principais, durante a pré-história e o domínio muçulmano.[1] A primeira fase de ocupação remonta aos finais da Idade do Bronze, desde os finais do segundo milénio a.C. até ao primeiro quartel do Século I d.C., sendo uma povoação fortificada com alguma importância a nível político e cerimonial.[1] No entanto, é possível que o local tivesse já sido habitado anteriormente, desde o período do Calcolítico, entre os terceiro e segundo milénios a.C.[6] A segunda fase iniciou-se no Século IV e terminou no Século XI, quando foi abandonado o castelo.[1] Esta segunda fase pode ser subdividida em dois períodos, um inicial com a construção do castro provavelmente durante o Século V, e depois o seu aproveitamento como um hisn, ou recinto fortificado islâmico, a partir do Século VIII.[1] Esta fortificação serviria provavelmente como apoio ao Castelo de Silves, sendo parte do grupo das fortificações do periodo emiral no Algarve, entre os séculos X e XI, que inclui igualmente o Castelo Velho de Alcoutim e o Castelo das Relíquias.[2] Com efeito, a partir da sua posição dominava uma das principais vias de acesso a Silves, situação semelhante à do Castelo Belinho, situado igualmente nas imediações daquela cidade.[4]

Após o abandono, as pedras das estruturas foram sendo progressivamente retiradas pelas populações, restando apenas partes das muralhas, as bases dos torreões, e uma cisterna.[6] Este processo de destruição também foi causado por actividades agrícolas, vandalismo e escavações clandestinas, tendo-se intensificado principalmente ao longo do Século XX.[8]

 
Vestígos da cisterna, no interior do alcácer islâmico.

RedescobertaEditar

Séculos XVIII e XIXEditar

O castelo já era conhecido pelo menos desde o Século XVIII, tendo sido encontrada uma referência à sua existência no Diccionario Geographico do padre Luís Cardoso, editado entre 1747 e 1751, e copiada por A. Mesquita de Figueiredo:[9]

Na sua obra Glossario critico dos principaes monumentos do Museu Archeologico infante D. Henrique, o cónego Joaquim Botto anotou que o prior de Alferce, Cabrita Neves, tinha oferecido ao Museu de Faro duas peças do período pré-histórico, encontradas no sítio do Castello, que constitiam numa ferramenta, provavelmente uma enxó, e um pequeno vaso de cerâmica.[10] Joaquim Botto relatou igualmente que tinham sido encontradas três camadas de ocupação no local, sendo a mais profunda, a cinco metros de profundidade, do neolítico, estando coberta por vestígos luso-romanos, que por sua vez eram encimados por edifícios do período islâmico.[10] Também foram encontrados vários grandes fragmentos de cerâmica na propriedade de João dos Santos, no sítio do Castelo, tendo algumas das peças sido preservadas no Museu de Faro.[11] Estas foram descritas por Joaquim Botto como sendo vasos de produção bastante primitiva, em barro pouco cozido com vestígios de asas rudimentares.[11] Foram produzidos sem a utilização de uma roda de oleiro, embora mostrassem sinais de terem sido irregularmente polidos.[11] Outros fragmentos pertenciam a um peso de tecelagem, com sinais de desgaste pelo uso.[11] O vaso oferecido pelo prior de Alferce também tinha sido produzido em barro, e mostrava ter sido polido à mão.[11]

 
Vestígios de uma muralha, vendo-se ao fundo à direita a Barragem de Odelouca.

Século XXIEditar

Em 2002, foram feitos trabalhos arqueológicos no local, de sondagem e de relocalização e identificação.[5]

Em 2004, uma equipa de arqueólogos franceses e belgas fez escavações no sítio do castelo, tendo-se descoberto que o alcácer era de forma pentagonal e não quadrada, como tinha sido representado nos mapas mais antigos.[3] Em 2014, a Câmara Municipal de Monchique fez trabalhos de limpeza de vegetação no local, com o apoio do proprietário dos terrenos.[2] Em Fevereiro de 2016, foi noticiado que a autarquia estava a planear a realização de trabalhos arqueológicos no castelo, de forma a proceder ao seu estudo e valorização, estando nessa altura a preparar a futura construção de um centro interpretativo na aldeia de Alferce, e a organização de percursos de visita ao monumento.[2] Em 26 de Fevereiro o município assinou dois protocolos com a Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, no sentido de preservar, divulgar e valorizar o património no concelho, um deles relativo especificamente ao Castelo de Alferce.[2][12] Em Maio, a autarquia de Monchique assinou um protocolo de geminação com a vila espanhola de Montejaque, com o fim de aproximar os dois municípios e valorizar a sua herança islâmica, com destaque para o Castelo de Alferce.[13]

Em Agosto de 2017 uma equipa de arqueólogos, liderada por Fábio Capela,[6] fez duas sondagens de diagnóstico na face interna do segundo recinto amuralhado, na zona identificada como o alcácer, e numa plataforma a Oeste daquele forte, onde foram encontrados vestígios de ocupação pré-histórica.[7] Um dos propósitos desta investigação era descobrir as dimensões e a implantação do segundo recinto de muralhas.[6] Esta investigação melhorou os conhecimentos sobre o potencial estratigráfico e arqueológico em duas zonas diferentes do monumento que nunca tinham sido alvo de pesquisas, possibilitou um maior conhecimento sobre a fortaleza islâmica, e permitiu uma melhor organização de futuras investigações neste monumento.[7] Na primeira sondagem foi escavado o lado interno da muralha, tendo-se descoberto que virava para Sul, podendo continuar até ao canto Noroeste do forte islâmico, e sendo possível que tivesse uma forma pentagonal.[7] Também se constatou que a muralha passou por um processo de destruição, talvez durante o período omíada, e foi descoberto um grande número de fragmentos de cerâmica, alguns deles de forma articulada, e parte da mesma peça.[7] Na segunda sondagem Foram encontrados vários vestígios pré-históricos, incluindo cerâmica do segundo milénio a.C., embora não tenham sido encontradas quaisquer estruturas arqueológicas.[7] Além da cerâmica, foi encontrado um grande número de seixos, que tinham sido trazidos do rio. Entre as peças encontradas nesta zona, estava uma pedra furada, de forma rectangular trapezadoidal, que poderia ser um ídolo.[6] Durante as investigações, foi organizado um dia aberto à população, onde foi feita uma visita guiada ao monumento.[7] Além das escavações arqueológicas, em 2017 também se faziam trabalhos regulares de limpeza das ruínas, por parte dos donos dos terrenos, da freguesia de Alferce e da Câmara Municipal de Monchique.[6] Nesse ano, a autarquia também entrou em acordo com os proprietários, de forma a permitir o estudo do sítio arqueológico.[8]

No Verão de 2018, a zona do castelo de Alferce foi atingida durante um incêndio florestal, que devastou grande parte do concelho de Monchique.[14] Porém, a destruição da camada vegetal, que ao longo dos anos tinha crescido de forma descontrolada, possibilitou a realização de pesquisas arqueológicas em vários monumentos no concelho, incluindo no castelo de Alferce.[14] Desta forma, foi identificada a zona de entrada do complexo, e partes das muralhas que ainda não tinham sido registadas, permitindo calcular a área dentro dos muros, que seria de cerca de 9,5 Ha.[14] Em 9 de Setembro de 2019, um grupo de investigadores alemães da Universidade de Marburgo, coordenados pelo professor Felix Teichner (de) e apoiados por Fábio Capela, iniciou uma investigação nas ruínas do Castelo de Alferce.[3] Este processo, que abrangeu as duas principais áreas do sítio arqueológico, utilizou métodos não intrusivos, consistindo em diversas prospeções geofísicas para radiografar o terreno, permitindo desta forma saber se existem estruturas enterradas e a sua profundidade, facilitando as futuras escavações arqueológicas no local.[8] Esta investigação teve dois objectivos principais, encontrar possíveis estruturas pré-históricas e estudar a arquitectura do forte islâmico e da segunda cintura de muralhas, da qual apenas tinham sido identificados o lanço Norte e parte do Oeste.[8] No caso do forte islâmico, esperava-se confirmar se a sua entrada era feita no local identificado pela equipa de Fábio Capela em 2017.[3] Segundo Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique, naquela altura estava em preparação uma candidatura ao Plano Operacional Regional 2020 para financiar a valorização do sítio arqueológico, que consistia na instalação de sinalização e informação, na adaptação do antigo Centro de Convívio do Alferce num centro de interpretação, e na construção de um percurso pedestre entre a aldeia e o castelo, que deveria igualmente passar pelo famoso Barranco do Demo, unindo desta forma o património natural ao arqueológico.[8] As investigações de 2019 tiveram importantes resultados, tendo sido encontrada uma nova torre, e descobertos mais detalhes sobre a segunda linha de muralhas, que apresenta uma forma pentagonal, em vez de quadrada, como se julgava.[3]

 
Vestígios de uma muralha.

Ver tambémEditar

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m PORTUGAL. Portaria n.º 429-A/2013, de 28 de Junho de 2013. Presidência do Conselho de Ministros - Gabinete do Secretário de Estado da Cultura. Publicado no Diário da República n.º 132, Série II, de 28 de Junho de 2013.
  2. a b c d e f g h i j «Câmara de Monchique assina protocolo com Universidade do Algarve para estudar e valorizar o Castelo de Alferce». Sul Informação. 28 de Fevereiro de 2016. Consultado em 20 de Julho de 2019 
  3. a b c d e f g h RODRIGUES, Elisabete (12 de Setembro de 2019). «Investigação em curso no Castelo de Alferce revela novas descobertas arqueológicas». Sul Informação. Consultado em 20 de Julho de 2019 
  4. a b GOMES, 1998:135
  5. a b «Castelo de Alferce / Cerro do Castelo de Alferce / Castelo da Pedra Branca». Portal do Arqueólogo. Direcção Geral do Património Cultural. Consultado em 23 de Novembro de 2019 
  6. a b c d e f g RODRIGUES, Elisabete (1 de Setembro de 2017). «Mistérios do Castelo de Alferce desvendados em campanha arqueológica». Sul Informação. Consultado em 20 de Julho de 2019 
  7. a b c d e f g CAPELA, Fábio (21 de Setembro de 2017). «Escavações no Sítio Arqueológico do Cerro do Castelo de Alferce». Jornal de Monchique. Consultado em 20 de Julho de 2019 
  8. a b c d e PIRES, Bruno Filipe (9 de Setembro de 2019). «Arqueólogos alemães estudam Cerro do Castelo de Alferce». Barlavento. Consultado em 20 de Julho de 2019 
  9. FIGUEIREDO, A. Mesquita de (1895). «Informações archeológicas colhidas no «Diccionario Geographico» de Cardoso» (PDF). O Archeologo Português. Série I (Volume I). p. 241. Consultado em 20 de Julho de 2019 – via Direcção Geral do Património Cultural 
  10. a b BOTTO, 1899:12-13
  11. a b c d e BOTTO, 1899:35
  12. COUTO, Nuno (6 de Março de 2016). «Monchique prepara nova intervenção arqueológica no castelo de Alferce». Jornal do Algarve. Consultado em 22 de Julho de 2019 
  13. CLARO, Ricardo (11 de Maio de 2016). «Monchique gemina-se com Montejaque em Espanha». Postal do Algarve. Consultado em 22 de Julho de 2019 
  14. a b c «Monchique redescobre património arqueológico entre as cinzas do incêndio». Barlavento. 3 de Maio de 2019. Consultado em 22 de Julho de 2019 

BibliografiaEditar

 
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Ligações externasEditar