Centrão

conceito da política brasileira

Na política do Brasil, centrão refere-se a um conjunto de partidos políticos que não possuem uma orientação ideológica específica e tem como objetivo assegurar uma proximidade ao poder executivo de modo que este lhes garanta vantagens e lhes permita distribuir privilégios por meio de redes clientelistas. Apesar do nome, o centrão não se trata necessariamente de um grupo de espectro político-ideológico centrista, mas de um agrupamento de siglas de orientação conservadora,[1] geralmente composto por parlamentares do "baixo clero"[2] que atuam conforme seus próprios interesses, ligado a práticas fisiológicas.[3][4]

HistóricoEditar

O termo tem sua origem na Assembleia Constituinte de 1987, sendo usado para designar um grupo de partidos com perfil de centro-direita que uniu-se para apoiar o então presidente José Sarney com o objetivo de combater as propostas dos partidários de Ulysses Guimarães - acusados de serem progressistas - para o texto da nova Constituição. Cinco partidos integravam o centrão daquela época: PFL, PL, PDS, PDC e PTB, além de partes do PMDB. Os parlamentares do centrão conseguiram alterar a forma de aprovação do texto negociando apoio em troca de cargos e benesses.[5][6] Em 2 de junho de 1988, também conseguiram aprovar o mandato de cinco anos para Sarney.[7]

O centrão ganharia proeminência novamente com a formação do "blocão", um grupo criado em 2014 por Eduardo Cunha, à época líder do PMDB, devido ao descontentamento dos deputados da base governista com a presidente Dilma Rousseff, que dispensava pouca atenção à articulação política com os parlamentares.[8] O blocão reunia oito partidos (PSC, PP, PROS, PMDB, PTB, PR e Solidariedade), que somavam 242 parlamentares (47% da Câmara).[2] A influência de Cunha sobre este grupo de deputados resultaria em sua eleição em primeiro turno à presidência da Câmara dos Deputados em fevereiro de 2015. O grupo tornaria-se a principal força política na Câmara dos Deputados e um agrupamento para a chamada "bancada BBB".[9]

A partir daí, o centrão teria papel fundamental no impeachment de Dilma Rousseff, destituída do cargo em maio de 2016, e na tomada de decisões importantes para o governo Michel Temer.[9] Durante o processo de impeachment o grupo contaria com treze partidos: PP, PR, PSD, PTB, PRB, PSC, PROS, SD, PEN, PTN, PHS, PSL e AVANTE; todos, exceto o SD, integraram a base de apoio ao governo Dilma Rousseff e a maioria possuía ministros nos governos petistas.[1] Já no governo Temer o grupo agiria para barrar as duas denúncias criminais contra o presidente, evitar um provável afastamento e aprovar as suas reformas através de barganhas, como distribuição de cargos e promessas de ministérios, liberação de emendas parlamentares, verbas e projetos de lei, e demais benesses.[10][11]

Eleições de 2018Editar

Nas eleições de 2018, o candidato à presidência pelo PSDB, Geraldo Alckmin, montou uma coligação com partidos do Centrão[12] para obter maior tempo de propaganda eleitoral.

Após as eleições, um dos partidos do centrão, o MDB (antigo PMDB), teve uma redução nas cadeiras do Senado Federal. O ex-presidente, Eunício Oliveira, ficou em terceiro lugar no Ceará,[13] o senador Edison Lobão, e ex-ministros de Minas e Energia,[13] Garibaldi Alves, ex-ministro do Turismo,[13] e Romero Jucá[14] não se reelegeram.[13][15]

Na Câmara dos Deputados, com influência do candidato a presidência da república Jair Bolsonaro, o PSL conseguiu eleger 52 deputados federais, o que ocasionou uma considerável mudança na composição da casa. O MDB, até então líder do bloco, perdeu quase a metade dos assentos em relação ao pleito de 2014 (de 66 para 34).[16]

O centrão se reorganizou em volta das figuras do deputado federal e presidente da câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ), do líder da maioria Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) e do líder do Progressistas, o deputado federal Arthur Lira (PP-AL).[carece de fontes?] Em junho de 2020, Arthur publicou artigo na Folha de S.Paulo descrevendo o centrão como força moderadora e garantidora da previsibilidade institucional e da governabilidade.[17]

Devido o encolhimento significativo da bancada, o PSDB (de 54 para 29) passa a fazer parte do grupo, se juntando ao Democratas.[18]

Em maio de 2019, a Câmara dos Deputados proibiu o uso do nome "Centrão" na rádio e TV da Câmara, por considerar o termo pejorativo.[19]

Ver tambémEditar

Referências

  1. a b Chico Marés (22 de maio de 2016). «"Centrão" renasce na Câmara como a maior força do parlamento». Gazeta do Povo. Cópia arquivada em 26 de setembro de 2018 
  2. a b «O que é o poderoso centrão, que pode definir o sucessor de Cunha». BBC Brasil. 13 de julho de 2016 
  3. «Centrão vive quarta encarnação, agora restrito ao fisiologismo». O Globo. 29 de julho de 2018 
  4. «Entenda a origem e a trajetória do 'Centrão', que hoje apoia Alckmin». CartaCapital. 23 de julho de 2018 
  5. Ricardo Chapola (20 de Julho de 2018). «O que quer o chamado centrão em sua investida eleitoral». Nexo Jornal 
  6. «O que é o novo 'Centrão' e por que o grupo é decisivo para Michel Temer». El País. 21 de maio de 2016 
  7. «Centrão deu mandato de 5 anos a Sarney». Folha. 9 de novembro de 2006 
  8. «Líderes da base anunciam criação de 'superbloco' para pressionar Dilma». G1. 24 de fevereiro de 2014 
  9. a b «Conservador e enrolado com a Justiça, 'centrão' dita rumos na Câmara e pressiona Temer». Gazeta do Povo. 17 de junho de 2016 
  10. «Depois do apoio maciço a Temer, 'Centrão' cobra cargos e faz ameaça». Jornal Nacional. 9 de agosto de 2017 
  11. "Temer reinicia barganha em troca de apoio". Opinião & Notícia, 19 de outubro de 2017.
  12. «Centrão formaliza apoio ao tucano Geraldo Alckmin para disputa da Presidência». O Globo 
  13. a b c d «Cúpula do Senado não consegue reeleição». Estadão. 7 de outubro de 2018. Consultado em 8 de outubro de 2018 
  14. «Romero Jucá não consegue se reeleger em Roraima e deixa Senado após 24 anos». Uol. Consultado em 8 de outubro de 2018 
  15. «Diminui a bancada do MDB no Senado». senado.leg.br. 7 de outubro de 2018 
  16. «Saiba como eram e como ficaram as bancadas na Câmara dos Deputados, partido a partido». G1. Consultado em 22 de maio de 2019 
  17. Arthur Lira (15 de junho de 2020). «O centrão é uma força moderadora». Folha de S.Paulo. Consultado em 20 de junho de 2020 
  18. «Com Maia de fiador do governo, DEM e PSDB prometem unir o Centrão». Correio Braziliense. 5 de maio de 2019. Consultado em 22 de maio de 2019 
  19. «Câmara dos Deputados proíbe uso do termo 'centrão' na rádio, na TV e na agência da Casa». O Globo 

Ligações externasEditar

  • Centrão - Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da FGV