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Em telecomunicações, uma central telefônica (pt-BR) ou central telefónica (pt) é o equipamento eletrônico que realiza a ligação (comutação) entre dois usuários ("assinantes") do serviço de telefonia. As centrais telefônicas são também comumente chamadas de centrais de comutação.

HistóriaEditar

 
Duas fileiras de comutação telefônica manual do livro "De Electriciteit" por P. van Capelle 1893

InvençãoEditar

Em 1879, os irmãos Thomas e Daniel Connelly, juntamente com Thomas J. McTighe, patentearam o primeiro sistema em que um usuário podia controlar um mecanismo de comutação à distância. O aparelho, bastante primitivo, baseava-se nos telégrafos ABC de Wheatstone (físico inglês) e nunca chegou a ser usado. A parte principal do sistema era uma roda dentada, semelhante às usadas em relógios, que movida por um eletroímã, percorria o espaço de um “dente” por vez. Quando o eletroímã recebia um pulso elétrico, atraía uma barra metálica que fazia a roda dentada girar um “espaço”, movendo um braço de metal que, transmitia os pulsos elétricos sucessivamente e estabelecia contato com as demais linhas.

A primeira central telefônica foi ativada em Paris no ano de 1879. Em 1884, Ezra Gilliland, da empresa Bell, desenvolveu um sistema de comutação automática mais simples, porém semelhante ao dos irmãos Connely e McTighe que podia trabalhar com até 15 linhas. Nesse sistema, que também não chegou a ser usado na prática, havia um contato metálico que pulava de uma posição para outra, quando o usuário apertava um botão, determinando o tipo de conexão que era estabelecida.[1]

O sistema automático StrowgerEditar

Um avanço realmente importante e surpreendente ocorreu em 1889, quando o agente funerário Almon Brown Strowger, na cidade de Kansas, desenvolveu um sistema de comutação automático que realmente funcionava.

Conta a história que Almond Strowger desconfiava que as telefonistas desviavam, propositalmente, as ligações destinadas a ele para um outro agente funerário, seu concorrente. Por isso, resolveu inventar um sistema que dispensasse o intermédio delas. Após vários estudos e tentativas, Strowger construiu, com a ajuda de um relojoeiro, um sistema que atenderia 100 linhas telefônicas, que foi patenteado em 1891. A invenção deu tão certo que no mesmo ano Strowger fundou a Automatic Electric Company para comercializá-la.

A primeira central telefônica automática a usar o sistema de Strowger foi aberta em 1892 em La Porte, em Indiana, EUA. Na década que seguiu, foram instaladas mais de 70 centrais destas nos Estados Unidos.[1]

FunçõesEditar

As principais funções de uma central telefônica são semelhantes desde a sua invenção:[2]

  • Atendimento: O sistema monitora todo e qualquer pedido de chamada;
  • Recepção de informação: Além do controle de início/fim da chamada, verifica-se também o endereço e valor adicionado à chamada;
  • Processamento da informação: Após receber as informações, o sistema define as ações a serem tomadas;
  • Teste de ocupado: O sistema verifica o circuito e avalia se está disponível para a chamada;
  • Interconexão: Segue a seguinte conexão - central para origem, central para o destino e a conexão origem-destino;
  • Alerta: Assim que a conexão é concluída são enviados tons tanto para o destino, como para a origem;
  • Supervisão: Analisa enquanto a chamada esta em andamento, tarifando e verificando o momento do fim, para liberação do sistema;
  • Envio de informação: Troca de informações entre centrais, para origem e destino da chamada.

É importante observar que o processo para comutar dois terminais telefônicos em termos gerais é simples porém, na prática, exige uma grande infraestrutura disponível para sistemas de telecomunicações, tais como sistemas de energia elétrica, ar-condicionado, pressurização de cabos, rede de cabos e sistemas de transmissão/recepção (rádios, modems, etc.).

Tipos de centraisEditar

Há dois tipos de centrais telefônicas, sendo elas:[3]

  • Públicas, que se subdividem em categorias:
    • Central local: onde chegam às linhas de assinantes e se faz a comutação local. A interligação de centrais locais formam uma rede em malha ou sistema local;
    • Central tandem local: comuta ligações entre centrais locais, formando uma rede estrela;
    • Central trânsito interurbana: interliga duas ou mais centrais tandem local. Essas centrais interligam-se também com outras centrais trânsito;
    • Central tandem interurbana: interliga centrais interurbanas;
    • Central trânsito internacional: faz a interligação entre países.
  • Privadas: utilizada nas empresas e outros setores nos quais o volume de tráfego é alto. Os aparelhos telefônicos ligados a uma central privada são chamados ramais, enquanto os enlaces com a central local são chamados troncos. O PABX é o principal e mais conhecido tipo de central privada.

Evolução tecnológicaEditar

Centrais manuaisEditar

 
Central telefônica de comutação manual (1945)

Os primeiros telefones eram conectados a centrais manuais, operadas por telefonistas. O usuário tinha que girar uma manivela para gerar a “corrente de toque” e chamar a telefonista que atendia e, através da solicitação do usuário, comutava os pontos manualmente na central através das “pegas”. Assim um assinante era conectado ao outro.

Centrais automáticasEditar

As primeiras centrais automáticas que dispensavam o operador/telefonista para completar uma ligação eram do tipo eletromecânicas, baseadas em relés, conhecidas como passo-à-passo (step-by-step)[4]. Posteriormente elas foram substituídas pelas centrais do tipo barras-cruzadas (crossbar), que também eram eletromecânicas só que mais modernas tecnologicamente. Com o surgimento das centrais automáticas os telefones passaram a ser providos de “discos telefônicos” para envio da sinalização. Estes discos geravam a sinalização decádica, que consistia de uma série de pulsos (de 1 a 10).

A primeira central automática do Brasil foi inaugurada em 1922 na cidade de Porto Alegre (a terceira das Américas, logo depois de Chicago e Nova York). A segunda foi inaugurada três anos depois na cidade gaúcha de Rio Grande. A terceira no ano de 1928 em São Paulo[5][6] e em 1929 foi a vez do Rio de Janeiro[7][8] inaugurar sua primeira central automática.

 
Central automática (crossbar)

Principais tipos de centrais eletromecânicas que eram utilizadas no Brasil:

Centrais digitaisEditar

Na década de 70 as centrais telefônicas passaram por um processo evolutivo da era analógica para a era digital (processamento por computador). Essa mudança ocorrida nos núcleos de processamento das centrais, através da troca de componentes eletromecânicos por processadores digitais estendeu-se aos outros componentes funcionais das centrais, dando origem às centrais do tipo CPA (central telefônica controlada por programa armazenado).

As CPA's são verdadeiros computadores específicos para a função, e trabalham com um software interno para execução das operações inerentes: interligar (comutar) terminais, executar controle, teste e gerenciamento do hardware, serviços adicionais (identificação de chamadas, transferência de chamadas, ligações simultâneas, etc.) aos clientes[17]. Nessa época também começaram a ser utilizados os "telefones com teclas", que facilitavam a discagem.

No Brasil foi aberta em 1976 a concorrência para seleção das tecnologias CPA e dos fornecedores instalados no Brasil. Em dezembro de 1979 a Telecomunicações de São Paulo (TELESP) assinou com a Ericsson do Brasil o primeiro contrato para fornecimento e instalação das primeiras centrais CPA no país, sendo elas do tipo AXE-10[18]. Em abril de 1982 foi inaugurada pela Telesp a primeira central CPA no Brasil (Vila Mariana, São Paulo) representando um marco nas telecomunicações brasileiras[19]

 
Central automática (CPA)

Principais tipos de CPA's utilizadas no Brasil:

Posteriormente surgiram as Centrais de Comutação e Controle (CCC), usadas na rede de telefonia celular e que agregam às funções da central convencional uma interface para acesso às estações rádio-base desse sistema.

Tecnologia brasileiraEditar

Em 1973, no âmbito de um acordo entre a Universidade de São Paulo (USP) e a Telebras, então holding das operadoras brasileiras de telecomunicações, surgiu o embrião de uma central telefônica digital nacional, projetada para substituir as importações de centrais analógicas. Naquela época, nenhuma empresa brasileira possuía tecnologia para fabricar esses equipamentos. Nascia assim o projeto SISCOM - Sistemas de Comutação - dentro da Escola Politécnica (Poli) da USP. Após alguns anos de existência, mais precisamente em 1977, passou o projeto SISCOM da universidade para o recém-criado Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CPqD) da Telebras.[23]

A idéia inicial era de se conseguir a formação de recursos humanos especializados e também chegar a um protótipo de uma central digital. Em 1980 chegou-se a um concentrador de chamadas que é testado em campo em uma operadora de telefonia com grande sucesso. Em 1981, com o objetivo de desenvolver uma plataforma de comutação para aplicações rurais, nascia o então batizado TRÓPICO-R, com uma capacidade inicial de quatro mil assinantes. Em 1984 na Telecomunicações de Brasília (TELEBRASÍLIA) era efetuado o primeiro teste em campo de uma central digital com tecnologia brasileira. Naquela época os pesquisadores de todo o CPqD passavam por grandes momentos pois haviam atingido o seu objetivo. Mesmo nos dias de hoje são poucos os países que possuem esta tecnologia.

Em 1986, quando entra em operação a primeira central comercial, inicia-se no CPqD o projeto daquele que viria a ser um dos maiores sucessos deste centro: a plataforma de comutação digital TRÓPICO-RA. Em princípio de 1990 se instala a primeira central para testes de campo do TRÓPICO-RA e já neste ano começam a ser comercializadas as primeiras centrais digitais de médio porte com tecnologia brasileira. Após isso os preços das centrais telefônicas no Brasil começam a despencar. Portanto, a TRÓPICO-RA, além de propiciar a formação de recursos humanos especializados e fomentar a indústria nacional, economizou recursos financeiros à Telebras suficientes para pagar todo o investimento realizado em pesquisa e desenvolvimento pelo CPqD.[24]

As centrais Trópico possuem a característica de terem sido desenvolvidas á base de módulos independentes. Cada módulo possui seu hardware e software independente, com isso trocam informações entre si. Em caso de falhas, as perdas são menores, pois somente um módulo por vez perde a sua funcionalidade.

Existem os seguintes tipos de centrais Trópico:[2]

  • TRÓPICO C: Concentrador de linha de assinantes;
  • TRÓPICO R: Central local pequeno porte 4.000 assinantes e 800 troncos;
  • TRÓPICO RA: Central local/trânsito médio porte 16.000 linhas;
  • TRÓPICO L: Central local/trânsito grande porte 80.000 linhas;
  • TRÓPICO T: Central interurbana grande porte 50.000 troncos.

No sistema Telebras em julho de 1997 havia uma planta já instalada de 353 centrais TRÓPICO-RA, com aproximadamente dois milhões e meio de terminais. A Telecomunicações de São Paulo (TELESP) tinha a maior planta com 386.482 terminais[24]. Atualmente as centrais Trópico são fabricadas pela Trópico Telecomunicações Avançadas.

Referências

  1. a b Flood, J.E. (1995). Telecommunications Switching, Trafic and Networks. New York, USA: Prince-Hall 
  2. a b «Central Telefônica e RDSI». Teleco. Consultado em 14 de agosto de 2019 
  3. «Redes de Telecomunicações e Centrais Telefônicas». Portal Educação. Consultado em 15 de agosto de 2019 
  4. Telesp - Desativação de centrais Telefônicas no ano de 1996., consultado em 21 de agosto de 2019 
  5. «Sino Azul (RJ) - 1928 - edição 7 - pág.14 - DocReader Web». memoria.bn.br. Consultado em 26 de setembro de 2019 
  6. «Sino Azul (RJ) - 1928 - edição 8 - pág.6 - DocReader Web». memoria.bn.br. Consultado em 26 de setembro de 2019 
  7. «Sino Azul (RJ) - 1929 - edição 24 - pág.04 - DocReader Web». memoria.bn.br. Consultado em 26 de setembro de 2019 
  8. «Sino Azul (RJ) - 1930 - edição 25 - pág.16 - DocReader Web». memoria.bn.br. Consultado em 26 de setembro de 2019 
  9. Central Telefonica Jundiaí, consultado em 21 de agosto de 2019 
  10. Central ARF de Jundiaí., consultado em 21 de agosto de 2019 
  11. a b c d e «Telebras - Relatório Anual de 1973» (PDF). telebras.com.br 
  12. «Relatório 1974 - Ericsson do Brasil» (PDF). D.O.E. São Paulo 
  13. Central Telefônica Plessey de Bragança Paulista, consultado em 21 de agosto de 2019 
  14. Central Telefônica Plessey de Itu, consultado em 21 de agosto de 2019 
  15. Central Pentaconta, consultado em 21 de agosto de 2019 
  16. «Centrais telefônicas Philips para 64 cidades de SP». Folha de São Paulo 
  17. Linha Telefonica Analogica Digital 1995, consultado em 21 de agosto de 2019 
  18. «Relatório 1981 - Ericsson do Brasil» (PDF). D.O.E. São Paulo 
  19. «Relatório 1982 - Ericsson do Brasil» (PDF). D.O.E. São Paulo 
  20. «Relatório 1983 - Ericsson do Brasil» (PDF). D.O.E. São Paulo 
  21. «Primeira central digital NEC instalada em São Paulo». Folha de São Paulo 
  22. Inauguração do CCPA Jundiai, consultado em 23 de agosto de 2019 
  23. «Pioneirismo na telefonia». revistapesquisa.fapesp.br. Consultado em 14 de agosto de 2019 
  24. a b «A História da Comutação no Brasil e a Tecnologia TRÓPICO-RA». revista.unisal.br. Consultado em 14 de agosto de 2019 

Ver tambémEditar

Ligações externasEditar