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Clara Nunes
Álbum de estúdio de Clara Nunes
Lançamento 1971
Gravação 3 de março a 22 de abril de 1971[1]
Gênero(s) MPB, samba
Idioma(s) Português
Formato(s) LP
Gravadora(s) Odeon Records
Direção Lindolfo Gaya
Produção Aldezon Alves
Cronologia de Cronologia de Clara Nunes
A Beleza Que Canta
(1969)
Clara, Clarice, Clara
(1972)

Clara Nunes é o quarto álbum da cantora brasileira de samba e MPB Clara Nunes, lançado em 1971 pela Odeon Records. Tendo como conceito o resgate da sonoridade afro-brasileira, o disco se tornou o primeiro sucesso da cantora, com 24 mil cópias (100 mil de acordo com outras fontes) comercializadas,[2][a] e consolidou a imagem de Clara Nunes como uma das principais intérpretes femininas do Brasil.

Índice

AntecedentesEditar

"A Clara era determinada, queria fazer uma carreira brilhante como cantora, mas faltava-lhe orientação, alguém para definir um rumo."
— Aldezon Alves, produtor de Clara Nunes.[3]

Até o lançamento de Clara Nunes, a cantora havia lançado três álbuns consecutivos de pouco sucesso comercial, apesar do sucesso obtido com a canção "Você Passa, Eu Acho Graça" do disco homônimo. Faltava-lhe um direcionamento para sua obra.[4] Aurino Araújo, playboy mineiro e então namorado da cantora, levou-a a um dos mais renomados escritórios de empresariamento artístico da época, a VENBA Produções Artísticas, de Marcos Cavalcanti de Albuquerque ("Venâncio") e Manoel José do Espírito Santo ("Corumba").[4] A dupla, autora de "Último pau-de-arara", sempre esteve entre as mais respeitadas do país e desde 1928 se dedicava à divulgação da música nordestina.[4] Em 1968, fundaram a VENBA; algum tempo depois, Clara Nunes passou a integrar o cast da empresa.[4] Pouco tempo após isso ocorrer, Clara, irritada com os efeitos de ordem emocional sobre sua carreira, deu um ultimato a Aurino: ou eles se casavam ou estaria tudo terminado entre os dois.[4] O casamento foi marcado para o dia 14 de fevereiro de 1970, mas o relacionamento acabou antes disso, após uma briga do casal em Belo Horizonte, quando Clara encontrou Aurino com outra mulher na boate Le Chat Noir.[5] Os dois jamais se encontrariam novamente após o episódio.[5]

O ano de 1970 foi um momento de virada na vida da cantora.[5] Além do fim do relacionamento, Clara passou a exigir mudanças na sua imagem artística junto à direção da Odeon.[5] Como era bem relacionada com os diretores, a gravadora atendeu a seus pedidos, mas não sem antes apostar no mercado aberto pelos festivais de música popular, dos quais fizeram Clara participar, sem muito êxito.[5] A ideia da gravadora era colocá-la para gravar compactos com as canções que ela defendia nos festivais; se as canções fizessem sucesso nos festivais, haveria a possibilidade de estourarem nas rádios.[5] Os festivais ocorriam sobre um clima político intenso.[6] As formas de expressão artística estavam à mercê dos censores do regime militar.[6] Tendo noção do perigo que os artistas corriam, Clara optou, naquele momento, por deixar a política de lado e focar em sua carreira.[6] Em 1971, no entanto, viu-se num imbróglio que poderia ter lhe custado a carreira.[7]

Em 7 de janeiro de 1971, a cantora entrou em estúdio para gravar o compacto de "Apesar de Você", sucesso de Chico Buarque, acreditando na ingenuidade da letra da canção, uma crítica velada ao governo do general Emilio Médici disfarçada de briga de namorados.[7] Um mês depois, o jornalista Sebastião Nery, do jornal Tribuna da Imprensa, publicou uma nota exaltando a canção.[7] O governo entendeu a mensagem e proibiu a obra, recolhendo e destruindo os discos.[7] Clara Nunes foi acusada de "subversiva".[7] O presidente da Odeon, o advogado Henry Jessen, foi intimado a dar explicações sobre a moça e fez um acordo com os militares para pôr um fim ao mal-entendido: Clara Nunes seria a intérprete do "Hino das Olimpíadas do Exército", de Miguel Gustavo (autor de "Pra Frente, Brasil"), e cantaria a canção na cerimônia de abertura das Olimpíadas em Belo Horizonte.[7] A canção está disponível em um compacto simples promocional.[7]

Ao mesmo tempo, Clara continuava a participar dos festivais.[8] No entanto, para ela já não importava mais estar entre as primeiras colocadas das disputas.[8] A fórmula já começava a demonstrar seus primeiros sinais de desgastes e a cantora queria partir para outra.[8] Os festivais, assim como os boleros, as marchas-rancho, as canções românticas e o iê-iê-iê, foram tentativas da Odeon de emplacá-la de alguma forma como uma das principais artistas de MPB.[8] Tanto é verdade que Clara nunca fez parte de fato do movimento da Jovem Guarda; não há um registro sequer de uma participação sua no programa de televisão homônimo.[9] Em meio ao episódio da sua "subversão" e de sua participação nos festivais, Clara estava em estúdio preparando seu novo disco, que seria considerado o trabalho da virada, que mudaria definitivamente seu estilo e a colocaria sob os holofotes da mídia.[9]

ProduçãoEditar

Havia tempo que Clara considerava a ideia de resgatar a sonoridade afro-brasileira.[9] Nunca soube como executá-la, uma vez que ainda não tinha nem influência nem maturidade para brigar por seus projetos junto à Odeon.[9] Apesar disso, as experiências com canções como "Você Passa, Eu Acho Graça", "De Esquina em Esquina" e "Garoa de Subúrbio" deram-lhe certa confiança de que poderia cantar samba.[9] Além disso, ela já gostava de batuque, demonstrando apreço pela sonoridade de origem africana nos centros de umbanda que frequentava.[10] Quando começou a negociar com a Odeon a gravação do novo álbum, Clara pensou de imediato em Hermínio Bello de Carvalho para produzi-lo.[9] Os dois chegaram a conversar sobre o repertório, mas Carlos Imperial, assistente de produção de A Beleza Que Canta, álbum anterior da cantora,[11] e diretor do Departamento Internacional da gravadora, vetou a ideia.[9] Ele não gostava de Hermínio, por causa de motivos até hoje desconhecidos.[9] Clara então propôs Aldezon Alves, radialista influente naquele momento.[9] Ele apresentava Aldezon Alves, o amigo da madrugada na Rádio Globo, que abria espaço para sambistas pouco conhecidos,[9] sendo creditado como o responsável pelo sucesso de "O Pequeno Burguês" de Martinho da Vila.[10] Clara o ouvia com frequência e acreditou que a ideia poderia dar certo, ainda que Milton Miranda, diretor artístico da Odeon, fosse contra, explicando-lhe que Aldezon nunca fora produtor de disco e não entendia a indústria fonográfica.[9] A gravadora, no entanto, aceitou a sugestão da cantora e convidou Aldezon para uma conversa.[9]

Após o sucesso do compacto "Misticismo da África ao Brasil", lançado por Clara em março de 1971, Aldezon garantiu o direito de produzir seu primeiro álbum.[12] Convocou o maestro Lindolfo Gaya para ser o diretor musical e, no repertório, apresentava uma safra de compositores novos como Gisa e João Nogueira e Geovana.[2] Aldezon, no entanto, não dispensou ícones como Noel Rosa e a dupla Luiz Gonzaga e Zé Dantas.[2] A ideia do radialista era preencher o vácuo deixado após a morte de Carmen Miranda, pois, segundo ele, desde então nenhuma outra cantora tinha "assumido o afro tanto do ponto de vista sonoro quanto do visual".[3] Assim sendo, Clara teria de se reinventar.[10] Uma mudança brusca foi empreendida, de repertório a vestidos, de penteados a costumes.[10] Geraldo Sobreira, costureiro que produzia roupas para escolas de samba, foi contatado por Aldezon.[10] Juntos, os três discutiram o que seria, a partir daquele momento, adotado como visual: vestidos longos, rendas, colares, guias de santo, pulseiras e turbantes.[10] Adevanir, um cabeleireiro que cuidava do cabelo da cantora desde que ela havia chegado ao Rio de Janeiro, sugeriu uma mudança radical para acompanhar a nova fase: um cabelo de corte bem curto.[10] O visual, muito elogiado, foi parar nas colunas sociais.[12] Adevanir passava o dia cortando o cabelo de suas clientes como o de Clara, que pela primeira vez lançava moda.[12] As revistas passavam a requisitá-la para ensaios fotográficos.[12]

Recepção e impactoEditar

Clara Nunes vendeu cerca de 24 mil cópias segundo a gravadora; há quem afirme que teria ultrapassado a marca dos 100 mil.[2] De qualquer forma, tornou-se um marco na carreira da cantora.[12] Vendeu mais que todos seus discos anteriores somados.[2] Seis anos após deixar Belo Horizonte rumo ao Rio de Janeiro e onze anos após vencer o concurso A Voz de Ouro ABC, cujo prêmio foi um contrato com a Odeon, Clara Nunes enfim começava a chamar a atenção, tanto da mídia, quanto da crítica e do público.[2] Ela foi convidada a se apresentar durante vinte minutos no programa de Flávio Cavalcanti, então líder de audiência da televisão brasileira aos domingos,[13] além de ser tema constante em matérias de jornais e revistas.[14] Convites para shows e entrevistas na televisão e no rádio surgiam de uma hora para a outra.[14]

Após Clara Nunes, a cantora passou a ser procurada por sambistas e outros compositores e virou uma das artistas do primeiro escalão da Odeon Records, o que despertou a ira de outros integrante do cast da gravadora, mais notavelmente Simone e Beth Carvalho.[2] Esta última, que já havia pensado em gravar um disco com sambas, ficou irritadíssima com a gravadora quando os diretores vetaram a ideia, dizendo-lhe que Clara Nunes já era a estrela do gênero na Odeon.[2] Beth acabou trocando a Odeon pela Tapecar,[2] onde só gravaria seu primeiro disco em 1973, o que propagou o boato de que ela plagiava Clara.[15] As comparações entre as duas permaneceriam na mídia e no imaginário popular até a morte prematura de Clara em 1983.

CompactosEditar

Antes do lançamento do álbum, a Odeon lançou um compacto simples com dois sambas de enredo: "Misticismo da África ao Brasil", da Império da Tijuca e "Festa Para um rei Negro", do Salgueiro, ambos do carnaval de 1971, quando Clara estreou na avenida desfilando pela Portela. [12] O compacto fez grande sucesso e garantiu a Aldezon o direito de produzir seu primeiro álbum.[12] Outro sucesso presente no disco foi "Ê Baiana".[12] A canção era cantada por volta de 1968 e 1969 na quadra da Mocidade Independente de Padre Miguel e se espalhou pelas quadras de outras escolas, como a da União da Ilha.[12] Foi lá que Aldezon escutou a canção pela primeira vez e teve a ideia de colocá-la no disco que estava produzindo.[12]

FaixasEditar

Lado A
N.º TítuloCompositor(es) Duração
1. "Aruandê Aruandá"  Zé da Bahia 2:27
2. "Participação"  Didier Ferraz, Jorge Belizário 1:50
3. "Meu Lema"  João Nogueira, Gisa Nogueira 2:44
4. "Ê Baiana"  Fabrício da Silva, Baianinho, Ênio Santos Ribeiro, Miguel Pancrácio 2:59
5. "Puxada da Rede do Xaréu (Parte 1)"  Maria Rosita Salgado Góes 0:52
6. "Novamente"  Luiz Bandeira 1:58
7. "Misticismo da África ao Brasil"  Mário Pereira, João Galvão, Wilmar Costa 2:39
Lado B
N.º TítuloCompositor(es) Duração
8. "Sabiá"  Luiz Gonzaga, Zé Dantas 1:48
9. "Rosa 25"  Geovana 2:54
10. "A Favorita"  Francisco Leonardo 3:05
11. "Puxada da Rede do Xaréu (Parte 2)"  Maria Rosita Salgado Goes 0:33
12. "Feitio de Oração"  Noel Rosa, Vadico 3:03
13. "Canseira"  Paulo Diniz, Odibar 2:25
14. "Morrendo Verso Em Verso"  João Nogueira 2:28

Notas de rodapéEditar

[a] ^ Na época as vendas de álbuns não eram auditadas, o que causa uma discrepância entre os números divulgados pela imprensa e pelas gravadoras.

Referências

  1. Fernandes (2007), p. 307.
  2. a b c d e f g h i Fernandes (2007), p. 123.
  3. a b Fernandes (2007), p. 115.
  4. a b c d e Fernandes (2007), p. 108.
  5. a b c d e f Fernandes (2007), p. 109.
  6. a b c Fernandes (2007), p. 111
  7. a b c d e f g Fernandes (2007), p. 112.
  8. a b c d Fernandes (2007), p. 113.
  9. a b c d e f g h i j k l Fernandes, (2007), p. 114.
  10. a b c d e f g Fernandes (2007), p. 118.
  11. Fernandes (2007), p. 105.
  12. a b c d e f g h i j Fernandes (2007), p. 119.
  13. Fernandes (2007), p. 132-133.
  14. a b Fernandes (2007), p. 125.
  15. Fernandes (2007), p. 129-131.

BibliografiaEditar