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Cleópatra

Faraó
(Redirecionado de Cleópatra VII)
Disambig grey.svg Nota: Para outros significados, veja Cleópatra (desambiguação).
Cleópatra VII Filópator
Cleópatra de Berlim, busto romano de Cleópatra usando um diadema, c. século I a.C. (época de suas visitas a Roma em 46–44 a.C.). Foi descoberta numa vila italiana ao longo da Via Ápia e encontra-se exposta no Museu Altes, na Alemanha.[1][2][3][nota 1]
Rainha do Reino Ptolemaico
Reinado 51 a.C. a 10 ou 12 de agosto de 30 a.C.[nota 2]
Predecessor Ptolemeu XII Auleta
Sucessor Ptolemeu XV Cesarião
Co-monarcas
 
Maridos
Descendência
Dinastia Ptolemaica
Nascimento 69 a.C.
Alexandria, Reino Ptolemaico
Morte 10 ou 12 de agosto de 30 a.C. (39 anos)[nota 2]
Alexandria, Reino Ptolemaico
Pai Ptolemeu XII Auleta
Mãe Desconhecida, possivelmente Cleópatra VI Trifena (que também pode ser igual a Cleópatra V Trifena)[nota 3]

Cleópatra VII Filopátor (em grego clássico: Κλεοπᾰ́τρᾱ Φιλοπάτωρ; transl.: Kleopátrā Philopátōr;[4] 69 – 10 ou 12 de agosto de 30 a.C.)[nota 2] foi a última governante do Reino Ptolemaico do Egito,[nota 4] nominalmente sucedida como faraó por seu filho Cesarião.[nota 5] Como membro da dinastia ptolemaica, foi uma descendente de seu fundador Ptolemeu Sóter, um general greco-macedônio e companheiro de Alexandre, o Grande.[nota 6] Após sua morte, o Egito tornou-se uma província do Império Romano, marcando o fim do Período Helenístico que começou com o reinado de Alexandre (r. 336–323 a.C.).[nota 7] Enquanto sua língua nativa era o grego coiné, foi a primeira governante ptolemaica a aprender a língua egípcia.[nota 8]

Possivelmente acompanhou seu pai Ptolemeu XII em 58 a.C. durante seu exílio em Roma, depois que uma revolta no Egito permitiu que sua filha mais velha, Berenice IV, reivindicasse o trono. Esta última foi morta em 55 a.C., quando o faraó retornou ao país com assistência militar romana. Quando morreu em 51 a.C., Ptolemeu XII foi sucedido por Cleópatra e seu irmão mais novo, Ptolemeu XIII, como governantes conjuntos, mas um desentendimento entre ambos levou ao início da guerra civil. Depois de perder a Batalha de Farsalos na Grécia contra seu rival Júlio César na Guerra Civil Cesariana, o estadista romano Pompeu fugiu para o Egito, um estado cliente romano. Ptolemeu XIII matou Pompeu enquanto César ocupava Alexandria em busca deste. César, um cônsul da República Romana, tentou reconciliar Ptolemeu XIII com sua irmã. O conselheiro-chefe de Ptolemeu XIII, Potino, considerou os termos de César favoráveis à rainha, e assim suas forças, que eventualmente caíram sob o controle de sua irmã mais nova, Arsínoe IV, cercaram César e Cleópatra no palácio. O cerco foi levantado por reforços no início de 47 a.C. e o governante egípcio morreu pouco depois na Batalha do Nilo. Arsínoe IV foi exilada em Éfeso, e César, agora um ditador eleito, declarou Cleópatra e seu irmão mais novo Ptolemeu XIV como governantes conjuntos do Egito. César, no entanto, manteve um caso particular com a rainha, que produziu um filho, Cesarião. Ela viajou para Roma como rainha cliente em 46 e 44 a.C., ficando numa vila local. Após os assassinatos de César e Ptolemeu XIV (este por ordem da própria) em 44 a.C., tentou fazer Cesarião o herdeiro de seu pai, mas o título foi para Otaviano, sobrinho-neto do ditador.

Na Guerra Civil dos Libertadores entre 43-42 a.C., ficou ao lado do Segundo Triunvirato formado por Otaviano, Marco Antônio e Marco Emílio Lépido. Após um encontro em Tarso, em 41 a.C., a rainha teve um caso com Antônio. Ele realizou a execução de Arsínoe a pedido dela e tornou-se cada vez mais dependente dela para financiamento e ajuda militar durante suas invasões do Império Parta e do Reino da Armênia. As Doações de Alexandria declararam seus filhos Alexandre Hélio, Cleópatra Selene II e Ptolemeu Filadelfo, governantes de vários territórios antigos, sob sua autoridade triunviral. Esse evento, seu casamento e o divórcio de Marco Antônio com a irmã de Otaviano, Otávia, a Jovem, levaram à Última Guerra Civil da República Romana. Otaviano se engajou numa guerra de propaganda, forçou os aliados de Antônio no Senado romano a fugir de Roma em 32 a.C. e declarou guerra a Cleópatra. Depois de derrotar a frota naval da ambos na Batalha de Áccio, em 31 a.C., as forças de Otaviano invadiram o Egito em 30 a.C. e derrotaram Antônio, o levando ao suicídio. Quando a rainha soube que o governante romano planejava levá-la à sua procissão triunfal, cometeu suicídio por envenenamento. A crença popular diz que foi mordida por uma víbora.

Seu legado sobrevive em numerosas obras de arte, tanto antigas quanto modernas. A historiografia romana e a poesia latina produziram uma visão geralmente polêmica e negativa da rainha que permeava a literatura medieval e renascentista. Nas artes visuais, representações antigas de Cleópatra incluem a cunhagem romana e ptolemaica, estátuas, bustos, relevos, vidros e esculturas de camafeus, e pinturas. Foi tema de muitas obras na arte renascentista e barroca, que incluiu esculturas, pinturas, poesia, dramas teatrais, como Antônio e Cleópatra, de William Shakespeare, e óperas como Giulio Cesare in Egitto, de Georg Friedrich Händel. Nos tempos modernos, tem aparecido tanto nas artes aplicadas e belas artes, na sátira burlesca, em produções cinematográficas e em imagens de marcas para produtos comerciais, tornando-se um ícone da cultura popular da egiptomania desde o século XIX.

Etimologia

O nome Cleópatra é originário do grego antigo Kleopatra (em grego: Κλεοπάτρα), que significa "glória de seu pai" na forma feminina.[5] É derivado de kleos (em grego: κλέος), "glória", combinado com pater (em grego: πατήρ), "antepassados", usando a forma genitiva patros (em grego: πατρός).[6] A forma masculina teria sido escrita como Kleopatros (em grego: Κλεόπατρος) ou Patroklos (em grego: Πάτροκλος).[6] Cleópatra era o nome da irmã de Alexandre, o Grande, bem como Cleópatra Alcíone, esposa de Meleagro na mitologia grega. Através do casamento de Ptolemeu V Epifânio e Cleópatra I Sira (uma princesa selêucida), o nome entrou na dinastia ptolemaica.[7][8] Seu título adotivo, Tea Filópator (em grego: Θεά Φιλοπάτωρα), significa "deusa que ama seu pai."[9][10][nota 9]

Contexto histórico

 
Busto helenístico de Ptolemeu XII Auleta, o pai de Cleópatra, localizado no Louvre, Paris[11]

Faraós ptolemaicos eram coroados pelo sumo sacerdote de Ptá, em Mênfis, no Egito, mas residiam na cidade multicultural e em grande parte grega de Alexandria, fundada por Alexandre, o Grande da Macedônia.[12][13][14][nota 10] Eles falavam grego e governavam o Egito como monarcas helenísticos, recusando-se a aprender a língua nativa egípcia.[15][16][17][nota 8] Em contraste, Cleópatra podia falar vários idiomas até a idade adulta e foi a primeira governante ptolemaica a aprender a língua egípcia.[18][19][17][nota 11] Ela também falava etíope, troglodita, hebraico (ou aramaico), árabe, a língua síria (talvez siríaca), meda, parta e latim, embora seus contemporâneos romanos preferissem falar com ela em seu grego coiné nativo.[19][17][20][nota 12] Além do grego, do egípcio e do latim, essas línguas refletiam o desejo de Cleópatra de restaurar os territórios do norte da África e da Ásia Ocidental que pertenciam ao Reino Ptolemaico.[21]

O intervencionismo romano no Egito antecedeu o reinado de Cleópatra.[22][23][24] Quando Ptolemeu IX Látiro morreu no final de 81 a.C., foi sucedido por sua filha Berenice III.[25][26] No entanto, com a construção da oposição na corte real contra a ideia de uma única monarca reinante, Berenice III aceitou o domínio conjunto e o casamento com seu primo e enteado Ptolemeu XI Alexandre II, um arranjo feito pelo ditador romano Sula.[25][26] Ptolemeu XI teve sua esposa morta logo após o casamento deles em 80 a.C., mas foi linchado logo depois no tumulto resultante do assassinato.[25][27][28] Ptolemeu XI, e talvez seu tio Ptolemeu IX ou pai Ptolemeu X Alexandre I, desejavam o Reino ptolemaico sob Roma como garantia de empréstimos, de modo que os romanos tinham bases legais para tomar o Egito, seu estado cliente, após o assassinato de Ptolemeu XI.[25][29][30] Os romanos preferiram dividir o reino ptolemaico entre os filhos ilegítimos de Ptolemeu IX, concedendo o Chipre a Ptolemeu do Chipre e o Egito a Ptolemeu XII Auleta.[25][27]

Biografia

Primeiros anos

Cleópatra Filópator nasceu no início de 69 a.C. como a filha do faraó ptolemaico Ptolemeu XII e uma mãe desconhecida,[31][32][nota 13] presumivelmente Cleópatra VI Trifena (também conhecida como Cleópatra V Trifena),[33][34][35][nota 14][nota 3] a mãe da irmã mais velha de Cleópatra, Berenice IV.[36][37][38][nota 15] Cleópatra Trifena desaparece dos registros oficiais alguns meses após o nascimento de sua filha em 69 a.C..[39][40] Os três filhos mais novos de Ptolomeu XII, a irmã de Cleópatra, Arsínoe IV, e os irmãos Ptolemeu XIII Téo Filópator e Ptolemeu XIV,[36][37][38] nasceram na ausência de sua esposa.[41][42] Seu tutor de infância foi Filóstrato, de quem ela aprendeu as artes gregas do diálogo e filosofia.[43] Durante sua juventude, presumivelmente estudou no Mouseion, incluindo a Biblioteca de Alexandria.[44][45]

Reinado e exílio de Ptolemeu XII

Em 65 a.C., o censor romano Marco Crasso argumentou perante o Senado que Roma deveria anexar o Egito ptolemaico, mas seu projeto de lei e o projeto similar do tribuno Servílio Rulo dois anos mais tarde foram rejeitados.[46][47] Ptolemeu XII respondeu à ameaça de uma possível anexação oferecendo remuneração e generosos presentes a poderosos estadistas romanos, como Pompeu durante sua campanha contra Mitrídates VI do Ponto e, por fim, Júlio César depois de se tornar cônsul romano em 59 a.C..[48][49][50][nota 16] No entanto, o comportamento perdulário do faraó faliu e ele foi forçado a adquirir empréstimos do banqueiro romano Caio Rabírio Póstumo[51][52][53]

 
Um retrato muito provavelmente pintado postumamente de Cleópatra com cabelos ruivos e suas características faciais distintas, usando um diadema real e grampos de cabelo cravejados de pérolas, Herculano, Itália, século I[54][55][nota 17]

Em 58 a.C., os romanos anexaram o Chipre e, sob acusações de pirataria, levaram Ptolemeu do Chipre, irmão de Ptolemeu XII, a cometer suicídio em vez de resistir ao exílio em Pafos.[56][57][53][nota 18] O faraó permaneceu publicamente calado sobre a morte de seu irmão, uma decisão que, juntamente com a cessão do território ptolemaico tradicional aos romanos, prejudicou sua credibilidade entre os indivíduos já enfurecidos por suas políticas econômicas.[56][58][59] Ptolemeu XII foi então exilado do Egito pela força, viajando primeiro para Rodes, depois para Atenas e, finalmente, à vila do triúnviro Pompeu, nas Colinas Albanas, perto de Palestrina, Itália.[56][57][60][nota 19] O faraó desposto passou quase um ano nos arredores de Roma, ostensivamente acompanhado por sua filha Cleópatra, então com cerca de 11 anos.[56][60][nota 20] Berenice IV enviou uma embaixada a Roma para defender seu governo e se opor à reintegração de seu pai Ptolemeu XII, mas ele matou os líderes da embaixada, um incidente que foi encoberto por seus poderosos partidários romanos.[61][52][62][nota 21] Quando o Senado Romano negou a Ptolemeu XII a oferta de uma escolta armada e as provisões para um retorno ao Egito, ele decidiu deixar Roma no final de 57 a.C. e residir no Templo de Ártemis em Éfeso.[63][64][65]

Os financistas romanos de Ptolemeu XII continuaram determinados a restaurá-lo ao poder.[66] Pompeu persuadiu Aulo Gabínio, o governador romano da Síria, a invadir o Egito e restaurar o faraó, oferecendo-lhe 10 mil talentos à missão proposta.[66][67][68] Apesar de colocá-lo em desacordo com a lei romana, Gabínio invadiu o Egito na primavera de 55 a.C., através da Judeia asmoneia, onde Hircano II tinha Antípatro, o Idumeu, pai de Herodes, o Grande, fornecendo suprimentos ao exército liderado pelos romanos.[66][69] Como um jovem oficial de cavalaria, Marco Antônio estava sob o comando de Gabínio. Distinguiu-se impedindo Ptolemeu XII de massacrar os habitantes de Pelúsio, e de resgatar o corpo de Arquelau, marido de Berenice IV, depois de ter sido morto em batalha, assegurando-lhe um enterro real apropriado.[70][71] Cleópatra, agora com 14 anos de idade, teria viajado com a expedição romana ao Egito; anos depois, Antônio professaria que se apaixonara por ela naquela época.[70][72]

Gabínio foi levado a julgamento em Roma por abusar de sua autoridade, pelo qual foi absolvido, mas seu segundo julgamento por aceitar subornos o levou ao exílio, do qual foi chamado de volta sete anos depois, em 48 a.C. por César.[73][74] Crasso o substituiu como governador da Síria e estendeu seu comando provincial para o Egito, mas ele foi morto pelos partos na Batalha de Carras em 53 a.C..[73][75] Berenice IV e seus partidários ricos foram executados, e o faraó apreendeu suas propriedades.[76][77][78] Ele permitiu que a guarnição romana em grande parte germânica e gaulesa de Gabínio, os gabinianos, assediassem as pessoas nas ruas de Alexandria e instalasse seu financista romano de longa data, Rabírio, como seu diretor financeiro.[76][79][80][nota 22] Dentro de um ano, Rabírio foi colocado sob custódia protetora e enviado de volta a Roma depois que sua vida foi ameaçada por drenar o Egito de seus recursos.[81][82][78][nota 23] Apesar desses problemas, Ptolemeu XII criou um testamento designando Cleópatra e Ptolemeu XIII como seus herdeiros conjuntos, supervisionando grandes projetos de construção, como o Templo de Edfu e um templo em Dendera, e estabilizou a economia.[83][82][84][nota 24] Em 31 de maio de 52 a.C., Cleópatra tornou-se regente de Ptolemeu XII, conforme indicado por uma inscrição no Templo de Hator, em Dendera.[85][86][87][nota 25] Rabírio foi incapaz de recolher a totalidade da dívida do governante no momento de sua morte, e assim foi passada para seus sucessores Cleópatra e Ptolemeu XIII.[81][74]

Ascensão ao trono

 Ver artigo principal: Reinado de Cleópatra
Na esquerda, Cleópatra vestida de faraó e apresentando oferendas à deusa Ísis, numa estela de pedra calcária dedicada por um grego chamado Onófris, datada de 51 a.C., e localizada no Louvre, Paris. Na direita, os cartuchos de Cleópatra e Cesarião em uma estela de calcário do Sumo Sacerdote de Ptá, no Egito, datados do período ptolemaico, e localizados no Museu Petrie de Arqueologia Egípcia, Londres

Ptolemeu XII morreu em 22 de março de 51 a.C., quando Cleópatra, em seu primeiro ato como rainha, começou uma viagem a Hermontis, perto de Tebas, para instalar um novo touro sagrado Buquis, adorado como um intermediário para o deus Montu na religião egípcia antiga.[4][88][89][nota 26] Cleópatra enfrentou vários problemas prementes e emergências pouco depois de assumir o trono. Estes incluíam a fome causada pela seca e um baixo nível das inundações anuais do Nilo, e o comportamento ilegal instigado pelos gabininos, os soldados romanos agora desempregados e assimilados deixados por Gabínio para guarnecer o Egito.[90][91] Herdando as dívidas de seu pai, também devia à República Romana 17,5 milhões de dracmas.[92]

Em 50 a.C., Marco Calpúrnio Bíbulo, procônsul da Síria, enviou seus dois filhos mais velhos para o Egito, provavelmente para negociar com os gabinianos e recrutá-los como soldados na defesa desesperada da Síria contra os partos.[93] No entanto, os gabinianos torturaram e assassinaram esses dois, talvez com encorajamento secreto de administradores desonestos da corte de Cleópatra.[93][94] Ela enviou os gabinianos acusados a Bíbulo como prisioneiros que aguardavam seu julgamento, mas ele os mandou de volta à rainha e repreendeu-a por interferir em sua adjudicação, que era prerrogativa do Senado romano.[95][94] Bíbulo, ao lado de Pompeu na Guerra Civil de César, não conseguiu impedir que César pousasse uma frota naval na Grécia, o que finalmente permitiu que César chegasse ao Egito em busca de Pompeu.[95]

Por volta de 29 de agosto de 51 a.C., documentos oficiais começaram a listar Cleópatra como única governante, prova de que ela havia rejeitado seu irmão Ptolemeu XIII como co-governante.[92][94][96] Ela provavelmente se casou com ele,[75] mas não há registro disso.[4] A prática ptolemaica do casamento entre irmãos foi introduzida por Ptolemeu II e sua irmã Arsínoe II.[97][98][99] Prática egípcia de longa data, era detestada pelos gregos contemporâneos.[97][98][99][nota 27] No reinado de Cleópatra, no entanto, foi considerado um arranjo normal para os governantes ptolemaicos.[97][98][99]

Apesar da rejeição de Cleópatra a ele, Ptolemeu XIII ainda mantinha aliados poderosos, notadamente o eunuco Potino, seu tutor de infância, regente e administrador de suas propriedades.[100][91][101] Outros envolvidos na intriga contra a rainha incluíam Áquila, um proeminente comandante militar, e Teódoto de Quios, outro tutor de Ptolemeu XIII.[100][102] Cleópatra parece ter tentado uma aliança de curta duração com seu irmão Ptolemeu XIV, mas no outono de 50 a.C., Ptolemeu XIII teve a vantagem em seu conflito e começou a assinar documentos com seu nome antes de sua irmã, seguido pelo estabelecimento de sua primeira data de reinado em 49 a.C..[4][103][104][nota 28]

Assassinato de Pompeu

 
Busto romano de Pompeu feito durante o reinado de Augusto (r. 27–14 a.C.), uma cópia de um original de 70-60 a.C., e localizado no Museu Arqueológico Nacional de Veneza, Itália

No verão de 49 a.C., Cleópatra e suas forças ainda estavam lutando contra Ptolemeu XIII em Alexandria, quando o filho de Pompeu, Cneu Pompeu, chegou, em busca de ajuda militar em nome de seu pai.[103] Após retornar à Itália das Guerras da Gália e cruzar o Rubicão em janeiro daquele ano, César forçou Pompeu e seus partidários a fugir à Grécia.[105][106] Em talvez seu último decreto conjunto, Cleópatra e Ptolemeu XIII concordaram com o pedido de Cneu Pompeu e enviaram a seu pai 60 navios e 500 tropas, incluindo os gabinianos, uma medida que ajudou a eliminar parte da dívida de Roma.[105][107] Perdendo a luta contra seu irmão, Cleópatra foi forçada a fugir de Alexandria e se retirar à região de Tebas.[108][109][110] Na primavera de 48 a.C., a rainha viajara à Síria romana com sua irmã mais nova, Arsínoe IV, para reunir uma força de invasão que se dirigia ao Egito.[111][104][112] Voltou com um exército, mas seu avanço para Alexandria foi bloqueado pelas forças de seu irmão, incluindo alguns gabinianos mobilizados para lutar contra ela, então ela acampou do lado de fora de Pelúsio, no leste do delta do Nilo.[113][104][114]

Na Grécia, as forças de César e Pompeu se enfrentaram na decisiva Batalha de Farsalos em 9 de agosto de 48 a.C., levando à destruição da maior parte do exército de Pompeu e à sua fuga forçada para Tiro, no Líbano.[113][115][116][nota 29] Dada sua estreita relação com os ptolemeus, Pompeu finalmente decidiu que o Egito seria seu lugar de refúgio, onde poderia reabastecer suas forças.[117][116][114][nota 30] Os conselheiros do faraó, no entanto, temiam a ideia de Pompeu usar o Egito como sua base em uma prolongada guerra civil romana.[117][118][119] Num esquema planejado por Teódoto, o comandante romano chegou de navio perto de Pelúsio após ser convidado por uma mensagem escrita, apenas para ser emboscado e esfaqueado até a morte em 28 de setembro de 48 a.C..[117][115][120][nota 31] Ptolemeu XIII acreditava que havia demonstrado seu poder e, ao mesmo tempo, desarmou a situação, mandando a cabeça de Pompeu, cortada e embalsamada, para César, que chegou a Alexandria no início de outubro e passou a residir no palácio real.[121][122][123][nota 31] César expressou pesar e indignação pela morte de Pompeu e convocou o faraó e Cleópatra a dissolver suas forças e reconciliar-se.[121][124][123][nota 32]

Relacionamento com Júlio César

Ptolemeu XIII chegou em Alexandria à frente de seu exército, claramente desafiando a exigência de César para que se desfaçasse e deixasse o exército antes de sua chegada.[125][126] Cleópatra inicialmente enviou emissários ao cônsul romano, mas ao alegar que ele estava inclinado a ter casos com mulheres da realeza, ela veio a Alexandria para vê-lo pessoalmente.[125][127][126] O historiador Dião Cássio registra que ela o fez sem informar seu irmão, vestindo-se de maneira atraente e encantando-o com sua inteligência.[125][128][129] Plutarco fornece um relato inteiramente diferente e talvez mítico, que alega que ela foi amarrada dentro de um saco de cama para ser contrabandeada para o palácio para se encontrar com César.[125][130][131][nota 33]

 
Busto de Túsculo, uma escultura romana contemporânea de Júlio César localizada no Museu Arqueológico de Turim, Itália

Quando o faraó percebeu que sua irmã estava no palácio consorciando diretamente com César, tentou incitar a população de Alexandria a um motim, mas foi preso pelo romano, que usou suas habilidades oratórias para acalmar a multidão frenética.[132][133][134] César então trouxe Cleópatra e Ptolemeu XIII antes da assembléia de Alexandria, onde revelou a vontade escrita de Ptolemeu XII — anteriormente possuída por Pompeu — nomeando a rainha e seu irmão como seus herdeiros conjuntos.[135][133][127][nota 34] O comandante romano então tentou fazer com que os outros dois irmãos, Arsínoe IV e Ptolemeu XIV, governassem juntos o Chipre, removendo assim pretendentes rivais potenciais ao trono egípcio ao apaziguar os os ptolemaicos ainda amargos pela perda da ilha aos romanos em 58 a.C..[136][133][137][nota 34]

Julgando que esse acordo favorecia Cleópatra sobre Ptolemeu XIII e que seus exércitos de 20 000 guerreiros, incluindo os gabinianos, provavelmente derrotaria o exército de 4 000 sem apoio de César, Potino decidiu que Áquila levasse suas forças a Alexandria para atacar César e Cleópatra.[136][133][138][nota 35] Depois que César conseguiu executar Potino, Arsínoe IV juntou forças com Áquila e foi declarada rainha, mas logo depois seu tutor Ganimedes matou Áquila e assumiu a posição dele como comandante do exército.[139][140][141][nota 36] Ganimedes então enganou César ao pedir a presença do prisioneiro Ptolemeu XIII como negociador, apenas para que ele se juntasse ao exército de Arsínoe IV.[139][142][143] César e Cleópatra foram presos no resultante cerco da cidade, que durou até o ano seguinte de 47 a.C..[144][124][145][nota 37]

Em algum momento entre janeiro e março daquele ano, chegaram os reforços de César, incluindo os liderados por Mitrídates de Pérgamo e Antípatro, o Idumeu.[139][124][146][nota 38] Ptolemeu XIII e Arsínoe IV retiraram suas forças para o Nilo, onde César os atacou. Ptolemeu XIII morreu afogado ao tentar fugir quando seu barco virou.[147][124][148][nota 39] Ganimedes talvez foi morto na batalha, Teódoto foi encontrado anos depois na Ásia por Marco Júnio Bruto e executado, enquanto Arsínoe IV foi forçada a desfilar no triunfo de César em Roma antes de ser exilada no Templo de Ártemis em Éfeso.[149][150][151] Cleópatra estava visivelmente ausente desses eventos e residia no palácio, provavelmente porque estava grávida do filho de César desde setembro de 47 a.C..[152][153][154]

O mandato de César como cônsul havia expirado no final de 48 a.C..[149] No entanto, Antônio, um de seus oficiais, ajudou a garantir a eleição como ditador por um ano, até outubro de 47 a.C., dando a César a autoridade legal para resolver a disputa dinástica no Egito.[149] Temeroso de repetir o erro da irmã de Cleópatra, Berenice IV, em ter uma monarca como única governante, Cesar nomeou seu irmão de 12 anos, Ptolomeu XIV, como governante da rainha de 22 em um casamento nominal entre irmãos, mas ela continuou vivendo em particular com César.[155][124][146][nota 40] A data exata em que o Chipre foi devolvido a seu controle não é conhecida, embora lá ela tivesse um governador por volta de 42 a.C..[156][146]

É alegado que César e Cleópatra tenham se juntado para um passeio pelo Nilo e visitaram monumentos egípcios,[124][157][158] embora isso possa ser um conto romântico que reflita mais tardiamente as propensões romanas e não um acontecimento histórico real.[159] O historiador Suetônio forneceu detalhes consideráveis sobre a viagem, incluindo o uso de Talêmago, a barcaça de prazer construída por Ptolemeu IV, que durante seu reinado mediu 91 m de comprimento e 24 m de altura e foi completa com salas de jantar, salas de estado, santuários sagrados e passeios ao longo de seus dois conveses, parecendo uma casa flutuante.[159][160] César poderia ter tido interesse no cruzeiro do Nilo devido ao seu fascínio pela geografia; era bem lido nas obras de Eratóstenes e Píteas e talvez quisesse descobrir a nascente do rio, mas voltou antes de chegar à Abissínia.[161][162]

César partiu do Egito por volta de abril de 47 a.C., supostamente para confrontar Fárnaces II do Ponto, filho de Mitrídates VI do Ponto, que estava causando problemas para Roma na Anatólia.[163] É possível que César, casado com a proeminente romana Calpúrnia, também quisesse evitar ser visto junto com Cleópatra quando ela lhe deu o filho.[163][157] Deixou três legiões no Egito, mais tarde aumentou para quatro, sob o comando do liberto Rúfio para garantir a posição tênue da rainha, mas talvez também para manter suas atividades sob controle.[163][164][165]

 
Busto egípcio de uma rainha ptolemaica, possivelmente Cleópatra, c. 51–30 a.C., localizado no Brooklyn Museum[166]

Cesarião, o suposto filho de Cleópatra com César, nasceu em 23 de junho de 47 a.C. e foi originalmente chamado de "Faraó César", preservado em uma estela no serapeu, em Mênfis.[167][124][168][nota 41] Talvez devido ao seu casamento ainda sem filhos com Calpúrnia, César permaneceu publicamente em silêncio sobre Cesarião (mas talvez tenha aceitado sua filiação em particular).[169][nota 42] Cleópatra, por outro lado, fez repetidas declarações oficiais sobre o parentesco de Cesarião, com César como pai.[169][170][171]

Cleópatra e seu governante conjunto nominal, Ptolomeu XIV, visitaram Roma em algum momento no final de 46 a.C., presumivelmente sem Cesarião, e receberam alojamento na vila de César, dentro dos Jardins de César.[172][168][173][nota 43] Tal como aconteceu com seu pai Ptolemeu XII, César concedeu a Cleópatra e a Ptolemeu XIV o estatuto legal de "amigo e aliado do povo romano" (em latim: socius et amicus populi Romani), em efeito, aos governantes clientes leais a Roma.[174][175][176] Os visitantes da rainha na vila de César, do outro lado do rio Tibre, incluíam o senador Cícero, que a considerava arrogante.[177][178] Sosígenes de Alexandria, um dos membros da corte de Cleópatra, ajudou César nos cálculos do novo calendário juliano, posto em vigor em 1º de janeiro de 45 a.C..[179][180][181] O Templo da Vênus Genetrix, estabelecido no Fórum de César em 25 de setembro de 46 a.C., continha uma estátua de ouro de Cleópatra (que ficou lá pelo menos até século III), associando a mãe do filho de César diretamente com a deusa Vênus, mãe dos romanos.[182][180][183] A estátua também ligou sutilmente a deusa egípcia Ísis à religião romana.[177]

A presença de Cleópatra em Roma provavelmente teve um efeito sobre os eventos no festival de Lupercália, um mês antes do assassinato de César.[184][185] Antônio tentou colocar um diadema real na cabeça do ditador, com este recusando-se no que era provavelmente uma apresentação encenada, talvez para avaliar o humor do público romano sobre aceitar a realeza de estilo helenístico.[184][185] Cícero, que estava presente no festival, ironicamente perguntou de onde vinha o diadema, uma referência óbvia à rainha ptolemaica que ele abominava.[184][185] César foi assassinado nos idos de março (15 de março de 44 a.C.), mas a rainha egípcia permaneceu em Roma até meados de abril, na vã esperança de que Cesarião fosse reconhecido como herdeiro.[186][187][188] No entanto, o testamento de César nomeou seu sobrinho-neto Otaviano como o principal herdeiro, e este chegou à Itália na mesma época em que Cleópatra decidiu partir para o Egito.[186][187][189] Alguns meses depois, Cleópatra mandou matar Ptolemeu XIV por envenenamento, elevando seu filho Cesarião como seu co-regente.[190][191][171][nota 44]

Guerra Civil dos Libertadores

 
Portão de Cleópatra em Tarso (hoje em Mersin, Turquia), o local onde encontrou Marco Antônio em 41 a.C.[192]

Otaviano, Marco Antônio e Marco Emílio Lépido formaram o Segundo Triunvirato em 43 a.C., no qual foram eleitos para mandatos de cinco anos para restaurar a ordem na República e levar os assassinos de César à justiça.[193][194] Cleópatra recebeu mensagens de Caio Cássio Longino, um dos assassinos de César, e Públio Cornélio Dolabela, procônsul da Síria e apoiador de Cesarião, solicitando ajuda militar.[193] Ela decidiu escrever a Cássio uma desculpa de que seu reino enfrentava muitos problemas internos, enquanto enviava as quatro legiões deixadas por César no Egito para Dolabela.[193][195] No entanto, essas tropas foram capturadas por Cássio na Palestina.[193][195] Enquanto Serapião, seu governador no Chipre, desertou para Cássio e lhe forneceu navios, a rainha levou sua frota à Grécia para ajudar pessoalmente Otaviano e Antônio, mas seus navios foram fortemente danificados em uma tempestade no Mediterrâneo e ela chegou tarde demais para ajudar na luta.[193][196] No outono de 42 a.C., Antônio havia derrotado as forças dos assassinos de César na Batalha de Filipos, na Grécia, levando ao suicídio de Cássio e Bruto.[193][197]

No final do ano, Otaviano havia conquistado o controle de grande parte da metade ocidental da República Romana e Antônio da metade oriental, com Lépido em grande parte marginalizado.[198] No verão do ano seguinte, Antônio estabeleceu seu quartel-general em Tarso, na Anatólia, e convocou Cleópatra em várias cartas, o que ela rejeitou até que o enviado do líder militar, Quinto Délio, a convenceu a ir.[199][200] O encontro permitiu que ela esclarecesse o equívoco de que havia apoiado Cássio durante a guerra civil e endereçar as trocas territoriais no Levante, mas Antônio também desejava, indubitavelmente, formar um relacionamento pessoal e romântico com a rainha.[201][200][nota 45] Ela navegou o rio Kydnos até Tarso, de Talêmago, recebendo o comandante romano e seus oficiais para duas noites de banquetes luxuosos a bordo do navio.[202][203] Cleópatra conseguiu limpar seu nome como uma suposta partidária de Cássio, argumentando que realmente tentara ajudar Dolabela na Síria e convenceu Antônio a mandar executar sua irmã exilada, Arsínoe IV, em Éfeso.[204][205] Seu ex-governador rebelde no Chipre também foi entregue a ela para execução.[204][206]

Relacionamento com Marco Antônio

Cleópatra convidou Marco Antônio para ir ao Egito antes de partir de Tarso, o que levou o militar a visitar Alexandria em novembro de 41 a.C..[204][207] Foi bem recebido pela população da cidade, tanto por suas ações heroicas em restaurar Ptolemeu XII ao poder e por chegar ao Egito sem uma força de ocupação como César tinha feito.[208][209] No Egito, continuou a desfrutar do luxuoso estilo de vida real que havia presenciado a bordo do navio de Cleópatra ancorado em Tarso.[210][206] Também mandou seus subordinados, como Públio Ventídio Basso, expulsarem os partos da Anatólia e da Síria.[209][211][212][nota 46]

A rainha o escolheu cuidadosamente como seu parceiro para produzir novos herdeiros, pois ele era considerado a figura romana mais poderosa após a morte de César.[213] Com seus poderes como triúnviro, Antônio também tinha ampla autoridade para restaurar antigas terras ptolemaicas, que estavam atualmente em mãos romanas, para Cleópatra.[214][215] Embora esteja claro que tanto a Cilícia quanto o Chipre estavam sob o controle da rainha em 19 de novembro de 38 a.C., a transferência provavelmente ocorreu mais cedo no inverno de 41–40 a.C., durante seu tempo passado com o comandante romano.[214]

 
Um busto romano de mármore do cônsul e triúnviro Marco Antônio, do século I, Museus Vaticanos

Na primavera de 40 a.C., Antônio deixou o Egito devido a problemas na Síria, onde seu governador Lúcio Decídio Saxa foi morto e seu exército tomado por Quinto Labieno, um ex-oficial sob Cássio que agora servia ao Império Parta.[216] Cleópatra forneceu-lhe 200 navios à sua campanha e como pagamento pelos seus territórios recém-adquiridos.[216] Ela não o veria de novo até 37 a.C., mas manteve correspondência, e as evidências sugerem que ela manteve um espião em seu acampamento.[216] No final de 40 a.C., ela deu à luz gêmeos, um garoto chamado Alexandre Hélio e uma garota chamada Cleópatra Selene II, os quais o comendante romano reconheceu como seus filhos.[217][218] Hélio (o Sol) e Selene (a Lua) simbolizavam uma nova era de rejuvenescimento social,[219] bem como uma indicação de que Cleópatra esperava que seu parceiro repetisse as façanhas de Alexandre, o Grande, conquistando os partas.[209]

A campanha parta de Marco Antônio no Oriente foi interrompida pelos acontecimentos da Guerra Perusina, iniciada por sua ambiciosa esposa Fúlvia contra Otaviano, na esperança de fazer de seu marido o líder indiscutível de Roma.[219][220] Foi sugerido que Fúlvia queria afastá-lo de Cleópatra, mas o conflito emergiu na Itália antes mesmo do encontro de ambos em Tarso.[221] Fúlvia e Lúcio Antônio, irmão de seu marido, foram cercados por Otaviano na Perúsia (atual Perúgia, Itália) e depois exilados da Itália, após o que Fúlvia morreu em Sicião, na Grécia, enquanto tentava chegar até seu marido.[222] Sua morte repentina levou a uma reconciliação de Otaviano e Antônio em Brundísio, na Itália, em setembro de 40 a.C..[222][209] Embora o acordo em Brundísio solidificasse o controle de Antônio dos territórios da República Romana a leste do Mar Jônico, também estipulava que ele concedesse a Itália, Hispânia e Gália, e se casaria com Otávia, a Jovem, a irmã de seu adversário e rival em potencial de Cleópatra.[223][224]

Em dezembro de 40 a.C., Cleópatra recebeu Herodes em Alexandria como hóspede inesperado e refugiado de uma situação turbulenta na Judeia.[225] Ele tinha sido instalado como um tetrarca por Antônio, mas logo estava em desacordo com Antígono II, da dinastia asmoneia há muito estabelecida.[225] Este último havia aprisionado o irmão de Herodes e seu colega tetrarca Fasael, que foi executado enquanto o tetrarca fugia em direção à corte de Cleópatra.[225] A rainha egípcia tentou fornecer-lhe uma missão militar, mas Herodes recusou e viajou para Roma, onde os triúnviros Otaviano e Antônio o nomearam rei da Judeia.[226][227] Este ato o colocou em rota de colisão com Cleópatra, que desejara recuperar os antigos territórios ptolemaicos que compunham seu novo reino herodiano.[226]

Uma antiga escultura romana, possivelmente representando a Cleópatra ptolemaica[228][229][nota 47] ou sua filha, Cleópatra Selene II, rainha da Mauritânia, localizada no Museu Arqueológico de Cherchell, na Argélia

As relações entre o militar e a rainha talvez azedaram quando ele não só se casou com Otávia, mas também gerou suas duas filhas, Antônia, a Velha, em 39 a.C., e Antônia Menor, em 36 a.C., e mudou seu quartel-general para Atenas.[230] No entanto, sua posição no Egito era segura.[209] Seu rival Herodes estava ocupado com a guerra civil na Judeia, que exigia assistência militar romana pesada, mas não recebeu nenhuma de Cleópatra.[230] Visto que a autoridade de Marco Antônio e Otaviano como triúnviros expirou em 1 de janeiro de 37 a.C., Otávia organizou uma reunião em Tarento, onde o triunvirato foi oficialmente estendido para 33 a.C..[231] Com duas legiões concedidas por Otaviano e mil soldados emprestados por sua irmã, Antônio viajou para Antioquia, onde se preparou à guerra contra os partos.[232]

Convocou Cleópatra em Antioquia para discutir questões urgentes, como o reino de Herodes e o apoio financeiro para sua campanha parta.[232][233] Ela trouxe seus gêmeos de três anos para Antioquia, onde Antônio os viu pela primeira vez e onde provavelmente receberam pela primeira vez seus sobrenomes Hélio e Selene como parte dos ambiciosos planos de ambos para o futuro.[234][235] Para estabilizar o oriente, ele não apenas ampliou o domínio de Cleópatra,[233] mas também estabeleceu novas dinastias reinantes e governantes clientes que seriam leais a ele, mas que no final sobreviveriam a ele.[236][215][nota 48]

Nesse arranjo, Cleópatra ganhou importantes territórios ptolemaicos no Levante, incluindo quase toda a Fenícia (Líbano), exceto Tiro e Sídon, que permaneceram em mãos romanas.[237][215][233] Ela também recebeu Ace Ptolemaida (moderna Acre, Israel), uma cidade que foi fundada por Ptolemeu II.[237] Devido suas relações ancestrais com os selêucidas, recebeu a região da Celessíria ao longo do alto rio Orontes.[238][233] Recebeu até mesmo a região em torno de Jericó na Palestina, mas alugou este território de volta para Herodes.[239][227] À custa do rei nabateu Malico I (primo de Herodes), Cleópatra também recebeu uma parte do Reino Nabateu ao redor do Golfo de Ácaba, no Mar Vermelho, incluindo Ailana (moderna Ácaba, Jordânia).[240][227] No oeste recebeu Cirene ao longo da costa da Líbia, bem como Itanos e Olunte na Creta romana.[241][233] Embora ainda administrados por oficiais romanos, esses territórios, no entanto, enriqueceram seu reino e a levaram a declarar a inauguração de uma nova era, datando em dobro sua cunhagem em 36 a.C..[242][243]

 
Áureos romanos com as efígies de Marco Antônio (esquerda) e Otávio (direita), cunhados em 41 a.C. para celebrar o estabelecimento do Segundo Triunvirato por Otaviano, Antônio e Marco Emílio Lépido em 43 a.C.

A ampliação do reino ptolemaico por Antônio, ao renunciar o território romano que controlava diretamente, foi explorada por seu rival Otaviano, que recorreu ao sentimento público em Roma contra o fortalecimento de uma rainha estrangeira às custas da República.[244] Otaviano, estimulando a narrativa de que seu adversário estava negligenciando sua virtuosa esposa romana Otávia, concedeu a ela e à Lívia, sua própria esposa, privilégios extraordinários de sacrossantas.[244] Cerca de 50 anos antes, Cornélia Africana, filha de Cipião Africano, foi a primeira mulher romana viva a ter uma estátua dedicada a ela.[242] Ela foi agora seguida por Otávia e Lívia, cujas estátuas foram provavelmente erguidas no Fórum de César para rivalizar com as de Cleópatra, erguidas pelo antigo ditador.[242]

Cleópatra acompanhou Antônio em 36 a.C. no Eufrates em sua jornada rumo à invasão do Império Parta.[245] Então retornou ao Egito, talvez devido ao seu estado avançado de gravidez.[246] No verão de 36 a.C., ela deu à luz Ptolemeu Filadelfo, seu segundo filho com o comandante.[246][233] A campanha parta de Marco Antônio em 36 a.C. transformou-se num completo desastre por várias razões, em particular a traição do rei da Armênia Artavasdes II (r. 55–34 a.C.), que desertou para o lado inimigo.[247][215][248] Depois de perder cerca de 30 000 homens, mais do que Crasso em Carras (uma indignidade que esperava vingar), finalmente chegou a Leucócome perto de Berito (moderna Beirute, Líbano) em dezembro, envolvido em bebedeira antes de Cleópatra chegar para fornecer fundos e roupas para suas tropas maltratadas.[247][249] Desejava evitar os riscos envolvidos no retorno a Roma, e assim viajou com a rainha de volta a Alexandria para ver seu filho recém-nascido.[247]

Doações de Alexandria

 Ver artigo principal: Doações de Alexandria
 
Um denário cunhado em 32 a.C.; no anverso há um retrato diademado de Cleópatra, com a inscrição em latim "CLEOPATRA[E REGINAE REGVM] FILIORVM REGVM", e no verso um retrato de Marco Antônio com a inscrição "ANTONI[VS] ARMENIA DEVICTA"[250][251]

Enquanto Antônio preparava-se para outra expedição parta em 35 a.C., dessa vez dirigida a sua aliada Armênia, Otávia viajou para Atenas com 2 000 soldados em suposto apoio ao marido, mas muito provavelmente num esquema planejado pelo irmão para constrangê-lo por suas perdas militares.[252][253] Recebeu essas tropas, mas disse a sua esposa que não fosse para o leste de Atenas, pois ele e Cleópatra viajaram juntos para Antioquia, apenas para abandonar de repente e inexplicavelmente a campanha militar e voltar para Alexandria.[252][253] Quando sua esposa voltou para Roma, Otaviano retratou sua irmã como uma vítima injustiçada por Marco Antônio, embora ela se recusasse a deixar sua casa.[254][215] A confiança de Otaviano cresceu quando eliminou seus rivais no oeste, incluindo Sexto Pompeu e até mesmo Lépido, o terceiro membro do triunvirato, que foi colocado em prisão domiciliar após revoltar-se contra ele na Sicília.[254][215][249]

Quinto Délio foi enviado como emissário a Artavasdes II em 34 a.C. para negociar uma potencial aliança matrimonial que iria casar a filha do rei armênio com Alexandre Hélio, seu filho com a rainha egípcia.[255][256] Quando isso foi recusado, marchou com seu exército à Armênia, derrotou forças locais e capturou o rei e a família real armênia.[255][257] Antônio então realizou um desfile militar em Alexandria como uma imitação de um triunfo romano, vestido como Dioniso e cavalgando pela cidade numa carruagem para apresentar os prisioneiros reais a Cleópatra, que estava sentada em um trono de ouro acima de um tablado de prata.[255][258] A notícia deste evento foi fortemente criticada em Roma como uma perversão de cerimônias e rituais romanos consagrados pelo tempo a serem desfrutados por uma rainha egípcia.[255]

 
Um documento de papiro datado de fevereiro de 33 a.C. concedendo isenções de impostos a uma pessoa no Egito e contendo a assinatura de Cleópatra escrita por um funcionário, mas com "γινέσθωι" (ginésthōi; lit. "faça acontecer"[259][260] ou "assim seja"[261]) acrescentado em grego, provavelmente pela própria mão da rainha[259][260][261]

Em um evento realizado no ginásio logo após o triunfo, Cleópatra se vestiu de Ísis e declarou que era a Rainha dos Reis com seu filho Cesarião, Rei dos Reis, enquanto Alexandre Hélio foi declarado rei da Armênia, Média e Pártia, e Ptolomeu Filadelfo, de dois anos de idade, foi declarado rei da Síria e da Cilícia.[262][263][264] Cleópatra Selene II foi contemplada com Creta e Cirene.[265][266] Antônio e Cleópatra podem ter se casado durante essa cerimônia.[265][264] Ele enviou um relatório a Roma solicitando a ratificação dessas reivindicações territoriais, agora conhecidas como as doações de Alexandria. Otaviano queria divulgá-la para fins de propaganda, mas os dois cônsules, ambos partidários de seu rival, o censuraram da opinião pública.[267][266]

Os dois entraram numa guerra acalorada de propaganda no final de 34 a.C. que duraria anos.[268][266][171] Antônio alegou que seu rival havia deposto ilegalmente Lépido de seu triunvirato e o impediu de levantar tropas na Itália, enquanto Otaviano o acusou de detenção ilegal do rei da Armênia, casar-se com Cleópatra apesar de ainda ser casado com sua irmã Otávia, e erroneamente alegar Cesarião como o herdeiro de César em vez de si.[268][266] A ladainha de acusações e fofocas associadas a essa guerra de propaganda moldaram as percepções populares sobre Cleópatra, desde a literatura do período até as várias mídias nos tempos modernos.[269][270] Dizia-se que ela fizera uma lavagem cerebral em seu amante com bruxaria e feitiçaria e era tão perigosa quanto a Helena de Homero, que destruiu a civilização.[271] As Sátiras de Horácio preservaram um relato de que Cleópatra uma vez dissolveu uma pérola no valor de 2,5 milhões de dracmas em vinagre apenas para ganhar uma aposta na festa do jantar.[272] A acusação de que Antônio havia roubado livros da Biblioteca de Pérgamo para reabastecer a Biblioteca de Alexandria acabou sendo uma confissão admitida por Caio Calvísio Sabino.[273]

Um documento de papiro datado de fevereiro de 33 a.C., mais tarde usado para embrulhar uma múmia, contém a assinatura da rainha, provavelmente escrita por um funcionário autorizado a assinar por ela.[259][260] Trata-se de certas isenções fiscais no Egito concedidas a Quinto Cecílio ou Públio Canídio Crasso,[nota 49] um ex-cônsul romano e confidente de Antônio que comandaria suas forças terrestres em Áccio.[274][260] Um subscrito em caligrafia diferente na parte inferior do papiro diz "faça acontecer"[274][260] ou "assim seja"[261] (em grego antigo: γινέσθωι, transl.: ginésthōi);[nota 50] este é provavelmente o autógrafo da rainha, pois era prática ptolemaica rubricar documentos para evitar falsificação.[274][260]

Batalha de Áccio

 
Um busto de Augusto reconstruído como um Otaviano mais jovem, datado de c. 30 aC

Num discurso ao Senado romano no primeiro dia de seu consulado em 1 de janeiro de 33 aC, Otaviano acusou Antônio de tentar subverter as liberdades e a integridade territorial como escravo de uma rainha oriental.[275] Antes do imperium conjunto de ambos os líderes expirar em 31 de dezembro, Antônio declarou Cesarião como o verdadeiro herdeiro de César, na tentativa de minar Otaviano.[275] Em 1 de janeiro de 32 aC, seus partidários Caio Sósio e Cneu Domício Enobarbo foram eleitos cônsules.[274] Em 1 de fevereiro, Sósio proferiu um discurso ardente condenando Otaviano, agora um cidadão privado sem cargo público, e apresentou leis contra ele.[274][276] Durante a próxima sessão senatorial, Otaviano entrou na casa do Senado com guardas armados e apresentou suas próprias acusações contra os cônsules.[274][277] Intimidados por esse ato, os cônsules e mais de 200 senadores ainda apoiando Antônio fugiram de Roma no dia seguinte para se juntar a ele.[274][277][278]

Antônio e Cleópatra viajaram juntos para Éfeso em 32 aC, onde ela lhe forneceu 200 dos 800 navios da marinha que conseguiu adquirir.[274] Enobarbo, desconfiado de confirmar a propaganda de Otaviano ao público, tentou convencer Antônio a excluir Cleópatra da campanha contra seu adversário.[279][280] Públio Canídio Crasso fez o contra-argumento de que a rainha estava financiando o esforço de guerra e era uma monarca competente.[279][280] Cleópatra recusou os pedidos de seu parceiro de que voltasse ao Egito, julgando que, ao bloquear Otaviano na Grécia, poderia mais facilmente defender o Egito.[279][280] A insistência de Cleópatra em se envolver na batalha pela Grécia levou a deserções de romanos importantes, como Enobarbo e Lúcio Munácio Planco.[279][277]

Durante a primavera de 32 aC, Antônio e Cleópatra viajaram para Atenas, onde ela o convenceu a enviar a Otávia uma declaração oficial de divórcio.[279][277][264] Isso encorajou Planco a aconselhar Otaviano de que deveria aproveitar o testamento de Antônio, investida nas Virgens Vestais.[279][277][266] Embora fosse uma violação dos direitos sagrados e legais, Otaviano adquiriu com força o documento do Templo de Vesta, e tornou-se uma ferramenta útil na guerra de propaganda contra seus adversários no Egito.[279][266] Otaviano destacou partes do testamento, como Cesarião sendo nomeado herdeiro de César, de que as doações de Alexandria eram legais, que Antônio deveria ser enterrado ao lado de Cleópatra no Egito, em vez de Roma, e que Alexandria seria feita a nova capital da República Romana.[281][277][266] Numa demonstração de lealdade a Roma, Otaviano decidiu começar a construção de seu próprio mausoléu no Campo de Marte.[277] Sua posição legal também foi aprimorada ao ser eleito cônsul no ano seguinte.[277] Com a vontade de Antônio tornada pública, Otaviano teve seu casus belli, e Roma declarou guerra a Cleópatra,[281][282][283] não ao comandante.[nota 51] O argumento legal para a guerra se baseava menos nas aquisições territoriais de Cleópatra, com antigos territórios romanos governados por seus filhos com Antônio, e mais no fato de que ela estava fornecendo apoio militar a um cidadão privado agora que a autoridade triunviral dele havia expirado.[284]

Na esquerda, um tetradracma de prata de Cleópatra cunhado em Selêucia Piéria, Síria. Na direita, um tetradracma de prata da rainha cunhado em Ascalão, Israel

O casal possuía uma frota maior do que Otaviano, mas suas tripulações da marinha não eram todas bem treinadas, algumas talvez de navios mercantes, enquanto o inimigo possuía uma força totalmente profissional.[285][280] Antônio queria atravessar o Mar Adriático e bloquear Otaviano em Tarento ou Brundísio,[286] mas a rainha, preocupada principalmente com a defesa do Egito, anulou a decisão de atacar a Itália diretamente.[287][280] Antônio e Cleópatra estabeleceram sua sede de inverno em Pátrai, na Grécia, e na primavera de 31 aC mudaram-se para Áccio, no lado sul do Golfo Ambraciano.[287][286]

O casal tive o apoio de vários reis aliados, mas a rainha já havia entrado em conflito com Herodes, e um terremoto na Judeia deu a ele uma desculpa para ausentar-se da campanha.[288] Também perderam o apoio de Malico I, o que provaria ter consequências estratégicas.[289] Perderam várias escaramuças contra Otaviano em torno de Áccio durante o verão de 31 aC, enquanto as deserções no campo de seu adversário continuaram, incluindo Délio,[289] companheiro de longa data, e os reis aliados Amintas da Galácia e Deiótaro da Paflagônia.[289] Enquanto alguns no campo de Antônio sugeriram abandonar o conflito naval para recuar para o interior, Cleópatra pediu um confronto naval, para manter a frota de Otaviano longe do Egito.[290]

Em 2 de setembro de 31 aC, as forças navais de Otaviano, lideradas por Marco Vipsânio Agripa, encontraram as de Antônio e Cleópatra na Batalha de Áccio.[290][286][282] Cleópatra, a bordo de sua capitânia, a Antonias, comandava 60 navios na foz do Golfo Ambraciano, na parte traseira da frota, no que provavelmente foi um movimento dos oficiais de Antônio para marginalizá-la durante a batalha.[290] Antônio ordenou que seus navios tivessem velas a bordo para uma melhor chance de perseguir ou fugir do inimigo, que Cleópatra, sempre preocupada em defender o Egito, costumava percorrer rapidamente a área de grande combate em uma retirada estratégica para o Peloponeso.[291][292][293] Burstein relatou que os escritores romanos partidários acusariam Cleópatra de covardemente abandonar Antônio, mas sua intenção original de manter as velas a bordo pode ter sido quebrar o bloqueio e salvar o máximo possível de sua frota.[293] Antônio a seguiu e embarcou em seu navio, identificado por suas velas roxas distintas, quando os dois escaparam da batalha e dirigiram-se para Tênaro.[291] Antônio teria evitado Cleópatra durante essa viagem de três dias, até que suas damas em Tênaro o instaram a falar com ela.[294] A Batalha de Áccio prosseguiu sem os dois até a manhã de 3 de setembro e foi seguida por deserções maciças de oficiais, tropas e reis aliados ao lado de Otaviano.[294][292][295]

Queda e morte

 Ver artigo principal: Morte de Cleópatra
 
Uma pintura romana da Casa de José II em Pompéia, no início do século I dC, provavelmente representando Cleópatra, usando seu diadema real, consumindo veneno num ato de suicídio, enquanto seu filho Cesarião, também usando um diadema real, está atrás dela[296][297]

Enquanto Otaviano ocupava Atenas, Antônio e Cleópatra desembarcaram em Paraitónion, no Egito.[294][298] O casal seguiu caminhos separados, o romano foi a Cirene para levantar mais tropas e a rainha egípcia navegou até o porto de Alexandria, numa tentativa enganosa de retratar as ações na Grécia como uma vitória.[294] Também é incerto se, naquele momento, ela realmente executou Artavasdes II e enviou sua cabeça ao rival, Artavasdes I da Média Atropatene, na tentativa de estabelecer uma aliança com ele.[299][300]

Lucius Pinarius, governador de Cirene nomeado por Marco Antônio, recebeu a notícia de que Otaviano venceu a Batalha de Áccio antes que os mensageiros de seu comandante chegassem à sua corte.[299] Pinarius mandou executar esses mensageiros e depois desertou para o lado de Otaviano, entregando-lhe as quatro legiões sob seu comando que Antônio desejava obter.[299] Quase cometeu suicídio depois de ouvir notícias disso, mas foi interrompido por seus funcionários.[299] Em Alexandria, construiu um chalé recluso na ilha de Faros, que apelidou de Timoneion, em homenagem ao filósofo Tímon de Atenas, famoso por seu cinismo e misantropia.[299] Herodes, que havia aconselhado pessoalmente Antônio após a batalha a trair Cleópatra, viajou para Rodes para encontrar Otaviano e renunciar à sua realeza por lealdade ao outro.[301] Otaviano ficou impressionado com seu discurso e senso de lealdade, então permitiu que ele mantivesse sua posição na Judeia, isolando ainda mais o casal adversário.[301]

Cleópatra talvez tenha começado a ver seu companheiro como um passivo no final do verão de 31 aC, quando preparava-se para deixar o Egito para seu filho Cesarião.[302] Planejava abrir mão de seu trono, levando sua frota do Mediterrâneo para o Mar Vermelho e partindo para um porto estrangeiro, talvez na Índia, onde poderia passar um tempo se recuperando.[302][300] No entanto, esses planos foram finalmente abandonados quando Malico I, como aconselhado pelo governador de Otaviano na Síria, Quintus Didius, conseguiu queimar a frota de Cleópatra em vingança por suas perdas numa guerra com Herodes que a rainha egípcia havia em grande parte iniciado.[302][300] Cleópatra não tinha outra opção senão ficar no Egito e negociar com seu inimigo.[302] Embora muito provavelmente tenha propaganda pró-otaviana, foi relatado que, naquele momento, Cleópatra começou a testar os pontos fortes de vários venenos em prisioneiros e até em seus próprios servos.[303]

 
A Morte de Cleópatra (1658), de Guido Cagnacci

Fez com que Cesarião entrasse na categoria do efebo, que, juntamente com os relevos de uma estela de Copto, datada de 21 de setembro de 31 aC, demonstravam que a rainha estava agora preparando seu filho para tornar-se o único governante do Egito.[304] Numa demonstração de solidariedade, Antônio também fez com que Marco Antônio Antilo, seu filho com Fúlvia, entrasse no efebo ao mesmo tempo.[302] Mensagens separadas de ambos foram então enviadas para Otaviano, ainda estacionado em Rodes, embora este pareça ter respondido apenas a egípcia.[303] Cleópatra solicitou que seus filhos herdassem o Egito e que Antônio pudesse viver exilado no país, oferecendo dinheiro no futuro e enviando imediatamente presentes luxuosos.[303][300] Otaviano enviou seu diplomata Thyrsos ao Egito depois que ela ameaçou se queimar junto com vastas quantidades de seu tesouro dentro de uma tumba já em construção.[305] Thyrsos aconselhou-a a matar seu parceiro para que sua vida fosse poupada, mas quando Antônio suspeitou da má intenção, mandou açoitar esse diplomata e mandá-lo de volta ao seu inimigo sem acordo.[306]

Após longas negociações que finalmente não deram resultado, Otaviano decidiu invadir o Egito na primavera de 30 aC,[307] parando em Ptolemais da Fenícia, onde seu novo aliado Herodes forneceu novos suprimentos ao exército.[308] O romano mudou-se para o sul e rapidamente tomou Pelúsio, enquanto Caio Cornélio Galo, marchando para o leste a partir de Cirene, derrotou as forças de Antônio perto de Paraitónion.[309][310] Avançou rapidamente para Alexandria, mas seu rival retornou e conquistou uma pequena vitória sobre as tropas cansadas de Otaviano fora do hipódromo da cidade.[309][310] No entanto, em 1 de agosto daquele ano, sua frota naval rendeu-se a Otaviano, seguida por sua cavalaria.[309][292][311] Cleópatra se escondeu numa tumba com seus atendentes próximos, enviando uma mensagem a Antônio de que havia cometido suicídio.[309][312][313] Em desespero, ele respondeu a isso esfaqueando-se no estômago e tirando a própria vida aos 53 anos.[309][292][300] Segundo Plutarco, ainda estava morrendo quando levado para a rainha em sua tumba, dizendo que morreu honrosamente e que ela podia confiar no companheiro de Otaviano, Gaius Proculeius, sobre qualquer outra pessoa em sua comitiva.[309][314][315] Foi Proculeius, no entanto, que se infiltrou em sua tumba usando uma escada e deteve a rainha, negando-lhe a capacidade de se queimar com seus tesouros.[316][317] Cleópatra foi então autorizada a embalsamar e enterrar seu parceiro dentro de sua tumba antes de ser escoltada ao palácio.[316][300]

 
A Morte de Cleópatra (1796–1797), por Jean-Baptiste Regnault

Otaviano entrou em Alexandria, ocupou o palácio e apreendeu os três filhos mais novos de Cleópatra.[316][318] Quando encontrou-se com Otaviano, ela disse sem rodeios que "eu não serei conduzida num triunfo" (em grego antigo: οὑ θριαμβεύσομαι, transl.: ou thriambéusomai), de acordo com Lívio, um raro registro de suas palavras exatas.[319][320] Ele prometeu que a manteria viva, mas não deu explicações sobre seus planos futuros para o reino dela.[321] Quando uma espiã a informou que Otaviano planejava mudar ela e seus filhos para Roma em três dias, ela se preparou para o suicídio, pois não tinha a intenção de desfilar num triunfo romano como sua irmã Arsinoe IV.[321][292][300] Não está claro se o suicídio de Cleópatra em 30 de agosto, aos 39 anos, ocorreu dentro do palácio ou de seu túmulo.[322][323] Dizem que ela estava acompanhada por seus servos Eiras e Charmion, que também tiraram suas próprias vidas.[321][324] Dizia-se que Otaviano ficou irritado com esse resultado, mas a enterrou da maneira real ao lado de Antônio em seu túmulo.[321][325][326] O médico Olympos não explicou sua causa da morte, embora a crença popular é que ela permitiu que uma víbora, ou cobra egípcia, a mordesse e envenenasse.[327][328][300] Plutarco relata esse conto, mas sugere que um implemento (κνῆστις, knêstis, lit. 'espinho, ralador') foi usado para introduzir a toxina por arranhões, enquanto Dião diz que ela injetou o veneno com uma agulha (βελόνη, belónē) e Estrabão argumentou por uma pomada de algum tipo.[329][328][330][nota 52] Nenhuma cobra venenosa foi encontrada em seu corpo, mas ela tinha pequenas feridas no braço que poderiam ter sido causadas por uma agulha.[327][330][326]

Cleópatra decidiu, em seus últimos momentos, enviar Cesarião para o Alto Egito, talvez com planos de fugir para a Núbia cuxita, Etiópia ou Índia.[331][332][310] Cesarião, agora Ptolemeu XV, reinaria por meros de 18 dias até ser executado por ordem de Otaviano em 29 de agosto de 30 aC, depois de retornar a Alexandria sob o falso pretexto de que o romano permitiria que ele fosse rei.[333][334][335][nota 5] Estava convencido pelo conselho do filósofo Ário Dídimo de que havia espaço para apenas um César no mundo.[336][nota 53] Com a queda do Reino Ptolemaico, a província romana do Egito foi estabelecida,[337][292][338][nota 54] marcando o fim do período helenístico.[339][340][nota 7] Em janeiro de 27 aC, Otaviano foi renomeado Augusto ("majestoso") e acumulou poderes constitucionais que o estabeleceram como o primeiro imperador romano, inaugurando a era do Principado do Império Romano.[341]

Árvore genealógica

Notas

  1. Para mais informações sobre a Cleópatra de Berlim, veja Polo 2013, pp. 184–186, Roller 2010, pp. 54, 174–175, Jones 2006, p. 33 e Hölbl 2001, p. 234.
  2. a b c Theodore Cressy Skeat, em Skeat 1953, p. 98–100, usa informação histórica para calcular a morte de Cleópatra como tendo ocorrido em 12 de agosto de 30 a.C.. Burstein 2004, p. 31 fornece a mesma data que Skeat, enquanto Dodson & Hilton 2004, p. 277 tepidamente apoiam isso, dizendo que ocorreu por volta dessa data. Aqueles em favor de sua morte em 10 de agosto incluem Roller 2010, p. 147–148, Fletcher 2008, p. 3 e Anderson 2003, p. 56.
  3. a b Grant 1972, pp. 3–4, 17, Fletcher 2008, p. 69, 74, 76, Jones 2006, p. xiii, Preston 2009, p. 2009, Schiff 2011, p. 28 e Burstein 2004, p. 11 rotulam a esposa de Ptolemeu XII Auletes como Cleópatra V Trifena, enquanto Dodson & Hilton 2004, pp. 268–269, 273 e Roller 2010, p. 18 a chamam de Cleópatra VI Trifena, devido à confusão em fontes primárias que confundem essas duas figuras, que podem ter sido uma e a mesma. Como explicado por Whitehorne 1994, p. 182, Cleópatra VI pode ter sido uma filha de Ptolemeu XII que apareceu em 58 a.C. para governar conjuntamente com sua suposta irmã Berenice IV (enquanto Ptolemeu XII estava exilado e vivendo em Roma), enquanto a esposa do faraó, Cleópatra V, talvez tenha morrido no inverno de 69-68 a.C., quando ela desaparece dos registros históricos. Roller 2010, pp. 18–19 assume que a esposa de Ptolemeu XII, que ele classifica como Cleópatra VI, estava apenas ausente da corte por uma década depois de ter sido expulsa por razão desconhecida, acabando por governar em conjunto com sua filha Berenice IV. Fletcher 2008, p. 76 explica que os alexandrinos depuseram Ptolemeu XII e instalaram "sua filha mais velha, Berenice IV, e como co-governante revogaram o exílio de 10 anos de Cleópatra V Trifena da corte. Embora os historiadores posteriores acreditassem que ela deveria ter sido outra das filhas de Auletes e numeradas como 'Cleópatra VI', parece que era simplesmente a quinta a voltar para substituir seu irmão e ex-marido Auletes."
  4. Também foi diplomata, comandante naval, linguista e autora médica; ver Roller 2010, p. 1 e Bradford 2000, p. 13.
  5. a b Roller 2010, p. 149 e Skeat 1953, p. 99–100 afirmam que o curto reinado nominal de Cesarião durou 18 dias em agosto de 30 a.C.. Porém, Duane W. Roller, baseando-se em Theodore Cressy Skeat, afirma que o reinado de Cesarião "foi essencialmente uma ficção criada pelos cronógrafos egípcios para fechar o vácuo entre a morte de Cleópatra e o controle oficial do Egito (sob o novo faraó, Otávio)", citando, por exemplo, o Stromata de Clemente de Alexandria (Roller 2010, p. 149, 214, nota 103). Plutarco, traduzido por Jones 2006, p. 187, escreveu em termos vagos que "Otaviano fez com que Cesarião morresse depois, após a morte de Cleópatra."
  6. Southern 2009, p. 43 escreveu sobre Ptolemeu Sóter: "A dinastia ptolemaica, da qual Cleópatra foi a última representante, foi fundada no fim do século IV a.C.. Os Ptolemeus não era de estrato egípcio, mas provinham de Ptolemeu Sóter, um grego macedônio no séquito de Alexandre, o Grande." Para fontes adicionais que descrevem a dinastia ptolemaica como "greco-macedônico", veja Roller 2010, p. 15–16, Jones 2006, p. xiii, 3, 279, Kleiner 2005, p. 9, 19, 106, 183, Jeffreys 1999, p. 488 e Johnson 1999, p. 69. Alternativamente, Grant 1972, p. 3 descreve-a como uma dinastia "macedônica, falante de grego". Outras fontes como Burstein 2004, p. 64 e Pfrommer & Towne-Markus 2001, p. 9 descreve os Ptolemeus como "greco-macedônicos" ou como macedônicos que possuíam uma cultura grega, como em Pfrommer & Towne-Markus 2001, p. 9–11, 20.
  7. a b Grant 1972, p. 5–6 nota que o Período Helenístico, começando com o reinado de Alexandre, terminou com a morte de Cleópatra em 30 a.C. Sublinha que os gregos helenísticos eram vistos pelos romanos contemporâneos como declinando e diminuindo em grandeza desde o Período Clássico, uma atitude que continuou mesmo em obras da historiografia moderna. Em respeito ao Egito helenístico, Grant afirma: "Cleópatra VII, olhando para trás, tudo o que seus ancestrais tinham feito durante aquele tempo, provavelmente não cometeria o mesmo erro. Mas ela e seus contemporâneos do século I a.C. tinham outro problema próprio e peculiar: poderia ainda se dizer que a 'Era Helenística' (que nós mesmos muitas vezes consideramos ter chegado ao fim na época dela) existia, poderia alguma era grega, agora que os romanos eram o poder dominante? Esta foi uma questão nunca distante na mente de Cleópatra. Mas é certo que considerou que a época grega não estava de forma alguma terminada, e pretendia fazer tudo o que estivesse em seu poder para assegurar sua perpetuação."
  8. a b A recusa dos Ptolomaicos em falar a língua nativa é porque o grego antigo (ou seja, o coiné) era usado junto com o egípcio tardio em documentos cortesãos oficiais como a Pedra da Roseta. Como explicado por Burstein 2004, p. 43–54, a Alexandria ptolomaica foi considerada uma pólis (cidade-Estado) separada do Egito, com cidadania reservada aos gregos e macedônios, mas vários outros grupos étnicos residiram lá, especialmente judeus, bem como egípcios nativos sírios e núbios. Para mais validação, ver Grant 1973, p. 3. Às várias línguas faladas por Cleópatra, ver Roller 2010, p. 46–48 e Burstein 2004, p. 11–12. Para mais validação sobre o grego antigo como língua oficial da dinastia ptolemaica, ver Jones 2006, p. 3
  9. Tyldesley 2017 oferece uma interpretação alternativa do título de Cleópatra VII Tea Filópator como "Cleópatra, a Deusa que ama o Pai".
  10. Para uma explicação completa sobre a fundação de Alexandria por Alexandre, o Grande e sua natureza helenística grega durante o período ptolomaico, juntamente com uma pesquisa dos vários grupos étnicos que residiram lá, veja Jones 2006, p. 6. Para mais validação sobre a fundação de Alexandria por Alexandre, o Grande, veja Jones 2006, p. 6.
  11. Para mais informações, veja Grant 1972, pp. 20, 256, nota 42.
  12. Para uma lista de línguas faladas por Cleópatra como mencionado pelo historiador antigo Plutarco, veja Jones 2006, pp. 33–34, que também menciona que os governantes do Egito ptolomaico gradualmente abandonaram a língua macedônia antiga.
  13. Grant 1972, p. 3 afirma que Cleópatra poderia ter nascido no final dos anos 70 ou no início de 69 a.C.
  14. Para mais informações e validação, consulte Schiff 2011, p. 28 e Kleiner 2005, p. 22. Para especulações alternativas, veja Burstein 2004, p. 11 e Roller 2010, pp. 15, 18, 166
  15. Devido às discrepâncias nos trabalhos acadêmicos, nos quais alguns consideram Cleópatra VI uma filha de Ptolemeu XII ou sua esposa, idêntica à de Cleópatra V, Jones 2006, p. 28 afirma que Ptolemeu XII teve seis filhos, enquanto Roller 2010, p. 16 menciona apenas cinco.
  16. Para mais informações e validação, consulte Grant 1972, pp. 12–13. Em 1972, Michael Grant calculou que 6 000 talentos, o preço da taxa de Ptolemeu XII por receber o título de amigo e aliado do povo romano dos triúnviros Pompeu e Júlio César, valeria cerca de 7 milhões de libras esterlinas, aproximadamente a receita anual total do imposto para o Egito ptolemaico.
  17. Fletcher 2008, p. 87 descreveu a pintura de Herculano mais adiante: "O cabelo de Cleópatra era mantido por seu cabeleireiro Eiras. Embora perucas artificiais estabelecidas no tradicional estilo tripartido de cabelo longo e reto fossem necessárias para aparições diante dos súditos egípcios, uma opção mais prática para o uso diário era o 'penteado de melão', no qual seus cabelos naturais eram puxados para trás em seções parecidas com as linhas de um melão e depois presas num coque na parte de trás da cabeça. Um estilo de marca registrada de Arsínoe II e Berenice II, o estilo havia caído de moda por quase dois séculos até ser revivido por Cleópatra; no entanto, como tradicionalista e inovadora, ela usava sua versão sem o véu da cabeça do antecessor. E considerando que ambos eram loiros como Alexandre, Cleópatra pode muito bem ter sido ruiva, a julgar pelo retrato de uma mulher de cabelos flamejantes usando o diadema real cercado por motivos egípcios que foram identificados como Cleópatra."
  18. Para informações sobre os antecedentes políticos da anexação romana do Chipre, um movimento promovido no Senado romano por Públio Clódio Pulcro, veja Grant 1972, pp. 13–14.
  19. Para mais informações, veja Grant 1972, pp. 15–16.
  20. Fletcher 2008, pp. 76–77 expressa pouca dúvida sobre isso: "deposto no final do verão 58 a.C. e temendo por sua vida, Auleta havia fugido de seu palácio e de seu reino, embora não estivesse completamente sozinho. Por uma fonte grega é revelado que ele foi acompanhado 'com uma de suas filhas', e como a mais velha Berenice IV era monarca, e a mais jovem, Arisone, pouco mais que uma criança, presume-se que esta deve ter sido sua filha favorita e do meio, Cleópatra, de onze anos."
  21. Para mais informações, veja Grant 1972, p. 16.
  22. Para mais informações sobre o financista romano Rabírio, bem como os gabinianos deixados no Egito por Gabínio, veja Grant 1972, pp. 18–19.
  23. Para mais informações, veja Grant 1972, p. 18.
  24. Para mais informações, veja Grant 1972, pp. 19–20, 27–29.
  25. Para mais informações, veja Grant 1972, pp. 28–30.
  26. Para mais informações, consulte Fletcher 2008, pp. 88–92 e Jones 2006, pp. 31, 34–35: Fletcher 2008, pp. 85–86 afirma que o eclipse solar parcial de 7 de março de 51 a.C. marcou a morte de Ptolemeu XII e a ascensão de Cleópatra ao trono, embora ela aparentemente tenha suprimido a notícia de morte, alertando o Senado romano para esse fato meses depois numa mensagem que receberam em 30 de junho de 51 a.C.. No entanto, Grant 1972, p. 30 afirma que o Senado foi informado da morte em 1 de agosto de 51 a.C.. Michael Grant indica que Ptolemeu XII poderia estar vivo até maio, enquanto uma antiga fonte egípcia afirma que ele ainda governava com Cleópatra em 15 de julho de 51 a.C., embora a essa altura Cleópatra provavelmente tenha "silenciado a morte de seu pai" para que pudesse consolidar seu controle sobre o Egito.
  27. Pfrommer & Towne-Markus 2001, p. 34 escreveu o seguinte sobre o casamento entre irmãos de Ptolemeu II e Arsínoe II: "Ptolemeu Cerauno, que queria se tornar rei da Macedônia [...] matou os filhos pequenos de Arsínoe na frente dela. Agora rainha sem um reino, Arsínoe fugiu para o Egito, onde foi recebida por seu irmão Ptolemeu II. Não contente, no entanto, em passar o resto de sua vida como hóspede na corte ptolemaica, ela teve a esposa de Ptolemeu II exilada no Alto Egito e casou-se com ele por volta de 275 a.C. Embora tal casamento incestuoso fosse considerado escandaloso pelos gregos, era permitido pelo costume egípcio. Por essa razão, o casamento dividiu a opinião pública em duas facções. O lado leal celebrava o casal como um retorno do casamento divino de Zeus e Hera, enquanto o outro lado não se abstinha de críticas profusas e obscenas. Um dos comentaristas mais sarcásticos, um poeta com uma caneta muito afiada, teve que fugir de Alexandria. O desafortunado poeta foi pego na costa de Creta pela marinha ptolemaica, colocado em uma cesta de ferro e afogado. Isso e ações semelhantes aparentemente retardaram críticas cruéis."
  28. Para mais informações, consulte Fletcher 2008, pp. 92–93
  29. Para mais informações, veja Fletcher 2008, pp. 96–97 e Jones 2006, p. 39.
  30. Para mais informações, veja Jones 2006, pp. 39–41.
  31. a b Para mais informações, veja Fletcher 2008, p. 98 e Jones 2006, pp. 39–43, 53–55.
  32. Para mais informações, veja Fletcher 2008, pp. 98–100 e Jones 2006, pp. 53–55.
  33. Para mais informações, veja Burstein 2004, p. 18 e Fletcher 2008, pp. 101–103.
  34. a b Para mais informações, consulte Fletcher 2008, p. 113.
  35. Para mais informações, consulte Fletcher 2008, p. 118.
  36. Para mais informações, consulte Burstein 2004, p. 76.
  37. Para mais informações, veja Burstein 2004, pp. xxi, 19 e Fletcher 2008, pp. 118–120.
  38. Para mais informações, consulte Fletcher 2008, pp. 119–120. Como parte do cerco de Alexandria, Burstein 2004, p. 19 afirma que os reforços de César vieram em janeiro, mas Roller 2010, p. 63 diz que seus reforços vieram em março.
  39. Para mais informações e validação, veja Anderson 2003, p. 39 e Fletcher 2008, p. 120.
  40. Para mais informações e validação, consulte Fletcher 2008, p. 121 e Jones 2006, p. xiv. Roller afirma que neste ponto (47 a.C.) Ptolemeu XIV tinha 12 anos, enquanto Burstein 2004, p. 19 afirma que ele tinha apenas 10 anos de idade.
  41. Para mais informações e validação, veja Anderson 2003, p. 39 e Fletcher 2008, pp. 154, 161–162.
  42. Roller 2010, p. 70 escreveu o seguinte sobre César e seu parentesco com Cesarião: "A questão do parentesco tornou-se tão emaranhada na guerra de propaganda entre Antônio e Otaviano no final dos anos 30 a.C. – era essencial um lado provar e que o outro rejeitasse o papel de César – que hoje é impossível determinar a resposta real do ditador. A informação existente é quase contraditória: foi dito que César negou a paternidade em seu testamento, mas a reconheceu em particular e permitiu o uso do nome Cesarião. Seu partidário Caio Ópio escreveu um panfleto provando que Cesarião não era filho dele, e Caio Hélvio Cina – o poeta que foi morto por desordeiros após a oração fúnebre de Antônio – foi preparado em 44 a.C. para criar legislação que permitisse a César casar tantas esposas quanto desejasse para ter filhos. Embora grande parte da discussão tenha sido gerada após sua morte, parece que o mesmo desejava ser o mais discreto possível sobre a criança, mas teve de lidar com as repetidas afirmações de Cleópatra."
  43. Para mais informações e validação, veja Jones 2006, pp. xiv, 78.
  44. Para mais informações, consulte Fletcher 2008, pp. 214–215.
  45. Como explicado por Burstein 2004, p. 23, Cleópatra apresentou-se como Ísis na aparência da deusa grega Afrodite, encontrando seu divino marido, Osíris, na forma do deus grego Dioniso, que os sacerdotes do Templo de Ártemis em Éfeso haviam associado a Antônio antes deste encontro com a rainha. De acordo com Brown 2011, um culto ao redor de Ísis se espalhou pela região por centenas de anos, e Cleópatra, como muitas de suas antecessoras, procurou se identificar com a deusa egípcia e ser venerada. Além disso, algumas moedas sobreviventes também a descrevem como Vênus–Afrodite, como explicado por Fletcher 2008, p. 205.
  46. Para mais informações sobre Públio Ventídio Basso e sua vitória sobre as forças partas na Batalha do Monte Gíndaro, veja Kennedy 1996, pp. 80–81
  47. Erro de citação: Código <ref> inválido; não foi fornecido texto para as refs de nome Cherchel bust
  48. Segundo Roller 2010, pp. 91–92, esses governantes dos estados-cliente instalados por Marco Antônio incluíam Herodes, Amintas da Galácia, Pólemon I do Ponto e Arquelau da Capadócia.
  49. Stanley M. Burstein, em Burstein 2004, p. 33, fornece o nome Quintus Cascellius como o beneficiário da isenção tributária, não o Canídio Crasso fornecido por Duane W. Roller em Roller 2010, p. 134.
  50. Reece 2017, p. 203 observa que "os textos fragmentários dos papiros gregos antigos muitas vezes não chegam ao público moderno, mas este sim, e com resultados fascinantes, embora permaneça quase totalmente não reconhecido o fato notável de que a assinatura de uma palavra de Cleópatra contém um flagrante erro de ortografia: γινέσθωι, com um supérfluo iota adscrito. Esse erro de ortografia "não foi observado pela mídia popular", porém foi "simplesmente transliterado, [...] incluindo, sem comentários, o supérfluo iota adscrito". Mesmo em fontes acadêmicas, o erro de ortografia foi amplamente ignorado ou silenciosamente corrigido (pp. 206–208, 210). Embora descrito como "ortografia 'normal'" (em contraste com a "ortografia 'correta'") por Peter van Minnen (p. 208), o erro ortográfico é "muito mais raro e mais intrigante" do que se esperaria dos papiros gregos do Egito (p. 210)– tão raro, na verdade, que ele ocorre apenas duas vezes nos 70.000 papiros gregos entre o século III aC e século VIII dC no banco de dados do Papyrological Navigator. Isso é especialmente verdade quando se considera que foi adicionada a uma palavra "sem motivo etimológico ou morfológico para ter um iota adscrito" (p. 210) e foi escrito pela "bem educada e nativa da língua grega, a rainha" Cleópatra VII "do Egito" (p. 208).
  51. Como explicado por Jones 2006, p. 147, "Otaviano teve que seguir uma linha tênue enquanto preparava-se para se envolver em hostilidades abertas com Antônio. Ele teve o cuidado de minimizar associações com a guerra civil, pois o povo romano já havia sofrido muitos anos de conflito e Otaviano poderia correr o risco de perder o apoio caso declarasse guerra a um concidadão."
  52. Para os relatos traduzidos de Plutarco e Dião, Jones 2006, pp. 194–195 escreveu que o implemento usado para perfurar a pele de Cleópatra era um grampo.
  53. Jones 2006, p. 187, traduzindo Plutarco, cita Ário Dídimo dizendo a Otaviano que "não é bom ter muitos Césares", o que aparentemente foi suficiente para convencer o romano a matar o herdeiro egípcio.
  54. Ao contrário das províncias romanas regulares, o Egito foi estabelecido por Otaviano como território sob seu controle pessoal, impedindo o Senado romano de intervir em qualquer um de seus assuntos e nomeando seus próprios governadores equestres, o primeiro dos quais foi Galo. Para mais informações, consulte Southern 2014, p. 185 e Roller 2010, p. 151.

Referências

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  • Suetônio, Da vida dos Césares Iul i.35.52, ii.17.

Ligações externas

 
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Precedida por:
Ptolemeu XII
Rainha do Egito ptolemaico
com:
Ptolemeu XII, Ptolomeu XIII,
Ptolemeu XIV e Ptolemeu XV
Sucedida por:
Interventor romano, pois o Egito tornou-se uma província romana