Colonialismo cultural

Colonialismo cultural é uma forma de se alterar sutilmente a cultura de um grupo de indivíduos (território, país) por meio da manipulação dos meios de comunicação (cinema, televisão, etc.), fazendo com que muitas vezes estes sejam desapossados de parte dos seus bens culturais.

É uma estratégia utilizada pelos imperialismos para manterem seu domínio.[1][2]

A dominação cultural é um dos três pilares que mantém os impérios. Os outros pilares são: o domínio econômico e o domínio militar.

Nas vias culturais é exercida uma estratégia sobre os dominados que utiliza da propaganda, da censura ou do impedimento da produção cultural, da desinformação, com negação de verdades ou com a ocultação do passado histórico. Isto leva aos indivíduos a perceberem a cultura imposta como superior e a sua própria cultura como inferior .[3]

Fundamentos filosóficosEditar

O processo econômico de relações entre desiguais sob dominação e colonização no mundo ocidental já vem justificado, marcado, pelo saber da Grécia Antiga. Assim Platão na sua República:

Na obra Política de Aristóteles destacam estes parágrafos do seu pensamento de onde nasceria o conceito de "servidão natural":

A categoria bárbaro no mundo grego, alargadamente usada em épocas posteriores, está entendida como pessoa de civilização ou cultura inferior, mais tarde, a partir do século VI até o final do século XV, barbarus veio equivaler a paganus do ponto de vista religioso .[4] Para o sociólogo Vilfredo Pareto (1848-1923) o conceito da barbárie continua a ideia de Aristóteles da "servidão natural", sendo justo e de proveito que uns povos mandem e que os bárbaros obedeçam .[5]

O debate filosófico e legislativo do período colonial nascido no século XVI, qualifica com a palavra bárbaro aquele povo que não é capaz de se governar por si mesmo, e pelo tanto de justificável colonização.

Neste século XVI foi célebre a batalha escolástica entre Bartolomeu de las Casas e Juan Ginés de Sepúlveda, tendo por pano de fundo a discussão sobre a barbaridade das pessoas americanas. Casas apresentou argumentos para qualificar as pessoas da América como seres com alma, mas dentro de um estado de barbárie que precisava da cristianização; "bárbaros a cristianizar" e "primitivos a civilizar". Juan Ginés de Sepúlveda para demostrar a "falta de alma" das pessoas do outro continente usa argumentos hoje qualificados como de etnocentrismo cultural: os índios não tem sentido da propriedade privada, nem noção dos mercados (na época, algumas sociedades produziam em formas coletivas e a riqueza era distribuída com reciprocidade).

Este discurso de "falta de alma" mudou posteriormente na "falta de humanidade" e no racismo que se alicerçou em saberes "científicos".[6]

Casas discute também o conceito de guerra justa com o padre Gregorio Lita, este último apoiando-se em Tomás de Aquino, legitima submeter a povos que tem em si malignidade ou que são bárbaros.[7] O conceito de bárbaro é desarmado por Michel de Montaigne também neste século XVI:

A colonização cultural nasce de valores antitéticos à Alteridade.

Na alteridade, uma pessoa respeita a outra, um povo a outro, o diálogo é frutífero. Se não há alteridade, quem é mais forte domina o outro e termina por impor suas crenças. "Dou-me um lugar a mim como se eu for outro de mim mesmo". Não é de jeito narcisista que “eu” dou o lugar ao outro. Busca o colonialismo cultural a eliminação do “outro” uma negação da alteridade, seja pela segregação, integração forçada ou aculturação.

A barbárie interiorizada pelo colonizado: A barbárie é o maior sinal de colonização. O sujeito cultural colonizado funda a sua "identidade" em uma suposta barbárie que lhe faz apreender do colonizador e; desde ela é estabelecido o seu lugar no mundo: o sujeito cultural colonizado é um sujeito infantilizado[8] (aqui o qualificativo infantilizado está usado com a ideia que tem da infância a sociedade europeia e europeizada, além de outras sociedades, como manipulável, ideologicamente inferior ou imatura).

A relevância da cultura nos processos coloniaisEditar

Para Amilcar Cabral (1978), os processos de dominação colonial comportam dois tipos de ações sobre as sociedades colonizadas, uma atuação material e outra de natureza cultural: sendo o domínio imperialista a negação do processo histórico da sociedade dominada, é necessariamente a negação do seu processo cultural. A estagnação do processo de desenvolvimento endógeno pela colonização tem como consequência a paralisação do desenvolvimento próprio da cultura do povo dominado.[9] O colonialismo cultural é uma ferramenta de dominação, o controle por parte da metrópole da cultura atua sobre o comportamento de indivíduos e grupos. Este submetimento de uma nação por outra nação mais poderosa, que atinge à cultura, leva a uma modificação dos valores e percepções da dominada, da sua cosmovisão ou filosofia,[10] da sua gnosiologia ou epistemologia, o seu jeito de perceber o mundo, de entender o mundo, de atuar no mundo. A colonização coloniza mentes e emoções assim como também corpos, terra e trabalho .[11] A dominação cultural reduze as culturas primigênias dos territórios colonizados à categoria de infraculturas.[12]

Na lógica do processo de colonização cultural, os indivíduos pertencentes à infracultura são também inferiores e consideram-se a si mesmos inferiores.

Para Frantz Fanon e Amílcar Cabral o colonialismo cultural provoca uma submissão mental e apatia, que anula qualquer iniciativa ou ação política por parte da população colonizada.[13]

A inferiorização provocada pelo colonialismo cultural é explicada por George Herbert Mead: O conceito de si mesmo e do mundo que o ser humano na infância forma, cria-se a partir da absorção das funções dos papeis das pessoas que o rodeiam, as quais são modelo identificação. Assim o indivíduo não alcança o conceito de si mesmo de forma direta, mas em forma indireta a partir dos pontos de vista particulares, dos outros membros individuais do seu grupo social, e do ponto de vista generalizado do grupo social como um todo do que faz parte.

Ocorre uma aprendizagem sobre o colonizado onde a versão colonizadora é interiorizada, pertence então a um povo "primitivo, atrasado, subdesenvolvido".

Aprendizagens condicionadas, reforçadas pela sociedade (religião, mídia, sistema educativo...) deformam a consciência coletiva e individual, produzindo-se uma sociedade com vergonha e estranhamento da sua própria identidade, aparece a auto-ódio,[14] a vergonha étnica, e a vergonha cultural. Esta sociedade e indivíduos na auto-xenofobia, consideram também inferior e dentro da normalidade, qualquer outra sociedade ou cultura sob domínio cultural de metrópoles.[15] Também é frequente nas sociedades de dinâmica colonial que apareça a opressão internalizada, onde o grupo oprimido apreende a utilizar e a aplicar os métodos do opressor contra si mesmo.[16]

O processo de colonização cultural não está isento de racialização ou etnicização, no que a ideologia de um grupo dominante adscreve uma identidade cultural inferiorizadora para o grupo dominado, já for relativa às suas capacidades intelectuais ou laborais, (muito estendida e preconceituosa com a população africana ou afrodescendente), à sua incapacidade cultural para se adaptar à economia de mercado. Esta atribuída inferiorização é argumento para justificar desde a metrópole a espoliação e a pobreza; assim por exemplo na Wikipédia espanhola no artigo sobre a Economia da Galiza,[17] nação sob colonialidade interna do Estado Espanhol, é citado:

A sociedade ou a pessoa sob colonização cultural, já em alienação colonial, aceita, orgulha-se, interioriza a sua etnicização.

Assim por exemplo no livro O Direito à Preguiça de Paul Lafargue (1880), é para destacar que entre os povos etnicizados como bons para o trabalho, estejam povos baixo colonização interna dos estados-nação europeus:

Os saberes europeus, na sua ideia de partir o mundo e dispô-lo em escalas de valores, utiliza e difunde como verdade a ideia de “progresso cultural”; como se a cultura buscasse um fim de perfeição, como se houvesse culturas mais avançadas e menos avançadas.

Leva esta comparação também a confusão entre cultura e tecnicidade; é frequente que a tecnicidade seja pensado que faz parte da cultura.

A tecnicidade de uma sociedade qualifica-se de avançada ou atrasada a respeito do conhecimento científico e da sua aplicação em tecnologia. É possível ser isto observado de outro ponto de vista, pois uma tecnicidade considerada superior pode ser inoperante em determinadas circunstâncias onde técnicas mais “simples” produzem resultados mais eficientes.

A pessoa de cultura inferiorizada, submetida a um processo de avaliação para conseguir um lugar na sociedade colonizada, tem de demonstrar que conhece e pode desenvolver-se na cultura do colonizador, sobretudo nas competências linguísticas.

No âmbito do colonialismo cultural, na língua é onde mais facilmente pode ser avaliado o processo de dominação cultural.

Por exemplo no Quebeque, de cultura francófona dentro do Canadá, de maioria anglófona, no idioma francês é observada uma pobreza de vocabulário, a pessoa francófona evolui em um ambiente onde as coisas geralmente são de origem estrangeira, o seu vocabulário está cheio de empréstimos ingleses; há uma contaminação sintática e semântica, é falada uma mistura dos dous idiomas; há uma contaminação fonética, é pronunciado o francês com sotaque inglês.[18]

Professores de origem colombiana avaliaram o espanhol dos seus alunos porto-riquenhos. Porto Rico está sob um processo contínuo de colonialismo cultural, onde a língua inglesa é a língua da administração e do poder, e a língua espanhola a inferiorizada. Os estudantes falantes nativos de espanhol tem um standard inferior nas aulas de espanhol em comparação com os alunos de língua materna inglesa, contrariamente ao esperável. E em geral, inferiores qualificações em outras matérias. Esta dificuldade com as outras matérias dentro do sistema educativo era pensada por serem crianças de fala espanhola, com dificuldades de percepção em aulas ministradas em inglês. Mas, em palavras de um professor dirigidas a estes alunos porto-riquenhos, depois de ter sido feito o estudo: "Agora percebi: vocês não tem nenhum idioma".[19]

Para Fanon a alienação colonial, gera um complexo de inferioridade no sujeito colonial. A língua da colonização constitui um dos principais veículos através dos quais o complexo de inferioridade se manifesta, determinando, assim, o nível de civilidade e humanidade.[20]

Quando se consegue instilar em uma pessoa uma atitude depreciativa em relação à sua própria língua, consegue-se introduzir nela uma atitude depreciativa em relação a si mesma.[21]

A religião como elemento na colonização culturalEditar

A colonização religiosa costuma ser um aspeto da colonização cultural, mesmo culturicida.

No antigo Reino Suevo, na altura do s.VI, estabelece-se a religião católica como religião do reino. O bispo de Braga, Martinho de Dume, redige umas normas no livro De correctione rusticorum (Da Correção dos rústicos) onde trata de anular práticas culturais do povo, e impôr umas novas. Por exemplo podem ser lidas entre outras normas e críticas:

No cristianismo, no catolicismo, a "divulgação religiosa" é justificada desde os evangelhos:

E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Marcos 16:15
Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Mateus 28:19

A difusão religiosa também está no Islão. O conceito de yihad, "esforço" obriga a difundir a sua crença.

Apenas estas duas religiões, o cristianismo e o islão, têm como mandato espalhar suas crenças, tendo a conversão como objetivo principal. Isto nasce de um apriorismo no que estas religiões se auto-definem como as únicas verdadeiras ou válidas. Alguma religião pode levar em si o preceito da condenação dos não crentes que é outro elemento mais que indiretamente move à sua divulgação.

O final do século XV e o século XVI é momento do nascimento na Europa, na Espanha e Portugal, da onda colonizadora. Época que está marcada por vários feitos históricos destacáveis, onde a religião tem um papel fundamental:

A conquista de Al-Andalus com a expulsão de muçulmanos e judeus.
A colonização americana.
A colonização e escravatura africana.
A colonização religioso-cultural interna da Europa, eliminando o conhecimento ancestral rural, censurado por poderes religiosos.

A conquista e colonização americana está gerida pelos mesmos parâmetros que a conquista dos territórios muçulmanos da Península Ibérica, onde além de haver um fator de ganho de território, havia um elemento ideológico de intolerância religiosa.

Os métodos de colonização e dominação usados contra Al-Andalus levaram-se para o continente americano. A guerra contra Al-Andalus foi tão importante nas mentes dos conquistadores espanhóis que Hernán Cortés, conquistador do atual território do México, confundiu os templos sagrados astecas com mesquitas.

O projeto da monarquia espanhola de criar uma correspondência entre a identidade do Estado (religiosa e cultural) e a identidade da população dentro dos seus confins territoriais, foi a origem da ideia do Estado-nação na Europa.

É nesse intento de criação de identidade única que a cultura de um único reino, o de Castela, é imposta nos reinos que governa a coroa, nos reinos e territórios conquistados e nas terras colonizadas. A destacar que nesta altura é escrita a primeira Gramática Castelhana (1492), cujo autor Nebrija no seu prólogo escreve «que sempre a língua foi companheira do império».[22]

Além do genocídio, a conquista de Al-Andalus esteve acompanhada de um epistemicídio, é dizer, o extermínio do conhecimento, o extermínio das fontes da cultura.

As bibliotecas das cidades do Al-Andalus, como a de Córdova (a que mais livros tinha do mundo em aquela altura) ou a de Granada foram queimadas no processo de conquista.Também na conquista americana os códices maias e astecas ou os quipos andinos foram queimados.

Outro sistema de imposição cultural e religiosa foi o da encomienda. Era uma forma de trabalho forçado que foi usado na conquista de Al-Andalus no que o encomendero submetia a escravatura aos mouriscos e vigiava a sua conversão ao catolicismo, isso foi levado para a América conquistada pela Espanha e aplicada à população autóctone.[23]

No Brasil a colonização foi pelas armas, com violência e escravatura. Mas também com colonização religiosa, onde a ação cultural foi principal. Colonização religiosa gerida principalmente desde a Companhia de Jesus que chega no 1549.

O trabalho dos padres jesuítas era visitando de forma itinerante as povoações indígenas, atividade que não conseguia impor a nova religião.

Para Manuel da Nóbrega o primeiro Provincial do Brasil e do Novo Mundo, a conversão devia assentar-se no uso persuasivo do medo, medo punitivo provocado pela ira divina; os povos indígenas tinham que ser submetidos à força para só então, serem convertidos pela persuasão.

A Companhia de Jesus cria aldeamentos, missões, onde era obrigado que as gentes nativas se assentassem, nas que a Companhia exercia o poder religioso e por vezes o administrativo.[24]

O Padre jesuíta Antônio Vieira cria um corpo normativo chamado de Visita, onde pormenorizadamente regula a missão ou aldeamento, trata de inúmeras matérias, de diversificada índole pois a finalidade em si era a criação de um povoado novo. Abrange questões religiosas, espirituais, catequéticas, escolares, sociais, econômicas, sacramentais, hospitalares, linguísticas, civis...

O colonialismo da mão da religião, nestes aldeamentos também foi agrícola. Um agrônomo instruía os indígenas no modo de produção europeu, considerado mais eficiente que as práticas agrícolas próprias da sua cultura.

O médico ministrava os remédios do colonizador, apagando-se saberes medicinais do povo.

Os professores alfabetizavam a população para que tivesse o contato com a Bíblia, para realizar a leitura desta, atividade principal na catequese, base do ensinamento dos valores cristãos.

Esta colonização religiosa e cultural ainda está a acontecer no Brasil do século XXI, levada adiante por diversas religiões, sobretudo cristãs.

As missões católicas, apenas por volta dos anos sessenta do passado século, alteraram seu modo de evangelização para a inculturação, passando a tentar compreender a cultura nativa. Tal alteração de ideologia foi devida ao Concílio do Vaticano II e à Conferência de Medellín.

Tentam conciliar os rituais e as festas indígenas às comemorações religiosas cristãs, como Páscoa e Natal, criando umas festas “mistas”. Também, respeitam os objetos xamânicos simbólicos dos índios, até mesmo fazendo uso deles em cerimônias católicas.

Outras igrejas condenam os rituais indígenas, as suas danças, festas, bebida (caxiri), artefatos xamânicos... Procurando um rompimento com a forma de vida tradicional e a adesão a valores apresentados como possuidores de validade universal.

Esta forte colonização cultural feita pela religião é por vezes justificada como um auxílio para que os indivíduos de culturas minoritárias possam se relacionar com o Estado, a administração, outros povos da vizinhança, também como um jeito de eliminar os maus costumes, e no seu caso preservar os bons, julgados como bons ou maus desde o eurocentrismo.[25]

A língua na colonização culturalEditar

Kembo-Sure e Victor Webb estabelecem um relacionamento direto entre língua e pensamento:

a) a língua determina causalmente o pensamento e a percepção;
b) a língua determina o pensamento e a percepção, não de uma maneira causal mas sim do ponto de vista constitutivo;
c) a cultura encontra-se numa relação causal e determinista com a língua;
d) as mudanças culturais têm grande impacto na língua, mas não de forma causal.[26]

A hipótese de Sapir-Whorf (1930) afirma que a língua determina a nossa visão do mundo, ou de outro modo o pensamento deriva da linguagem. Desenvolvendo isto é estabelecida a tese da cosmovisão linguística: o uso de uma determinada língua implica, necessariamente, a adoção da cultura de onde a língua é originária.

Fanon assumiu uma postura construtivista, acreditando que a língua é o que forma o nosso mundo. Para Fanon, o uso da língua do colonizador tem consequências na psicologia do colonizado. A língua reforça o estado alienado do sujeito colonial, dado que o uso da língua colonial significa, não só uma total identificação com a cultura metropolitana, mas também uma desaprovação e ridicularização da cultura nativa.[27]

Por este conhecimento da relação direta entre língua e pensamento, ou já for de maneira empírica, é entendível que nos processos de dominação de umas nações sobre outras seja usada a língua como "arma", impondo o idioma do colonizador sobre os indivíduos ou sociedades que o poder quer governar.

A tese posta em evidência por Paulo Freire fala que os sistemas educativos estatais não são neutrais,[28] que a educação é pensada para criar um tipo de cidadão, para que se desenvolva um tipo de sociedade. A língua do colonizador, obrigada dentro do sistema educativo, é ferramenta aplicada nos processos de colonização cultural.

Esta utilização da educação e da língua como arma de colonização pode ser observada no Diretório dos Índios: Diretório que se deve observar nas povoações dos índios do Pará e do Maranhão enquanto sua majestade não mandar o contrário, publicado em 3 de maio de 1757 e transformado em lei por meio do alvará de 17 de agosto de 1758:

Neste diretório é para destacar como é estabelecida uma relação direta entre o uso do idioma nativo e o "ser bárbaro" (na conceição de barbaridade exposta anteriormente): o idioma civilizado provocaria a civilização dos costumes, e a "lingoa do príncipe" acarretaria "afecto, veneração, e obediencia" dos povos conquistados.[29] Destacar também que na altura do século XVIII a língua tupi era a língua de intercomunicação, língua à qual se refere o texto legislativo com o nome de "língua geral" sobre a que cai pejoração e o seu banimento.

Outro exemplo de situação de colonização cultural linguística, extensível a outras nações em processos semelhantes, pode ser estudado com o caso das línguas gaélicas, línguas próprias da Irlanda e da Escócia, ambas as nações sob colonialismo cultural inglês. No caso escocês como colonialismo interno dentro do reino da Grã-Bretanha. E no caso irlandês como nação colonizada exteriormente, conquistada

A introdução da lei "the education act" de 1872 na Escócia, a educação obrigatória, determinou o uso exclusivo no ensino médio do inglês. Os alunos que falavam gaélico eram frequentemente mofados por outros colegas de turma, castigados corporalmente pelos seus professores.

Nas National schools na Irlanda, "escolas nacionais", estabelecidas pelo governo britânico no 1831, foi proibido o ensino e mesmo falar em gaélico.[30][31]

Hoje em dia os falantes de gaélico são uma minoria. Assim na Irlanda 39.8% das pessoas falam gaélico.[32] Na Escócia apenas o 1.1%.[33]

Ver tambémEditar

Referências

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  2. https://books.google.com.br/books?id=vGyi6r1VCPIC&pg=PA201&lpg=PA201&dq=Colonialismo+Cultural+Interno&source=bl&ots=20ns19Ai9D&sig=QkkJ6O9SsEMFpo-pLBWCH2w2LkU&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjejPHp57PcAhUBHJAKHRsICUQ4ChDoAQhCMAQ#v=onepage&q=Colonialismo%20Cultural%20Interno&f=false
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