Convento da Trindade (Lagos)

O Convento da Trindade, igualmente conhecido como Convento dos Frades Trinos, e oficialmente denominado de Convento da Santíssima Trindade, é um antigo edifício religioso junto à cidade de Lagos, em Portugal. O convento foi concluído em 1606 pela Ordem da Santíssima Trindade, embora a igreja fosse mais antiga, tendo sido construída nos meados do Século XVI pela comunidade italiana de Lagos.[1] O complexo foi destruído pelo Sismo de 1755 e convertido num hospital militar no Século XIX, tendo sido depois deixado ao abandono, chegando a um acentuado estado de degradação.[1]

Convento da Trindade
Fachada principal do convento, em 2020.
Nomes alternativos Convento dos Frades Trinos
Convento da Santíssima Trindade
Fim da construção Século XVII
Religião Igreja Católica Romana
Diocese Diocese do Algarve
Património Nacional
SIPA 2896
Geografia
País Portugal Portugal
Local Lagos
Coordenadas 37° 5' 42.25" N 8° 10' 10.73" O
Localização do edifício em mapa dinâmico
Antigo claustro do convento, em 2020.
Corredor no interior do edifício, em 2020.

HistóriaEditar

Antecedentes e construçãoEditar

O historiador João Baptista da Silva Lopes, na sua obra Corografia ou memoria economica, estadistica, e topografica do reino do Algarve, relatou que no Século XV um grupo de estrangeiros da península itálica residentes em Lagos, formado por milaneses, genoveses e nobres messinenses, construíram em 1553 uma ermida ou igreja dedicada a Nossa Senhora do Porto Salvo, na zona do Rossio da Trindade.[2]Nessa altura, esta zona era conhecida como Rossio de São Brás, por existir igualmente uma igreja dedicada áquele santo.[3] De acordo com o Santuario Mariano, publicado em 1716, a confraria tinha sido fundada pelos sicilianos, tendo alcançado uma grande importância.[2] O domínio dos sicilianos em relação à comunidade ficou expresso na invocação da igreja, já que em Palermo havia uma grande devoção à Nossa Senhora do Porto Salvo.[2] Originalmente não era permitida a entrada de novos membros, mas esta situação começou a mudar devido à quebra na produção piscatória, que levou ao abandono de vários sicilianos, pelo que admitiram alguns espanhóis, que segundo Silva Lopes eram da Catalunha e de Valência.[2] Ainda assim, a comunidade continuou a decair devido a problemas nas pescarias, e à progressiva saída dos membros sicilianos.[2] Entretanto, em 1597 os frades da Ordem da Trindade pediram autorização para construir um convento junto à Igreja de Porto Salvo,[1] com o apoio do Bispo do Algarve, Fernando Martins de Mascarenhas, que foi o mediador entre o rei e a Câmara Municipal de Lagos,[4] tendo escrito à autarquia em 7 de Março desse ano.[3] A Ordem da Trindade foi formada para apoiar o resgate os cristãos cativos, normalmente através da angariação de esmolas, tendo sido de grande significado na região do Algarve, já que as populações costeiras eram nessa altura assoladas por piratas islâmicos vindos do Norte de África, que raptavam os habitantes para serem vendidos como escravos.[3] Neste sentido, a cidade de Lagos foi considerada um local ideal para construir o convento, devido à sua importância e às suas ligações à costa africana.[3]

As obras começaram em 1599, mas foram embargadas devido à oposição da Confraria de Porto Salvo, que pediu a intervenção do rei D. Filipe II.[1] Como forma de resolver a situação, nesse ano os frades trinos pediram que a confraria lhes cedesse o templo.[2] Em 27 de Julho de 1600, as duas partes entraram oficialmente em acordo, numa cerimónia que contou com a presença do Governador do Algarve, Rui Lourenço de Távora e Rodrigo Rebelo Falcão, escrivão das Almadravas.[3] Assim, a igreja seria cedida à Ordem da Trindade, que ficaria obrigada a assegurar os serviços religiosos e funerários que eram ali feitos.[3] O convento da Trindade foi concluído em 1606.[1] Esteve envolvido até 1627 em várias operações de resgate no Norte de África, incluindo em Argel e em Tetuão, tendo vários frades do convento participado nas negociações para a libertação dos cativos.[3] Ficou registada a presença de dezasseis superiores no convento, entre 1599 e 1641.[3] Em 1716, ano em que foi publicada a obra Santuario Mariano, já não restavam quaisquer vestígios da irmandade do Porto Salvo, e da antiga invocação italiana de Nossa Senhora só restava uma pintura num quadro.[2]

 
Antigo Convento da Trindade, nos princípios do Século XX.

Séculos XVIII a XXIEditar

O edifício foi totalmente destruído devido ao Sismo de 1755, que provocou uma grande devastação na cidade de Lagos.[5] Em 1762 o padre ministro da Ordem da Trindade pediu à autarquia de Lagos para indicar três pessoas, de forma a escolher uma para o posto de tesoureiro na Igreja da Raposeira, onde seria responsável pela recolha de esmolas para a reconstrução do convento.[3] Em 13 de Março de 1789 foi feito o levantamento gráfico das ruínas pelo coronel engenheiro Teodósio da Silva Reboxo, do Regimento de Artilharia do Reino do Algarve, por ordem do Conde de Vale de Reis.[1] Em 1834 o governo extinguiu as ordens religiosas masculinas em território nacional, levando ao encerramento dos conventos e à sua inventariação, incluindo o de Lagos, que nessa altura possuía o próprio terreno e a sua cerca, além de dois prédios avaliados em 705$000 réis, e vários foros, tanto em dinheiro como géneros, relativos a trigo, milho, figos e galinhas.[3] Durante o Século XIX, foi reconvertido num hospital da Marinha Portuguesa, tendo sido adquirido por um particular nos finais do Século.[1] No Século XX, surgiu a ideia de construir um hotel nos terrenos junto ao convento, que não chegou a avançar.[1] Posteriormente foi abandonado, entrando num processo de profunda degradação.[6] Em 1998, o complexo do convento estava à venda.[1]

Em Junho de 2019, a Câmara Municipal de Lagos abriu o concurso público para um plano de pormenor da zona do Rossio da Trindade, no valor de 100 mil Euros, que incluía a recuperação do convento, e a sua transformação num hotel de luxo.[6] Numa entrevista com a presidente da Câmara Municipal de Lagos, Joaquina Matos, esta afirmou que estava a ser estudada a instalação de um hotel com 120 quartos nos terrenos junto às ruínas do convento.[7]

 
Alçado ocidental do edifício, mostrando a antiga torre.

DescriçãoEditar

O convento está situado na orla costeira a Sul de Lagos, tendo acesso pela Estrada Nacional 125.[1] É composto por vários corpos adossados, formando um quadrado com um claustro no centro,[1] onde existe um poço.[8] Todos estes volumes são de um só piso, salvo o que está no canto Noroeste, que tem primeiro andar.[1] A igreja está situada a Norte do claustro.[1] O complexo do convento tinha três portas de acesso, sendo a fachada principal virada a Oeste.[8] Destacam-se igualmente os vários bancos, tanto no claustro como no exterior do convento, que provavelmente serão um testemunho da sua utilização como hospital.[1] Anexo à fachada Norte do convento está um edifício de construção posterior.[8]

Na sua obra História chronologica da esclarecida ordem da Ss. Trindade, Redempção de Cativos, da Provincia de Portugal, publicada nos finais do Século XVIII, o frei jerónimo São José descreveu a igreja: «Foi estabelecido em huma Ermida de Nossa Senhora com o titulo de Porto Salvo, pertencente aos Estrangeiros de Levante, aonde tinhão principiado huma bella Igreja, levantada até às simalhas [...]. A Igreja que dissemos estava nas simalhas, se concluio, ficando huma das mais perfeitas da Cidade. [...] Tem tres altares, o da Capella Mór, que era a Ermida dedicada à Santissima Trindade, com seu retabolo dourado em que estão as Imagens dos Santos Patriarcas, e no meio outra da Sagrada Virgem dos Remédios de Seis Palmos».[9]

 
Entrada do complexo, em 2020.

Ver tambémEditar

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n CELADA, Marta; COSTA, Anouk (1998). «Convento dos Frades Trinos / Ruínas do Convento da Trindade». Sistema de Informação para o Património Arquitectónico. Direcção Geral do Património Cultural. Consultado em 17 de Junho de 2020 
  2. a b c d e f g OLIVEIRA, Ataíde (7 de Janeiro de 1909). «Lacobrica, Lacobriga ou Lagos» (PDF). Correio do Algarve. Ano 1 (14). Lagos. p. 2. Consultado em 13 de Outubro de 2020 – via Hemeroteca Digital do Algarve 
  3. a b c d e f g h i j JESUS, Artur Vieira de (1 de Setembro de 2020). «O antigo Convento da Trindade e a História dos Lugares que hoje não têm História». Nova Costa de Oiro (47). Lagos: JL Unipessoal. p. 26-29. Consultado em 10 de Outubro de 2020 – via Issuu 
  4. MARTINS, José António (6 de Maio de 2019). «De Faro a Oxford em busca da biblioteca perdida». Barlavento. Consultado em 17 de Junho de 2020 
  5. «Lagos» (PDF). O Panorama. 2.ª Série - Volume I (45). 5 de Novembro de 1842. p. 45-46. Consultado em 10 de Outubro de 2020 – via Hemeroteca Digital de Lisboa 
  6. a b EUSÉBIO, José Carlos (21 de Junho de 2019). «Lagos quer hotel de luxo em antigo convento». Correio da Manhã. Consultado em 17 de Junho de 2020 
  7. EUSÉBIO, Jorge (3 de Julho de 2019). «Hotel de 120 quartos previsto para o Rossio da Trindade». Algarve Marafado. Consultado em 17 de Junho de 2020 
  8. a b c «Ruínas do antigo Convento da Trindade». Câmara Municipal de Lagos. Consultado em 11 de Outubro de 2020 
  9. COUTINHO, Maria João Pereira (Junho de 2019). «Entre a memória e o devir: fragmentos da fachada da igreja do convento da Trindade» (PDF). Gabinete de Estudos Olisiponenses / Direcção Municipal de Cultura / Departamento de Património Cultural. Rossio - Estudos de Lisboa (8). Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa. p. 25-27. ISSN 2183-1327. Consultado em 11 de Outubro de 2020 – via Universidade Nova de Lisboa 
 
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Ligações externasEditar


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