Crime da mala (1928)

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O crime da mala, como foi chamado pela imprensa, ocorreu em 1928 no Brasil. Um imigrante italiano, Giuseppe Pistone, assassinou sua esposa, Maria Féa, e ocultou seu corpo em uma mala. O episódio ganhou ampla cobertura na época, gerando comoção popular.

Giuseppe Pistone e Maria Féa a bordo do navio Conte Biancamano

HistóriaEditar

Chegada ao BrasilEditar

Giuseppe Pistone e Maria Mercedes Féa conheceram-se em 1925 a bordo de um navio que seguia de sua terra natal, Itália, para Buenos Aires, Argentina. Ele, então com 31 anos de idade, buscava melhores condições de vida; ela, aos 20, ia visitar a mãe, que mudara-se para lá anos antes. Começaram a namorar e, quando Maria completou 21 anos, casaram-se, imigrando para o Brasil no navio Conte Biancamano.[1][2]

Trabalhando na casa de salames e vinhos de seu primo Franceso Pistone em São Paulo, Giuseppe recebe deste uma proposta de sociedade. Sem o capital necessário, escreve um telegrama à sua mãe Marcelina Baeri, na Itália, pedindo um valor equivalente a 150,000 contos de réis, parte de uma herança deixada por seu pai. Mesmo diante da recusa da mãe, aceita a proposta do primo, pretendendo mais tarde extorqui-lo.[1][3]

O crimeEditar

Maria Féa decidiu então escrever uma carta à sogra, revelando toda a verdade sobre os pedidos de dinheiro.[4] Na manhã de 4 de outubro de 1928, Giuseppe descobre a carta. O casal briga, e Pistone sufoca a esposa com um travesseiro. Sem saber o que fazer com o corpo, decide ocultá-lo em uma mala, seccionando os joelhos com uma navalha e quebrando o pescoço para que o cadáver coubesse na mesma. Usando endereços e nomes falsos, remete a mala à "Francesco Ferrero", em Bordeaux, França, através do navio Massilia.[3]

No dia 7 de outubro de 1928 a mala é içada a bordo do navio, então atracado no Porto de Santos. Ao ser descarregada, sofre um pequeno impacto, que abre uma fresta na parte inferior e revela um forte mau cheiro. A mala é aberta, e o cadáver descoberto. Junto a ele, além de algumas roupas da vítima (quinze pares de meia, duas almofadas, duas camisolas, duas saias comuns, uma saia com anágua, um chapéu) e a navalha utilizada no crime, havia também o feto de uma menina, com aproximadamente seis meses de gestação.[3][5][4][6]

DesfechoEditar

As investigações conduzem a polícia até Giuseppe que, preso, falou que apenas discutira com a mulher e ela morrera de um mal súbito. Após o resultado da autópsia (morte por sufocação ou esganadura) alegou ter cometido o crime por encontrar sua esposa com um amante no apartamento do casal, versão que manteve mesmo após o testemunho do casal de senhorios, Ramiro Franco e Maria Sitrangulo, que sublocavam o quarto para o casal Pistone. O casal revelou que Giuseppe Pistone e Maria Féa levavam uma vida "retraída e misteriosa". A senhora Sitrangulo declarou ainda que na quinta-feira, cinco dias antes da descoberta do corpo, havia escutado "dois gritos de mulher, abafados", e que ficou muito impressionada. No entanto, o marido não dera maior importância ao fato.[6][3] Em 15 de julho de 1931, é condenado a 31 anos de prisão, por homicídio e ocultação de cadáver.[1]

Em 13 de junho de 1944, através de um decreto presidencial, sua pena é comutada para 20 anos de prisão. Pistone é colocado em liberdade condicional em 3 de agosto do mesmo ano, e sua pena é considerada cumprida em 5 de novembro de 1948.[1] Consegue emprego em Taubaté, como zelador de um prédio, casando-se novamente em 1949 com uma mulher da cidade. Um filho dessa mulher, de um casamento anterior, enteado portanto de Pistone, revelou que sabia que seu padrasto havia assassinado a primeira esposa, e que lhe havia contado várias versões do crime. Pistone morreu doente em 1956.[6][1][3]

O corpo de Maria Féa foi sepultado no Cemitério da Filosofia em Santos, e seu túmulo desde então virou alvo de uma espécie de peregrinação religiosa, com fiéis atribuindo a ela diversos tipos de milagres e considerando-a uma espécie de santa.[2][7]

A mala encontra-se em exposição no Museu do Crime, em São Paulo.[7][8]

MídiaEditar

O episódio inspirou a realização de um filme, O Crime da Mala. Dirigido por Francisco Madrigano, foi lançado em 31 de outubro de 1928.[9] O assassinato foi também tema de um episódio especial do programa Linha Direta. Exibido em 2 de junho de 2005, reconstituiu os principais momentos do crime, com Ana Paula Tabalipa no papel de Maria Féa e Gabriel Braga Nunes no papel de Giuseppe Pistone.[10]

Referências

  1. a b c d e "Crimes, criminosos e a criminalidade em São Paulo" - Guido Fonseca, ed. Resenha Tributária, 1988
  2. a b "O Conte Biancamano, um navio alvo" - PortoEra
  3. a b c d e "A verdade da mala" - revista Época
  4. a b «O Crime da Mala (1928)». São Paulo Antiga. 28 de janeiro de 2015. Consultado em 30 de março de 2019 
  5. "Cotidiano" - Almanaque da Folha
  6. a b c A verdade da mala
  7. a b "Santa Maria da mala" - O Estado de S. Paulo
  8. «Museu do Crime». Veja São Paulo. Arquivado do original em 5 de novembro de 2007 
  9. "Crime da Mala, O" - IMDb
  10. "Linha Direta - O Crime da Mala (2005)" - IMDb