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Delhemma
Sīrat al-amīra D̲h̲āt al-Himma wa-waladihā ʿAbd al-Wahhāb wa ’l-amīr Abū Muḥammad al-Baṭṭāl wa-ʿUḳba s̲h̲ayk̲h̲ al-ḍalāl wa-S̲h̲ūmadris al-muḥtāl
Autor(es) Desconhecido(s)
Idioma árabe
País Califados omíada e abássida
Assunto Guerras bizantino-árabes
Gênero Épico
Linha temporal Séculos VIII e IX
Localização espacial Anatólia, Levante, Magrebe e Alandalus
Lançamento Ano 900 (?)

Delhemma ou Sirat Delhemma ("História da Senhora Delhemma") é uma obra épica popular da literatura árabe sobre as guerras bizantino-árabes do período omíada e início do período abássida. Segundo alguns autores teria sido publicada pela primeira vez cerca do ano 900 no Egito,[1] mas as referências seguras mais antigas aos personagens surgem no século XII, também no Egito, e alguns dos eventos narrados ocorreram muito depois do século X.[2]

A obra, cuja primeira edição moderna publicada no Cairo em 1909 tem 5 084 páginas, narra as aventuras e desventuras de uns quantos personagens, alguns inspirados em acontecimentos e figuras históricas, mas com muita fantasia, anacronismo e incorreções históricas à mistura, durante um período que vai do século VIII ao século XII ou XIII, apesar dos personagens principais — Delhemma (ou Amira Date al-Hima), o seu filho e o herói al-Baṭṭāl — terem vivido ao mesmo tempo.

Índice

TítulosEditar

A obra é conhecida por uma série de outros títulos, dos quais o mais antigo conhecido é “Sīrat al-Amīrah Dhāt al-Himmah wa-ibnihā ʻAbd al-Wahhāb”:[3]

  • Dalhama
  • Dhū al-Himmah
  • Dhāt al-Himmah
  • Sīrat al-Amīrah Dhāt al-Himmah wa-waladihā ʻAbd al-Wahhāb
  • Sīrat al-Mujāhidīn wa-Abṭāl al-Muwaḥḥidīn al-Amīrah Dhū al-Himmah wa-ʻAbd al-Wahhāb
  • Sayyid al-Baṭṭāl
  • Sīrat Ḏāt al-Himma wa-l-Baṭṭāl[4]
  • Sīrat Delhemma[4]

A tradução do nome completo da obra, conforme a sua primeira edição moderna, publicada em 1909 no Cairo, é "Sīrat al-amīra D̲h̲āt al-Himma wa-waladihā ʿAbd al-Wahhāb wa ’l-amīr Abū Muḥammad al-Baṭṭāl wa-ʿUḳba s̲h̲ayk̲h̲ al-ḍalāl wa-S̲h̲ūmadris al-muḥtāl" ("A Vida de Amira Date al-Hima, mãe de heróis do Islão, do seu filho Amir Abdal Uaabe, de Amir Abu Maomé al-Batal, o mestre do erro Ucba e do astuto Sumadris").[5][6] Delhemma significa "Date al-Hima" ("mulher com grande coração") e designa a protagonista principal da obra.[1]

SinopseEditar

Na edição de 1909 do Cairo, a história inclui 70 secções em sete volumes e 5 084 páginas.[4] O tema da epopeia deriva da longa história de guerras entre Árabes e Bizantinos durante o califado omíada e início do califado abássida, até ao reinado de Aluatique (r. 841–847), com elementos de eventos posteriores, focados nas peripécias da rivalidade entre duas tribos árabes, os Banu Cilabe, à qual pertencem os personagens principais, e os Banu Sulaim.[7]

 
Ataque das tropas de Maslama durante o segundo cerco árabe a Constantinopla, numa tradução búlgara da Crónica de Constantino Manasses (século XII). O cerco é um dos eventos relatados no Delhemma

A obra começa com a história da rivalidade entre as duas tribos durante o início do período omíada, quando os Banu Sulaim dominavam os Banu Cilabe e prossegue até os Banu Cilabe assumirem o comando e à participação do Cilabita al-Sahsah nas campanhas militares do príncipe omíada Maslama ibne Abdal Malique contra os Bizantinos, incluindo o segundo cerco árabe a Constantinopla (717–718), as suas aventuras no deserto e a sua morte.[8] A seguir, os filhos de al-Sahsah, Zalim e Mazlum, disputam a herança do seu pai. A filha de Mazlum, Fátima, a heroína epónima da epopeia, é raptada pelos Banu Tai e durante o seu cativeiro torna-se uma valente guerreira, passando a ser chamada al-Dalhama. Este nome é possivelmente a forma feminina de dalham (lobo), mas é mais usual ser interpretado como uma corruptela do honorífico "Date al-Hima" ("mulher de nobres propósitos" ou "de grande coração"), que também aparece na história com outras variações, a mais comum delas Delhemma.[8][9]

Durante a revolução abássida (c. 750), os Banu Sulaim liderados por Abdalá ibne Maruane retomaram a liderança das tribos árabes devido a terem apoiado os Abássidas. Graças à intervenção de Delhemma, os Banu Cilabe aceitaram essa mudança e juntamente com os Banu Sulaim participaram na então reavivada guerra de fronteira com os Bizantinos. Os Banu Cilabe estabeleceram-se na cidade de Malátia, enquanto que os Banu Sulaim tomaram a fortaleza de Hisne Alcaucabe.[8]

O primo de Delhemma, al-Harite, filho de Zalim, logrou casar-se com ela graças a uma droga, e ela dá-lhe um filho, Abdal Uaabe, o qual tem a pele negra. Quando este cresce, torna-se líder dos Banu Cilabe e os seus feitos e da sua mãe na guerra contra o Império Bizantino são o tema principal da epopeia. Abdal Uaabe é apoiado pelo astuto al-Battal, que, embora sendo um Sulaimita, junta-se aos Cilabitas, e enfrenta a oposição do resto dos Sulaimitas, incluindo o traiçoeiro cádi Ucba, que se tinha convertido secretamente ao cristianismo, e do amir (emir) de Malátia, Amir ibne Abdalá (ou ibne Ubaidalá, Ambros nas fontes bizantinas), que desconfia dos Banu Cilabe apesar de dever a sua vida a Delhemma. Entretanto, o marido de Delhemma, al-Harite, junta-se aos Bizantinos com um bando de Árabes e converte-se ao cristianismo. Em contrapartida, os muçulmanos encontram aliados entre os Bizantinos, como os cripto-muçulmano Maris, chanceler do imperador, ou o senhor de uma fortaleza da fronteira, Ianis (João).[8]

A epopeia segue os seus protagonistas numa série de campanhas militares e aventuras durante os reinados de Harune Arraxide (r. 786–809), Alamim (r. 809–813), Almamune (r. 813–833) e Almotácime (r. 833–842). Na parte final, a narrativa é dominada pela rivalidade entre os Sulaimitas e Cilabitas, alimentada pela liderança pérfida dos Cilabitas e à sua atividade de espionagem a favor dos Bizantinos. Os líderes dos Banu Cilabe, entre os quais Delhemma e Abdal Uaabe, são capturados várias vezes pelos Bizantinos e pelo califa abássida devido às intrigas de Ucba, mas são sempre libertados após várias aventuras. Al-Battal desempenha um papel crucial de contraponto ao traidor Ucba, com cada um deles procurando capturar e eliminar o outro. Al-Battal resolve várias vezes a situação com os seus feitos, que o levam à Europa Ocidental e ao Magrebe. Vários governantes bizantinos atacam e saqueiam sucessivamente Malátia, mas são repelidos ou derrotados pelas ações de Delhemma ou Abdal Uaabe. Por outro lado, os Banu Cilabe ajudam frequentemente os imperadores bizantinos a recuperarem a sua capital Constantinopla, de usurpadores ou de invasores ocidentais (Francos).[10]

 
A Mesquita Árabe que, segundo a tradição otomana, teria sido construída por Maslama durante o cerco de 717–718. O edifício hoje existente, de estilo gótico, data de 1325 e foi um mosteiro católico dos dominicanos

Finalmente, a traição de Ucba é desmascarada, e na última e mais longa parte da obra ele é perseguido pelo califa Almotácime e pelos heróis cilabitas ao longo de vários países "de Espanha ao Iémem", acabando por ser crucificado em frente a Constantinopla. No regresso, o exército muçulmano cai numa emboscada dos Bizantinos, e só 400 homens, entre os quais se encontram o califa, al-Battal, Delhemma e Abdal Uaabe, logram escapar, mas o amir Amir é morto. Em retaliação, o sucessor de Almotácime, Aluatique, lança uma campanha contra Constantinopla, onde instala um governador muçulmano e reconstrói a mesquita que tinha sido construída por Maslama e al-Sahsah.[nt 1] A narrativa prossegue com a descrição da morte de Delhemma e Abdal Uaabe, bem como dos últimos dias de al-Battal, que vive o tempo suficiente para testemunhar o reatamento dos ataques bizantinos mais tarde no mesmo século. Al-Battal morre em Ancira (atual Ancara), onde o seu túmulo permanece escondido até os Turcos chegarem e o descobrirem (noutras versões a descoberta é feita pelos Mamelucos).[12]

AnáliseEditar

DataçãoEditar

Apesar das fontes em que o romance se baseia serem do século IX e anteriores, a referência segura mais antiga às histórias de al-Battal e Delhemma surge no Egito, em meados do século XII, e é evidente que a generalidade da obra foi escrita como resposta ao impacto das Cruzadas. Contudo, Henri Grégoire sugere que pelo menos a base da história de Delhemma deve ter existido antes de c. 1000, pois é usada na epopeia análoga bizantina, a história de Digenis Acritas.[2]

Fontes da narrativaEditar

Segundo o orientalista francês Marius Canard (1888–1982), a história tem origem em duas tradições. A primeira parte, centrada nas aventuras de al-Sahsah e nos primeiros anos da sua neta, a epónima Delhemma, reflete a tradição "síria-omíada e beduína", incluindo elementos tipicamente beduínos na tradição de Antara ibne Xadade, mas mistura-os com a semi-mítica tradição que cresceu em torno dos feitos do general de carne e osso omíada do século VIII Abdallah al-Battal, cujo papel é desempenhado por al-Sahsah.[13][14]

 
A conquista de Melitene (Malátia) aos Árabes em 934 pelo general bizantino João Curcuas, que no Delhemma aparece como Carcias. Iluminura do Escilitzes de Madrid

A obra deve ter começado por ser uma coletânea de contos dos Banu Sulaim. Com passar do tempo a tribo rival dos Banu Cilabe (à qual pertencia o general omíada Maslama) apropriou-se desses contos e adicionou outros, de forma que a obra que chegou até nós é basicamente uma obra épica dos Banu Cilabe, onde o herói Abdal Uaabe, filho de Delhemma, é uma espécie de Aquiles cilabita e al-Battal uma espécie de Ulisses sulaimita ou cilabita (conforme as versões).[15]

A segunda parte da obra, mais extensa, do sexto capítulo em diante, reflete os eventos do período abássida, e provavelmente tem origem num ciclo de contos baseados no amir de Malátia Amir ibne Ubaidalá alacta, que existiu realmente e aparece nas fontes bizantinas com o nome de Ambros, e na tribo dos Sulaim. No entanto, com o tempo as duas tradições fundiram-se a favor dos Banu Cilabe, que tomaram o papel proeminente dos Banu Sulaim na segunda tradição. Canard sugere que isso se deve à rendição vergonhosa de Malátia aos Bizantinos em 934, que desacreditou os Sulaimitas, enquanto que os Cilabitas continuaram a ter um papel importante nas guerras contra Bizâncio ao longo do século X. Dessa forma, os Cilabitas Dalhama e o seu filho Abdal Uaabe são os principais heróis, e o amir Amir ibne Ubaidalá é relegado para um papel secundário. De forma semelhante, os Sulaimitas são associados ao pérfido cádi Ucba, ao mesmo tempo que o herói al-Battal é transferido do período omíada, em que ele viveu realmente, para o período abássida, como Cilabita.[13][14]

Referências históricasEditar

A obra apresenta-se como uma história verdadeira, mas, como comenta Canard, na realidade é "frequentemente uma memória muito vaga de um certo número de factos e personagens históricos, enredados em armadilhas românticas e apresentados de uma forma imaginária, com constante desdém pela cronologia e probabilidade".[12] No período omíada, os principais elementos são os relacionados com a vida de Maslama ibne Abdal Malique, enquanto que o material do período abássida é tratado de forma desigual: eventos importantes, como a fundação de Bagdade ou a guerra civil entre al-Amin e Almamune, são mencionados de passagem, enquanto outros episódios são fortemente distorcidos, como a atribuição do roubo da Pedra Negra de Meca a um carijita no tempo de Harune Arraxide, quando os responsáveis por esse ato foram os Carmatas mais de um século depois.[12]

 
O general e depois imperador bizantino Nicéforo II Focas é provavelmente o personagem Takafur de Delhemma

Um dos heróis da obra, Amir Abu Maomé al-Batal, é identificado com o personagem mítico do folclore e literatura clássica turca Battal Gazi, protagonista da obra “Battalname”. Em ambas as obras al-Battal é associado com a cidade de Malátia, pois está ao serviço do governador (amir) local, uma figura histórica do século IX. Apesar da contradição cronológica, a figura lendária de Battal Gazi parece ter sido inspirada num comandante omíada, conhecido historicamente como Abdallah al-Battal, apesar de não haver certezas sobre o seu nome completo. Abdallah al-Battal terá participado no cerco de Constantinopla de 717-718 ao lado de Maslama, um facto que levanta algumas dúvidas, mas sabe-se que participou em várias ações militares dos Omíadas contra o Império Bizantino a partir de 727 e que morreu em 740, na batalha de Acroino.[15] Em Delhemma, al-Battal tem várias aventuras no Ocidente, envolvendo Almorávidas (séculos XI e XII), Almóadas (séculos XII e XIII) e Omíadas andaluzes (séculos VIII a XI), além de cristãos do norte da Península Ibérica, o que é, mais uma vez, anacrónico.[12]

No que concerne aos trechos relacionados com os Bizantinos, o romance discorre sobre o cerco de Maslama a Constantinopla em 717–718, da zona de fronteira fortificada (tugur), da qual Malátia era um dos principais centros, durante o califado de Almançor (r. 754–775), da conquista de Amório por Almotácime em 838, e os feitos do amir Amir alacta e do seu aliado pauliciano Carbeas, que provavelmente é o arquétipo de Ianis. Além disso, muitos elementos foram inspirados pela guerra entre o amir hamdanida Ceife Aldaulá e os generais bizantinos João Curcuas e Nicéforo Focas, no século X, que são reconhecíveis no romance como os personagens Carcias e Tacafur. O usurpador Armano corresponde muito provavelmente a Romano I Lecapeno, imperador bizantino entre 920 e 944.[14]

Há outras influências ainda mais tardias. O conflito pela liderança das tribos árabes na Síria reflete a realidade do período aiúbida e não do califado. Há menções aos Cruzados e aos Turcos seljúcidas e os costumes e modos são do Levante islâmico dos séculos X a XII. Em geral, segundo Canard, o autor ou autores tinham um conhecimento muito superficial de história e geografia, mas aparentemente estavam melhor documentados nas práticas e festividades cristãs, especialmente dos Bizantinos.[14]

NotasEditar

  1. Na realidade, existiram mesquitas em Constantinopla, a mais antiga delas situada perto do pretório da cidade, que segundo algumas tradições árabes e bizantinas teria sido construída por Maslama durante o cerco de 717–718, mas o mais provável é que tivesse sido erigida c. 860, quando uma embaixada árabe visitou a capital bizantina. Segundo a tradição otomana, a mesquita Árabe, situada em Gálata, então uma arrabalde de Constantinopla, ainda existente atualmente, teria sido construída por Maslama em 686, provavelmente confundido o cerco de Maslama com o primeiro cerco árabe, ocorrido na década de 670.[11]

Referências

  1. a b «Taken from: Byzanthion revue internationale des études byzantines By Société belge d'études byzantines, 1935». Muslim texts (em inglês). www.RealHistoryww.com. Consultado em 14 de junho de 2013 
  2. a b Canard 1991, p. 238.
  3. «Sirat al-Amirah Dhat al-Himmah». id.loc.gov (em inglês). Library of Congress Name Authority File. Consultado em 14 de junho de 2013 
  4. a b c Canard 1961, p. 158.
  5. Dadoyea 1997, p. 51
  6. Canard 1961, p. 233.
  7. Canard 1991, p. 233-234.
  8. a b c d Canard 1991, p. 234.
  9. Canard 1961, p. 163-164.
  10. Canard 1991, p. 234-236.
  11. Hasluck 1929, p. 718-720.
  12. a b c d Canard 1991, p. 236.
  13. a b Canard 1961, p. 158-159, 161.
  14. a b c d Canard 1991, p. 237.
  15. a b Dedes 1996, p. 2-8.

BibliografiaEditar