Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa

O Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa, de José Adalberto Coelho Alves , é um livro que aborda a influência da língua árabe na etimologia da língua portuguesa. Foi editado pela primeira vez em 2013.[1] A obra tem sido considerada pelo mérito de defender uma influência de arabismos na língua portuguesa muito superior àquilo que habitualmente é apontado, tendo, no entanto, vindo a receber várias críticas negativas em relação à validade científica da recolha feita, em particular pela falta de observação de princípios básicos de etimologia, colocando em causa a sua credibilidade.[2]

Alves apresenta a obra como sendo o primeiro dicionário do português de origem árabe, baseado nas fontes e reflexões que coleccionou durante décadas, destinado sobretudo ao grande público que ao mundo académico. Alves reconhece que a elaboração do dicionário como trabalho académico implicaria a colocação das abonações históricas, o que, segundo ele, não permitiria a conclusão do dicionário em tempo útil.[3]

CríticaEditar

A obra tem recebido várias críticas. O escritor e crítico literário brasileiro Sérgio Rodrigues considera plausível a ideia do número de arabismos na língua portuguesa ser bastante superior àquilo que tem sido geralmente apresentado, entre setecentos e mil, concordando com a inverosimilhança de "tantos séculos de hegemonia árabe numa fase de formação do português teriam deixado como saldo linguístico nada além de umas poucas páginas com perfume de alfazema", mas olha com desconfiança o número de arabismos apresentados pelo livro, 18.073, e suspeita ter havido excesso de entusiasmo em várias das propostas apresentadas, como farol derivar do árabe fânar (luzeiro ou lanterna), ao invés da hipótese commumente aceite, a partir do grego pharos,[4]

Brian Franklin Head, académico das Ciências da Linguagem norte-americano, especialista em línguas românicas e semíticas,[5] considera que muitas das propostas apresentadas não são plausíveis, tanto pela forma como pelo significado, pelo que não teriam cabimento numa obra de cunho etimológico. Aponta que em vários casos não houve sequer cuidado em estabelecer uma relação etimológica, limitando-se o autor a apresentar uma palavra árabe com o mesmo significado, mas de sonoridade bastante diferente. Este é o caso abóbora, que geralmente se aceita como derivando do latim apopores, mas que Alves faz derivar do árabe al-gar‘a. Noutros casos faz o inverso, apresentando étimos com a mesma sonoridade, mas de significados bastante diferentes, como o verbo "acabar" que, segundo Alves, derivaria da palavra árabe akbar, "o maior", sem apresentar qualquer explicação que pudesse justificar tal deriva. Segundo Franklin Head, nos poucos casos em que se refere alguma pesquisa histórica, esta nunca é do autor, mas sim de outras obras mais publicadas, entre as quais as de J.P. Machado. No mesmo sentido, afirma que "encontram‑se no Dicionário várias etimologias conhecidas, propostas por especialistas e geralmente aceitas; não há, porém, uma única etimologia nova, proposta pelo Autor, que seja digna de confiança", acrescentado que "abundam no volume falhas de método e falta de cuidado", inclusive na própria invocação do grande romanista Walter von Wartburg, cujo nome Alves escreve erradamente como "Walter von der Wartburg". Franklin Head acrescenta:[6]

É uma vergonha que este livro tenha sido editado e é especialmente vergonhoso que a edição seja da prestigiosa Imprensa Nacional-Casa da Moeda – não por causa da atitude negativa do Autor em relação à influência das línguas clássicas, mas antes por causa do baixíssimo nível científico e informativo. Quem tenha recomendado a edição, não prestou bom serviço à cultura portuguesa: para promover o conhecimento da língua árabe e da sua contribuição ao léxico do português, não bastam o entusiasmo e as afirmações vazias.

A jornalista Soraya Guimarães Hoepfner também considera plausível a visão do autor sobre a subestimação da influencia de arabismos na formação da língua portuguesa, afirmando que a proposta de Alves da ocorrência de um processo por ele descrito como de "obnubilação etimológica", almejando "o apagamento da mácula árabe da língua dos vencedores cristãos", não é uma inverdade histórica. Hoepfner considera, no entanto, que a obra muito provavelmente não poderá ser cientificamente validada, pelos motivos já apontados por Head, em particular a falta de observância de princípios básicos de etimologia por parte de Adalberto Alves.[2]

Referências

  1. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2013. Cf. [1] ISBN 978-972-27-2163-9.]
  2. a b Hoepfner, Soraya Guimarães (2018). «Sotaque: A voz da identidade». Filosofia, Comunicação e Subjetividade: Volume 1, Linguagem, cultura e sociedade. [S.l.]: LabCom Books. p. 87. ISBN 978-989-654-528-4 
  3. Alves 2013, p. 14.
  4. «Fraude histórica minimizou herança árabe no português, diz estudioso - 04/05/2017 - Sérgio Rodrigues - Colunistas». Folha de S.Paulo. Consultado em 16 de outubro de 2019 
  5. Coimbra, Universidade de; Coimbra, Universidade de. «Imprensa da Universidade de Coimbra». Imprensa da Universidade de Coimbra. Consultado em 16 de outubro de 2019 
  6. Head, Brian Franklin (2015). «[Recensão a] ALVES, Adalberto. Dicionário de arabismos da língua portuguesa». Humanitas. 67: 221–226. ISSN 0871-1569. doi:10.14195/2183-1718_67_11 

BibliografiaEditar

  • Alves, Adalberto (2013). Dicionário de arabismos da língua portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. ISBN 978-972-27-2163-9 

Ligações externasEditar