Dmitri Shostakovitch

Compositor russo
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Dmítri Dmítrievitch Shostakóvitch (em russo: Дми́трий Дми́триевич Шостако́вич; São Petersburgo, 25 de setembro de 1906[1]Moscou, 9 de agosto de 1975) foi um compositor russo, um dos mais célebres, do século XX. Ficou famoso na União Soviética graças ao mecenato de Mikhail Tukhachevsky, chefe de pessoal de Leon Trotsky, tendo mais tarde uma complexa e difícil relação com a burocracia stalinista. Sua música foi oficialmente denunciada duas vezes, uma em 1936 e outra em 1948, e temporariamente banida. Não obstante, ele recebeu alguns prêmios e condecorações estatais e serviu no Soviete Supremo da União Soviética. Apesar de suas controvérsias com o governo, seus trabalhos eram populares e bem recebidos pelo público.

Shostakovitch
Da esquerda para direita: Prokofiev, Shostakovitch e Khachaturian
Nascimento 25 de setembro de 1906
São Petersburgo
Morte 9 de agosto de 1975 (68 anos)
Moscovo
Sepultamento Cemitério Novodevichy
Nacionalidade Russa (Soviética)
Cidadania União Soviética, Império Russo
Progenitores
  • Dmitry Shostakovich
Cônjuge Nina Varzar, Nina Varzar
Filho(s) Maxim Shostakovich, Galina Dmitrievna Shostakovich
Alma mater
Ocupação compositorpiano
Prêmios
Empregador Meyerhold State Theatre, Workers' Youth Theatre, Conservatório de São Petersburgo, Conservatório de Moscovo
Obras destacadas Sinfonia n.º 1, Symphony No. 10, Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, Sinfonia n.º 5 (Shostakovich), The Nose, Piano Concerto No. 2
Religião católico
Causa da morte insuficiência cardíaca
Página oficial
http://www.shostakovich.ru/
Assinatura
Shostakovich signature.svg

Após um período influenciado por Sergei Prokofiev e Igor Stravinsky, Shostakovitch desenvolveu um estilo híbrido, como exemplificado pela sua ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk (1934). Esta obra uniu uma variedade de tendências, incluindo o estilo neoclássico, mostrando a influência de Stravinsky, e o estilo pós-romântico, inspirado em Gustav Mahler.

Os trabalhos orquestrais de Shostakovitch incluem quinze sinfonias e seis concertos. Sua música de câmara apresenta quinze quartetos para cordas, um quinteto para piano, duas peças para um octeto de cordas e dois trios para piano. Para este último instrumento, compôs duas sonatas solo, um primeiro conjunto de prelúdios e outro conjunto mais tardio de prelúdios e fugas. Outros trabalhos incluem duas óperas e uma quantidade substancial de trilhas sonoras para filmes.

VidaEditar

Primeiros anosEditar

Shostakovitch foi o segundo de três filhos de Dmitri Boleslavovitch Shostakovitch e Sofiya Vasilievna Kokoulina. Embora a família, por meio de seu avô paterno (originalmente Szostakowicz), tivesse raízes polonesas católicas (as suas raízes familiares levam-nos à região de Vileyka, na Bielorrússia), os seus antepassados mais imediatos eram oriundos da Sibéria.[2]

Seu avô paterno, um revolucionário polonês na Revolta de Janeiro, de 1863-4, foi exilado em Narim, perto de Tomsk, em 1866, na repressão que se seguiu à tentativa de assassinato do Czar Alexandre II levada a cabo por Dmitri Karakozov. Quando seu exílio terminou, Bolesław Szostakowicz decidiu permanecer na Sibéria. Eventualmente, tornou-se um bem sucedido banqueiro em Irkutsk e teve uma família numerosa.

O pai do compositor nasceu em Narim, em 1875, e estudou na Universidade de São Petersburgo, graduando-se em 1899, na faculdade de física e matemática. Após a graduação, trabalhou como engenheiro para Dmitri Mendeleiev, no Gabinete de Pesos e Medidas, na mesma cidade. Em 1903, casou-se com Sofiya Vasilievna Kokoulina, também siberiana, que se mudou para a então capital russa. A morte do pai, em 1922, deixou a família do compositor sem uma fonte de renda. Sua mãe tentou trabalhar e a irmã mais velha passou a dar aulas de música. Schostakovitch começou a trabalhar como pianista no cinema.[3]

A família do compositor era politicamente liberal. Um de seus tios foi um bolchevique, mas acolheu também militares de extrema-direita.

Foi uma criança prodígio como pianista e compositor, e o seu talento começou a tornar-se aparente após receber lições de piano de sua mãe aos oito anos de idade.[4] Em 1918, ele escreveu uma marcha fúnebre em memória de dois líderes do Partido Democrático Constitucional assassinados por marinheiros bolcheviques.

Em 1919, ingressou no Conservatório de Petrogrado, dirigido por Alexander Glazunov. Estudou piano com Leonid Nikolayev, após um ano na classe de Elena Rozanova, composição com Maximilian Steinberg e contraponto e fuga com Nikolay Sokolov, de quem se tornou amigo. Shostakovitch também assistiu às aulas de história da música de Alexander Ossovsky.[5] Contudo, ele sofreu por sua aparente falta de zelo político e inicialmente reprovou em seu exame sobre metodologia marxista em 1926. Seu primeiro grande sucesso musical foi a sua Primeira Sinfonia, que estreou em 1926, escrita como peça de graduação, aos 19 anos de idade.

 
Shostakovitch em 1925.

Após a graduação, ele embarcou inicialmente em uma carreira dupla, como pianista e compositor, mas o seu estilo de tocar seco (a biógrafa do compositor comenta sobre o seu "controlo emocional" e o seu "impulso rítmico fascinante") foi frequentemente desapreciado. Ainda assim, obteve uma "menção honrosa" na Primeira Competição Internacional de Piano Frédéric Chopin, em Varsóvia, em 1927.

Após a competição, Shostakovitch conheceu o maestro Bruno Walter, que ficou impressionado com a sua Primeira Sinfonia, dirigindo-a na sua estreia de Berlim, mais tarde nesse mesmo ano. A partir daqui, Shostakovitch concentrou-se na composição, e logo limitou as suas atuações às suas próprias obras. Em 1927, escreveu sua Segunda Sinfonia (intitulada Para Outubro). Enquanto escrevia a sinfonia, ele também começou sua ópera satírica O Nariz, baseada numa história de Nikolai Gogol. Em 1929, a ópera foi criticada como "formalista" pela Associação Russa de Músicos Proletários, a organização stalinista da categoria, recebendo uma fraca recepção em sua estreia em 1930.

Em 1927, começou a sua relação de amizade com o compositor Ivan Sollertinsky, que foi o seu amigo mais íntimo até sua morte, em 1944. Sollertinsky apresentou a Shostakovitch a música de Gustav Mahler, que teve forte influência na composição de sua Quarta Sinfonia e de trabalhos posteriores. Em 1932, casou-se com Nina Varzar. O casal se divorciou em 1935, mas retomou a união quando Nina ficou grávida do primeiro filho.[6]

Entre o final da década de 1920 e começo da seguinte, trabalhou no Teatro da Juventude Operária, o que o resguardava de possíveis críticas políticas. A maior parte desse período foi passada na composição de sua ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, apresentada pela primeira vez em 1934 e que teve sucesso junto ao público.[7]

Primeira repreensão públicaEditar

Em 1936, Shostakovitch perdeu os favores oficiais. O ano começou com uma série de ataques contra ele no Pravda, em particular um artigo intitulado Confusão ao Invés de Música. Pensa-se que a campanha, que condenou Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk como formalista, "grosseira, primitiva e vulgar,"[8] foi instigada por Stalin. A partir de então, o número de encomendas de novos trabalhos começou a diminuir e os seus rendimentos caíram em três quartos.

Os ensaios para a Quarta Sinfonia começaram em dezembro daquele ano, mas o clima político tornou a sua execução impossível. A obra não foi interpretada até 1961, mas Shostakovitch nunca a repudiou, mantendo a designação de Quarta Sinfonia. Uma redução para piano foi publicada em 1946. Esta época coincide com o nascimento da sua filha Galina, também em 1936, e dois anos após, de Maxim, seu segundo filho.

A resposta do compositor à censura foi sua Quinta Sinfonia, de 1937, que era, por causa do seu quarto movimento, musicalmente mais conservadora que seus primeiros trabalhos. A sinfonia foi um sucesso e continua a ser um de seus trabalhos mais populares. Foi nesse período também que ele compôs o primeiro quarteto para cordas. Suas obras de câmara o permitiram experimentar e expressar ideias que seriam inaceitáveis em suas peças sinfônicas mais públicas. Em setembro de 1937, começou a lecionar composição, o que lhe trouxe alguma segurança financeira, mas que interferiu em seu trabalho criativo.

GuerraEditar

Em 1939, antes das forças soviéticas invadirem a Finlândia, o Secretário do Partido em Leningrado, Andrei Zhdanov, encomendou uma peça comemorativa a Shostakovitch, intitulada Suíte sobre Temas Finlandeses, para ser tocada durante o desfile do Exército Vermelho na capital finlandesa, Helsinki. A Guerra de Inverno foi uma humilhação para o Exército Vermelho e Shostakovitch nunca reivindicou a autoria dessa obra.[9] Só seria tocada em 2001.[10]

Após o início da guerra entre a União Soviética e a Alemanha em 1941, Shostakovitch manteve-se inicialmente em Leningrado, período durante o qual ele escreveu porções de sua Sétima Sinfonia (chamada de Leningrado). Ele também contribuiu para os esforços de propaganda posando como bombeiro e fazendo uma comunicação ao povo soviético pela rádio  ? ouvir. Em outubro de 1941, três semanas após o início do Cerco a Leninegrado, o compositor e sua família evacuaram de Leningrado para Kuybishev (atual Samara), onde a sinfonia foi terminada. Ela foi adotada como um símbolo da resistência russa, tanto na União Soviética como no Ocidente.

Na primavera de 1943, a família mudou-se para Moscou. Enquanto a Sétima Sinfonia retrata uma luta heróica (e ultimamente vitoriosa) contra a adversidade, a Oitava Sinfonia, composta nesse ano, foi o auge em termos da expressão sombria e violenta na obra de Shostakovitch, resultando no seu banimento até 1956. A Nona Sinfonia (1945), em contraste, é uma paródia haydnesca irônica, que falhou em satisfazer os pedidos por um "hino da vitória". Shostakovitch continuou a compor música de câmara, notavelmente seu Segundo Trio para Piano (op. 67), dedicado à memória de Sollertinksy, com um final agridoce em jeito de Dança Macabra com temática judaica.

Segunda repreensão públicaEditar

Em 1948, Shostakovitch, ao lado de muitos outros compositores, foi censurado por formalismo no Decreto Zhdanov. A maioria dos seus trabalhos foram banidos, ele foi forçado a retratar-se publicamente e sua família teve seus privilégios retirados. Yuri Lyubimov diz que nesse período "ele esperava por sua prisão à noite, na porta do elevador, para que pelo menos sua família não fosse perturbada".[11]

Nos poucos anos seguintes, suas composições foram divididas em música para filmes para pagar suas contas, trabalhos oficiais que visavam obter a sua reabilitação, e trabalhos sérios "para a gaveta". Estes últimos incluem o Concerto para Violino n.º 1 e o ciclo de canções Da poesia popular judaica (op. 79).

As restrições à música e ao modo de vida de Shostakovitch foram aligeiradas em 1949, para assegurar a sua participação em uma delegação de notáveis soviéticos aos Estados Unidos. Nesse ano, ele também compôs sua cantata Canção das Florestas, que chamava a atenção da população para questões ambientais na URSS. Em 1951, o compositor nomeado deputado ao Soviete Supremo da Rússia. A morte de Stalin, em 1953, foi o maior passo em direção à reabilitação oficial de Shostakovitch, que foi marcada pela sua Décima Sinfonia. Nesse ano, muitos dos seus trabalhos que estavam na "gaveta", foram apresentados.

Durante as décadas de 1940 e 1950, Shostakovitch manteve relações estreitas com duas de suas alunas: Galina Ustvolskaya e Elmira Nazirova. Utsvolskaya foi sua aluna de 1937 até 1947. A natureza de sua relação está longe de ser clara: Mstislav Rostropovich descreveu como "terna" e Utsvolskaya afirmou, em uma entrevista em 1995[carece de fontes?], que ela rejeitou um pedido de casamento de Shostakovitch nos anos cinquenta. No entanto, na mesma entrevista, Viktor Suslin, um amigo de Ustvolskaya, disse que ela estava "profundamente desapontada" com ele, à época de sua graduação em 1947. A relação com Nazirova parece ter sido unilateral, expressa principalmente por meio de suas cartas para ela, e pode ser datada de 1953 a 1956. Como pano de fundo de tudo isso, estava o primeiro, e aberto casamento de Shostakovitch com Nina Varzar, até a morte desta em 1954. Ele casou-se com sua segunda esposa, Margarita Kainova, uma ativista da Komsomol, em 1956; o casal provou ser pouco compatível e acabou por se divorciar três anos depois.

Em 1954, Shostakovitch escreveu sua Abertura Festival, op.96, que foi usada como música temática dos Jogos Olímpicos de Verão de 1980.[12] Também o seu Tema para o filme Pirogov, Opus 76a: Finale foi interpretado quando o caldeirão era acendido nos Jogos Olímpicos de Verão de 2004 em Atenas, Grécia. Em 1959, Shostakovitch apareceu em palco, em Moscou, no fim de um concerto onde foi interpretada a sua Quinta Sinfonia, parabenizando Leonard Bernstein e a Filarmônica de Nova Iorque pela atuação (concerto que fez parte da turnê da filarmônica pela União Soviética). Mais tarde nesse mesmo ano, Bernstein gravou a sinfonia em Nova Iorque para a Columbia Records.

Ingresso no PartidoEditar

O ano de 1960 ficou marcado por outro ponto de viragem na vida de Shostakovitch: seu ingresso no Partido Comunista da União Soviética. Esse evento tem sido interpretado variadamente como uma demonstração de compromisso, uma marca de covardia, o resultado da pressão política ou como uma livre decisão sua. Por um lado, o aparelho era sem dúvida menos repressivo do que antes da morte de Josef Stalin. Por outro lado, seu filho lembrou-se que o evento levou Shostakovitch às lágrimas[13] e posteriormente contou à sua esposa, Irina, que ele havia sido chantageado.[14] Lev Lebedinsky disse que o compositor tinha ideias suicidas. Nessa época, sua saúde começou também a deteriorar-se. A resposta musical de Shostakovitch para essas crises pessoais foi o seu Oitavo Quarteto para Cordas, composto em apenas três dias. Como a Décima Sinfonia, esse quarteto incorpora citações e seu monograma musical.

Em 1962, casou-se pela terceira vez, com Irina Supinskaya. Em uma carta ao seu amigo Isaak Glikman, ele escreveu "Seu único defeito é que tem apenas vinte e sete anos. Em todos os outros aspectos ela é esplêndida: inteligente, alegre, simples e muito simpática".[15][16] De acordo com Galina Vishnevskaya, que conheceu bem o casal Shostakovitch, esse casamento foi muito feliz: "Foi com ela que Dmitri Dmitriyevich conheceu finalmente a paz doméstica...Seguramente, prolongou a sua vida por vários anos."[15] Em novembro, Shostakovitch fez sua única aventura na condução, conduzindo dois de seus próprios trabalhos em Gorki; geralmente recusava-se, citando os nervos e os problemas de saúde como razão.

Também esse ano viu Shostakovitch a voltar-se de novo para o assunto antissemitismo, na sua Décima Terceira Sinfonia (chamada Babi Yar). A sinfonia encena vários poemas de Yevgeny Aleksandrovich Yevtushenko, o primeiro dos quais honra as vítimas do massacre de judeus em Babi Yar, durante a Segunda Guerra Mundial. As opiniões dividem-se sobre que tão grande risco tal obra acarretava: o poema havia sido publicado nos meios de comunicação soviéticos e não foi banido, mas permanecia controverso. Após a estreia da sinfonia, Yevtushenko foi forçado a adicionar uma estrofe em seu poema, que dizia que russos e ucranianos haviam morrido ao lado dos judeus, em Babi Yar.

Em 1965, Shostakovitch levantou sua voz em defesa do poeta Joseph Brodsky, que foi injustamente sentenciado a cinco anos de exílio e trabalhos forçados. Shostakovitch co-assinou protestos junto com Yevtushenko e outros artistas soviéticos, como Kornei Chukovsky, Anna Akhmatova, Samuil Marshak e o filósofo francês Jean-Paul Sartre. Após os protestos, a sentença foi comutada e Brodsky regressou a Leningrado. Shostakovitch juntou-se ao grupo de 25 distintos inteletuais que assinaram uma carta dirigida a Leonid Brezhnev pedindo que Stalin não fosse reabilitado.[carece de fontes?]

Últimos anosEditar

No fim de sua vida, Shostakovitch sofreu de problemas de saúde crônicos, mas resistiu à ideia de deixar os cigarros e a vodka. A partir de 1958 ele sofreu de uma doença debilitante que afetou particularmente sua mão direita, e que eventualmente o forçou a parar de tocar piano; em 1965 foi-lhe diagnosticada poliomielite. Sofreu também ataques cardíacos no ano seguinte e novamente em 1971 e, bem como várias quedas nas quais quebrou suas duas pernas; em 1967 ele escreveu numa carta:

"Meta alcançada até agora: 75% (perna direita quebrada, perna esqueda quebrada, mão direita defeituosa). Tudo que eu preciso fazer é dar cabo minha mão esquerda e 100% das minhas extremidades estarão avariadas".[17]

Uma preocupação com a sua própria mortalidade permeia os trabalhos mais tardios de Shostakovitch, entre eles os últimos quartetos e sua Décima Quarta Sinfonia de 1969 (um ciclo de canções baseado em poemas sobre o tema da morte). Essa peça também mostra Shostakovitch no seu mais extremo em termos da linguagem musical, com temas de doze tons e densa polifonia. Shostakovitch dedicou a partitura ao seu grande amigo Benjamin Britten, que conduziu a sua estreia no Ocidente em 1970 no Festival de Aldeburgh. A Décima Quinta Sinfonia de 1971 é, em contraste, de natureza melancólica e retrospetiva, citando Richard Wagner, Gioachino Rossini e a Quarta Sinfonia do próprio compositor.

Shostakovitch morreu de câncer pulmonar no dia 9 de agosto de 1975 e após um funeral cívico foi sepultado no Cemitério Novodevichy, em Moscou. O obituário oficial não apareceu no Pravda até três dias depois de sua morte,[18] aparentemente porque o texto teve de ser previamente aprovado ao mais alto nível por Brezhnev e restantes membros do Politburo. Mesmo antes de sua morte havia sido homenageado quando o seu nome foi dado à Península de Shostakovitch na ilha Alexandre I na Antárctida.

Sobreviveu-lhe sua terceira esposa, Irina; sua filha, Galina e seu filho, Maxim, um pianista e maestro ao qual foram dedicadas, e por quem foram pela primeira vez interpretadas, algumas obras de seu pai. O próprio Shostakovitch deixou atrás de si várias gravações das suas obras para piano, e entre outros intérpretes da sua música incluem-se os seus amigos Emil Gilels, Mstislav Rostropovich, Tatiana Nikolayeva, Maria Yudina, David Oistrakh, e membros do Quarteto Beethoven.

A ópera Orango de Shostakovitch (1932) foi encontrada pela pesquisadora russa Olga Digonskaya em sua última residência. Orquestrada pelo compositor britânico Gerard McBurney será apresentada em 2010/11.[19][20]

MúsicaEditar

Os trabalhos de Shostakovitch são largamente tonais e de tradição romântica, mas com elementos de atonalidade e cromatismo. Em alguns de seus últimos trabalhos (como o Décimo Segundo Quarteto), ele fez uso de linhas tonais. Seu trabalho é dominado pelos ciclos de sinfonias e quartetos para cordas, cada um com quinze trabalhos. As sinfonias distribuem-se de forma bastante equilibrada em sua carreira, enquanto os quartetos concentram-se na parte final desta. Entre seus trabalhos mais conhecidos, estão a Quinta e Sétima Sinfonias e os Oitavo e Décimo Quinto Quartetos. Outros trabalhos incluem as óperas Lady Macbeth do Distrito Mtsensk, O Nariz e a inacabada Os Jogadores, baseada na comédia de Nikolai Gogol; seis concertos (dois para piano, dois para violino e dois para violoncelo); dois trios para piano e uma grande quantidade de música para filmes.

A música de Shostakovitch mostra a influência de muitos compositores que ele admirava: Bach em suas fugas e passacaglias; Beethoven nos últimos quartetos; Mahler em suas sinfonias e Berg no uso de códigos musicais e citações. Entre os compositores russos, admirava particularmente Modest Mussorgsky, cujas óperas Boris Godunov e Khovanshchina ele reorquestrou; a influência de Mussorgsky é mais predominante nas cenas de inverno de Lady Macbeth e em sua Décima Primeira Sinfonia, bem como nos seus trabalhos satíricos, como Rayok.[21] A influência de Prokofiev é mais aparente nos seus primeiros trabalhos para piano, como a primeira sonata e o primeiro concerto. A influência da música religiosa e folclórica russas é muito evidente em seus trabalhos para coro desacompanhado da década de 1950.

A relação entre Shostakovitch e Stravinsky era profundamente ambivalente; como escreveu a Glikman, "Stravinsky, o compositor que eu idolatro. Stravinsky, o pensador que eu desprezo".[22] Era particularmente fascinado pela Sinfonia dos Salmos, oferecendo uma cópia da sua própria versão para piano a Stravinsky, quando este visitou a União Soviética em 1962. (Porém, o encontro entre os dois compositores não foi um grande sucesso; observadores comentaram sobre o extremo nervosismo de Shostakovitch e a "crueldade" de Stravinsky para com ele.).[23]

Artigos publicados pelo próprio Shostakovitch em 1934 e 1935 citavam Alban Berg, Arnold Schoenberg, Ernst Krenek e Paul Hindemith "e especialmente Stravinsky" como suas influências.[24]

PersonalidadeEditar

Shostakovitch foi em muitos aspectos, um homem obsessivo: de acordo com sua filha, ele era "obcecado com a limpeza";[25] sincronizava todos os relógios de seu apartamento; enviava regularmente cartões postais para si mesmo, para testar a eficiência do serviço postal. Elizabeth Wilson, no livro Shostakovitch: A Life Remembered lista 26 referências ao seu nervosismo. Mikhail Druskin lembra-se que mesmo ainda jovem, o compositor era "frágil e nervosamente ágil".[26] Yuri Lyubimov comenta, "o fato de ter sido mais vulnerável e receptivo que outras pessoas foi sem dúvida uma característica importante do seu génio". No fim de sua vida, segundo Krzysztof Meyer, "seu rosto era um saco de tiques e trejeitos'.[27][28]

Ele foi defidente por natureza: Flora Litvinova disse que ele era "incapaz de dizer 'não' para alguém".[29] Isso significa que ele era facilmente persuadido a assinar declarações oficiais, incluindo o repúdio de Andrei Sakharov em 1973.

Shostakovitch foi um agnóstico e quando lhe perguntaram se ele acreditava em Deus ele respondeu: "Não, e lamento muito por isso" [carece de fontes].

PrêmiosEditar

  •   Ordem da Bandeira Vermelha do Trabalho (1940)
  •   Prêmio Estatal Stalin de Artes (1941, 1941, 1942, 1946, 1946, 1948, 1949, 1949, 1949, 1950, 1952)
  •   Ordem de Lenin (1946, 1956, 1966)
  •   Artista do Povo da União Soviética (1954)
  •   Prêmio Lenin (1958)
  •   Prêmio Sibelius (1958)
  •   Oscar pela Melhor Partituda (1961)
  •   Herói do Trabalho Socialista (1966)
  •   Medalha de Ouro da Sociedade Filarmônica Real (1966)
  •   Codecoração pelos Serviços à República da Áustria (1967)
  •   Ordem da Revolução de Outubro (1971)
  •   Ordem do Amizade das Pessoas (1972)
  •   Prêmio Sonning (1974)

SinfoniasEditar

No BrasilEditar

Sua obra é mais executada a partir dos anos 90 sobretudo pela OSESP, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo com regência de John Neschling. Esta orquestra tem se destacado em interpretações de alto nível, sobre composições do fim do século XIX até meados do XX.

Há uma biografia no Brasil por Lauro Machado Coelho pela Editora Perspectiva, Shostakóvitch: Vida, Música, Tempo.

Referências

  1. Data no estilo antigo 12 de setembro
  2. Laurel Fay (2000), Shostakovitch: A Life p. 7
  3. Sadykhova, Rosa (2004). Fay, Laurel, ed. Shostakovich and his world. Princeton: Princeton University Press. p. 2 
  4. Laurel Fay (2000), p. 9
  5. The Cambridge Companion to Shostakovitch, Cambridge Companions to Music by Pauline Fairclough (Editor), David Fanning (Editor). Cambridge University Press; 1 edition (17 November 2008) p.73
  6. Fay (2000), p.80
  7. Dmitrii Shostakovitch, Shostakovitch: About Himself and His Times, compiled by L. Grigoryev and Ya. Platek, trans. Angus and Neilian Roxburgh (Moscow: Progress Publishers, 1981), 33.
  8. McBurney, p. 287.
  9. Edwards 2006, p. 98
  10. MTV3: Shostakovitshin kiistelty teos kantaesitettiin (em finlandês)
  11. Elizabeth Wilson, Shostakovitch: A Life Remembered p. 183.
  12. «1980 Summer Olympics Official Report from the Organizing Committee, vol. 2» (PDF). p. 283. Consultado em 16 de outubro de 2007  40-megabyte document.
  13. Ho and Feofanov, p. 390.
  14. Manashir Yakubov, programme notes for the 1998 Shostakovitch seasons at the Barbican, London).
  15. a b Galina Vishnevskaya, Galina, A Russian Story p. 274.
  16. Dmitri Shostakovitch and Isaak Glikman, Story of a Friendship: The Letters of Dmitry Shostakovitch to Isaak Glikman p. 102.
  17. Glikman p. 147.
  18. Volkov, Solomon. Obituary Came Three Days Late. Arquivado em 5 de março de 2008, no Wayback Machine. Moscow News N49 2005. Retrieved on 23 December 2005.
  19. Sirén, Vesa (6 de abril de 2009). «Šostakovitšin apinaooppera löytyi ('The ape opera by Shostakovitch was found')». Helsingin Sanomat (em finlandês). Helsinki: Sanoma Oy. pp. C1. Consultado em 6 de abril de 2009 
  20. Artsjournal accessed 5 April 2009 (em inglês)
  21. Fay (2000), pp. 119, 165, 224.
  22. Glikman p. 181.
  23. Wilson pp. 375–377.
  24. Fay (2000), p. 88.
  25. Michael Ardov,Memories of Shostakovitch p. 139.
  26. Wilson pp. 41–45.
  27. Wilson p. 183.
  28. Wilson p. 462.
  29. Wilson p. 162.

Ver tambémEditar