Doação de Constantino

A Doação de Constantino (Constitutum Donatio Constantini ou Constitutum domini Constantini imperatoris, em latim) é um documento apócrifo conservado em cópia nos Decretais do Pseudo-Isidoro (século IX) e, por interpolação filológica, no Decretum Gratiani do jurista Graciano (século XII).

Ícone de Constantino I e Silvestre I, representando a suposta doação.

Trata-se de um falso édito de Constantino I (306-337 que anuncia concessões favoráveis ao poder da Igreja de Roma e que foi utilizado para justificar o nascimento do poder temporal dos pontífices romanos. Segundo o documento o imperador Constantino I teria doado ao Papa Silvestre I (314-335) terras e prédios dentro e fora da Itália, durante o quarto consulado do monarca (315). No édito de doação, o imperador confessava sua fé, alegando que, antes mesmo da sua conversão, fora curado de lepra, por intercessão do papa, e que portanto outorgava ao pontífice autoridade sobre as comunidades cristãs do Oriente (Antioquia, Jerusalém, Alexandria e Constantinopla), bem como entregava as igrejas do Latrão, de São Pedro e de São Paulo – fora dos muros de Roma -, além das terras situadas em diversos pontos do Império Romano, tais como Judeia, Grécia, Trácia e Ásia Menor, outorgando ao papa a faculdade de elevar senadores do império ao nível de sacerdotes.

O filólogo italiano Lorenzo Valla, em 1440, demonstrou de modo inequívoco, que o documento era um falso histórico, observando que o texto havia sido escrito em um latim filologicamente não conforme àquele em uso no século IV e que portanto deveria pertencer a uma época bem mais próxima àquela da sua descoberta.[1] A crítica histórica dedicou muita atenção a esse documento. O historiador Federico Chabod, por exemplo, dedicou-lhe várias páginas do seu livro Lezioni di metodo storico.[2]

A própria Igreja Católica considera o documento sem validade. A legitimidade do domínio da Igreja sobre bens citados ainda é aceita historicamente, mas por outras razões. Ao fim da Idade Média, muitos já contestavam a autenticidade do édito de doação.

O documento era ignorado até o século IX, não sendo referido em Roma até 979 – o que é muito estranho, já que teria sido publicado em 315 d.C. e entrado em vigor imediatamente. Aí começa toda a contradição. Em 1001, o imperador Oto III rejeitou a autenticidade do édito. Nos debates medievais, a Donatio era mencionada, sendo rejeitada muitas vezes e classificada como falsa. Mas, até 1433, sob o imperador Sigismundo, o documento era constantemente citado como autêntico. No século XIX, ninguém mais o levava a sério.

Antigamente não era incomum a falsificação de documentos, com a finalidade de incutir certas ideias. Nos séculos XI e XII, por exemplo, diversos documentos falsos eram produzidos para difamar os papas, denunciando a deposição de clérigos, excomunhões e encarceramentos.

Legitimidade do documentoEditar

A estada de São Pedro e o seu martírio em Roma foram comprovados por escavações ordenadas por Pio XII em meados do século XX. O primado de Pedro também é entendido como certeza bíblica (Mt 16,16-19; Lc 22,31s; Jo 21,15-17).

Os Estados Pontifícios foram fundados em 756 d.C., quando Pepino o Breve atendeu ao pedido de ajuda do papa e combateu os lombardos, que no século VIII ameaçavam invadir Roma e territórios próximos. O Papa Estêvão II recorreu ao povo franco, que era governado não pelo rei, mas pelo mordomo do palácio real, Pepino.

Pepino teria reconhecido ao Papa o título de "Soberano do Patrimônio de São Pedro". Isto – como já dito - teria ocorrido em 756 d.C., como expressão de estima dos cristãos ao Papa e não como efeito de trapaças e guerras de conquista.

O polêmico "poder temporal dos papas" é relacionado a que muitos povos da Europa Ocidental tinham cristãos monarcas, que se sentiam na obrigação de formar a "Cidade de Deus", preconizada por Santo Agostinho. Infelizmente a união do Estado com a Igreja nem sempre foi benéfica. Muitos quiseram dominar a mesma segundo seus interesses. Existiam as investiduras leigas, onde o senhor feudal nos séculos VIII e XI nomeava o bispo de seu feudo, por exemplo. Finalmente o Papa Gregório VII conseguiu remover esta prática maléfica, pois nem todos os ordenados eram cristãos preparados para tal vocação. No século X, uma família de Roma – Teofilacto, Marócia mãe, Marócia filha e sua irmã Teodora, tentaram dominar o Papado. A Inquisição também é um forte exemplo, pois nunca foi um tribunal meramente eclesiástico, porque o Estado agia sobre a Igreja, manipulando muitos casos famosos, como a condenação de Joana d'Arc, orquestrada pelos ingleses.

De todas as formas, tanto os historiadores quanto a Igreja negam a veracidade da doação de Constantino.

Lorenzo Valla e o estudo do documentoEditar

Em 1440, Lorenzo Valla apresentou documentos que comprovariam a falsidade da doação. Uma vez que, na época, não havia recurso tecnológico que pudesse calcular exatamente a datação do documento, Lorenzo examinou o conteúdo do texto, observando os erros linguísticos existentes e as expressões empregadas em sua construção. Por meio de seus estudos, detectou a presença de helenismos e barbarismos que não correspondiam ao uso da língua latina na época de Constantino.[3]

Além dessas questões formais, o estudioso percebeu que a natureza do documento, elaborado com um único testemunho, não correspondia ao hábito da época. Ao mesmo tempo, ele apontou como incongruente o uso do termo “sátrapa” (expressão de natureza oriental) para fazer referência aos membros do Senado Romano e a menção de Constantinopla como uma cidade cristã em um tempo em que ela, assim como outras regiões dadas como de dominação romana, estava longe de assumir tal posição.

O trabalho de Valla, ao longo do tempo, não significou apenas uma tentativa de se desestabilizar a autoridade do clero. Para os historiadores, sua forma de questionar o documento exigiu a reunião de informações que envolviam as transformações da língua ao longo dos tempos e a necessidade de se estabelecer uma relação de identidade entre o documento e a época em que ele teria sido produzido. Desse modo, a invalidação da Doação de Constantino serviu de grande contributo no estudo do passado.

Referências

  1. Andrea Frediani, La donazione di Costantino, in Storica - National Geographic, 2020.
  2. Federico Chabod (1969). Lezioni di metodo storico. [S.l.]: Laterza 
  3. A Doação de Constantino. historiadomundo.com.br

Ligações externasEditar