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Como ler uma infocaixa de taxonomiaAnguilla anguilla
enguia, eiró, iró
Anguilla anguilla.jpg
Estado de conservação
Espécie em perigo crítico
Em perigo crítico
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Actinopterygii
Ordem: Anguilliformes
Família: Anguillidae
Género: Anguilla
Espécie: A. anguilla
Nome binomial
Anguilla anguilla
(Linnaeus, 1758)
Distribuição geográfica
Mapa da distribuição da espécie Anguilla anguilla
Mapa da distribuição da espécie Anguilla anguilla

Anguilla anguilla (Linnaeus, 1758) é uma espécie de enguia europeia que se reproduz no Mar dos Sargaços. É uma espécie de peixe eurialino (suporta variações acentuadas do nível de sal na água) e catadrómico (cresce no rio e desova no mar). Os adultos migram para o Mar dos Sargaços morrendo após a reprodução.[1] As larvas regressam às zonas costeiras onde se metamorfoseiam em enguias de vidro que migram para as águas interiores onde crescem.

Índice

Nome ComumEditar

Enguia-europeia, angula (quando pequena), angulha (quando pequena), civela (quando pequena), brasino (quando pequena), enguia-macha (macho), machinho (macho), eiró, anguia, enguia-de-vidro (quando pequena), loura (quando pequena), enguia-prateada (quando sexualmente madura), meixão (quando pequena), traça (quando pequena).

Estatuto de ConservaçãoEditar

Globalmente é considera em perigo crítico (CR)[2].
Em Portugal é considerada em Perigo (EN) [1].

Protecção legalEditar

Dec. Lei 312/70 de 6 Julho (Lei da Pesca)
Dec. Lei 44623/62 de 10 Outubro (Lei da Pesca)
Lei nº 2097 de 6 de Junho de 1959

Historia EvolutivaEditar

Os fósseis de enguia mais antigos têm 100 milhões de anos (são do tempo dos dinossauros, portanto) e foram encontrados no Sul de França e no Líbano, oriundos da Mesogea, o mar ancestral do qual o Mediterrâneo surgiu, e que ligava o Atlântico ao Pacífico.
Dois grupos de enguias derivam da espécie ancestral, a Anguilla ancestralis: as dezassete espécies modernas da bacia Indo-Pacífica e duas do Atlântico. Todas a enguias mantiveram o mesmo ciclo de vida: nascem em águas quentes marinhas, vivem e morrem em água doce. A Anguilla atlantidis surgiu no Mar dos Sargaços, no Oceano Atlântico primordial, que era menor do que agora. Estas enguias atingiam à deriva as costas Norte-Americana e Europeia, do que resultaram a enguia norte-americana (Anguilla rostrata) e a enguia europeia (Anguilla anguilla), que diferem apenas quanto ao número de vértebras (as europeias possuem cento e quinze vértebras e as norte-americanas cento e sete). A expansão do Oceano Atlântico aumentou a distância entre a costa Europeia e o Mar dos Sargaços, tendo a enguia europeia que regressar ao Mar dos Sargaços para procriar [3].

MorfologiaEditar

Morfologia ExternaEditar

A enguia caracteriza-se pelo seu corpo serpentiforme, cilíndrico na parte anterior e comprido na parte posterior, estreitando-se na região caudal. A cabeça é larga e no focinho evidenciam-se orifícios nasais em forma de tubo, olhos pequenos e redondos. Possui escamas muito pequenas, quase imperceptíveis a olho nu, embebidas no tegumento, bem como barbatanas peitorais, dorsal e anal, mas não possui barbatanas pélvicas. O seu maxilar inferior é mais longo do que o maxilar superior, contrariamente ao safio, com o qual se costuma confundir. Deslocam-se na água ondulando o corpo com o auxílio da barbatana dorsal que se liga à anal, formando uma única barbatana.
Os indivíduos adultos têm o dorso verde-acastanhado e o ventre amarelado, constituindo o grupo das chamadas “enguias douradas”. Estas características alteram-se para negro e prateado, respectivamente, com a aproximação da maturidade sexual, sendo então designadas por “enguias prateadas”. Atingem os 150 cm de comprimento e os 10 Kg de peso.

Morfologia InternaEditar

Os dentes são pequenos, dispondo-se em várias filas nas maxilas e no palato.

Dimorfismo SexualEditar

As fêmeas crescem, de modo geral, até aos 150 cm de comprimento. Os machos atingem apenas os 50 cm.

Espécies SemelhantesEditar

Espécie difícil de confundir quando em água doce.
No, entanto, na durante a metamorfose que sofre ao percorrer o oceano, pode confundir-se com as seguintes espécies: Anguilla rostrata (enguia americana), Anguilla interioris, Anguilla obscura, Anguilla megastoma, Anguilla mossambica, Muraena helena (moreia), Conger conger (safio).

EcologiaEditar

ActividadeEditar

Durante o dia as enguias permanecem em abrigos, enterradas no sedimento, debaixo de rochas ou raízes de árvores, onde estão protegidas da luminosidade e dos predadores. Tornam-se activas ao entardecer.

Hábitos AlimentaresEditar

A Anguilla anguilla é uma espécie carnívora. Os adultos alimentam-se de peixes, crustáceos, larvas de insectos e cadáveres de outros seres marinhos. Com a maturidade sexual, o tubo digestivo regride e cessa a actividade alimentar.

 
Ciclo reprodutivo da espécie Anguilla anguilla

ReproduçãoEditar

Ocorre no Mar dos Sargaços, em profundidades de 300 a 450 metros e a uma temperatura média de 20°C e uma pressão de cerca de 4 atm, na Primavera do Hemisfério Norte. As fêmeas põem de entre 1,3 e 1,5 milhões de ovos, que demoram cerca de mês e meio a eclodir. Os ovos dão origem a pequenas larvas designadas por “leptocéfalos”, pequenos seres achatados e transparentes, que ascendem lentamente à superfície no início do Verão, sendo arrastadas pela Corrente do Golfo através do Atlântico, durante cerca de três anos, até atingirem o litoral europeu. Com a aproximação às águas doces, os leptoéfalos, então com cerca de 8 cm de comprimento e 0,3 gramas de peso, sofrem uma metamorfose, passando a constituir os “meixões” ou “angulas”. Nesta fase, já com barbatanas peitorais e coloração mais escura, são boas nadadoras, procurando rios e estuários, que atingem em cardumes.
Pensa-se que os machos voltam ao Mar dos Sargaços após 4-5 anos de estadia em água doce, e as fêmeas só após 6-7 anos. Ainda assim, há machos e fêmeas que permanecem nas ribeiras até 12 e 24 anos, respectivamente. As enguias “amarelas” transformam-se então em enguias “prateadas”, sexualmente maduras. Chegado o Outono, lançam-se no oceano, de retorno ao Mar dos Sargaços, que atingem após 6 meses de viagem, durante a qual não se alimentam. Uma vez no seu destino, dedicam-se à procriação, acabando, segundo se pensa, por morrer. As larvas voltam ao continente depois de 11 meses a 7 anos de estarem no mar [4].

ComunicaçãoEditar

Alguns estudos realizados através do estímulo artificial da maturação sexual da enguia sugerem a existência de comunicação química entre enguias no processo de maturação e machos imaturos que leva ao estímulo do desenvolvimento das gónadas, apesar das hormonas envolvidas no processo não terem ainda sido identificadas.

Inimigos NaturaisEditar

De entre os inúmeros predadores das enguias, contam-se a lontra, o golfinho, o tubarão e o polvo.

LongevidadeEditar

Podem viver entre 2 a 50 anos, sendo o valor médio próximo dos 20 anos [1].

HabitatEditar

Migradora catádroma, a enguia tem dois períodos de vida distintos: um no mar e outro nas águas doces ou interiores. Em Portugal, a entrada nos estuários parece verificar-se ao longo de todo o ano. Habita preferencialmente em locais de águas bem oxigenadas e pouco frias, com fundos de areia, lodosos ou com densa vegetação submersa. A enguia passa quase toda a sua fase adulta nos rios e estuários europeus, fixando-se os machos nos estuários e as fêmeas mais acima, migrando para montante [1][2]. A fase de permanência em água doce pode durar entre 6 e 12 anos, no caso dos machos, ou entre 10 e 20 anos, no caso das fêmeas. Findos estes anos de permanência, empreendem o regresso ao Mar dos Sargaços, para a reprodução.

DistribuiçãoEditar

A enguia pode encontrar-se no Atlântico, de Marrocos até ao Norte da Escandinávia e Islândia, no Mediterrâneo e no Mar Negro. Ela penetra a quase totalidade dos cursos de água portugueses.[1][2]

Factores de AmeaçaEditar

  • Captura excessiva, tanto na fase de meixão como na fase adulta, por ser uma espécie com elevado valor comercial;
  • Obstáculos à migração (barragens, açudes, etc.);
  • Exploração furtiva intensa nas zonas estuarinas;
  • Poluição industrial;
  • Poluição urbana;
  • Poluição agrícola;
  • Poluição pecuária.

Medidas de ConservaçãoEditar

  • Criação de acções de fiscalização para desactivação do mercado negro associado ao circuito comercial do meixão;
  • Criação de épocas de defeso para as enguias prateadas;
  • Sensibilização das comunidades piscatórias para a necessidade de serem rigorosas na declaração dos quantitativos das suas capturas, de modo a conhecer a situação real e poder concretizar medidas de gestão apropriadas à conservação da espécie;
  • Gestão das pescas;
  • Implementação das medidas contempladas nos vários planos de ordenamento do território;
  • Promoção das recuperação de habitats;
  • Controlo da poluição;
  • Controlo da extracção de inertes;
  • Restabelecimento da livre circulação da espécie nos ecossistemas dulciaquíolas;
  • Estabelecimento de programas de monitorização dos efectivos de meixão e enguias prateadas, visando conhecer a relação entre o recrutamento e o contributo para o efectivo reprodutor e acompanhar a sua evolução;
  • Coordenar as medidas de conservação adoptadas a uma escala europeia, uma vez que se trata de um recurso partilhado e cujas tendências populacionais devem, necessariamente, ser analisadas numa perspectiva mais alargada.

Referências

  1. a b c d e Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (Anguilla anguilla) Arquivado em 6 de março de 2010, no Wayback Machine..
  2. a b c IUCN Red List.
  3. [Aoyama, J., Nishida, M., and Tsukamoto, K. (2001) Molecular phylogeny and evolution of the freshwater eel, genus Anguilla, Molecular Phylogenetics and Evolution 20, 450-459].
  4. [Lecomte-Finiger, R. (1992) Growth history and age at recruitment of European glass eels (Anguilla anguilla) as revealed by otolith microstructure, Marine Biology 114, 205-210].

Informação de interesseEditar

Müller, U. K., Smit, J., Stamhuis, E. J., and Videler, J. J. (2001) How the body contributes to the wake in undulatory fish swimming: flow fields of a swimming eel (Anguilla anguilla), J. exp. Biol 204, 2751-2762.[ligação inativa]
Colombo, G., Grandi, G., and Rossi, R. (1984) Gonad differentiation and body growth in Anguilla anguilla L, Journal of Fish Biology 24, 215-228.
Vøllestad, L., Jonsson, B., Hvidsten, N., Naesje, T., Haraldstad, Ø., and Ruud-Hansen, J. (1986) Environmental factors regulating the seaward migration of European silver eels(Anguilla anguilla), Canadian Journal of Fisheries and Aquatic Sciences 43, 1909-1916.

Ligações externasEditar

 
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