Erdoğanismo

ideologia conservadora de Recep Tayyip Erdoğan

Erdoğanismo[1][2] ou tayyipismo[3] (em turco: Erdoğancılık ou Tayyipçilik) refere-se aos ideais políticos e agenda do presidente turco e ex-primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdoğan, que se tornou primeiro-ministro em 2003, cargo que manteve até se tornar o presidente em 2014. Com apoio significativamente derivado da liderança carismática, o Erdoganismo foi descrito como o "fenômeno mais forte na Turquia desde o kemalismo"[4] e costumava desfrutar de amplo apoio em todo o país até a crise econômica turca em 2018, o que causou um declínio significativo na popularidade de Erdoğan.[5][6] As raízes ideológicas do movimento vêm do conservadorismo turco, e o partido que mais adere às suas ideias é o Partido da Justiça e Desenvolvimento (APK), criado pelo próprio Erdoğan em 2001.

Recep Tayyip Erdoğan, Presidente da Turquia.

Visão geralEditar

O erdoğanismo é a personificação da democracia conservadora, tendo como seu principal elemento uma liderança forte e religiosa escolhida pelo conscentimento eleitoral, mas levando menos em conta a separação dos poderes e o sistema de freios e contrapesos.[7] Críticos apontam que estas medidas são autoritárias e consistem em uma ditadura eletiva. O modelo de política do erdoğanismo é comumente descrito como uma democracia iliberal por líderes estrangeiros, como o primeiro-ministro da Hungria Viktor Orbán.[8][9]

O erdoğanismo também é fortemente influenciado pelo desejo de estabelecer uma "nova Turquia", saindo dos princípios kemalistas da república turca mas abolindo os principais ideais constitucionais que vão contra as ideias de Erdoğan, como o secularismo.[10] Os apoiadores do erdoğanismo pedem pelo reavivamento da cultura e valores tradicionais do Império Otomano, e são críticos às reformas sociais pró-ocidente e a modernização do país que foi iniciada pelo fundador da república turca, Mustafa Kemal Atatürk. A base do erdoğanismo se origina do culto à personalidade de Erdoğan e da predominância de uma liderança autoritária. O papel que Erdoğan manifestou como um agente dos valores conservadores pode ser visto na forma de slogans políticos para a eleição presidencial na Turquia, como o "Homem da Nação" (Milletin Adamı em turco).

HistóriaEditar

 
Retrato de Erdogan pendurado em um prédio em Istambul com o slongan "Uma nação, uma bandeira, uma pátria, um estado".

O termo 'erdoğanismo' surgiu pela primeira vez logo após a vitória de Erdoğan nas eleições gerais de 2011, onde foi predominantemente descrito como os ideais conservadores do Partido AK fundidos com a demagogia e o culto à personalidade de Erdoğan.[11] No entanto, o uso do termo aumentou em conjunto com um maior reconhecimento de Erdoğan no cenário internacional, principalmente devido a seus ideais de política externa baseados no neo-otomanismo, um fator central que o erdoğanismo engloba.[12]

PrincípiosEditar

Mustafa Akyol, descreveu o Erdoğanismo como uma ideologia baseada no culto à personalidade em torno de Erdogan, referindo-se como uma forma de autoritarismo populista semelhante ao putinismo na Rússia. Ele também descreve o neo-otomanismo, o islamismo, a suspeita de intervenção política ocidental no Oriente Médio, a rejeição do kemalismo e o confinamento do processo democrático e das eleições como atributos-chave do erdoğanismo.[13]

Conflitos com o islamismoEditar

Apesar de diversos elementos do erdoğanismo, particularmente a retórica política usada por seus apoiadores, serem inspirados no islamismo, o culto extensivo em torno de Erdoğan teria isolado os muçulmanos mais extremistas, que são céticos de seu domínio no estado. A centralidade da autoridade de Erdoğan, que é um dos principais pontos do erdoğanismo, é criticada pelos muçulmanos, que acreditam que a devoção dos fiéis não deve ser por um líder, mas por Alá e os ensinamentos do Islã.[14] As críticas vêm sobretudo dos partidos políticos islâmicos, como o Partido da Felicidade (SP), que afirma que o erdoğanismo não é baseado no islamismo, mas no autoritarismo, e usa a religião como retórica para manter o apoio dos setores conservadores da socidade.[15][16]

Ver tambémEditar

Referências

  1. Amílcar Correia (25 de Julho de 2020). «Erdogan quer ser o sultão dos turcos». Público. Cópia arquivada em 13 Março 2022 
  2. João Ozorio de Melo (22 de julho de 2016). «Governo da Turquia pode criar regime inspirado na teocracia». Consultor Jurídico. Consultado em 14 de maio de 2023. Cópia arquivada em 14 de maio de 2023 
  3. Marc Champion (2 de junho de 2015). «Erdogan's vision for 'Tayyipist' Turkey». Gulf News (em inglês). Consultado em 14 de maio de 2023. Cópia arquivada em 14 de maio de 2023 
  4. Tallha Abdulrazaq (23 de maio de 2016). «Erdoganism and Turkey's new prime minister». Middle East Monitor (em inglês). Consultado em 14 de maio de 2023. Cópia arquivada em 8 de fevereiro de 2023 
  5. «As Turkish Economy Sours, Erdogan's Party Could Lose Grip on Big Cities». Haaretz (em inglês). 19 de janeiro de 2019. Consultado em 14 de maio de 2023. Cópia arquivada em 21 de julho de 2022 
  6. Andrew Rettman (10 de julho de 2019). «Erdogan picks EU fight, as Turkish economy tanks». EUobserver (em inglês). Consultado em 16 de maio de 2023. Cópia arquivada em 16 de maio de 2023 
  7. «Türk tipi Başkanlık Sistemi nedir Kuzu açıkladı». Internet Harber (em turco). 6 de novembro de 2015. Consultado em 16 de maio de 2023. Cópia arquivada em 16 de maio de 2023 
  8. Doug Bandow (27 de junho de 2015). «Why Both Erdoganism and Kemalism May Finally Be Dead in Turkey». HuffPost (em inglês). Consultado em 16 de maio de 2023. Cópia arquivada em 16 de maio de 2023 
  9. Zoltan Simon (28 de julho de 2014). «Orban Says He Seeks to End Liberal Democracy in Hungary». Bloomberg (em inglês). Consultado em 16 de maio de 2023. Cópia arquivada em 16 de maio de 2023 
  10. Sevil Erkuş (20 de outubro de 2015). «Erdoganism and democracy». East Online. Consultado em 16 de maio de 2023. Arquivado do original em 22 de agosto de 2016 
  11. Mohammad Aslam (2 de outubro de 2011). «Erdoganism: A Word of Caution». International Policy Digest (em inglês). Consultado em 29 de abril de 2023. Cópia arquivada em 16 de maio de 2023 
  12. «Erdoganism: a practical guide». web.archive.org. 12 de agosto de 2018. Consultado em 29 de abril de 2023. Cópia arquivada em 12 de agosto de 2018 
  13. Akyol, Mustafa (21 de junho de 2016). «Erdoganism». Foreign Policy. Consultado em 30 de julho de 2016. Cópia arquivada em 16 de maio de 2023 
  14. Mustafa Akyol (31 de março de 2015). «Is 'Erdoganism' a Threat to Turkey's Islamism?». U.S. News (em inglês). Consultado em 16 de maio de 2023. Cópia arquivada em 16 de maio de 2023 
  15. Mustafa Akyol (30 de março de 2015). «Is 'Erdoganism' threat to Turkey's Islamism? - Al-Monitor: Independent, trusted coverage of the Middle East». Al Monitor (em inglês). Consultado em 16 de maio de 2023. Cópia arquivada em 16 de maio de 2023 
  16. Yavuz, M. Hakan; Öztürk, Ahmet Erdi (2 de janeiro de 2019). «Turkish secularism and Islam under the reign of Erdoğan». Southeast European and Black Sea Studies (em inglês) (1): 1–9. ISSN 1468-3857. doi:10.1080/14683857.2019.1580828. Consultado em 16 de maio de 2023