Ernst Röhm

Ernst Julius Günther Röhm (alemão: [ˈɛɐ̯nst ˈʁøːm]; 28 de novembro de 1887 – 1º de julho de 1934) foi um militar alemão e membro do Partido Nazista, filho de um funcionário da ferrovia bávara. Foi um dos primeiros membros do Partido dos Trabalhadores Alemães (DAP), antecessor do NSDAP (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei).

Ernst Röhm
Röhm em 1933.
Nascimento 28 de novembro de 1887
Munique, Império Alemão
Morte 2 de julho de 1934 (46 anos)
Prisão de Stadelheim, Munique, Alemanha Nazista
Nacionalidade alemão
Ocupação Militar
Filiação NSDAP
Serviço militar
Lealdade Império Alemão Império Alemão
Alemanha Nazista Alemanha Nazista
Serviço Flag of Bavaria (striped).svg Exército da Baviera
War Ensign of Germany (1922–1933).svg Reichswehr
Bolívia Exército Boliviano
SA-Logo.svg Sturmabteilung
Anos de serviço 1906–1923
Patente Hauptmann (capitão)
Stabschef (Chefe do Estado-Maior)
Conflitos Primeira Guerra Mundial

Röhm foi capitão, servindo no VII Comando Distrital do Exército, com sede em Munique. “Era um soldado profissional corpulento, de pescoço taurino, olhos penetrantes, rosto marcado de cicatrizes...”. Odiava a república democrática em que se transformou a Alemanha com a assinatura do Tratado de Versalhes. “Seu objetivo era recriar na Alemanha um poderoso partido nacionalista...”.

Ernst Röhm organizou os primeiros grupos de choques nazistas ("esquadras de choque" - Ordnertruppe) que se converteram depois na SA (Sturmabteilung).

*O DAP passou a ser chamado de Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães em 1º de abril de 1920.[1]

"O astuto acréscimo das palavras 'nacional' e 'socialista' ao título - do NSDAP - tinha por objetivo atrair membros tanto da direita como da esquerda" (Williamson, 2008, p. 16).[2]

Forçado a sair da 1ª Guerra por invalidez, trabalhou para o Ministério da Guerra na Bavária, fornecendo armas para a Força de Defesa Residente de Kahr e depois para grupos militares fragmentados. Era conhecido como o "rei das metralhadoras". Por ser oficial do Estado-Maior, gozava de alta reputação no exército alemão, em que pese ter ligações estreitas com paramilitares. Röhm tinha ainda ideias (de) e contatos na extrema direita.[3]

Röhm foi amigo próximo e aliado de Adolf Hitler, refundando e comandando a Sturmabteilung (SA), então o braço armado do movimento nazista. Sem sua ajuda, Hitler jamais teria derrubado a república (Schirer, 2017, p. 66 e p. 72).

Segundo Gordon Williamson, "Ernst Röhm tinha real interesse no NSDAP e, efetivamente, aderiu ao movimento de criação do Partido, reconhecendo em Hitler as qualidades de alguém que poderia incitar as massas com sua oratória hipnótica. A intenção de Ernst Röhm, contudo, nunca foi tornar-se um seguidor de Hitler, mas, em vez disso, utilizar o NSDAP para alimentar suas próprias ambições pelo poder político e militar".[2]

Seu rosto era coberto de feridas, algumas adquiridas no campo de batalha. Estilhaços de granada destruíram parte de seu nariz. Tinha talento para a organização, mas seu real pendor era para a violência bruta, "não para a conspiração política. Uma análise de seus escritos mostrou que ele usava palavras como 'prudente', 'compromisso', 'intelectual', 'burguês' ou 'classe média' quase invariavelmente em sentido pejorativo; suas expressões positivas e de admiração incluíam 'robusto', 'temerário', 'implacável' e 'fiel'". Descreveu-se como "perverso". Desprezava os civis e "se deleitava com a vida sem lei dos tempos de guerra".[3]

Ernst Röhm teve papel preponderante na formação da Sturmabteilung como o braço armado do então crescente movimento nazista. De acordo com muitos historiadores, teria sido ele o homem que induziu Hitler a seguir carreira política, depois de ver um discurso exaltado do Führer num bar de Munique. Por sua participação e lealdade a Hitler no Putsch da Cervejaria, foi posteriormente nomeado Stabschef (comandante-em-chefe) da Sturmabteilung (SA), a primeira milícia nazista.

Sob Röhm, a SA muitas vezes tomava o Partido dos Trabalhadores em greves e outras disputas trabalhistas, atacando os antigrevistas e apoiando as linhas de piquete. A intimidação da SA contribuiu para a ascensão dos nazistas e a violenta repressão durante campanhas eleitorais, mas a reputação de Röhm de atuar com violência nas ruas e de beber em excesso era um obstáculo ao NSDAP, assim como a sua aberta homossexualidade[4][5][6] e a de outros líderes da SA, a exemplo de Edmund Heines.[1] Tal fato foi exposto à sociedade por um jornal a partir de cartas enviadas por Röhm a possíveis amantes. Röhm chegou a aderir a um movimento de direitos humanos, porém Hitler dizia que a SA não era uma associação moral, mas sim uma "agremiação de lutadores".

Röhm teve muitos inimigos. Entre seus desafetos estavam altos oficiais da Reichswehr, o Exército alemão do período entre-guerras. A rigor, Röhm tinha planos ambiciosos de transformar a SA no cerne do futuro Exército alemão, no que era sustentado pelo numeroso contingente da Sturmabteilung - 2 milhões de membros quando da Noite das Longas Facas (1934). Röhm também não gozava da simpatia de "figurões" do Partido Nazista. Embora Hitler o estimasse por sua capacidade administrativa e lealdade à causa nazista, não tardou muito em considerá-lo como um obstáculo ao poder, devido à sua alta rejeição.

Como dito, Röhm tinha a pretensão de que a SA substituísse o Exército alemão. "Quando chegou ao poder, Hitler ficou alarmado com as convicções de Röhm. O Führer queria manter o apoio do Exército, dos industriais e dos proprietários de terras, enquanto Röhm acreditava que deveria haver uma 'segunda revolução' e que Hitler havia assumido muitos compromissos. Essas diferenças irreconciliáveis levaram à Noite dos Longos Punhais (ou das Facas Longas) e à execução de Röhm" (Williamson, 2008, p. 16).[2]

Ainda por volta de 1925, com a refundação do Partido Nazista, Hilter intuiu que Röhm jamais exibiria a lealdade incondicional que ele exigia. Röhm tinha planos mais audaciosos para a Alemanha - até então. Assim, Hitler afastou do Partido os rivais mais sérios e, reorganizados os camisas-pardas (S.A.), "insistiu em que esta - a SA - ficasse subordinada ao Partido Nazi e cortasse os vínculos com os outros grupos paramilitares; [..]".[3] Röhm contestou essa ideia e, agora, fora do Partido e da política "foi forçado a virar vendedor e depois operário de fábrica antes de aceitar um convite para ir à Bolívia instruir as tropas do país no estilo das operações militares europeias" (Evans, 2010, p. 259),[3] onde permaneceu de 1928 a 1930.

Em 1930, Röhm foi nomeado para o posto de comandante da Sturmabteilung (S.A.).

Contudo, na madrugada de 30 de junho de 1934, Röhm foi preso pessoalmente por Hitler num hotel nos arredores de Munique e, resistindo à prisão, foi levado à força ao cárcere de Stadelhein. Em 2 de julho de 1934, em Stadelhein, seguindo ordens diretas de Hitler, Theodor Eicke (construtor do Campo de Concentração de Dachau) e um oficial das SS o visitaram numa cela, entregando-lhe uma pistola com um projétil e 10 minutos para se matar; se não o fizesse, eles mesmos o executariam.[7] Röhm se recusou dizendo: "Se vou ser morto, deixe o Sr. Adolf fazer isso." Eicke e o oficial se retiraram, retornando após 10 minutos. Encontraram Röhm de pé e nu. Sem entender o motivo para isso, mas obedecendo às ordens recebidas, executaram-no com um tiro à queima-roupa. Ernst Röhm foi assassinado um dia após o episódio denominado Noite das Facas Longas, na cela de sua prisão em Munique, após recusar o suicídio como forma de confessar seus supostos planos para levar a S.A. ao controle do Reich.

Röhm e a S.A. tornaram-se também um obstáculo para os planos de Heinrich Himmler e Reinhard Heydrich. Röhm era amigo de Heydrich e padrinho de seu filho mais velho, Klaus. Röhm, Himmler e Heydrich foram aliados e amigos nos meses que se seguiram à indicação de Hitler como Chanceler da Alemanha, o que não impediu o fim das "indisciplinadas" S.A. e a conspiração consciente que destruiu suas lideranças e o próprio Röhm.[8]

Ernst Rohm com Henrich Himmler ao fundo
O medo das ambições de Ernst Röhm e das SA resultaria numa aliança entre o exército, o Partido Nazista e as SS
Ernst Rohm com Adolf Hitler

Notas e referências

  1. a b Shirer, William (1991). Rise And Fall Of The Third Reich. Londres: Arrow books. 1264 páginas. ISBN 978-0099421764 
  2. a b c WILLIAMSON, Gordon. O Instrumento de Terror de Hitler. Vol. Único. Trad. Roberson Melo. São Paulo: Escala, 2008, p. 19.
  3. a b c d EVANS, Richard J. (2010). A Chegada do Terceiro Reich. São Paulo: Planeta. p. 259. 669 páginas 
  4. Wills, Matthew (27 de março de 2017). «ERNST RÖHM, THE HIGHEST-RANKING GAY NAZI». Journal of the History of Sexuality, Vol. 8, No. 4 (Apr., 1998), pp. 616-641. Jstor. Consultado em 6 de maio de 2018 
  5. Carey, Mark (2006). Hitler's Gay Traitor: The Story of Ernst Röhm, Chief of Staff of the S.A.: The Story of Ernst Rohm, Chief of Staff of the S.A. [S.l.]: Trafford Publishing. 416 páginas. ISBN 1425102476 
  6. Oosterhuis, Harry (1997). «Medicine, Male Bonding and Homosexuality in Nazi Germany». Journal of Contemporory History. 189 páginas. doi:SAGE Publications Verifique |doi= (ajuda). Consultado em 6 de maio de 2018 
  7. BAJOHR, Frank (2017). Os diários de Alfred Rosenberg. [S.l.]: Crítica. pp. 157–158 
  8. GERWARTH, Robert. O Carrasco de Hitler. A Vida de Reinhard Heydrich. O Supervisor da Solução Final para a Questão Judaica e a Origem do Holocausto. trad. Mário Molina. São Paulo: Cultrix, 2013.