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Os '''Quiriri''' são um grupo indígena que habita o Nordeste do estado brasileiro da [[Bahia]], nos limites dos municípios baianos de [[Ribeira do Pombal]] e [[Banzaê]] (Terra Indígena Kiriri) e à margem esquerda do médio [[rio São Francisco]], nos limites de [[Muquém de São Francisco]] (Área Indígena Barra).
[[Cariris]]
 
O povo kiriri constitui um grande exemplo de luta para outros povos indígenas localizados na região Nordeste. No espaço de quinze anos, eles se estruturaram politicamente e promoveram, em fins dos anos 1990, a retirada de cerca de 1.200 não-índios incidentes na Terra Indígena Kiriri.
 
Kiriri ou Kariri é um vocábulo tupi que significa povo "calado", "taciturno". Essa designação teria sido atribuída pelos Tupi da costa aos índios habitantes do sertão. Sob essa denominação foram registrados diversos grupos indígenas desde o Ceará e a Paraíba, até o interior da Bahia, constituindo uma família lingüística composta de quatro línguas: Dzubukuá, Kipeá, Kamurú e Sapuyá . No agreste entre Salvador e o sertão de Canudos, foram registrados grupos falantes da língua Kipeá desde o século XVII, designados pleas crõnicas históricas como Kiriri ou Quiriris.
No início do século XVIII, o então rei de Portugal, doou uma légua em quadra de terras a todas as aldeias do sertão com mais de cem casais, fruto de solicitações constantes por parte dos jesuítas face aos conflitos decorrentes da expansão da pecuária, em especial com criadores de gado da região que interferiam com certa freqüência na administração dos párocos das aldeias ali constituídas. Estas aldeias foram: Natuba, Canabrava, Saco dos Morcegos, na Bahia e Juru, em Sergipe.
Assim, Saco dos Morcegos, uma das quatro aldeias Kipeá-Kiriri fundadas pelos jesuítas, com uma população então estimada em 700 casais, foi delimitada com a medida de uma légua de sesmaria (6.600 m), do centro a todas as partes, isto é, conforme o costume à época, da igreja missionária aos oito pontos cardeais e colaterais, formando um octógono regular de 12.320 ha. Após a expulsão dos jesuítas, em 1756, Saco dos Morcegos seria elevada à vila, adotando a denominação atual de Mirandela e sendo administrada por “Diretores de índios”, interessados em ocupar as terras da antiga missão com pastos e lavouras comerciais.
Apenas em meados do século XX as terras doadas pelo rei de Portugal seriam efetivamente reclamadas pelos Kiriri, principalmente após a instalação, em Mirandela, em 1949, de um Posto Indígena do então Serviço de Proteção aos Índios.
Tal iniciativa, fruto de incessantes gestões por parte do pároco Renato Galvão, do município vizinho de Cícero Dantas, foi precedida pela visita aos índios, em 1941, do engenheiro Luiz Adami, do Ministério da Agricultura e, em 1947, do sertanista Sílvio dos Santos. Ambos os relatórios decorrentes deste primeiro contato mais oficial com os Kiriri ressaltam a precisão com que esses índios referiam ao formato octogonal do chapéu de sol que constituía o território reivindicado, e o desenhavam, identificando e localizando ainda os oito marcos que o delimitavam, apesar deles terem sido destruídos ou deslocados há muito tempo.
Em 1972, face à total inoperância do órgão tutelar -que então já era a Funai- e à necessidade premente de constituir uma estrutura organizativa minimamente independente e representativa que enfrentasse os regionais e efetivasse a luta coletiva pela demarcação do território, os Kiriri elegeram um líder indígena para o cargo de "cacique", além de um conselho formado por um representante em cada núcleo.
No contexto do processo organizativo que se seguiu à eleição do cacique e conselheiros, os Kiriri empreenderam uma série de ações que inicialmente foram orientadas à revitalização étnica do grupo, ao estreitamento de relações com outros povos indígenas e, ainda, à familiarização com os meandros administrativos do Estado. Em 1976, com a entrada em cena de um chefe de posto com razoável experiência de trabalho indigenista, independência política e, principalmente, disposição para respaldar os projetos coletivos dos Kiriri, tais ações ganham uma conotação mais estritamente política, centrando-se na condução de um pleito pela demarcação e extrusão (expulsão dos invasores) do território indígena, com base no montante da área doada pelo Rei de Portugal, ou seja, os 12.320 hectares que compreende a "légua em quadra" e, internamente, em apropriações parciais simbólicas e efetivas desse território, entre 1979 e 1998.
Em 1974, líderes kiriri organizaram uma caravana com cerca de cem índios à Terra Indígena Tuxá, localizada em Rodelas, norte da Bahia, em princípio para realizar um jogo de futebol entre os dois povos, mas já com a clara intenção de assistir ao ritual Toré realizado por aqueles índios e aprendê-lo. O Toré é parte de um conjunto mais amplo de crenças - no centro do qual se encontra a jurema. Entre os índios no Nordeste, o Toré representa um símbolo de união e de etnicidade, fornecedor de elementos ideológicos de unidade e de diferenciação e, portanto, fonte de legitimação de objetivos políticos.
O processo de adoção do Toré é melhor viabilizado no plano simbólico, por um lado, pela sua relação com certas práticas xamanísticas então vigentes entre os Kiriri, selecionadas com atenção ao critério de representatividade étnica. Sobre a estrutura do Toré aprendido, os Kiriri introduziram novos elementos: seus "encantados" (seres sobrenaturais), acrescentados àqueles tomados de empréstimo dos Tuxá, progressivamente assumiram lugar de destaque; ao repertório melódico original, os Kiriri adicionaram seus próprios toantes e mesmo as bases coreográfica e de vestuário têm passado por inovações.
No final da década de 1980, os Kiriri duplicaram a sua estrutura política, passando a se organizar em dois segmentos faccionais - atualmente as unidades mais efetivas da ação política formalizada no grupo - lideradas por seus respectivos caciques, pajés e conselheiros. Cada cacique é auxiliado por seus conselheiros, "chefes locais" responsáveis pela administração dos núcleos, que compreendem a menor unidade política kiriri. Historicamente, esses núcleos são as áreas nas quais esses índios foram se fixando, enquanto iam sendo rechaçados, desde o fim do aldeamento missionário, de seu centro, em Mirandela. Cada um desses núcleos, num total de seis, submete-se à autoridade de um conselheiro, secundado por um "ajudante". Os povoados, extrusados recentemente, submetem-se à autoridade dos conselheiros dos núcleos a eles adjacentes.
Entre a população kiriri, há uma migração de caráter mais ou menos permanente resultante de conflitos políticos e da fragmentação por herança. Os Kiriri realizam ainda, com relativa freqüência, migrações sazonais, verificando-se o retorno invariavelmente nas épocas de plantio e colheita.
 
Adaptado do verbete Kiriri de autoria de Sheila Brasileiro, publicado na Enciclopédia dos Povos Indígenas do Instituto Socioambiental (ISA) http://www.socioambiental.org/pib/epi/kiriri/kiriri.shtm
 
 
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