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1 byte adicionado ,  16h43min de 9 de novembro de 2011
Contudo, o nome de Miragaia poderá ter uma explicação bem mais prosaica, resultando do simples facto de estar em frente a Gaia, ou seja, a estar a mirar (ver).
 
Quanto à '''Lenda de Gaia''', ela própria, para lá de todo o [[folclore]] que ficou acima descrito, importa sobretudo atender a duas questões centrais: o texto original que consta no ''Livro Velho de Linhagens'' (século XIII) e a identificação do rei Ramiro que nele é protagonista. E só há duas alternativas: ou é [[Ramiro I das Astúrias|D. Ramiro I]], falecido em [[850]], ou seu trineto [[Ramiro II de Leão|D. Ramiro II]] ([[931]] - [[951]]), sendo que de ambos o filho herdeiro se chamou Ordonho. E a resposta é bem fácil de dar, uma vez que é completamente impossível que as circunstâncias relatadas na lenda se tivessem passado entre 931 e 951, cronologia em que o Porto e Gaia estavam já sobre seguro domínio cristão, desde a conquista de [[Vimara Peres]] em [[868]]. Assim, ou não damos qualquer crédito à lenda ou temos de a datar em meados do século XIX, tendo D. Ramiro I e seu filho [[Ordonho I das Astúrias|D. Ordonho I]] como protagonistas.
 
Para melhor se poder avaliar a lenda, transcreve-se aqui o texto original do Livro Velho: «''Este rei D. Ramiro seve casado com uma rainha e fege nela rei D. Ordonho; e pois lha filhou rei Abencadão, que era mouro, e foi-lha filhar em Salvaterra, no lugar que chamam Mier. Então era rei Ramiro nas Asturias, e quando Abencadão tornou aduce-a para Gaia, que era seu castelo; e, quando veio, rei Ramiro não achou a sa mulher e pesou-lhe ende muito, e enviou por naves seu filho D. Ordonho e por seus vassalos e fretou sas naves e meteu-se em elas, e veio Sanhoane da Furada (hoje Afurada, na foz do Douro, do lado de Gaia); e pois que a nave entrou pela foz, cobriu-a de panos verdes, em tal guisa que cuidassem que eram ramos, ca entonce Douro era coberto de uma parte e de outra de arvores; e esse rei Ramiro vestiu-se em panos de veleto, e levou consigo sa espada e seu corno, e falou com seu filho e com seus vassalos que, quando ouvissem o seu corno, que todos lhe acorressem e que todos jouvessem pela ribeira per antre as arvores, fora poucos que ficassem na nave para mantê-la. E ele foi-se estar a uma fonte que estava perto do castelo; e Abencadão era fora do castelo e fora correr monte contra Alafão. E uma donzela que servia a rainha levantou-se pela manhã, que lhe fosse pela água para as mãos; e aquela donzela havia nome Ortiga; e ele pediu-lhe água pela arávia, e ela deu-lha por um autre, e ele meteu um camafeu na boca, o qual camafeu havia partido com sa mulher, a rainha, pela meiadade. Ele deu-se a beber e deitou a anel no autre, e a donzela foi-se e deu ágia à rainha, e caiu-lhe o anel na mão e conheceu-o ela logo. A rainha perguntou quem achara na fonte; ela respondeu-lhe nom era hi ningém; ela disse que mentia, e que lho nom negasse, ca lhe faria por ende bem e mercê; e a donzela lhe disse entom que achara um mouro doente e lazarado e que lhe pedira água que bebesse, e ela que lha dera; e entonce lhe disse a rainha que lhe fosse por ele, e se hi o achasse que lho aducesse. A donzela foi por ele e disse-lhe ca lhe mandava dizer a rainha que fosse a ela; e entonces rei Ramiro foi-se com ela; e ele, entrando pela porta do paço, conheceu a rainha e disse-lhe: - Rei Ramiro, quem te aduce aqui? E ele lhe respondeu: - Ca pequena maravilha! E ela disse à donzela que o metesse na câmara e que nom lhe desse que comesse nem que bebesse; e a donzela pensou dele sem mandado da rainha. E ele jazendo na câmara, chegou Abencadão e deram-lhe que jantasse, e despois de jantar, foi-se para a rainha, e dês que fizeram seu prazer, disse a rainha: - Se tu aqui tivesses rei Ramiro, que lhe farias? O mouro então respondeu: - O que ele a mim faria: matá-lo. Então a rainha chamou Ortiga que o aducesse da câmara, e ela assim o fez, e aduce o mouro, e o mouro lhe disse: - És tu rei Ramiro? E ele respondeu:- Eu sou. E o mouro lhe perguntou: - A que vieste aqui? El-rei Ramiro lhe disse entom: -Vim ver minha mulher, que me filhaste a torto, ca tu havias comigo tréguas e nom me catava de ti. E o mouro lhe disse: - Vieste a morrer, mas quero-te perguntar: se me tivesses em Mier, que morte me darias? El-rei Ramiro era muito faminto, e respondeu-lhe assim: - Eu te daria um capão assado e uma regueifa e faria-te tudo comer e dar-te-ia em cima uma copa cheia de vinho que bebesses; em cima, abrira portas do meu curral e faria chamar todas as minhas gentes, que viessem ver como morrias, e faria-te subir a um padrão e faria-te tanger o corno até que te hi saisse o fôlego. Então respondeu-lhe Abencadão: -Essa morte te quero eu dar. E fez abrir os currais, e feze-o subir em um padrão que hi entom estava; e começou rei Ramiro entom seu corno tanger, e começou chamar sa gente pelo corno, que lhe acorressem, ca agora havia tempo. E o filho, como o ouviu, acorreu-lhe com seus vassalos, e meterom-se pela porta do castelo, e ele desceu-se do padrom adonde estava, e veio contra eles e tirou sa espada da bainha e descabeçando atá o menor mouro que havia em toda Gaia, andaram todos à espada, e nom ficou em essa vila de Gaia pedra sobre pedra que tudo não fosse em terra. E filhou rei Ramiro sa mulher com sas donzelas e quando haver hi achou e meteu na nave, e quando foram a foz de Ancora amarraram as barcas e comeram e folgaram, e D. Ramiro deitou-se a dormir no regaço da rainha e a rainha filhou-se a horar, e as lágrimas dela caeram a D. Ramiro pelo rosto, e ele espertou-se e disse porque chorava? E ela disse-lhe: - Choro por o mui bom mouro que ataste. E então o filho, que andava hi na nave, ouviu aquela palavra que sa madre dissera e disse ao padre: - Padre, não levemos connosco mais o demo. Entom rei Ramiro filhou uma mó que trazia na nave e ligou-lha na garganta e ancorou-a no mar, e des aquela hora chamaram hi Foz de Ancora. Este D. Ramiro foi-se a Mier e fez sa corte, e contou-lhe tudo como acaecera, e entom baptizou Ortiga e casou com ela e louvou-lhe toda sa corte muito, e pos-lhe nome D. Áldara, e fege nela um filho, e quando nasceu pos-lhe o padre o nome Alboazar, e disse entom o padre que lhe punha este nome porque seria padre e senhor de muito boa fidalguia''.»
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