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Durante a época [[pré-colombiano|pré-colombiana]] da [[Cronologia da mesoamérica|história mesoamericana]], algumas línguas maias eram escritas usando a [[Escrita maia|escrita hieroglífica maia]]. O seu uso foi particularmente generalizado no período clássico da [[civilização maia]] (250 - 900 d.C.). O conjunto de mais de 10 000 inscrições individuais maias que chegou até aos nossos dias (em edifícios, nas obras de olaria e nos [[códices maias]]),<ref>Kettunen and Helmke (2005), p.6.</ref> combinado com a rica literatura pós-colonial das línguas maias escrita utilizando o [[alfabeto latino]], fornecem uma base para a compreensão moderna da história pré-colombiana sem paralelo nas Américas.
 
== História ==
As línguas maias são descendentes de uma [[protolíngua]] chamada protomaia, ou em maia quiché, ''Nab'ee Maya' Tzij'' ("a antiga língua maia").<ref>England (1994).</ref> Crê-se que a língua protomaia teria sido falada nas terras altas de Cuchumatanes na Guatemala central numa área que corresponde aproximadamente àquela onde hoje em dia se fala o canjobalano.<ref>Campbell (1997), p. 165. A proposta mais antiga (Sapper 1912) que identificou as terras altas de Chiapas-Guatemala como o berço provável das línguas maias, foi publicada pelo antiquário e académico alemão [[Karl Sapper]]; ver atribuição em Fernandéz de Miranda (1968), p.75.</ref> A primeira divisão ocorreu por volta de [[2200 a.C.]] quando o huastecano se separou da língua maia original, após os seus falantes se terem deslocado para noroeste ao longo da costa do [[golfo do México]]. A seguir foram os falantes de proto-iucatecano e proto-cholano que se separaram do grupo principal deslocando-se para norte até à [[península de Iucatã]]. Os falantes do ramo ocidental deslocaram-se para sul, para as regiões actualmente habitadas pelos povos [[mames|mam]] e [[quichés|quiché]]. Mais tarde, falantes do proto-tseltalano separaram-se do grupo cholano e deslocaram-se para sul até às terras altas de Chiapas, onde entraram em contacto com falantes das [[línguas mixe-zoqueanas]].
 
Durante o período arcaico (antes de 2000 a.C.) parecem ter entrado na língua protomaia [[Empréstimo (linguística)|várias palavras]] com origem em línguas mixe-zoqueanas. Esta constatação conduziu à hipótese de entre os primeiros maias predominarem os falantes de línguas mixe-zoqueanas, possivelmente da cultura [[olmeca]].<ref>Para uma hipótese de atribuição de uma língua mixe-zoqueana aos olmecas, ver por exemplo Champbell e Kaufman (1976).</ref> Por outro lado, nos casos da [[língua xinca]] e da [[língua lenca]], as línguas maias são mais fornecedoras que receptoras de empréstimos linguísticos. Para alguns especialistas em línguas maias, como Lyle Campbell, este facto parece sugerir um período de contacto intenso entre os os povos maias e os povos [[lencas|lenca]] e [[Xincas|xinca]], possivelmente durante o período clássico (250 - 900 d.C.).<ref>Campbell (1997), p. 165.</ref>
4 : 20 VIDALOKA
 
[[Ficheiro:Mayan Language Migration Map PT.png|thumb|left|300px|Rotas e datas aproximadas de migração para várias famílias de línguas maias. A região identificada como protomaia é actualmente ocupada por falantes do ramo canjobalano.<ref>Baseado em Kaufman (1976).</ref>]]
 
Durante o período clássico, todos os ramos principais se diversificaram em línguas separadas. No entanto, os textos glíficos apenas registam duas variedades da língua maia - uma variedade de cholano encontrada em textos escritos no sul da área maia e nas terras altas e uma variedade iucatecana encontrada em textos da península de Iucatã.<ref name="Kettunen & Helmke 2006 p. 12">Kettunen & Helmke (2006) p. 12.</ref>
 
Foi recentemente sugerido que a variedade específica de cholano encontrada em textos glíficos é mais bem entendida como "choltiano clássico", a língua ancestral das modernas línguas chorti e cholti. Pensa-se que terá tido a sua origem no sul da bacia de Petén; teria sido utilizada nas inscrições e talvez fosse também falada pelas elites e sacerdotes.<ref>Houston, Robertson, and Stuart (2000).</ref> A razão por detrás da existência de apenas duas variedades linguísticas nos textos glíficos, é que provavelmente estas funcionavam como [[dialecto de prestígio|dialectos de prestígio]] por toda a região maia; os textos hieroglíficos teriam sido redigidos na língua da elite.<ref name="Kettunen & Helmke 2006 p. 12"/> Porém, por esta altura, as pessoas comuns entre os maias deveriam já falar várias línguas diferentes.
 
Durante a colonização da América Central, todas as línguas indígenas foram eclipsadas pela [[língua castelhana]], que se tornou na nova língua de prestígio. As línguas maias não foram excepção, e o seu uso em muitos domínios sociais importantes, incluindo administração, religião e literatura, chegou ao fim. Ainda assim, a área maia resistiu mais que outras às influências vindas do exterior,<ref>O último reino maia independente, [[Tayasal]], só foi conquistado em [[1697]], cerca de 170 anos após a chegada dos primeiros ''conquistadores''. Os períodos colonial e pós-colonial viram o surgimento de revoltas periódicas dos povos maias contra os colonizadores, como a [[Guerra das Castas]] em Iucatã, que se prolongou até ao século XX.</ref> e talvez por este motivo muitas comunidades maias ainda hoje mantêm uma grande proporção de pessoas que falam apenas uma língua. No entanto, a área maia encontra-se actualmente dominada pelo castelhano. Enquanto várias línguas maias estão moribundas ou são consideradas em risco de desaparecerem, outras permanecem perfeitamente viáveis, com falantes de todos os grupos etários e com a língua nativa a ser utilizada em todos os domínios sociais.<ref>Grenoble & Whaley (1998) caracterizaram esta situação desta maneira: "As línguas maias têm tipicamente várias centenas de milhares de falantes, e uma maioria dos maias falam uma língua maia como primeira língua. A principal preocupação das comunidades maias não é revitalizar a sua língua, mas sim fortalecê-la contra a cada vez mais rápida expansão do castelhano…[em vez de estarem] no final de um processo de mudança linguística, [as línguas maias estão]… no seu início. (Grenoble & Whaley 1998:xi-xii)</ref>
 
[[Ficheiro:Distribution-myn2.png|thumb|300px|right|Localização das populações falantes das línguas maias (um mapa detalhado da distribuição das várias línguas pode ser visto [[Línguas maias#Geografia e demografia|aqui]])]]
 
À medida que a arqueologia maia avançou durante o século XX e que as ideologias [[nacionalismo|nacionalistas]] e aquelas baseadas no orgulho étnico se disseminaram, os povos falantes das línguas maias começaram a desenvolver uma identidade étnica como maias, os herdeiros da grande [[civilização maia]].<ref>Choi (2002) escreve: No recente activismo cultural maia, a manutenção das línguas maias tem sido promovida numa tentativa de apoiar uma "identidade maia unificada". Porém, existe um conjunto complexo de percepções sobre a língua e identidade maias entre os maias que estudei em Momostenango, uma comunidade maia nas terras altas da Guatemala. Por um lado, denigrem o quiché e têm dúvidas sobre a possibilidade de que continue a ser uma língua viável pois o domínio do castelhano é uma necessidade política e económica. Por outro lado, reconhecem o valor da língua maia quando desejam reclamar a "autêntica identidade maia".</ref>
A palavra "maia" parece ter sido derivada da cidade pós-clássica de [[Mayapán]]; o seu significado mais limitado nos tempos pré-coloniais e coloniais aponta para uma origem numa região particular da península de Iucatã. O significado mais abrangente de "maia" agora corrente, apesar de definido por ligações linguísticas, é também utilizado para referir os traços culturais ou étnicos. A maioria dos maias identifica-se primeiramente com um grupo étnico particular, por exemplo como iucatecas ou quichés; mas reconhecem também um parentesco maia partilhado.<ref>Choi (2002)</ref>
 
A língua tem sido fundamental na definição dos limites desse parentesco.<ref>Fabri (2003: p. 61. n1) escreve: O termo maia é problemático porque os povos maias não constituem uma identidade homogénea, pelo contrário, o termo maia tornou-se uma estratégia de auto-representação para os movimentos maias e seus seguidores. A ''[[Academia de Lenguas Mayas de Guatemala]]'' (ALMG) reconhece vinte e uma línguas maias diferentes.</ref> Talvez paradoxalmente, este orgulho na unidade conduziu a uma insistência na separação entre diferentes línguas maias, algumas das quais são tão aparentadas que poderiam facilmente ser referidas como dialectos de uma única língua. Porém, dado que o termo dialecto foi no passado utilizado com conotações raciais, fazendo-se uma distinção espúria entre "dialectos" ameríndios e "línguas" europeias, o uso preferido nos últimos anos tem sido o de designar as variedades linguísticas faladas por grupos étnicos diferentes como línguas separadas.<ref>Ver Suárez (1983) capítulo 2, para uma discussão abrangente sobre o uso e significados das palavras "dialecto" e "língua" na Mesoamérica.</ref>
 
Na Guatemala, assuntos como o desenvolvimento de ortografias padronizadas para as línguas maias são responsabilidade da ''[[Academia de Lenguas Mayas de Guatemala]]'' (ALMG; Academia de Línguas Maias da Guatemala), fundada por organizações maias em 1986. Após os [[Guerra Civil da Guatemala|acordos de paz]] de 1996 tem vindo a obter reconhecimento como autoridade reguladora das línguas maias quer entre os académicos maias, quer entre os próprios povos maias.
 
== Genealogia e classificação ==