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'''Heresia''' (do [[latim]] ''haerĕsis'', por sua vez do [[língua grega antiga|grego]] {{lang|grc|αἵρεσις}}, "escolha" ou "opção") é a doutrina ou linha de pensamento contrária ou diferente de um credo ou sistema de um ou mais credos religiosos que pressuponha(m) um sistema doutrinal organizado ou [[ortodoxia doutrinária|ortodoxo]]. A palavra pode referir-se também a qualquer "deturpação" de sistemas filosóficos instituídos, ideologias políticas, paradigmas científicos, movimentos artísticos, ou outros. A quem funda uma heresia dá-se o nome de [[heresiarca]].
 
Sob determinado ponto de vista, para acompanhar uma formulação de Georges Duby, “todo o herético tornou-se tal por decisão das autoridades ortodoxas. Ele é antes de tudo um herético aos olhos dos outros” (DUBY, 1990, p. 177). Desta maneira, ninguém é herético em si mesmo, e qualquer fundador ou participante de algum comportamento ou prática que tenha vindo a ser considerado historicamente como uma heresia nada mais é do que alguém que, do seu próprio ponto de vista, julgava estar ele mesmo percorrendo o caminho correto. O herege não é designado "herege" senão porque alguém, investido de poder eclesiástico e institucional classificou a sua prática ou as suas ideias como destoantes e contrárias a uma ortodoxia oficial que se autopostula como o caminho correto (BARROS, 2007-2008, p. 125). Evidentemente, tal não é o pregado pela [[ortodoxia doutrinária]]. No caso do [[Cristianismocristianismo]], especificamente, enquanto doutrina cuja acepção tradicional baseia-se num arcabouço filosófico [[objetivista]] e [[absolutista]] (em oposição a [[subjetivista]] e [[relativista]]), a heresia é em si um desvio da verdade universal, de modo que mesmo se todos os seres humanos acreditarem num erro, ele não passará, por isso, a ser verdade.
 
Para retomarmos a história do conceito, o termo heresia foi utilizado primeiramente pelos cristãos, para designar ideias contrárias a outras aceitas<ref name="Cotrim">''História Global Brasil e Geral''. Volume único. Gilberto Cotrim. ISBN 978-85-02-05256-7</ref>, sendo aquelas consideradas como "falsas doutrinas". Foi utilizado tanto pela [[Igreja Católica]] como pelas [[Igrejas Protestantes]], ambas argumentando que heresia é uma doutrina contrária à Verdade que teria sido revelada por [[Jesus Cristo]], ou seja, que é uma "deturpação, distorção ou má-interpretação" da [[Bíblia]], dos profetas e de Jesus Cristo (bem como do magistério da Igreja no colégio apostólico, no caso da Igreja Católica e dos primeiros cristãos). A própria Bíblia fala sobre a "aparição de heresias", "''idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias,''" (''[[Epístola aos Gálatas|Gálatas]] 5:20'').
=== Heresia no cristianismo ===
{{Artigo principal|prefixo=Mais informações|Ortodoxia doutrinária}}
Desde Jesus Cristo (Jo 17,21) passando por todos os apóstolos, especialmente [[Paulo de Tarso|São Paulo]], existeexistiu um esforço para manter unidade no [[Cristianismocristianismo]]. A primeira forma de demonstração desse impulso foi a manutenção da unidade em torno de [[São Pedro|Pedro]]. Se há um só Deus, que se revelou em Jesus Cristo, que fundou Sua única Igreja (Mt 16,18) e se Jesus Cristo mesmo diz que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, argumenta-se que não poderiam existir outras verdades verdadeiras. Tal asserção, contudo, foi contestada ao longo da história. Pois se o Cristianismocristianismo conheceu o impulso e desejo de unificação e centralização ao longo dos séculos, que praticamente se confunde com a história das sociedades ocidentais, a religião cristã também conheceu inúmerosnumerosos desdobramentos, cisões, rejeições da autoridade única, e desde cedo proliferaram as mais diversas formas de religiosidade relacionadas com o Cristianismocristianismo. As Heresias, de fato, constituem formas de religiosidade cristã ou concepções do Cristianismocristianismo destoantes daquela perpetuada pelo grupo sucessor dos [[apóstolo]]s e/ou dos [[mártir]]es e primeiros cristãos em geral, cujas acepções eram afins com o grupo que despontava desde o século primeiro como "oficial", no qual se incluíam, no século primeiro, o próprio [[apóstolo João]] em idade avançada, bem como [[Clemente Romano]], e, nos seguintes, [[Orígenes]], [[Inácio de Antioquia]], [[Pápias de Hierápolis]], [[Policarpo de Esmirna]], [[Irineu de Lyon]], [[Santo Antão do Deserto|Antão]], entre outros vários. Esse grupo rejeitou firmemente qualquer desvio da doutrina que proclamavam, não sem gerar estigmatização e perseguição aos grupos hereges. A designação de determinada prática religiosa como heresia é construída, evidentemente, a partir de um ponto de vista que se propõe ortodoxo (BARROS, 2007-2008, p.&nbsp;125).
 
No início era pouco evidente uma [[Igreja]] organizada como hoje, e desde o século primeiro, entre os que aderiam ao cristianismo, sempre existiram controvérsias doutrinárias e disciplinares, a respeito das quais se manifestavam com autoridade o grupo dos apóstolos, com especial destaque para Pedro, como se vê em At 15, 1-5. Havia grupos em [[Roma]], no [[Oriente]] e norte da [[África]], que sob influência [[helenista|helenística]], [[zoroastrismo|zoroastrista]] e de convicções pessoais, que queriam adaptar a doutrina de Jesus às suas ideias. Tais foram os grupos dissidentes ou heréticos fundados por [[Donato Magno]], o [[gnosticismo]] de [[Marcião]] (o "Primogênito de Satanás" segundo [[Jerônimo de Estridão|Jerônimo]]<ref name = JER> {{ws|"[[s:en:De Viris Illustribus#Chapter 17 (Polycarp the bishop)|De Viris Illustribus - Polycarp the bishop]]", em inglês}}</ref>), [[Montano]], [[Nestório]], [[Paulo de Samósata]] e [[Valentim (gnóstico)|Valentim]] entre outros. Os escritos de [[Tertuliano]] contra os heréticos e o "[[Contra Heresias]]" de [[Ireneu de Lyon]] foram respostas às heresias. O [[Primeiro Concílio de Niceia]] foi convocado pelo imperador [[Constantino I]] devido a disputas em torno da natureza de Jesus "não criado, consubstancial ao Pai". Na [[Santíssima Trindade]], as três pessoas têm a mesma natureza, ou seja, a divina.
 
A partir de 325, algumas verdades do Cristianismocristianismo foram estabelecidas como [[dogma]] através de [[cânon]]es promulgados pelo [[primeiro concílio de Niceia]], dentre outros. O [[Credo Niceno-Constantinopolitano]] esclarecia os erros do [[arianismo|arianos]] que negava a divindade de Jesus. Foi usado por [[Cirilo de Alexandria|Cirilo]] para expulsar [[Nestório]].
 
O sacerdote espanhol [[Prisciliano]] foi o primeiro a ser executado por heresia, 60 anos após o concílio de Niceia (em 385), sob o protesto de [[Martinho de Tours|Martinho]], Bispo de [[Tours]], que não aceitava o ''“crime novo de submeter uma causa eclesiástica a um juiz secular”''.
É importante notar que a ação secular foi maior no período da Idade Média, sobretudo após a instalação do Santo Ofício, ou seja, a Inquisição. Antes, porém, como é o ensinamento do Evangelho e, portanto, da própria Igreja, a execução de hereges pelo braço secular não era aprovada, como no caso da morte de [[Prisciliano]] que provocou protestos do [[Papa Sirício]]. [[Ambrósio de Milão|Santo Ambrósio]] e [[São Martinho de Tours]] também pronunciavam-se contra a intervenção secular, considerando um crime fazê-lo. Foi a partir de certas considerações conexas como a de [[Santo Agostinho]] de que a heresia constituia um atentado fundamental contra a sociedade cristã e que esta deveria defender-se com moderação, e, sendo assim, aceitava a pena de morte em caso de perigo social evidente, que a ideia da pena pelas forças do Estado tiveram mais força.
 
=== Seitas consideradas heréticas dentro do Cristianismocristianismo ===
{{Artigo principal|heresias cristãs segundo a Igreja Católica}}
 
* [[Heterodoxia]]
 
{{Referências|col=2}}
 
==Bibliografia==
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* BARROS, José D'Assunção. "Heresias entre os séculos XI e XV: Uma revisitação das fontes e da discussão historiográfica – notas de leitura". in ''[[Arquipélago]]''. Ponta Delgada (Açores): Universidade dos Açores, 2007-2008, p. 125-162.
* [[Georges Duby|DUBY, Georges]]. "Heresias e Sociedades na Europa Pré-Industrial, séculos XI-XVIII". in ''Idade Média – Idade dos Homens''. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.175-184 [original: 1988].
* FRANGIOTTI, Roque. ''História das Heresias'' séculos I-VIII, Paulus, 1995.
* RIBEIRO JUNIOR, João. ''Pequena história das heresias''. Campinas: Papirus.
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== Ligações externas ==
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