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===Críticas===
Apesar de o mérito artístico de Camões ser largamente reconhecido, a sua obra não ficou imune a críticas. O bispo de [[Viseu]], [[Francisco Alexandre Lobo|D. Francisco Lobo]], acusou-o de jamais haver amado verdadeiramente e, por isso, ter falseado o amor através do embelezamento poético. Para o crítico, o amor ''"não se declara com requebros tão ponderados, e por tão afetado estilo, como ele faz tantas vezes, ou para melhor dizer, como faz em todos esses lugares em que mais pretende engrandecer-se"''.<ref>[http://books.google.com/books?id=PpRcWSCp-jYC&pg=PA45&dq=cam%C3%B5es+amor&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1970&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=7#v=onepage&q=cam%C3%B5es%20amor&f=false Nabuco, p. 46]</ref> [[José Agostinho de Macedo]], na sua obra em dois volumes, ''Censura das Lusiadas'', examinou o poema e expôs o que considerava serem os seus vários defeitos, nomeadamente a nível de plano e acção, mas também erros de métrica e gramática, chegando a afirmar que "''Tiradas do poema as oitavas inúteis, ficava reduzido a cousa nenhuma.''" <ref>Citado em ''Memorias para a vida intima de José Agostinho de Macedo'' (Lisboa, 1899), p. 110.</ref> A seguinte passagem exemplifica bem o estilo da sua crítica: referindo-se à Oitava 14.ª («Nem deixarão meus versos esquecidos / AquellesAqueles que nos Reinos ''lá'' da Aurora / Se fizeram por armas tão subidos...»), José Agostinho escreve: ''"Nesta Oit. 14.ª começa o vergonhoso bordão do—''lá''—que se repete com enjoo a cada página até ao fim do Poema, coisa para que os da seita Camoniana não tem sabido olhar [...] pressupondo sem exame a impecabilidade em um homem."'' <ref>José Agostinho de Macedo, ''Censura das Lusiadas'', Tomo I (Impr. Regia, 1820), p. 26.</ref> [[Robert Southey]] comparou a Ilha dos Amores de Camões a um "bordel flutuante", acrescentando que ''"não há beleza que possa desculpar a licenciosidade."'' <ref>Citado em Adolfo de Oliveira Cabral, ''Southey e Portugal, 1774-1801: aspectos de uma biografia literária'' (P. Fernandes, 1959), p. 83. Ver também ''The Poetical Works of Robert Southey: Complete in One Volume'' (A. and W. Galignani, 1829), p. 2. Frase de Southey no original: "His floating island is but a floating brothel, and no beauty can make atonement for licentiousness."</ref> [[Hegel]], embora elogiando várias qualidades d{{'}}''Os Lusíadas'', criticou a incongruência entre o tema nacionalista e o uso de modelos formais clássicos e italianos, além de apontar uma presença excessiva da voz pessoal do poeta, em várias passagens em que usa a primeira pessoa do singular para tecer uma variedade de comentários, interrompendo o fluxo da ação épica.<ref>[http://books.google.com/books?id=lq8qqV7jLNsC&pg=PT115&dq=%22el+rei+seleuco%22&lr=&as_drrb_is=q&as_minm_is=0&as_miny_is=&as_maxm_is=0&as_maxy_is=&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=11#v=onepage&q=%22el%20rei%20seleuco%22&f=false Alves, p. 118]</ref> [[Cesário Verde]] considerou o "desconcerto" camoniano, um modo errático de ser sujeito no mundo e de estar sujeito no mundo, carregando as penas do mundo sobre os ombros, como um desejo absurdo de sofrer.<ref>Silveira, Jorge Fernandes da. [http://books.google.com/books?id=foTb-QNmSsgC&printsec=frontcover&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1970&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=9#v=onepage&q&f=false ''O Tejo é um rio controverso: António José Saraiva contra Luís Vaz de Camões'']. 7Letras, 2008. p. 20</ref> [[Sérgio Buarque de Holanda]] disse que as cores épicas com que Camões pintou os feitos lusitanos não correspondem tanto a ''"uma aspiração generosa e ascendente"'', mas espelham antes uma retrospeção melancólica da glória extinta que mais desfigurou do que fixou a verdadeira fisionomia moral dos agentes da expansão marítima.<ref>Cardoso, pp. 131-132</ref>
 
[[António José Saraiva]], alinhado às teses do [[marxismo]], lamentou a falta de substância dos seus personagens, que para ele são mais estereótipos do que pessoas reais, não são heróis de carne e osso, e carecem de robustez e vigor. Também criticou que a ação fosse levada adiante sempre por esses heróis, sem que o povo português tivesse qualquer participação. Como disse, ''"o peito ilustre lusitano não passa de uma abstração incapaz de conjuntivar carnalmente as proezas sucessivas dos guerreiros"'', pois falta-lhes caracterização externa e, ao autor, uma visão histórica ampla, reduzindo a História aos feitos de armas. Completou dizendo que Camões não se distanciou suficientemente do ideal cavaleiresco para poder criticá-lo, ''"o que o coloca na situação de aparecer um pouco como um Quixote que faz literatura como o outro investia (contra) os gigantes"'', atestando o seu desajuste em relação à sua época e caindo em contradições ideológicas.<ref>[http://books.google.com/books?id=foTb-QNmSsgC&printsec=frontcover&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1970&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=9#v=onepage&q&f=false Silveira, pp. 14-20]</ref> Na mesma linha de ideias, Helgerson viu ''Os Lusíadas'' como uma reafirmação dos valores da [[aristocracia]], atribuindo os méritos da nação a uma só classe social, e considerou o tratamento épico inconsistente com os objetivos gerais da exploração marítima portuguesa, que eram em grande parte puramente comerciais, gerando contradições internas no terreno ideológico e distorcendo os factos históricos.<ref>Helgerson, Richard. [http://books.google.es/books?hl=pt-BR&lr=&id=lOYGlui0UpQC&oi=fnd&pg=PA27&dq=%22camoes%22&ots=P0xf78kEhM&sig=Ru_G6CqMlW96JOerMZjdAqYYN5U#v=onepage&q=%22camoes%22&f=false ''Camões, Hakluyt, and the Voyages of Two Nations'']. IN Dirks, Nicholas B. ''Colonialism and culture''. University of Michigan Press, 1992. pp. 27-36</ref>