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|local = A dois dias de [[Harã]], na [[planície]] em frente a [[Raca]]
|resultado = Vitória decisiva dos seljúcidas<ref name="Kingsford">
{{Referência acitar livro
| autor = Charles Lethbridge Kingsford
| título = The Crusades. The Story of the Latin Kingdom of Jerusalem.
| ano = 1894
| páginas = 145
| volumes =
| volume =
| id = ASIN 1402173741}}</ref>
|notas =
}}
A '''batalha de Harã''' ocorreu a dois dias de [[Harã]], na [[planície]] em frente a [[Raca]], a [[7 de Maio]] de [[1104]], opondo os [[cruzados]] do [[Principado de Antioquia]] e do [[Condado de Edessa]] aos [[turcos seljúcidas]]. Foi a primeira grande [[batalha (guerra)|batalha]] contra os [[estados cruzados]] recém-estabelecidos na [[Primeira Cruzada]], e a derrota dos latinos representou uma viragem na sua expansão no [[Levante (Mediterrâneo)|Levante]].<ref name="Richard">
{{Referência acitar livro
| autor = Jean Richard, Jean Birrell
| título = The Crusades, c.1071-c.1291
| ano = 1999
| páginas = 128
| volumes =
| volume =
| id isbn= ISBN 978-0521625661}}
</ref>. As consequências foram desastrosas para Antioquia, que permitiu a reconquista de vários dos seus territórios pelos [[muçulmanos]] e [[Império Bizantino|bizantinos]].<ref>
{{Referência acitar livro
| autor = Thomas Andrew Archer, Charles Lethbridge Kingsford, Henry Edward Watts
| título = The Story of the Crusades
| ano = 2009
| páginas = 145
| volumes =
| volume =
| id isbn= ISBN 978-0217373326}}</ref>.
 
== Antecedentes ==
[[Ficheiro:Map Crusader states 1102-pt.svg|thumb|esquerda|[[Mapa político]] do [[Próximo Oriente]] em [[1102]], imediatamente após a [[Primeira Cruzada]]]]
 
Em [[1103]] os [[seljúcidas]] viviam uma situação de [[guerra civil]] entre o sultão Barkyaruq e o seu irmão Muhammad, que pretendia obter um [[feudo]] para si e dividir o [[sultanato]], situação estimulada pelo seu tio Sanjar, que deste modo se mantinha independente. Em Janeiro de [[1104]], Barkyaruq aceitou a partilha para evitar o colapso do sultanato, cedendo a região de [[Mossul]], [[Al-Jazira]] e a [[suserania]] nominal da [[Síria]] ao irmão. No entanto, Muhammad foi incapaz de impor o seu domínio sobre os independentistas [[emir]]es das [[cidade-estado|cidades-estado]] sírias.<ref name="Grousset">
{{Referência acitar livro
| autor = René Grousset
| título = Histoire des croisades et du royaume franc de Jérusalem
| ano = 1934 (reimpr. 2006)
| páginas = 394-5, 444-456, 473-481
| volumes =
| volume =
| id isbn= ISBN 978-0521625661}}
</ref>.
 
Aproveitando esta [[anarquia]], em [[1104]] o conde [[Balduíno II de Edessa]] decidiu atacar a cidade de [[Harã]]. Se conquistada, esta praça abriria a região de [[Mossul]] e uma rota até [[Bagdad]] aos cristãos. Com poucos homens para tomar Harã, Balduíno solicitou a ajuda do seu [[vassalo]] [[Joscelino I de Edessa|Joscelino de Courtenay]], senhor de [[Turbessel]], do príncipe [[Boemundo I de Antioquia]], recém-resgatado aos [[danismendidas]], e do regente deste, [[Tancredo da Galileia]].
 
A instável situação de Harã era propícia à acção dos latinos: a cidade tinha sido governada por Qaraja, um turco que se tinha tornado impopular e por isso fora assassinado por um dos seus tenentes, Muhammad d’Isfahan; mas depois de tomar o poder, também este foi assassinado por Jawali Saqawa, fiel a Qaraja. Também o ''ata[[bei]]'' Jekermish de [[Mossul]] estava em conflito com outro senhor muçulmano, Il Ghazi ibn Ortoq.<ref name="Grousset"/>.
 
== Cerco de Harã ==
Boemundo e Tancredo marcharam de [[Antioquia]] para [[Edessa (Mesopotâmia)|Edessa]] com 3000 [[cavalaria medieval|cavaleiros]] e 7000 soldados de [[infantaria]]; Balduíno e Joscelino comandavam os seus cavaleiros [[francos]] e as [[milícia]]s de Edessa; os exércitos foram acompanhados pelo [[Anexo:Lista de patriarcas de Antioquia|patriarca de Antioquia]] [[Bernardo de Valência]], pelo [[Patriarcado Latino de Jerusalém|patriarca de Jerusalém]] [[Dagoberto de Pisa]] e pelo [[arcebispo]] Benedito de Edessa.
 
Quando os latinos chegaram aos arredores de Harã na [[Primavera]], a cidade tinha poucas reservas de víveres devido à instabilidade política recente. Os sitiadores decidiram assim que um [[Bloqueio (militar)|bloqueio]] seria o suficiente para forçar a rendição da cidade, pelo que não construíram [[manganela]]s para atacar as fortificações, o que os faria perder tempo precioso. No início de Maio, Harã estava prestes a capitular, mas devido um desentendimento entre Balduíno e Boemundo sobre qual seria o primeiro [[estandarte]] a ser erguido sobre as [[muralha]]s, os cristãos decidiram deixar a tomada de posse da cidade para o dia seguinte.<ref name="Grousset"/>.
 
Perante esta ameaça, os [[seljúcidas]] de [[Mossul]], sob o comando do ata[[bei]] Jikirmish, e as forças de [[Mardin]], sob comando de Sokman, irmão de Il Ghazi ibn Ortoq, reconciliaram-se para atacar os latinos. Reuniram-se junto ao [[rio Cabul]], provavelmente em [[Al-Hasakah (governadorato)|Ra's al-'ain (Resaina)]]. Teriam começado por atacar Edessa para afastar os cruzados de Harã, ou mesmo com a intenção de retomar a cidade enquanto as forças cristãs estavam ocupadas em outro local.
 
== Batalha ==
Segundo [[Ibn al-Qalanisi]], [[Tancredo da Galileia|Tancredo]] e [[Boemundo I de Antioquia|Boemundo]] teriam chegado a [[Edessa (Mesopotâmia)|Edessa]] durante o cerco mas, segundo a ''Crónica de 1234'' (''Anonymi auctoris Chronicon ad annum Christi 1234 pertinens'') de autores anónimos sírios de Edessa, chegaram directamente às [[portas da cidade]] de [[Harã]]. Em um local ou no outro, os latinos afastaram-se da cidade para enfrentar os muçulmanos quando souberam da sua chegada iminente.<ref name="Grousset"/>.
 
[[Ficheiro:Crusader cavalry.jpg|frame|left|Carga da [[cavalaria]] [[cruzada]]]]
 
Os seljúcidas usaram a sua [[Tática militar|táctica]] preferida de simular uma fuga para atrair os cruzados para uma [[emboscada]]. O cronista contemporâneo [[Mateus de Edessa]] descreveu uma perseguição de dois dias, [[Rudolfo de Caen]] três dias.<ref name="Bachrach">
{{Referência acitar livro
| autor = Bernard S. Bachrach, David Steward Bachrach
| título = The Gesta Tancredi of Ralph of Caen: A History of the Normans on the First Crusade
| ano = 2005
| páginas = 164-165
| volumes =
| volume =
| id isbn= ISBN 978-0754637103 [http://books.google.com/books?vid=ISBN0754637107 Google Books]}}
</ref>. [[Ali ibn al-Athir]] afirma que o confronto principal foi travado a 12 [[quilómetro]]s de [[Harã]]. A maioria dos historiadores aceita os relatos de [[Alberto de Aquisgrão]] e [[Fulquério de Chartres]], que localizaram a batalha na [[planície]] em frente à cidade de [[Raca]], que ficava a cerca de dois dias de Harã.<ref name="Kingsford"/><ref name="Richard"/><ref name="Grousset"/>.
 
[[Balduíno II de Edessa|Balduíno]] e [[Joscelino I de Edessa|Joscelino]] comandaram a ala esquerda de Edessa, Boemundo e Tancredo comandaram a ala direita de Antioquia (segundo Rudolfo de Caen, Tancredo comandou as forças no centro<ref name="Bachrach"/>). Alberto de Aquisgrão, Ali ibn al-Athir e Rudolfo de Caen descreveram a [[Estratégia militar|estratégia]] cruzada como uma vasta manobra de cerco ao exército inimigo, com as forças de Edessa encarregadas dar combate aos turcos enquanto que as de Antioquia deveriam aguardar para depois flanquear e envolver os muçulmanos.
 
Durante a perseguição em direcção a sul ocorreram algumas escaramuças, e o exército de Edessa acabaria por distanciar-se dos aliados de Antioquia, caindo na emboscada de 10 000 turcos que os desbarataram completamente.<ref name="Kingsford"/>. Segundo Rudolfo, os cruzados foram apanhados de tal modo desprevenidos quando o seljúcidas inverteram a retirada para atacar, que Balduíno, e depois Boemundo, lutaram sem [[armadura]].
 
Os normandos de Antioquia venceram o destacamento inimigo enviado para os atrair para a emboscada, mas quando viram o exército de Edessa em retirada e perseguido pelos turcos, compreenderam que a batalha estava perdida e aproveitaram a chegada da noite para fugir para Edessa.<ref name="Grousset"/>.
 
== Consequências ==
[[Ficheiro:Baudouin du Bourg.jpg|thumb|150px|[[Balduíno II de Edessa]] por François-Édouard Picot, [[século XIX]]]]
 
Durante a batalha, Sokman aprisionou Balduíno e Joscelino quando os seus [[cavalo]]s ficaram atolados ao tentar atravessar o [[rio Balikh]], entre Harã e o campo de batalha. Os cruzados isolados que conseguiram atravessar este rio seriam em grande parte massacrados pela população local, depois desta ter tido notícias da vitória muçulmana.<ref name="Grousset"/>. Balduíno acabaria por mudar de carcereiro durante o seu cativeiro, tendo sido raptado por Jikirmish, como compensação da pequena quantidade de butim que este conseguiu pilhar dos latinos.
 
Esta foi a primeira derrota decisiva dos cruzados, e teve graves consequências para [[Principado de Antioquia|Antioquia]]<ref name="Richard"/>: o [[Império Bizantino]] aproveitou para impor a sua pretensão de [[suserania]] sobre o principado e reconquistou [[Lataquia]] e parte da [[Cilícia]]; várias cidades dominadas por Antioquia revoltaram-se e foram reocupadas por [[guarnição|guarnições]] muçulmanas de [[Alepo]];<ref name="Grousset"/>; territórios arménios também se rebelaram e passaram para o domínio bizantino ou do [[Reino Arménio da Cilícia|Principado Arménio da Cilícia]].
 
No entanto, os vencedores desta batalha não chegariam a explorar a sua vitória. Depois de partilharem os despojos, separaram-se. Jekermish cercou Edessa, defendida por [[Tancredo da Galileia|Tancredo de Altavila]], que voltou a tempo de levantar as defesas da cidade. [[Boemundo I de Antioquia|Boemundo de Taranto]] teve assim tempo de organizar outro exército em Antioquia para obrigar Jikirmish a levantar o cerco.<ref name="Grousset"/>. Sokman foi convocado pelo [[cádi]] Fakhr al-Mulk de [[Trípoli (Líbano)|Trípoli]] para levantar o cerco a esta cidade por [[Raimundo IV de Toulouse|Raimundo de Saint-Gilles]], mas morreu de [[angina]] em [[Baalbek]] em [[1105]].<ref name="Grousset"/>.
 
[[Ficheiro:Tancred of Hauteville. siege of Jerusalem.jpg|thumb|200px|left|[[Tancredo da Galileia]] em [[batalha (guerra)|batalha]], por Émile Signol, [[século XIX]]]]
Boemundo voltou à [[Europa]] para recrutar mais exércitos, deixando Tancredo como regente de mais este [[estados cruzados|estado cruzado]]. Apesar de Antioquia ter-se recuperado no ano seguinte, o [[imperador bizantino]] [[Aleixo I Comneno]] impôs o [[Tratado de Devol]] a Boemundo, que tornaria o principado em [[vassalo]] imperial se Tancredo não tivesse resistido.
 
Balduíno e Joscelino só seriam libertados em [[1108]] e pouco antes 1108, respectivamente. Tancredo ainda se recusaria a devolver o comando de Edessa ao seu legítimo conde, pelo que em Outubro desse ano acabaria por ocorrer uma batalha que pode parecer curiosa no seguimento da [[intolerância religiosa]] da [[Primeira Cruzada]]: de um lado, Balduíno aliado a ao [[emir]] Jawali de [[Mossul]]; do outro, Tancredo aliado ao [[sultão]] Ridwan de Alepo; nesta batalha pereceriam cerca de 2000 latinos.<ref name="Grousset"/>.
 
Antioquia seria derrotada novamente pelos muçulmanos na [[batalha do Campo de Sangue]] em [[1119]]; o [[Condado de Edessa]] nunca mais recuperaria, e só devido aos conflitos entre os diferentes senhores muçulmanos conseguiria resistir, até à conquista por [[Zengi]] em [[1144]].
{{referências}}
 
=={{Bibliografia}}==
* {{Referência acitar livro
| autor = André Alden Beaumont
| título = Albert von Aachen and the County of Edessa
| ano = 1928
| páginas = 101-138
| volumes =
| volume =
| id = }}
* {{Referência acitar livro
| autor = [[Fulquério de Chartres]]
| título = A History of the Expedition to Jerusalem, 1095-1127
| ano = 1969
| páginas =
| volumes =
| volume =
| id = }}
* {{Referência acitar livro
| autor = Stefan Heidemann
| título = Die Renaissance der Städte in Nordsyrien und Nordmesopotamien: Städtische Entwicklung und wirtschaftliche Bedingungen in ar-Raqqa und Harran von der beduinischen Vorherrschaft bis zu den Seldschuken
| ano = 2002
| páginas = 192-197
| volumes =
| volume =
| id = }}
* {{Referência acitar livro
| autor = [[Mateus de Edessa]]
| título = Armenia and the Crusades, Tenth to Twelfth Centuries: The Chronicle of Matthew of Edessa
| ano = 1993
| páginas =
| volumes =
| volume =
| id = }}
* {{Referência acitar livro
| autor = Robert Lawrence Nicholson
| título = Tancred: A Study of His Career and Work in Their Relation to the First Crusade and the Establishment of the Latin States in Syria and Palestine
| ano = 1940
| páginas = 138-147
| volumes =
| volume =
| id = }}
* {{Referência acitar livro
| autor = [[Guilherme de Tiro]]
| título = A History of Deeds Done Beyond the Sea
| ano = 1943
| páginas =
| volumes =
| volume =
| id = }}
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