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|magnum_opus = ''[[Os Lusíadas]]''
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}}
'''Luís Vaz de Camões''' ([[Lisboa]][?], {{ca.}}, {{dtlink|lang=pt|||1524}} — [[Lisboa]], {{dtlink|lang=pt|10|6|1579}} ou [[1580]]){{nota de rodapé|Não há certeza absoluta quanto ao ano da morte do poeta. D. Gonçalo Coutinho em 1594 pôs-lhe na sepultura da Igreja de Santa Ana uma lousa com a seguinte inscrição: «Aqui jaz Luiz de Camões, príncipe dos poetas do seu tempo, morreu no ano de 1579, esta campa lhe mandou pôr D. Gonçalo Coutinho, na qual se não enterrará ninguém». O documento relativo à tença de Camões (Livro III das Emendas, fl. 137 v., Torre do Tombo), reclamada a título de sobrevivência pela mãe dele, Ana de Sá, refere que o poeta teria morrido em 10 de Junho de 1580... Em qualquer dos casos, se 10 de Junho se refere ao [[calendário juliano]] então em vigor, no [[calendário gregoriano]] atual corresponde a 20 de junho, dia em que se deveria celebrar o aniversário da morte do poeta e não o 10 de Junho... (Mário Saa, ''As Memórias Astrológicas de Camões'', Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, 1940, pgs. 313-317)}} foi um [[poeta nacional]] de [[Portugal]], considerado uma das maiores figuras da [[literatura lusófona]] e um dos grandes poetas da tradição ocidental.
 
Pouco se sabe com certeza sobre a sua vida. Aparentemente nasceu em [[Lisboa]], de uma família da pequena nobreza. Sobre a sua infância tudo é conjetura mas, ainda jovem, terá recebido uma sólida educação nos moldes clássicos, dominando o [[latim]] e conhecendo a [[literatura]] e a [[história]] antigas e modernas. Pode ter estudado na [[Universidade de Coimbra]], mas a sua passagem pela escola não é documentada. Frequentou a corte de [[João III de Portugal|D. João III]], iniciou a sua carreira como poeta lírico e envolveu-se, como narra a tradição, em amores com damas da nobreza e possivelmente plebeias, além de levar uma vida boémia e turbulenta. Diz-se que, por conta de um amor frustrado, autoexilou-se em [[África]], alistado como militar, onde perdeu um olho em batalha. Voltando a Portugal, feriu um servo do Paço e foi preso. Perdoado, partiu para o Oriente. Passando lá vários anos, enfrentou uma série de adversidades, foi preso várias vezes, combateu ao lado das forças portuguesas e escreveu a sua obra mais conhecida, a [[epopeia]] nacionalista ''[[Os Lusíadas]]''. De volta à pátria, publicou ''Os Lusíadas'' e recebeu uma pequena pensão do rei [[Sebastião de Portugal|D. Sebastião]] pelos serviços prestados à Coroa, mas nos seus anos finais parece ter enfrentado dificuldades para se manter.
 
Logo após a sua morte a sua obra lírica foi reunida na coletânea ''[[Rimas]]'', tendo deixado também três obras de [[teatro cómico]]. Enquanto viveu queixou-se várias vezes de alegadas injustiças que sofrera, e da escassa atenção que a sua obra recebia, mas pouco depois de falecer a sua poesia começou a ser reconhecida como valiosa e de alto padrão estético por vários nomes importantes da literatura europeia, ganhando prestígio sempre crescente entre o público e os conhecedores e influenciando gerações de poetas em vários países. Camões foi um renovador da [[língua portuguesa]] e fixou-lhe um duradouro cânone; tornou-se um dos mais fortes símbolos de identidade da sua pátria e é uma referência para toda a comunidade lusófona internacional. Hoje a sua fama está solidamente estabelecida e é considerado um dos grandes vultos literários da tradição ocidental, sendo traduzido para várias línguas e tornando-se objeto de uma vasta quantidade de estudos críticos.
==Vida==
=== Origens e juventude ===
Boa parte das informações sobre a biografia de Camões suscita dúvidas e, provavelmente, muito do que sobre ele circula não é mais do que o típico folclore que se forma em torno de uma figura célebre. São documentadas apenas umas poucas datas que balizam a sua trajetória.<ref>Minchillo, Carlos Cortez. [http://books.google.com/books?id=EqsX-ImEtXgC&printsec=frontcover&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1970&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=16#v=onepage&q&f=false ''Biografia'']. IN Camões, Luís Vaz de. ''Sonetos''. Atelie Editorial, 2001. p. 211</ref> A Casa ancestral dos Camões tinha as suas origens na [[Galiza]], não longe do [[Cabo Finisterra]]. Por via paterna, Luís de Camões seria descendente de Vasco Pires de Camões, [[trovador]] galego, guerreiro e [[fidalgo]], que se mudou para Portugal em 1370 e recebeu do rei grandes benefícios em cargos, honras e terras, e cujas poesias, de índole nacionalista, contribuíram para afastar a influência bretã e italiana e conformar um estilo trovadoresco nacional.<ref name="Jayne">Jayne, K. G. [http://books.google.com/books?id=c9SKjnHkRfwC&pg=PA250&dq=Ana+de+S%C3%A1+Macedo+%22vasco+da+gama%22&lr=&as_drrb_is=q&as_minm_is=0&as_miny_is=&as_maxm_is=0&as_maxy_is=&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=1#v=onepage&q&f=false ''Vasco Da Gama and His Successors 1460 to 1580'']. Kingsley Garland Jayne, 1910; reimpressão Kessinger Publishing, 2004. pp. 250-251</ref><ref>Mourão e Vasconcelos, José Maria do Carmo de Sousa Botelho, Morgado de Mateus. [http://books.google.es/books?hl=pt-BR&lr=&id=dqg4AAAAYAAJ&oi=fnd&pg=PA1&dq=%22camoes%22+lusiadas&ots=tZG7WV6roT&sig=8kM7pMEiloy-qzzlgZhUVVL_4ss#v=onepage&q&f=false ''Prefação'']. IN Camões, Luís de. ''Os Lusíadas''. Paris: Firmin Didot, 1847, pp. 32-33</ref> O seu filho Antão Vaz de Camões serviu no [[Mar Vermelho]] e casou-se com Dona Guiomar da Gama, aparentada com [[Vasco da Gama]]. Deste casamento nasceram Simão Vaz de Camões, que serviu na Marinha Real e fez comércio na [[Guiné]] e na [[Índia]], e outro irmão, Bento, que seguiu a carreira das [[Letras]] e do [[sacerdócio]], ingressando no [[Mosteiro de Santa Cruz]] dos [[Agostinhos]], que era uma prestigiada escola para muitos jovens fidalgos portugueses. Simão casou com Dona Ana de Sá e Macedo, também de família fidalga, oriunda de [[Santarém (Portugal)|Santarém]]. Seu filho único, Luís Vaz de Camões, segundo Jayne, Fernandes e alguns outros autores, terá nascido em [[Lisboa]], em 1524. Três anos depois, estando a cidade ameaçada pela [[peste]], a família mudou-se, acompanhando a corte, para [[Coimbra]].<ref name="Jayne"/><ref name="Fernandes">Fernandes, Manuel Bernardo Lopes. [http://books.google.com/books?id=gAAXAAAAYAAJ&pg=PA48&dq=Ana+de+S%C3%A1+Macedo+%22vasco+da+gama%22&lr=&as_drrb_is=q&as_minm_is=0&as_miny_is=&as_maxm_is=0&as_maxy_is=&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=2#v=onepage&q&f=false ''Memoria das medalhas e condecorações portuguezas e das estrangeiras com relação a Portugal'']. Typ. da mesma academia, 1861. pp. 48-49</ref> Entretanto, outras cidades reivindicam a honra de ser o seu berço: Coimbra, Santarém e [[Alenquer (Portugal)|Alenquer]]. Apesar de os primeiros biógrafos de Camões, [[Manuel Severim de Faria|Severim de Faria]] e Manoel Correa, terem inicialmente dado o seu ano de nascimento como 1517,<ref>''Obras de Luis de Camões'', Tomo I (Officina Luisiana, 1779), "Breve Noticia da Vida de Luis de Camões", p. lix.</ref> registos das Listas da [[Casa da Índia]], mais tarde consultados por [[Manuel de Faria e Sousa]], parecem estabelecer que Camões nasceu efectivamente em Lisboa, em 1524.<ref>''Obras Completas de Luis de Camões'', Vol. I (Officina typographica de Langhoff, 1834), "Vida de Luis de Camões", p. xxxii. Citação: "...havia nascido em 1524: o que depois comprovou Faria e Sousa com um assento, que descobriu no livro de Registo da Casa da India, onde o mesmo poeta, allistando-se para passar a servir naquelle Estado no anno de 1550, declarou, estando alli presente seu pae, ter 25 de idade. E do mesmo assento constava serem seus paes moradores em Lisboa no bairro da Mouraria: com o que se tirárão todas as duvidas assim ácerca do anno, como do lugar do seu nascimento."</ref><ref>''Lives of the Most Eminent Literary and Scientific Men of Italy, Spain, and Portugal'', Vol. III (1837), p. 298.</ref><ref>"Segundo o registo da Armada de 1550, que lhe atribui [a Camões] 25 anos, publicado por Faria e Sousa. Este documento deve presumir-se verdadeiro, visto corrigir-se a data de nascimento anteriormente adoptada pelo próprio Faria e Sousa (1517)." — Saraiva, António José & Lopes, Óscar, ''História da Literatura Portuguesa'' (Porto Editora, 6ª edição), 3ª Época: O Renascimento, Capítulo IX: Luís de Camões, p. 331.</ref> Os argumentos para tirar a sua naturalidade de Lisboa são fracos; mas esta tampouco está completamente fora de dúvida,<ref>Soutto-Mayor, Maciel. [http://books.google.com/books?id=p2w-AAAAYAAJ&pg=PA342&dq=camoes+coimbra&lr=&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=26#v=onepage&q&f=false ''Onde Nasceu Luis de Camões?'']. IN ''Archivo pittoresco''. Volume 10. Tip. de Castro Irmão., 1867. pp. 341-342</ref><ref>Nabuco, Joaquim. [http://books.google.com/books?id=PpRcWSCp-jYC&pg=PA28&dq=camoes+coimbra&lr=&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=17#v=onepage&q&f=false ''Camões e os Lusiadas'']. BiblioBazaar, LLC, reimpressão de 2009. pp. 30-31</ref> e por isso a crítica mais recente considera seu local e data de nascimento incertos.<ref name="Fernandes"/><ref name="Spina">Spina, Segismundo; Bechara, Evanildo (eds) & Camões, Luís de. [http://books.google.es/books?hl=pt-BR&lr=&id=I_T9Fqq5A7cC&oi=fnd&pg=PA7&dq=%22camoes%22+lusiadas&ots=NwcOvGL3Qx&sig=2g8rDB5TPcx1aA9-4xIQQ2EQMLM#v=onepage&q&f=false ''Os Lusíadas – Antologia''']. Atelie Editorial, s/d. pp. 9-10</ref>
 
Sobre a sua infância permanece a incógnita. Aos doze ou treze anos teria sido protegido e educado pelo seu tio Bento que o encaminhou para Coimbra para estudar. Diz a tradição que foi um estudante indisciplinado, mas ávido pelo conhecimento, interessando-se pela [[história]], [[cosmografia]] e [[literatura clássica]] e moderna. Contundo, o seu nome não consta dos registos da [[Universidade de Coimbra]], mas é certo, a partir do seu elaborado estilo e da profusão de citações eruditas que aparecem nas suas obras que, de alguma forma, recebeu uma sólida educação. É possível que o próprio tio o tenha instruído, sendo a esta altura chanceler da Universidade e prior do Mosteiro de Santa Cruz, ou tenha estudado no colégio do mosteiro. Com cerca de vinte anos ter-se-ia transferido para Lisboa, antes de concluir os estudos. A sua família era pobre, mas sendo fidalga, pôde ser admitido e estabelecer contactos intelectuais frutíferos na corte de [[João III de Portugal|D. João III]], iniciando-se na poesia.<ref name="Spina"/><ref>[http://books.google.com/books?id=EqsX-ImEtXgC&printsec=frontcover&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1970&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=16#v=onepage&q&f=false Minchillo, pp. 211-212]</ref><ref name="Gentil">Le Gentil, Georges. [http://books.google.com/books?id=ApgtGMkV_DEC&pg=PP1&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1950&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=4#v=onepage&q&f=false ''Camões: l'œuvre épique & lyrique'']. Chandeigne, 1995. pp. 13-14</ref>
 
Foi aventado que ganhava a vida como precetor de [[Francisco de Noronha, 2.º Conde de Linhares|Francisco]], filho do [[Conde de Linhares]], [[António de Noronha, 1.º Conde de Linhares|D. António de Noronha]], mas hoje em dia isso parece pouco plausível.<ref name="Gentil"/> Conta-se também que levava uma vida boémia, frequentando tavernas e envolvendo-se em arruaças e relações amorosas tumultuosas. Várias damas aparecem citadas pelo nome em biografias tardias do poeta como tendo sido objeto de seus amores, mas embora não se negue que deva ter amado, e até mais de uma mulher, aquelas identificações nominais são atualmente consideradas adições apócrifas à sua lenda. Entre elas, por exemplo, falou-se de uma paixão pela [[Maria de Portugal, Duquesa de Viseu|Infanta Dona Maria]], irmã do rei, audácia que lhe teria valido um tempo na prisão, e Catarina de Ataíde, que, sendo outro amor frustrado, segundo versões teria causado o seu autoexílio, primeiro no [[Ribatejo]], e depois alistando-se como soldado em [[Ceuta]]. Os motivos para a viagem são duvidosos, mas a sua estada ali é aceite como facto, permanecendo dois anos e perdendo o olho direito em batalha naval no [[Estreito de Gibraltar]]. De regresso a Lisboa, não tardou em retomar a vida boémia.<ref name="Minchillo, pp. 212-213">[http://books.google.com/books?id=EqsX-ImEtXgC&printsec=frontcover&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1970&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=16#v=onepage&q&f=false Minchillo, pp. 212-213]</ref><ref>[http://books.google.es/books?hl=pt-BR&lr=&id=dqg4AAAAYAAJ&oi=fnd&pg=PA1&dq=%22camoes%22+lusiadas&ots=tZG7WV6roT&sig=8kM7pMEiloy-qzzlgZhUVVL_4ss#v=onepage&q&f=false Mourão e Vasconcelos, pp. 34-35]</ref><ref>[http://books.google.com/books?id=ApgtGMkV_DEC&pg=PP1&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1950&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=4#v=onepage&q&f=false Le Gentil, pp. 20-21]</ref>
 
Data de 1550 um documento que o dá como alistado para viajar à [[Índia]]: ''"Luís de Camões, filho de Simão Vaz e Ana de Sá, moradores em Lisboa, na Mouraria; escudeiro, de 25 anos, barbirruivo, trouxe por fiador a seu pai; vai na nau de S. Pedro dos Burgaleses... entre os homens de armas"''. Afinal não embarcou de imediato. Numa procissão de [[Corpus Christi]] altercou com um certo Gonçalo Borges, empregado do Paço, e feriu-o com a espada. Condenado à prisão, foi perdoado pelo agravado em carta de perdão. Foi libertado por ordem régia em 7 de março de 1553, que diz: ''"é um mancebo e pobre e me vai este ano servir à Índia"''. [[Manuel de Faria e Sousa]] encontrou nos registos da [[Armada da Índia]], para esse ano de 1553, sob o título "Gente de guerra", o seguinte assento: ''"Fernando Casado, filho de Manuel Casado e de Branca Queimada, moradores em Lisboa, escudeiro; foi em seu lugar Luís de Camões, filho de Simão Vaz e Ana de Sá, escudeiro; e recebeu 2400 como os demais"''.<ref>[http://books.google.com/books?id=ApgtGMkV_DEC&pg=PP1&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1950&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=4#v=onepage&q&f=false Le Gentil, pp. 19-21]</ref>
 
=== Oriente ===
Viajou na nau ''São Bento'', da frota de Fernão Álvares Cabral, que largou do [[Rio Tejo|Tejo]] em 24 de março de 1553. Durante a viagem passou pelas regiões onde Vasco da Gama navegara, enfrentou uma tempestade no [[Cabo da Boa Esperança]] onde se perderam as três outras naus da frota, e aportou em [[Goa]] em 1554. Logo se alistou no serviço do vice-rei [[Afonso de Noronha, 5.º vice-rei da Índia|D. Afonso de Noronha]] e combateu na expedição contra o rei de Chembé (ou "da Pimenta").<ref>Ribeiro, Eduardo Alberto Correia. [http://www.uefs.br/nep/labirintos/edicoes/01_2008/01_2008.htm ''Camões "nas partes da China"'']. IN Revista ''Labirintos''. Universidade Estadual de Feira de Santana, nº 3, primeiro semestre de 2008. p. 1</ref> Em 1555, sucedendo a Noronha [[Pedro Mascarenhas (1470)|D. Pedro Mascarenhas]], este ordenou a Manuel de Vasconcelos que fosse combater os mouros no Mar Vermelho. Camões acompanhou-o, mas a esquadra não encontrou o inimigo e foi invernar a [[Ormuz]], no [[Golfo Pérsico]].<ref name="Saldanha">Saldanha, Manoel José Gabriel. [http://books.google.com/books?id=pEbxPhPod9IC&pg=PA101&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1970&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=66#v=onepage&q=cam%C3%B5es&f=false ''História de Goa'']. Asian Educational Services, 1990. Volume 1: ''Politica e Arqueologica'', pp. 100-101</ref>
 
Provavelmente nesta época já iniciara a escrita de ''Os Lusíadas''. Ao retornar a Goa em 1556, encontrou no governo [[Francisco Barreto|D. Francisco Barreto]], para quem compôs o ''[[Filodemo|Auto de Filodemo]]'', o que sugere que Barreto lhe fosse favorável. Os primeiros biógrafos, contudo, divergem sobre as relações de Camões com o governante. Na mesma época teria surgido a público uma [[sátira]] anónima criticando a imoralidade e a corrupção reinantes, que foi atribuída a Camões. Sendo as sátiras condenadas pelas ''Ordenações Manuelinas'', terá sido preso por isso. Mas colocou-se a hipótese de a prisão ter ocorrido graças a dívidas contraídas. É possível que permanecesse na prisão até 1561, ou antes disso tenha sido novamente condenado, pois, assumindo o governo [[Francisco Coutinho, 3.º Conde de Redondo|D. Francisco Coutinho]], foi por ele liberto, empregado e protegido. Deve ter sido nomeado para a função de Provedor-mor dos Defuntos e Ausentes para [[Macau]] em 1562, desempenhando-a ''de facto'' de 1563 até 1564 ou 1565. Nesta época, Macau era um entreposto comercial ainda em formação, sendo um lugar quase deserto.<ref>[http://www.uefs.br/nep/labirintos/edicoes/01_2008/01_2008.htm Ribeiro, pp. 1-5]</ref><ref>[http://books.google.com/books?id=ApgtGMkV_DEC&pg=PP1&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1950&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=4#v=onepage&q&f=false Le Gentil, pp. 22-25]</ref> Diz a tradição que ali teria escrito parte d{{'}}''Os Lusíadas'' numa gruta, que mais tarde recebeu o seu nome.<ref name="Saldanha"/>
 
Na viagem de volta a Goa, naufragou, conforme diz a tradição, junto à foz do [[rio Mekong]], salvando-se apenas ele e o manuscrito d{{'}}''Os Lusíadas'', evento que lhe inspirou as célebres [[redondilha]]s ''Sobre os rios que vão'', consideradas por António Sérgio a coluna vertebral da lírica camoniana, sendo reiteradamente citadas na literatura crítica. O trauma do naufrágio, conforme disse Leal de Matos, repercutiu mais profundamente numa redefinição do projeto d{{'}}''Os Lusíadas'', sendo perceptível a partir do Canto VII, sendo acusada já por [[Diogo do Couto]], seu amigo, que em parte acompanhou a escrita. Provavelmente o seu resgate demorou meses a ocorrer, e não há registo de como isso ocorreu, mas foi levado a [[Malaca]], onde recebeu nova ordem de prisão por apropriação indébita dos bens dos defuntos a ele confiados. Não se sabe a data exata de seu retorno a Goa, onde pode ter continuado preso ainda algum tempo. Couto refere que no naufrágio morreu [[Dinamene]], uma donzela chinesa pela qual Camões se terá apaixonado, mas Ribeiro e outros afirmam que a história deve ser rejeitada.<ref name="Ribeiro, pp. 11-20">[http://www.uefs.br/nep/labirintos/edicoes/01_2008/01_2008.htm Ribeiro, pp. 11-20]</ref> O vice-rei seguinte, [[Antão de Noronha|D. Antão de Noronha]], era um amigo de longa data de Camões, tendo-o encontrado em [[Marrocos]]. Certos biógrafos afirmam que lhe foi prometido um posto oficial na [[feitoria]] de Chaul, mas não chegou a tomar posse. [[Manuel Severim de Faria|Severim de Faria]] disse que os anos finais passados em Goa foram entretidos com a poesia e com as atividades militares, onde sempre demonstrou bravura, prontidão e lealdade à Coroa.<ref>[http://books.google.com/books?id=ApgtGMkV_DEC&pg=PP1&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1950&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=4#v=onepage&q&f=false Le Gentil, pp. 26-27]</ref>
 
É difícil determinar como terá sido o seu quotidiano no Oriente, além do que se pode extrapolar a partir de sua condição de militar. Parece certo que viveu sempre modestamente e pode ter compartilhado casa com amigos, ''"numa dessas repúblicas em que era costume associarem-se os reinóis"'', como citou Ramalho. Alguns desses amigos devem ter possuído cultura e assim a companhia ilustrada não devia estar ausente naquelas paragens. Ribeiro, Saraiva e Moura admitem que ele pode ter encontrado, entre outras figuras, com [[Fernão Mendes Pinto]], [[Fernão Vaz Dourado]], [[Fernão Álvares do Oriente]], [[Garcia de Orta]] e o já citado Diogo do Couto, criando-se oportunidades de debates literários e assuntos afins. Pode ter frequentado também preleções em algum dos colégios ou estabelecimentos religiosos de Goa.<ref>[http://www.uefs.br/nep/labirintos/edicoes/01_2008/01_2008.htm Ribeiro, p. 7]</ref> Ribeiro acrescenta que
 
::''"Esta rapaziada que vivia em Goa, longe da Pátria e da família, no intervalo das campanhas contra o Turco (que ocorriam no verão) e muitos com pouco que fazer (no inverno), para além das preleções acima mencionadas e das leituras compulsivas (das quais muito dos clássicos: Ovídio, Horácio, Virgílio), das mulheres e guitarradas, convivendo entre si independentemente das diferenças sociais, devia reinar, divertir-se quanto baste, mesmo quando fazia poesia, sobretudo sátiras, com forte e negativo impacto social na época, susceptível de pena de prisão (Ordenações Manuelinas, Título LXXIX), e por isso com o pique da aventura e do risco. Exemplo disso é a ''Sátira do Torneio'', uma zombaria a que se refere Faria e Sousa e que, ao contrário da ''Os Disbarates da Índia'', não temos notícia de uma contestação erudita da autoria camoniana e que pode estar na origem de uma das prisões do nosso vate." <ref>[http://www.uefs.br/nep/labirintos/edicoes/01_2008/01_2008.htm Ribeiro, p. 8]</ref>
[[File:Camões lendo os Lusíadas a D. Sebastião.jpg|thumb|right|250px|Camões lendo ''Os Lusíadas'' a [[Sebastião de Portugal|D. Sebastião]], em litografia de 1893.]]
 
A convite, ou aproveitando a oportunidade de vencer parte da distância que o separava da pátria, não se sabe ao certo, em dezembro de 1567 Camões embarcou na nau de Pedro Barreto para [[Sofala]], na [[ilha de Moçambique]], onde este havia sido designado governador, e lá esperaria por um transporte para Lisboa em data futura. Os primeiros biógrafos dizem que Pedro Barreto era traiçoeiro, fazendo promessas vãs a Camões, de tal modo que, passados dois anos, Diogo do Couto o encontrou em precária condição,<ref name="Mourão e Vasconcelos, pp. 40-41">[http://books.google.es/books?hl=pt-BR&lr=&id=dqg4AAAAYAAJ&oi=fnd&pg=PA1&dq=%22camoes%22+lusiadas&ots=tZG7WV6roT&sig=8kM7pMEiloy-qzzlgZhUVVL_4ss#v=onepage&q&f=false Mourão e Vasconcelos, pp. 40-41]</ref><ref name="Le Gentil, pp. 27-29">[http://books.google.com/books?id=ApgtGMkV_DEC&pg=PP1&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1950&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=4#v=onepage&q&f=false Le Gentil, pp. 27-29]</ref> conforme se lê no registo que deixou:
 
::''"Em Moçambique achamos aquele Príncipe dos Poetas de seu tempo, meu matalote e amigo Luís de Camões, tão pobre que comia de amigos, e, para se embarcar para o reino, lhe ajuntamos toda a roupa que houve mister, e não faltou quem lhe desse de comer. E aquele inverno que esteve em Moçambique, acabando de aperfeiçoar as suas Lusíadas para as imprimir, foi escrevendo muito em um livro, que intitulava Parnaso de Luís de Camões, livro de muita erudição, doutrina e filosofia, o qual lhe juntaram (roubaram). E nunca pude saber, no reino dele, por muito que inquiri. E foi furto notável''.<ref>[http://www.sociedadedigital.com.br/artigo.php?artigo=235 ''Biografia: Camões'']. Sociedade Digital, 01/03/2008</ref><ref>Pinto, Paulo Jorge de Sousa. [http://carreiradaindia.net/2009/04/page/3/ ''Diogo do Couto – Um cronista do oriente'']. Texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez... Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Disponível em Carreira da Índia, abril de 2009</ref>
Ao tentar seguir viagem com Couto foi embargado em duzentos cruzados por Barreto, por conta dos gastos que tivera com o poeta. Os seus amigos, porém, reuniram a quantia e Camões foi liberado,<ref>"''Por este vil preço'', diz energicamente Manoel de Faria, ''foi vendida a pessoa de Camões, e a honra de Pedro Barreto.''" Souza Botelho, ''Os Lusiados'' (Didot, 1819), "Vida", p. lix</ref> chegando a [[Cascais]] a bordo da nau ''Santa Clara'' em 7 de abril de 1570.<ref name="Mourão e Vasconcelos, pp. 40-41"/><ref name="Le Gentil, pp. 27-29"/>
 
Depois de tantas peripécias, finalizou ''Os Lusíadas'', tendo-os apresentado em récita para o rei [[Sebastião de Portugal|D. Sebastião]]. O rei, ainda um adolescente, determinou que o trabalho fosse publicado em 1572, concedendo também uma pequena pensão a ''"Luís de Camões, cavaleiro fidalgo de minha Casa"'', em paga pelos serviços prestados na Índia. O valor desta pensão não excedeu os quinze mil réis anuais, o que se não era grande coisa, também não era tão pouca como se tem sugerido, considerando que as damas de honra do Paço recebiam cerca de dez mil réis. Para um soldado veterano, a soma deve ter sido considerada suficiente e honrosa na época. Mas a pensão só deveria se manter por três anos, e embora a outorga fosse renovável, parece que foi paga de forma irregular, fazendo com que o poeta passasse por dificuldades materiais.<ref>Ivan Teixeira (ed) & Camões, Luís de. [http://books.google.com/books?id=RffKKJPYttgC&printsec=frontcover&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1970&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=22#v=onepage&q&f=false ''Os Lusíadas: episódios'']. Atelie Editorial, 1999. p. 29</ref><ref>[http://books.google.com/books?id=ApgtGMkV_DEC&pg=PP1&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1950&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=4#v=onepage&q&f=false Le Gentil, pp. 29-30]</ref>
[[Ficheiro:Jeronimos 12.jpg|thumb|left|250px|Túmulo do poeta no [[Mosteiro dos Jerónimos]].]]
 
 
==Aparência, carácter, amores e iconografia==
Os testemunhos dos seus contemporâneos descrevem-no como um homem de porte mediano, com um cabelo loiro arruivado, cego do olho direito, hábil em todos os exercícios físicos e com uma disposição temperamental, custando-lhe pouco engajar-se em brigas. Diz-se que tinha grande valor como soldado, exibindo coragem, combatividade, senso de honra e vontade de servir, bom companheiro nas horas de folga, liberal, alegre e espirituoso quando os golpes da fortuna não lhe abatiam o espírito e entristeciam. Tinha consciência do seu mérito como homem, como soldado e como poeta.<ref name="Le Gentil, pp. 33-35">[http://books.google.com/books?id=ApgtGMkV_DEC&pg=PP1&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1950&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=4#v=onepage&q&f=false Le Gentil, pp. 33-35]</ref>
 
Todos os esforços feitos no sentido de se descobrir a identidade definitiva da sua [[Musas|musa]] foram vãos e várias propostas contraditórias foram apresentadas sobre supostas mulheres presentes na sua vida. O próprio Camões sugeriu, num dos seus poemas, que houve várias musas a inspirá-lo, ao dizer ''"em várias flamas variamente ardia"''.<ref name="Britannica"/> Nomes de damas supostas como suas amadas só constam primitivamente nos seus poemas, e podem pois ser figuras ideais; nenhuma menção a quaisquer damas identificáveis pelo nome é dada nas primeiras biografias do poeta, as de [[Pedro de Mariz]] e a de Severim de Faria, que apenas recolheram boatos sobre ''"uns amores no Paço da Rainha"''. A citação de Catarina de Ataíde só surgiu na edição das ''Rimas'' de Faria e Sousa, em meados do século XVII, e a da Infanta, na de José Maria Rodrigues, que só foi publicada no início do século XX. A decantada [[Dinamene]] também parece ser uma imagem poética antes do que uma pessoa real.<ref>Aguiar e Silva, Vítor Manuel de (ed) & Camões, Luís de. [http://books.google.com/books?id=5E6KJh5Svj8C&printsec=frontcover&dq=camoes&lr=&as_drrb_is=q&as_minm_is=0&as_miny_is=1950&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=3#v=onepage&q=camoes&f=false ''Rimas, Volume 1598, Parte 1'']. Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1953, reimpressão 1980. pp. lvii-lxvii</ref> Ribeiro propôs várias alternativas para explicá-la: o nome talvez fosse um criptónimo de Dona Joana Meneses (D.I.na = D.Ioana + Mene), um de seus possíveis amores, que morrera a caminho das Índias e fora sepultada no mar, filha de Violante, [[Conde de Linhares|condessa de Linhares]], a quem também teria amado ainda em Portugal, e apontou a ocorrência do nome [[Dinamene]] em poemas escritos provavelmente em torno da chegada à Índia, antes de ter passado à China, onde se diz que teria encontrado a moça. Também referiu a opinião de pesquisadores que alegam a menção de Couto, a única referência primitiva à chinesa fora da própria obra camoniana, ter sido falsificada, sendo introduzida ''a posteriori'', com a possibilidade de que se trate ainda de um erro de ortografia, uma corruptela de "dignamente". Na versão final do manuscrito de Couto, o nome nem teria sido citado, ainda que a comprovação seja difícil com o desaparecimento do manuscrito.<ref name="Ribeiro, pp. 11-20"/>
[[Ficheiro:Camoes - retrato de goa 2b.jpg|thumb|250px|O retrato pintado em Goa, 1581.]]
 
Provavelmente executado entre 1573 e 1575, o chamado "retrato pintado a vermelho", ilustrado na abertura do artigo, é considerado por [[Vasco Graça Moura]] como ''"o único e precioso documento fidedigno de que dispomos para conhecer as feições do épico, retratado em vida por um pintor profissional"''.<ref name="ReferenceB">Moura, Vasco Graça. ''O retrato pintado a vermelho''. IN ''Revista Oceanos'', n°1, Junho 1989, p. 18</ref> O que se conhece desse retrato é uma cópia, feita a pedido do 3º [[duque de Lafões]], executada por Luís José Pereira de Resende entre 1819 e 1844, a partir do original que foi encontrado num saco de seda verde nos escombros do incêndio do palácio dos [[Conde da Ericeira|Condes da Ericeira]], e que entretanto desapareceu. É uma ''"fidelíssima cópia"'' que,
 
::''"pelas dimensões restritas do desenho, a textura da sanguínea, criando manchas de distribuição dos valores, o rigor dos contornos e a definição dos planos contrastados, o neutro reticulado que harmoniza o fundo e faz ressaltar o busto do retratado, o tipo da barra envolvente nos limites da qual corre em baixo a esclarecedora assinatura, enfim, o aparato simbólico da imagem, captada em pose de ilustração gráfica de livro, se devia destinar à abertura de uma gravura a buril sobre chapa cúprica, para ilustração de uma das primeiras edições de Os Lusíadas"''.<ref>Serrão, Vítor. ''Fernão Gomes, Pintor maneirista de bravo talento''. IN Revista ''Oceanos'', n°1, Junho de 1989. p. 27</ref>
 
Sobreviveu também uma miniatura pintada na Índia em 1581, por encomenda de [[Fernão Teles de Meneses, Governador da Índia|Fernão Teles de Meneses]] e oferecida ao vice-rei [[Luís de Ataíde|D. Luís de Ataíde]], que, segundo testemunhos de época, era muito semelhante à sua aparência.<ref name="Le Gentil, pp. 33-35"/> Outro retrato foi encontrado nos anos 1970 por Maria Antonieta de Azevedo, datado de 1556 e mostrando o poeta na prisão.<ref>Ribeiro, pp. 3; 7</ref> A primeira [[medalha]] com sua [[efígie]] apareceu em 1782, mandada cunhar pelo Barão de Dillon na Inglaterra, onde Camões figura coroado de louros e vestido em cota de armas, com a inscrição ''"Apollo Portuguez / Honra de Hespanha / Nasceo 1524 / Morreo 1579"''. Em 1793, uma reprodução desta medalha foi cunhada em Portugal, por ordem de Tomás José de Aquino, Bibliotecário da [[Censura em Portugal#A Real Mesa Censória|Real Mesa Censória]].<ref>[http://books.google.com/books?id=gAAXAAAAYAAJ&pg=PA48&dq=Ana+de+S%C3%A1+Macedo+%22vasco+da+gama%22&lr=&as_drrb_is=q&as_minm_is=0&as_miny_is=&as_maxm_is=0&as_maxy_is=&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=2#v=onepage&q&f=false Fernandes, p. 50]</ref>
 
Ao longo dos séculos a imagem de Camões foi representada inúmeras vezes em [[gravura]], [[pintura]] e [[escultura]], por artistas portugueses e estrangeiros, e vários monumentos foram erguidos em sua honra,<ref name="Teófilo">Braga, Teófilo. [http://books.google.com/books?id=C2HR3WHjqdUC&pg=PA240&lpg=PA240&dq=%22est%C3%A1tua+de+camoes%22&source=bl&ots=jodXEgbgUU&sig=7ZVO2vxdvRoFvP4s96Zr3MWp1AY&hl=pt-BR&ei=8v3dS4jSIo6auAe5qeiFBw&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=10&ved=0CDEQ6AEwCTiMAQ#v=onepage&q&f=false ''Bibliographia Camoniana'']. Lisboa: Imprensa de Christóvão Rodrigues, 1880 / BiblioBazaar, LLC, 2009. pp. 235-247</ref> destacando-se o grande [[Monumento a Camões]] instalado em 1867 na [[Praça Luís de Camões]], em Lisboa, de autoria de [[António Víctor de Figueiredo Bastos|Victor Bastos]], e que é o centro de cerimónias públicas oficiais e manifestações populares.<ref>[http://www.lifecooler.com/portugal/patrimonio/EstatuadeCamoes ''Estátua de Camões'']. Lifecoooler</ref><ref>[http://www1.voanews.com/portuguese/news/a-38-2010-04-29-voa1-92516724.html ''Guebuza: Visita Oficial a Portugal'']. VOANews, quinta, 29 Abril 2010</ref> Também foi homenageado em composições musicais, apareceu com sua efígie em medalhas,<ref name="Teófilo"/> cédulas monetárias,<ref>[http://www.dplnumismatica.com.br/moneyafrica.html ''Cédulas Estrangeiras: África: Angola'']. DPL Numismática</ref> selos<ref>Kullberg, Carlos. [http://www.caleida.pt/filatelia/fp/ebook/bfd016_p.pdf ''Selos de Portugal: Álbum A'']. Húmus, 2007. s/pp.</ref> e moedas,<ref>[http://aeiou.expresso.pt/escultor-escolhe-pessoa-e-camoes-para-moeda-de-25-euros-que-hoje-entra-em-circulacao=f516890 ''Escultor escolhe Pessoa e Camões para moeda de 2,5 euros que hoje entra em circulação'']. IN ''Expresso''. Terça-feira, 26 de Maio de 2009</ref> e como [[personagem]] em romances, poesias e peças teatrais.<ref name="Jesus">Jesus, Virgínia Maria Antunes de. ''As Traduções de Camões no Século XX''. In ''Anais do III Congresso Ibero-Americano de Tradução e Interpretação'', 2004. pp. 1-8</ref> O filme ''[[Camões (filme)|Camões]]'', realizado por [[José Leitão de Barros]], foi a primeira película portuguesa a participar do [[Festival de cinema de Cannes|Festival de Cannes]], em 1946.<ref>Pina, Luís de. [http://www.amordeperdicao.pt/basedados_filmes.asp?FilmeID=119 ''Camões, de Leitão de Barros'']. IN ''História do Cinema Português, ed. Europa-América, 1986. Disponível no website Amor de Perdição, da Associação para a Promoção do Cinema Português</ref> Entre os artistas célebres que o tomaram como modelo para suas obras se contam [[Columbano Bordalo Pinheiro|Bordalo Pinheiro]],<ref>Amaral, Manuel. ''Camões, Luís Vaz de''. IN ''Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico'', 1904-1915. Volume II, pp. 667-669</ref> [[José Simões de Almeida]],<ref>[http://simoesdealmeida.arteblog.com.br/239516/Jose-Simoes-de-Almeida-Junior-Tio/ ''José Simões de Almeida Júnior (tio)'']. Dropz Galeria</ref> [[Francisco Augusto Metrass]], [[António Soares dos Reis]], [[Horace Vernet]], [[José Malhoa]], [[Vieira Portuense]],<ref name="Teófilo"/> [[Domingos Sequeira]]<ref>França, José-Augusto. ''A Arte Portuguesa de Oitocentos''. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992. p. 24</ref> e [[Lagoa Henriques]].<ref>[http://www.ctalmada.pt/festivais/2007/exposicoes.shtml ''Artes Plásticas'']. Festival de Almada</ref> Uma cratera no [[planeta Mercúrio]] e um [[asteroide]] da [[cintura principal]] receberam o seu nome.<ref>Lakdawalla, Emily. [http://www.planetary.org/news/2008/0429_New_Details_in_Images_of_Mercury.html ''Planetary News: Mercury (2008): New Details in Images of Mercury, Tethys, and Dione Require New Names'']. The Planetary Society, April 29, 2008</ref><ref>[http://ssd.jpl.nasa.gov/sbdb.cgi?sstr=5160 ''5160 Camoes (1979 YO)'']. Jet Propulsion Laboratory Small-Body Database Browser, California Institute of Technology / NASA</ref>
Camões viveu na fase final do [[Renascimento]] europeu, um período marcado por muitas mudanças na cultura e sociedade, que assinalam o final da [[Idade Média]] e o início da [[Idade Moderna]] e a transição do [[feudalismo]] para o [[capitalismo]]. Chamou-se "renascimento" em virtude da redescoberta e revalorização das referências culturais da [[Antiguidade Clássica]], que nortearam as mudanças deste período em direção a um ideal [[Humanismo|humanista]] e [[Naturalismo|naturalista]] que afirmava a dignidade do homem, colocando-o no centro do universo, tornando-o o investigador por excelência da natureza, e privilegiando a [[razão]] e a [[ciência]] como árbitros da vida manifesta.<ref name="Itau">[http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=3637&cd_idioma=28555&cd_item=8 ''Renascimento'']. Enciclopédia Itaú Cultural</ref><ref name="Renaissance">[http://www.britannica.com/EBchecked/topic/497731/Renaissance ''Renaissance'']. IN ''Encyclopædia Britannica Online''. 03 May. 2010</ref><ref>[http://www.britannica.com/EBchecked/topic/195896/history-of-Europe/58315/The-Renaissance#toc=toc58315 History of Europe: The Renaissance'']. IN ''Encyclopædia Britannica Online''. 03 May. 2010</ref> Nesse período foram inventados diversos instrumentos científicos e foram descobertas diversas leis naturais e entidades físicas antes desconhecidas; o próprio conhecimento da face do planeta modificou-se depois dos descobrimentos das [[grandes navegações]]. O espírito de especulação intelectual e pesquisa científica estava em alta, fazendo com que a [[Física]], a [[Matemática]], a [[Medicina]], a [[Astronomia]], a [[Filosofia]], a [[Engenharia]], a [[Filologia]] e vários outros ramos do saber atingissem um nível de complexidade, eficiência e exatidão sem precedentes, o que levou a uma conceção otimista da história da [[humanidade]] como uma expansão contínua e sempre para melhor.<ref name="Renaissance"/><ref name="Weisinger">Weisinger, Herbert. [http://etext.lib.virginia.edu/cgi-local/DHI/dhiana.cgi?id=dv4-21 ''Renaissance Literature and Historiography'']. In Dictionary of the History of Ideas.</ref> De certa forma, a Renascença foi uma tentativa original e eclética de harmonização do [[Neoplatonismo]] [[pagão]] com a [[religião cristã]], do ''[[eros]]'' com a ''[[caridade|charitas]]'', junto com influências orientais, judaicas e árabes, e onde o estudo da [[magia]], da [[astrologia]] e do [[ocultismo]] não estavam ausentes.<ref>Nunes, Benedito. ''Diretrizes da Filosofia no Renascimento''. In Franco, Afonso Arinos de Melo et alii. ''O Renascimento''. Rio de Janeiro: Agir, MNBA, 1978. pp. 64-77.</ref> Foi também a época em que se começaram a criar fortes Estados nacionais, o [[comércio]] e as cidades se expandiram e a [[burguesia]] se tornou uma força de grande importância social e económica, contrastando com o relativo declínio da influência da religião nos assuntos do mundo.<ref>[http://books.google.com/books?id=EqsX-ImEtXgC&printsec=frontcover&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1970&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=16#v=onepage&q&f=false Minchillo, ''Introdução'', pp. 12-13]</ref>
 
No século XVI, época em que Camões viveu, a influência do Renascimento italiano expandiu-se por toda a Europa. Porém, várias das suas características mais típicas estavam a entrar em declínio, em particular por causa de uma série de disputas políticas e guerras que alteraram o mapa político europeu, perdendo a [[Itália]] o seu lugar como potência, e da cisão do [[Catolicismo]], com o surgimento da [[Reforma Protestante]]. Na reação católica, lançou-se a [[Contra-Reforma]], reativou-se a [[Inquisição]] e reacendeu-se a [[censura]] eclesiástica. Ao mesmo tempo, as doutrinas de [[Maquiavel]] se tornavam largamente difundidas, dissociando a [[ética]] da prática do poder. O resultado foi a reafirmação do poder da religião sobre o mundo profano e a formação de uma atmosfera espiritual, política, social e intelectual agitada, com fortes doses de pessimismo, repercutindo desfavoravelmente sobre a antiga liberdade de que gozavam os artistas. Apesar disso, as aquisições intelectuais e artísticas da Alta Renascença que ainda estavam frescas e resplandeciam diante dos olhos não poderiam ser esquecidas de pronto, mesmo que o seu substrato filosófico já não pudesse permanecer válido diante dos novos factos políticos, religiosos e sociais. A nova arte que se fez, ainda que inspirada na fonte do classicismo, traduziu-o em formas inquietas, ansiosas, distorcidas, ambivalentes, apegadas a preciosismos intelectualistas, características que refletiam os dilemas do século e definem o [[Estilo (arte)|estilo]] geral dessa fase como [[Maneirismo|maneirista]].<ref>Hauser, Arnold. ''História Social da Literatura e da Arte''. São Paulo: Mestre Jou, 1972-82. Vol. I, pp. 357-384</ref><ref name="Machado">Machado, Lino. [http://74.125.155.132/scholar?q=cache:y5igEvEZD0YJ:scholar.google.com/+camoes+lusiadas&hl=pt-BR&lr=&as_sdt=2000&as_vis=1 ''Maneirismo em Camões: Uma Linguagem de Crise'']. IN ''Revista Eletrônica de Estudos Literários''. Vitória, ano 4, n. 4, 2008. pp. 1-3</ref>
 
Desde meados do século XV que Portugal se afirmara como uma grande potência naval e comercial, desenvolviam-se as suas artes e fervia o entusiasmo pelas conquistas marítimas. O reinado de [[João II de Portugal|D. João II]] foi marcado pela formação de um sentimento de orgulho nacional, e no tempo de [[Manuel I de Portugal|D. Manuel I]], como dizem Spina & Bechara, o orgulho havia cedido ao delírio, à pura euforia da dominação do mundo. No início do século XVI [[Garcia de Resende]] lamentava-se de que não houvesse quem pudesse celebrar dignamente tantas façanhas, afirmando que havia material épico superior ao dos [[Roma Antiga|romanos]] e [[troia]]nos. Preenchendo esta lacuna, [[João de Barros]] escreveu a sua [[novela]] de [[cavalaria]], ''A Crónica do Imperador Clarimundo'' (1520), em formato de épico. Pouco depois apareceu [[António Ferreira]], instalando-se como mentor da geração classicista e desafiando os seus contemporâneos a cantarem as glórias de Portugal em alto estilo. Quando Camões surgiu, o terreno estava preparado para a apoteose da pátria, uma pátria que havia lutado encarniçadamente para conquistar a sua soberania, primeiro dos [[mouros]] e depois de [[Castela]], havia desenvolvido um espírito aventureiro que a levara pelos oceanos afora, expandindo as fronteiras conhecidas do mundo e abrindo novas rotas de comércio e exploração, vencendo exércitos inimigos e as forças hostis da natureza.<ref>[http://books.google.es/books?hl=pt-BR&lr=&id=I_T9Fqq5A7cC&oi=fnd&pg=PA7&dq=%22camoes%22+lusiadas&ots=NwcOvGL3Qx&sig=2g8rDB5TPcx1aA9-4xIQQ2EQMLM#v=onepage&q&f=false Spina & Bechara, pp. 13-14]</ref> Mas nesta altura, porém, a crise política e cultural já se anunciava, materializando-se logo após a sua morte, quando o país perdeu a sua soberania para [[Espanha]].<ref name="Soares">Soares, Maria Luísa de Castro. [http://books.google.com/books?id=HZpA3_YCiWEC&pg=PA132&dq=camoes+maneirismo&lr=&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=1#v=onepage&q&f=false ''Profetismo e espiritualidade de Camões a Pascoaes'']. Imprensa da Universidade de Coimbra, 2007. pp. 129-139</ref>
[[Ficheiro:Pauwels - Camões.jpg|thumb|250px|Andries Pauwels: Busto de Camões, século XVII.]]
 
A produção de Camões divide-se em três géneros: o lírico, o épico e o teatral. A sua obra lírica foi desde logo apreciada como uma alta conquista. Demonstrou o seu virtuosismo especialmente nas canções e [[elegia]]s, mas as suas [[redondilha]]s não lhes ficam atrás. De facto, foi um mestre nesta forma, dando uma nova vida à arte da [[Glosa (poema)|glosa]], instilando nela espontaneidade e simplicidade, uma delicada ironia e um fraseado vivaz, levando a poesia cortesã ao seu nível mais elevado, e mostrando que também sabia expressar com perfeição a alegria e a descontração. A sua produção épica está sintetizada n{{'}}''Os Lusíadas'', uma alentada glorificação dos feitos portugueses, não apenas das suas vitórias militares, mas também a conquista sobre os elementos e o espaço físico, com recorrente uso de alegorias clássicas. A ideia de um épico nacional existia no seio português desde o século XV, quando se iniciaram as navegações, mas coube a Camões, no século seguinte, materializá-la. Nas suas obras dramáticas procurou fundir elementos nacionalistas e clássicos.<ref name="Britannica">[http://www.britannica.com/EBchecked/topic/91028/Luis-de-Camoes ''Luís de Camões'']. IN ''Encyclopædia Britannica Online''. 24 Apr. 2010</ref>
 
Provavelmente se tivesse permanecido em Portugal, como um poeta cortesão, jamais teria atingido a maestria da sua arte. As experiências que acumulou como soldado e navegador enriqueceram sobremaneira a sua visão de mundo e excitaram o seu talento. Através delas conseguiu livrar-se das limitações formais da poesia cortesã e as dificuldades por que passou, a profunda angústia do exílio, a saudade da pátria, impregnaram indelevelmente o seu espírito e comunicaram-se à sua obra, e dali influenciaram de maneira marcante as gerações seguintes de escritores portugueses. Os seus melhores poemas brilham exatamente pelo que há de genuíno no sofrimento expresso e na honestidade dessa expressão, e este é um dos motivos principais que colocam a sua poesia em um patamar tão alto.<ref name="Britannica"/>
As suas fontes foram inúmeras. Dominava o [[latim]] e o [[língua espanhola|espanhol]], e demonstrou possuir um sólido conhecimento da [[Mitologia grega|mitologia greco-romana]], da história antiga e moderna da Europa, dos cronistas portugueses e da [[literatura clássica]], destacando-se autores como [[Ovídio]], [[Xenofonte]], [[Lucano]], [[Caio Valério Flaco (poeta)|Valério Flaco]], [[Horácio]], mas especialmente [[Homero]] e [[Virgílio]], de quem tomou vários elementos estruturais e estilísticos de empréstimo e às vezes até trechos em transcrição quase literal. De acordo com as citações que fez, também parece ter tido um bom conhecimento de obras de [[Ptolomeu]], [[Diógenes Laércio]], [[Plínio, o Velho]], [[Estrabão]] e [[Pompônio Mela|Pompónio]], entre outros historiadores e cientistas antigos. Entre os modernos, estava a par da produção italiana de [[Francesco Petrarca]], [[Ludovico Ariosto]], [[Torquato Tasso]], [[Giovanni Boccaccio]] e [[Jacopo Sannazaro]], e da literatura castelhana.<ref name="Pimpão">Pimpão, Álvaro Júlio da Costa. [http://cvc.instituto-camoes.pt/bdc/literatura/lusiadas/ ''Prefácio'']. IN Camões, Luís Vaz de. ''Os Lusíadas''. Lisboa: Ministério dos Negócios Estrangeiros. Instituto Camões, 2000. pp. i-xiii</ref><ref>[http://books.google.es/books?hl=pt-BR&lr=&id=I_T9Fqq5A7cC&oi=fnd&pg=PA7&dq=gama+%22Ana+de+S%C3%A1+Macedo%22&ots=NwcOwIL6VB&sig=JrED5IMkTk0UIg0gcEAoDe9m6bg#v=onepage&q&f=false Spina & Bechara, p. 18]</ref>
 
Para aqueles que consideram o Renascimento um período histórico homogéneo, informado pelos ideais clássicos e que se estende até o fim do século XVI, Camões é pura e simplesmente um renascentista, mas de modo geral reconhece-se que o século XVI foi amplamente dominado por uma derivação estilística chamada [[Maneirismo]], que em vários pontos é uma escola anticlássica e de várias formas prefigura o [[Barroco]]. Assim, para vários autores, é mais adequado descrever o estilo camoniano como maneirista, distinguindo-o do classicismo renascentista típico. Isso se justifica pela presença de vários recursos de linguagem e de uma abordagem dos seus temas que não estão concordes às doutrinas de equilíbrio, economia, tranquilidade, harmonia, unidade e invariável idealismo que são os eixos fundamentais do classicismo renascentista. Camões, depois de uma fase inicial tipicamente clássica, transitou por outros caminhos e a inquietude e o drama se tornaram seus companheiros. Por todo ''Os Lusíadas'' são visíveis os sinais de uma crise política e espiritual, permanece no ar a perspectiva do declínio do império e do carácter dos portugueses, censurados por maus costumes e pela falta de apreço pelas artes, alternando-se a trechos em que faz a sua apologia entusiasmada. Também são típicos do Maneirismo, e se tornariam ainda mais do Barroco, o gosto pelo contraste, pelo arroubo emocional, pelo conflito, pelo paradoxo, pela propaganda religiosa, pelo uso de [[figuras de linguagem]] complexas e preciosismos, até pelo grotesco e pelo monstruoso, muitos deles traços comuns na obra camoniana.<ref name="Machado"/><ref name="Soares"/><ref>Moisés, Massaud (2000). [http://books.google.com/books?id=GnADW82tdmYC&pg=PA192&dq=camoes+maneirismo&lr=&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=12#v=onepage&q&f=false ''A literatura portuguesa através dos textos'']. Cultrix, 2000. p. 192</ref><ref>[http://books.google.com/books?id=RffKKJPYttgC&pg=PA298&dq=camoes+maneirismo&lr=&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=13#v=onepage&q&f=false Teixeira, p. 298]</ref>
 
O carácter maneirista da sua obra é assinalado também pelas ambiguidades geradas pela ruptura com o passado e pela concomitante adesão a ele, manifesta a primeira na visualização de uma nova era e no emprego de novas fórmulas poéticas oriundas de Itália, e a segunda, no uso de arcaísmos típicos da [[Idade Média]]. Ao lado do uso de modelos formais renascentistas e classicistas, cultivou os géneros medievais do [[vilancete]], da [[Canção|cantiga]] e da [[trova]]. Para Joaquim dos Santos, o carácter contraditório da sua poesia encontra-se no contraste entre duas premissas opostas: o idealismo e a experiência prática. Conjugou valores típicos do [[racionalismo]] humanista com outros derivados da [[cavalaria]], das [[cruzada]]s e do [[feudalismo]], alinhou a constante propaganda da fé católica com a mitologia antiga, responsável no plano estético por toda a ação que materializa a realização final, descartando a ''aurea mediocritas'' cara aos clássicos para advogar a primazia do exercício das armas e da conquista gloriosa.<ref>Santos, Joaquim José Moreira dos. [http://books.google.es/books?hl=pt-BR&lr=&id=_3fzsGRA84oC&oi=fnd&pg=PA209&dq=%22camoes%22&ots=Ryz9xWr1wY&sig=E27np4_7nkAf5Ss5X4k7mf9RkzU#v=onepage&q&f=false ''O Medievalismo em Camões: Os Doze de Inglaterra'']. Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985. pp. 209-211</ref>
A estrutura da obra é por si digna de interesse, pois, segundo [[Jorge de Sena]], nada é arbitrário n{{'}}''Os Lusíadas''. Entre os argumentos que apresentou foi o emprego da [[secção áurea]], uma relação definida entre as partes e o todo, organizando o conjunto através de proporções ideais que enfatizam passagens especialmente significativas. Sena demonstrou que ao aplicar-se a secção áurea a toda a obra recai-se, precisamente, no verso que descreve a chegada dos portugueses à Índia. Aplicando-se a secção em separado às duas partes resultantes, na primeira parte surge o episódio que relata a morte de Inês de Castro e, na segunda, a estrofe que narra o empenho de [[Cupido]] para unir os portugueses e as ninfas, o que para Sena reforça a importância do amor em toda a composição.<ref>Lamas, Maria Paula. [http://www.filologia.org.br/revista/34/13.htm ''Recursos Narrativos n'Os Lusíadas'']. In ''III Simpósio Internacional de Narratologia''. Buenos Aires, Julho de 2004</ref> Dois outros elementos dão a' ''Os Lusíadas'' a sua modernidade e distanciam-no do classicismo: a introdução da dúvida, da contradição e do questionamento, em desacordo com a certeza afirmativa que caracteriza o épico clássico, e a primazia da [[retórica]] sobre a ação, substituindo o mundo dos factos pelo das palavras, as quais não resgatam totalmente a realidade e evoluem para a [[metalinguagem]], com o mesmo efeito disruptivo sobre a epopeia tradicional.<ref>Pereira, Terezinha Maria Scher. [http://74.125.155.132/scholar?q=cache:qmUGb6IxbAgJ:scholar.google.com/+camoes+criticas+&hl=pt-BR&lr=&as_sdt=2000&as_vis=1 ''História e Linguagem em Os Lusíadas'']. IN ''Via Atlântica'', n. 4, out. 2000. Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, Universidade de São Paulo. pp. 196-211</ref>
 
Segundo Costa Pimpão, não há qualquer evidência de que Camões pretendesse escrever o seu épico antes de ter viajado à Índia, embora temas heróicos já estivessem presentes na sua produção anterior. É possível que tenha retirado alguma inspiração de fragmentos das ''[[Décadas da Ásia]]'', de [[João de Barros]], e da ''História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses'', de [[Fernão Lopes de Castanheda]]. Sobre a [[mitologia clássica]] estava com certeza bem informado antes disso, igualmente quanto à literatura épica antiga. Aparentemente, o poema começou a tomar forma já em 1554. Storck considera que a determinação de escrevê-lo nasceu durante a própria viagem marítima. Entre 1568 e 1569 foi visto em Moçambique pelo historiador [[Diogo do Couto]], seu amigo, ainda a trabalhar na obra, que só veio à luz em Lisboa, em 1572.<ref name="Pimpão"/>
 
O sucesso da publicação d{{'}}''Os Lusíadas'' supostamente obrigara a uma segunda edição no mesmo ano da edição ''princeps''. As duas diferem em inúmeros detalhes e foi longamente debatido qual delas seria de facto a original. Tampouco é claro a quem se devem as emendas do segundo texto. Atualmente reconhece-se como original a edição que mostra a marca do editor, um [[pelicano]], com o pescoço voltado para a esquerda, e que é chamada edição A, realizada sob a supervisão do autor. Entretanto, a edição B foi por muito tempo tomada como a ''princeps'', com consequências desastrosas para a análise crítica posterior da obra. Aparentemente a edição B foi produzida mais tarde, em torno de 1584 ou 1585, de maneira clandestina, levando a data fictícia de 1572 para contornar as delongas da censura da época, se fosse publicada como uma nova edição, e corrigir os graves defeitos de uma outra edição de 1584, a chamada edição Piscos.<ref>[http://cvc.instituto-camoes.pt/bdc/literatura/lusiadas/ Pimpão, p. xx-xxv]</ref> Contudo, Maria Helena Paiva levantou a hipótese de que as edições A e B sejam apenas variantes de uma mesma edição, que foi sendo corrigida após a composição tipográfica, mas enquanto a impressão já estava em andamento. De acordo com a pesquisadora, ''"a necessidade de tirar o máximo partido da prensa levava a que, concluída a impressão de uma forma, que constava de vários fólios, fosse tirada uma primeira prova, que era corrigida enquanto a prensa continuava, agora com o texto corrigido. Havia, por isso, fólios impressos não corrigidos e fólios impressos corrigidos, que eram agrupados indistintamente no mesmo exemplar"'', fazendo com que não existissem dois exemplares rigorosamente iguais no sistema de imprensa daquela época.<ref>Paiva, Maria Helena. [http://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/13886 ''Os Lusíadas na Encruzilhada do Tempo'']. IN ''Colóquio "O Fascínio da Linguagem" em homenagem a Fernanda Irene Fonseca''. Porto: Universidade do Porto. Faculdade de Letras, 23 a 25 de Maio de 2007. pp. 316-317</ref>
 
===Comédias===
O conteúdo geral de suas obras para o palco combina, da mesma forma que n{{'}}''Os Lusíadas'', o nacionalismo e a inspiração clássica. A sua produção neste campo resume-se a três obras, todas no género da [[comédia]] e no formato de [[auto]]: ''[[El-Rei Seleuco]]'', ''[[Filodemo]]'' e ''[[Anfitriões]]''. A atribuição do ''El-Rei Seleuco'' a Camões, porém, é controversa. A sua existência não era conhecida até 1654, quando apareceu publicada na primeira parte das ''Rimas'' na edição de Craesbeeck, que não deu detalhes sobre a sua origem e teve poucos cuidados na edição do texto. A peça também diverge em vários aspetos das outras duas que sobreviveram, tais como em sua extensão, bem mais curta (um ato), na existência de um prólogo em [[prosa]], e no tratamento menos profundo e menos erudito do tema amoroso. O tema, da complicada paixão de [[Antíoco I Sóter|Antíoco]], filho do rei [[Seleuco I Nicator]], por sua madrasta, a rainha Estratonice, foi tirado de um facto histórico da Antiguidade transmitido por [[Plutarco]] e repetido por [[Petrarca]] e pelo cancioneiro popular espanhol, trabalhando-o ao estilo de [[Gil Vicente]].<ref>Anastácio, Vanda. [http://74.125.155.132/scholar?q=cache:kvH0sjLH5fgJ:scholar.google.com/+camoes+comedia&hl=pt-BR&lr=&as_sdt=2000&as_vis=1''El Rei Seleuco, 1645: Reflexões sobre o «corpus» da obra de Camões'']. IN ''Península''. Revista de Estudos Ibéricos, nº 2, 2005. pp. 327-342</ref><ref>Alves, José Edil de Lima. [http://books.google.com/books?id=lq8qqV7jLNsC&pg=PT115&dq=%22el+rei+seleuco%22&lr=&as_drrb_is=q&as_minm_is=0&as_miny_is=&as_maxm_is=0&as_maxy_is=&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=11#v=onepage&q=%22el%20rei%20seleuco%22&f=false ''História da literatura portuguesa: fundamentos de geografia e história'']. Universidade Luterana do Brasil, 2001. p. 114</ref>
 
''Anfitriões'', publicado em 1587, é uma adaptação do ''Amphitryon'' de [[Plauto]], onde acentua o carácter cómico do mito de [[Anfitrião]], destacando a omnipotência do amor, que subjuga até os imortais, também seguindo a tradição vicentina. A peça foi escrita em [[redondilha]]s menores e faz uso do bilinguismo, empregando o [[castelhano]] nas falas do personagem Sósia, um escravo, para assinalar seu baixo nível social em passagens que chegam ao grotesco, um recurso que aparece nas outras peças também. O ''Filodemo'', composto na Índia e dedicado ao vice-rei D. Francisco Barreto, é uma comédia de moralidade em cinco atos, de acordo com a divisão clássica, sendo das três a que se manteve mais viva no interesse da crítica pela multiplicidade de experiências humanas que descreve e pela agudeza da observação psicológica. O tema versa sobre os amores de um criado, Filodemo, pela filha, Dionisa, do fidalgo em casa de quem serve, com traços autobiográficos.<ref name="Britannica"/><ref>[http://www.uefs.br/nep/labirintos/edicoes/01_2008/01_2008.htm Ribeiro, p.4]</ref><ref>[http://books.google.com/books?id=lq8qqV7jLNsC&pg=PT115&dq=%22el+rei+seleuco%22&lr=&as_drrb_is=q&as_minm_is=0&as_miny_is=&as_maxm_is=0&as_maxy_is=&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=11#v=onepage&q=%22el%20rei%20seleuco%22&f=false Alves, pp. 114-115]</ref> Camões via a comédia como um género secundário, de interesse apenas como um divertimento de circunstância, mas conseguiu resultados significativos transferindo a comicidade dos personagens para a ação e refinando a trama, pelo que apontou um caminho para a renovação da comédia portuguesa. Entretanto, sua sugestão não foi seguida pelos cultivadores do género que o sucederam.<ref name="Britannica"/>
{{quote2|Amor é fogo que arde sem se ver;<br>É ferida que dói e não se sente;<br>É um contentamento descontente<br>É dor que desatina sem doer; <br><br>É um não querer mais que bem querer;<br>É solitário andar por entre a gente;<br>É nunca contentar-se de contente;<br>É cuidar que se ganha em se perder;<br><br>É querer estar preso por vontade;<br>É servir a quem vence, o vencedor;<br>É ter com quem nos mata lealdade.<br> <br> Mas como causar pode seu favor<br>Nos corações humanos amizade,<br>Se tão contrário a si é o mesmo amor?|''Rimas''}}
 
Todos os paradoxos criados pela idealização amorosa são enfatizados pela própria estrutura poética, cheia de [[antítese]]s, [[metáfora]]s, [[silogismo]]s, oposições e inversões, que na análise de Cavalcante
 
::''"... configuram um jogo elegante e sonoro de linguagem enquanto o poema desenvolve os paradoxos para expressar o sentido tanto universal quanto contraditório do amor. Diante do sentimento, o homem torna-se frágil, a linguagem é insuficiente, a palavra, ilógica e sem razão. Ao expressar o "eu" universal, Camões joga com escrita/escritura, fazendo desta última o mais puro "estranhamento" e novidade, ainda que pudesse estar inspirado nos modelos clássicos"''.<ref>Cavalcante, Moema. [http://books.google.com/books?id=ngtAl9TPXdYC&pg=PA75&dq=cam%C3%B5es+amor&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1970&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=8#v=onepage&q=cam%C3%B5es%20amor&f=false ''Por mares muito antes navegados: a tradição de Camões na poesia colonial brasileira'']. Universidade Luterana do Brasil, 2001. p. 73</ref>
 
Se a consumação terrena é impossível, pode ser necessária a própria morte dos amantes, para que se possam unir no [[Paraíso (religião)|Paraíso]]. Desta forma, o tema da morte acompanha o do amor em muito da poesia de Camões, seja de forma explícita ou implícita.<ref name="Lourdes"/> Nem sempre, porém, o amor lhe foi um drama, e o poeta foi capaz de expressar o seu lado puramente jubiloso e tranquilo, tocando, como observou [[Joaquim Nabuco]], o cerne de simplicidade do sentimento.<ref name="Nabuco, pp. 46-47">[http://books.google.com/books?id=PpRcWSCp-jYC&pg=PA45&dq=cam%C3%B5es+amor&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1970&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=7#v=onepage&q=cam%C3%B5es%20amor&f=false Nabuco, pp. 46-47]</ref> Como exemplo, deu o seguinte soneto:
[[Ficheiro:Camões - Rimas 1616 - Cabellos douro.jpg|thumb|250px|Página da edição de 1616 das ''Rimas'', com o início do poema ''Cabellos d'ouro...'']]
 
{{quote2|Transforma-se o amador na cousa amada<br>Por virtude do muito imaginar;<br>Não tenho logo mais que desejar,<br>Pois em mim tenho a parte desejada.<br> <br> Se nela está minha alma transformada<br>Que mais deseja o corpo alcançar? <br> Em si somente pode descansar, <br> Pois com ele tal alma está liada. <br><br> Mas esta linda e pura Semidea <br> Que como o acidente em seu sujeito, <br> Assi com a alma minha se conforma; <br> <br> Está no pensamento como ideia; <br> E o vivo, o puro amor de que sou feito, <br> Como a matéria simples busca a forma.|Rimas}}
 
De qualquer forma, apesar das frustrações e do sofrimento recorrente, para Camões o amor valia a pena de ser vivido: ''"As lágrimas inflamam o meu amor e sinto-me contente de mim porque vos amei"'',<ref name="Nabuco, pp. 46-47"/> e em suas descrições da amada abundam imagens pictóricas de grande delicadeza, colocando a mulher como elemento central numa paisagem natural harmoniosa, especialmente na sua lírica derivada mais diretamente de Petrarca e da tradição pastoral portuguesa do ''[[Cancioneiro Geral]]'' de [[Garcia de Resende]], que evocam o [[bucolismo]] clássico. A pintura com palavras traz à frente tanto as belezas naturais e feminis, como é capaz de delinear um perfil psicológico através da descrição dos gestos, das posturas e dos movimentos corpóreos da mulher, como transparece no trecho: ''"O rosto sobre sua mão / Os olhos no chão pregados / Que do chorar já cansados / Algum descanso lhe dão"''.<ref>Corteza, Clarice Monaro. [http://www.eventos.uevora.pt/comparada/volume2.htm ''A Construção do Retrato Verbal Camoniano: duas leituras do Tríptico de Leanor'']. IN ''Actas do IV Congresso Internacional da Associação Portuguesa de Literatura Comparada''. Universidade de Évora, 9-12 de maior de 2001. Vol. II, pp. 1-13</ref>
 
A dualidade amorosa expressa na lírica camoniana corresponde a duas conceções de mulher: a primeira é de uma criatura angelical, objeto de culto, um ser quase divino, intocável e distante. A sua descrição enfatiza as correspondências entre a sua beleza física e a sua perfeição moral e espiritual. Os seus cabelos são ouro, a sua boca é uma rosa, os seus dentes, pérolas e a sua simples proximidade e contemplação são dádivas celestes. Mas o amor vivido em espírito dá lugar a sentimentos totalizantes que acabam por envolver também a manifestação [[erotismo|erótica]] e [[hedonismo|hedonista]], fazendo um apelo ao desfrute imediato, antes que o tempo consuma os corpos na decrepitude, invocando então a outra mulher, a carnal. Se a união física não acontece, nasce o sofrimento e com ele a alienação do mundo, o desconcerto e a "poesia do desafogo", como a chamou Soares. Na lírica de Camões o fulcro polarizador do prazer e da dor é a mulher e em torno da figura feminina gira todo o ''[[pathos]]'' amoroso, ela é o ponto de partida e o ponto de chegada de todo o discurso poético.<ref>Soares, Maria Luísa de Castro. [http://74.125.155.132/scholar?q=cache:O_gf0ISoqssJ:scholar.google.com/+camoes+maria+elegia&hl=pt-BR&lr=&as_sdt=2000&as_vis=1 ''A Aventura do Amor e do Espírito: A Lírica e a Epopéia de Camões'']. IN Soares, Maria Luísa de Castro. ''Tendências da Literatura: Do Classicismo ao Maneirismo e ao Barroco e sua Projecção na Actualidade''. Vila Real: Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2009. pp. 88-97</ref> Mesmo sem jamais ter casado e mesmo adorando à distância suas musas, Camões com toda probabilidade experimentou o amor carnal. N{{'}}''Os Lusíadas'', transcendendo a tradição da lírica amorosa petrarquista, encontram-se as passagens relativas ao amor mais carregadas de erotismo da obra camoniana, em várias descrições vívidas, livres, apaixonadas e honestas do encontro sensual e da mulher, não raro banhadas de intenso lirismo. As passagens mais marcantes nesse sentido são o retrato de Vénus e sua subida ao [[Olimpo]], onde seduz [[Júpiter (mitologia)|Júpiter]] para que favoreça os portugueses, no Canto II, e as cenas na Ilha dos Amores, nos Cantos IX e X.<ref name="Lima"/><ref name="Cidália">Santos, Cidália Alves dos. [http://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=1375915 ''Camões e Góngora: una lectura del erotismo en Los Lusíadas y en la Fábula de Polifemo y Galatea'']. IN ''Estudios de literatura''. Castilla, 2003‑2004. Nº 28-29, pp. 26-38</ref> Segue um trecho do retrato da deusa:
 
====O desengano====
Outro tema significativo que ocorre na sua poesia é o da transitoriedade das coisas do mundo, também trabalhada através dos contrastes dialéticos e outros jogos de linguagem. Faz Camões na sua obra uma elaborada meditação sobre a condição humana, a partir da sua trabalhosa experiência pessoal, que vê refletida e multiplicada no mundo. Daí que desenvolveu um senso de [[fatalismo]]: o mundo é efémero, constata o poeta, o homem é fraco e a sua vontade é precária e impotente contra as forças superiores do [[destino]]. É o mar que traga de inopino a donzela amada, é a guerra e a doença que destroem as vidas ainda em botão, é a distância que separa os amantes, é o tempo que corrói as esperanças, é a experiência que contradiz o sonho belo, tudo passa e o imprevisto surpreende o homem a cada passo, anulando qualquer possibilidade de se manter a perspetiva renascentista de harmonia entre o homem e o cosmos - disso vem o ''desengano'', a desilusão, um conceito comum neste domínio de sua obra, que o faz experimentar a amargura da morte ainda em vida.<ref>[http://books.google.com/books?id=ngtAl9TPXdYC&pg=PA75&dq=cam%C3%B5es+amor&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1970&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=8#v=onepage&q=cam%C3%B5es%20amor&f=false Cavalcante, pp. 75-78]</ref><ref>[http://74.125.155.132/scholar?q=cache:y5igEvEZD0YJ:scholar.google.com/+camoes+lusiadas&hl=pt-BR&lr=&as_sdt=2000&as_vis=1 Machado, pp. 3-6]</ref><ref name="Massaud, pp. 56-57">[http://books.google.com/books?id=xcQYSXj0xN0C&pg=PA54&dq=%22el+rei+seleuco%22&lr=&as_drrb_is=q&as_minm_is=0&as_miny_is=&as_maxm_is=0&as_maxy_is=&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=14#v=onepage&q=%22el%20rei%20seleuco%22&f=false Moisés (1997), pp. 56-57]</ref> A sua mente vê-se perdida num mar de pensamentos desencontrados, chega a dizer que a vida não tem razão de ser e que tentar descobrir o seu sentido é tão inútil como perigoso, pois o pensar sobre as dificuldades da vida somente aprofunda a dor de viver e não tem o poder de salvá-lo da realidade miserável do homem.<ref name="Massaud, pp. 56-57"/> Composta após o naufrágio no Oriente, a célebre redondilha ''Sobre os rios que vão'' (também conhecida como ''Sôbolos rios que vão''), ilustra este aspeto da obra camoniana, da qual seguem três estrofes:
<center>
{|
e, tudo bem comparado,<br>
Babilónia ao mal presente,<br>
Sião ao tempo passado.<br>
|
. . .
deste sonho imaginado,<br>
vi que todo o bem passado <br>
não é gosto, mas é mágoa.<br>
|
. . .
[[Ficheiro:António Carneiro - Camões lendo Os Lusíadas.jpg|thumb|250px|Camões lendo ''Os Lusíadas'', por [[António Carneiro]].]]
 
Em que pese Camões ser o grande modelo da [[língua portuguesa]] moderna, e da sua obra já ter sido extensamente estudada sob os pontos de vista estético, histórico, cultural e simbólico, de acordo com Verdelho relativamente pouco estudo tem sido feito sobre os seus aspetos [[filologia|filológicos]], nos domínios da [[sintaxe]], [[semântica]], [[Morfologia (linguística)|morfologia]], [[fonética]] e [[ortografia]], ainda mais que o poeta teve um papel importante para fixar e dar autoridade a uma tradição literária em português, quando na sua época o latim era uma língua altamente prestigiada para a criação literária e para a transmissão de conhecimento e cultura, e o espanhol, que sempre exerceu uma pressão, logo após a morte do poeta se tornou uma ameaça séria à sobrevivência do idioma lusitano, por conta da [[união ibérica]]. Como pensa Hernâni Cidade, isso indica que Camões estava ciente da sua conjuntura linguística e fez uma opção deliberada pelo português, e na sua produção transparece um forte interesse linguístico, sentindo-se ''"uma permanente reflexão sobre a língua, uma aguda sensibilidade aos nomes das coisas, às palavras e à maneira de as usar... Em Os Lusíadas, por exemplo, várias vezes se dá notícia da estranheza perante o encontro de novas línguas"''.<ref>Verdelho, Telmo. [http://books.google.es/books?hl=pt-BR&lr=&id=RmDAZBh3Ze4C&oi=fnd&pg=PA365&dq=camoes+castelhano&ots=m1FKJAqjaZ&sig=mC8WcrVOs6lsz7SvjDldj-ZR7H8#v=onepage&q&f=false ''Linguística Camoniana: Panorama dos Estudos Linguísticos sobre a Obra de Camões'']. Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985. pp. 365-367; 369; 374</ref>
 
Na escassa correspondência autógrafa que sobreviveu esse interesse está declarado explicitamente. Na ''Carta III'' ele narrou a um amigo o hábito das alcoviteiras de Lisboa, que traziam ''"sempre aparadas as palavras para falar com quem se preze disso, cousa que eu tenho por grande trabalho"''. Notou o desprezo de que o falar rústico dos camponeses era objeto e deu uma pitoresca descrição do [[Poliglota|poliglotismo]] que encontrou vigorando em um prostíbulo: ''"Deste dilúvio houveram algumas damas medo e edificaram uma torre de Babilónia, onde se acolheram; e vos certifico que são já as línguas tantas que cedo cairá, porque ali vereis mouros, judeus, castelhanos, leoneses, frades, clérigos, solteiros, moços e velhos (sic)"''. Na ''Carta II'' o poeta descreveu a linguagem das moças da Índia, que de tão rude lhe esfriava o ânimo romântico: ''"Respondem-vos uma linguagem meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da mor quentura do mundo"''.<ref>[http://books.google.es/books?hl=pt-BR&lr=&id=RmDAZBh3Ze4C&oi=fnd&pg=PA365&dq=camoes+castelhano&ots=m1FKJAqjaZ&sig=mC8WcrVOs6lsz7SvjDldj-ZR7H8#v=onepage&q&f=false Verdelho, p. 367]</ref>
 
O seu linguajar literário foi sempre reconhecido como erudito; Faria e Sousa já dissera que Camões não escrevera para ignorantes. A influência do seu modelo repercutiu profundamente sobre a evolução da língua portuguesa pelos séculos seguintes, e durante muito tempo foi um padrão ensinado nas escolas e academias, mas Verdelho considera-o mais próximo da fala de comunicação quotidiana moderna em Portugal do que o português usado, por exemplo, pelos escritores lusos do Barroco ou mesmo por alguns autores contemporâneos. Para o pesquisador a linguagem de Camões mantém uma notável proximidade entre os códigos linguísticos e os códigos poéticos, dando-lhe uma transparência e legibilidade únicas, sem que isso implique um ofuscamento das suas fontes clássicas, italianas e espanholas, ou uma redução na sua complexidade e refinamento, prestando-se a elaboradas análises. Cabe notar que se deve a Camões a introdução de uma quantidade de latinismos na linguagem corrente, tais como ''aéreo, áureo, celeuma, diligente, diáfano, excelente, aquático, fabuloso, pálido, radiante, recíproco, hemisfério'' e muitos outros, prática que ampliou significativamente o léxico do seu tempo.<ref>[http://books.google.es/books?hl=pt-BR&lr=&id=RmDAZBh3Ze4C&oi=fnd&pg=PA365&dq=camoes+castelhano&ots=m1FKJAqjaZ&sig=mC8WcrVOs6lsz7SvjDldj-ZR7H8#v=onepage&q&f=false Verdelho, pp. 368-373]</ref> Baião o chamou de um revolucionário em relação à língua portuguesa culta de sua geração,<ref>Baião, José Geraldo Pereira. [http://www.filologia.org.br/revista/ ''O Arauto do Atraso'']. IN ''Revista Philologus''. Ano 13, n° 39, s/pp.</ref> e Paiva analisou algumas das inovações linguísticas trazidas por Camões dizendo:
A fama de Camões iniciou a expandir-se através de Espanha, onde teve vários admiradores desde o século XVI, aparecendo duas traduções d{{'}}''Os Lusíadas'' em 1580, ano da morte do poeta, impressas a mando de [[Filipe II de Espanha]], então rei também de Portugal. No título da edição de Luis Gómez de Tápia, Camões já é citado como "famoso", e na de Benito Caldera ele foi comparado a Virgílio, e quase digno de igualar Homero.<ref name="Spina & Bechara, pp. 23-25">[http://books.google.es/books?hl=pt-BR&lr=&id=I_T9Fqq5A7cC&oi=fnd&pg=PA7&dq=%22camoes%22+lusiadas&ots=NwcOvGL3Qx&sig=2g8rDB5TPcx1aA9-4xIQQ2EQMLM#v=onepage&q&f=false Spina & Bechara, pp. 23-25]</ref> Além disso, o rei concedeu-lhe o título honorífico de "Príncipe dos poetas de Espanha", que foi impresso numa das edições. Na leitura de Bergel, Filipe estava perfeitamente a par das vantagens de usar, para os seus próprios propósitos, uma cultura já estabelecida, em vez de suprimi-la. Sendo filho de uma princesa portuguesa, não tinha interesse em anular a identidade lusa nem as suas conquistas culturais, e foi-lhe vantajoso assimilar o poeta para dentro da órbita espanhola, tanto para assegurar a sua legitimidade como soberano das coroas unidas como para engrandecer o brilho da cultura espanhola.<ref name="Bergel"/>
 
Logo a sua fama alcançou a Itália; Tasso chamou-o "culto e bom" e ''Os Lusíadas'' foi traduzido duas vezes em 1658, por Oliveira e Paggi.<ref name="Spina & Bechara, pp. 23-25"/> Mais tarde, associado a Tasso, tornou-se um paradigma importante no Romantismo italiano.<ref>[http://74.125.155.132/scholar?q=cache:sKgHGzqUURgJ:scholar.google.com/+%27%27Lu%C3%ADs+Digno+Apolo+e+Digno+Homero&hl=pt-BR&lr=&as_sdt=2000&as_vis=1 Chaves, pp. 115-119]</ref> A esta altura em Portugal já se formara um corpo de exegetas e comentadores, dando ao estudo de Camões grande profundidade. Em 1655 ''Os Lusíadas'' chega à Inglaterra na tradução de Fanshawe, mas só viria a ganhar notoriedade aí cerca de um século depois, com a publicação da versão poética de William Julius Mickle em 1776 que, embora bem sucedida, não impediu o surgimento de mais uma dezena de traduções inglesas até fins do século XIX.<ref>''Os Lusiadas: Antologia'' (Atelie Editorial, 1973), p. 25.</ref><ref>Monteiro (1996), ''The Presence of Camões'', p. 89.</ref> Chegou a [[França]] no início do século XVIII, quando Castera publicou uma tradução do épico e no prefácio não poupou elogios à sua arte. Voltaire criticou certos aspetos da obra, nomeadamente a sua falta de unidade na ação e mistura de mitologia cristã e pagã, mas também admirou as novidades que ela introduziu em relação às outras epopeias,<ref name="Voltaire">Voltaire: "Camoëns, en Portugal, ouvrait une carrière toute nouvelle...", in ''Essai Sur La Poésie Epique'' (1728).</ref> contribuindo poderosamente para a sua difusão. [[Montesquieu]] afirmou que o poema de Camões tinha algo do charme da ''[[Odisseia]]'' e da magnificência da ''[[Eneida]]''.<ref name="Montesquieu">Montesquieu: "... chantés par le Camoèns, dont le poème fait sentir quelque chose des charmes de l'Odyssée et de la magnificence de l'Enéide.", in ''[[O Espírito das Leis]]'' [''De l'Esprit des Lois''] (1748), capítulo XXI.</ref> Entre 1735 e 1874 surgiram nada menos do que vinte traduções francesas do livro, sem contar inúmeras segundas edições e paráfrases de alguns dos episódios mais marcantes. Em 1777 Pieterszoon traduziu ''Os Lusíadas'' para o holandês e no século XIX surgiram mais cinco outras, parciais.<ref name="Spina & Bechara, pp. 23-25"/><ref name="De Vries">De Vries, Eti. [http://74.125.155.132/scholar?q=cache:Nv6lvAbECYYJ:scholar.google.com/+camoes+lusiadas&hl=pt-BR&lr=&as_sdt=2000&as_vis=1 ''Os Lusíadas na Holanda: a história da recepção entre 1572-1900'']. IN ''Estudos de Língua e Cultura Portuguesas''. Universidade de Utreque, Países Baixos, Junho de 2007</ref>
 
Na [[Polónia]] ''Os Lusíadas'' foi traduzido em 1790 por Przybylski e, desde então, tornou-se intimamente integrado na tradição literária polonesa, tanto que, pela sua erudição, no século XIX foi um elemento indispensável na educação literária local e foi intensivamente analisado pelos críticos polacos que o viam como o melhor épico da Europa moderna. Ao mesmo tempo, a pessoa de Camões, com a sua vida atribulada e seu "génio incompreendido", tornou-se um ícone exemplar para a geração romântica e nacionalista polaca que se apropriou da sua figura, como disse Kalewska, quase como se fosse um polaco disfarçado, exercendo grande impacto na formação do nacionalismo polaco e sobre sucessivas gerações de escritores do país.<ref>Kalewska, Anna. ''Camoes as a Romantic Hero: Biography as "the model of heroism" in the literature of Romanticism in Poland'']. IN Cieszyńska, Beata Elżbieta. ''Iberian and Slavonic Cultures: Contact and Comparison''. Lisbon: CompaRes, 2007. pp. 27-32</ref> Em 1782 apareceu a primeira tradução alemã, ainda que parcial. A primeira versão integral veio à luz entre 1806 e 1807, trabalho de Herse, e no final da centúria Storck traduziu as suas obras completas e ofereceu um estudo monumental: ''Vida e Obra de Camões'', traduzido para o português por Michaëlis.<ref name="Spina & Bechara, pp. 23-25"/><ref name="De Vries"/>
 
Camões foi uma das mais fortes influências sobre a formação e evolução da [[literatura brasileira]], uma influência que começou a ser efetiva a partir do período barroco, no século XVII, como se constata pelas semelhanças entre ''Os Lusíadas'' e o primeiro épico brasileiro, a ''[[Prosopopeia]]'', de [[Bento Teixeira]], de 1601. As poesias de [[Gregório de Matos]] também foram muitas vezes decalcadas do modelo formal camoniano, embora o seu conteúdo e tom fossem bem outros. Mas Gregório usou [[paródia]]s, colagens, citações diretas e até cópias literais de trechos de vários poemas de Camões para construir os seus. Com Gregório iniciou-se um processo de diferenciação da literatura brasileira em relação à portuguesa, mas não pôde evadir-se de, ao mesmo tempo, preservar muito da tradição camoniana. Durante o [[Arcadismo]] continuou a prática da rutura paralela à recriação e a influência d{{'}}''Os Lusíadas'' aparece nas obras ''[[O Uraguai]]'', de [[Basílio da Gama]], e em ''[[Caramuru (livro)|Caramuru]]'', de frei [[Santa Rita Durão]], dos dois o mais próximo da fonte original, tanto em forma como em visão de mundo. A lírica de [[Cláudio Manuel da Costa]] e [[Tomás Antônio Gonzaga|Tomás António Gonzaga]] também é grandemente devedora de Camões.<ref>[http://books.google.com/books?id=ngtAl9TPXdYC&printsec=frontcover&hl=pt-BR#v=onepage&q&f=false Cavalcante, pp. 221-228]</ref> Maria Martins Dias encontrou influência camoniana também sobre a literatura brasileira contemporânea, citando os casos de [[Carlos Drummond de Andrade]] e [[Haroldo de Campos]].<ref>Dias, Maria Heloísa Martins. [http://www.eventos.uevora.pt/comparada/volume2.htm ''Rotações Poéticas da "Máquina do Mundo": De Camões a Haroldo de Campos'']. IN ''Actas do IV Congresso Internacional da Associação Portuguesa de Literatura Comparada''. Universidade de Évora, 9-12 de maior de 2001. Vol. II, pp. 1-13</ref>
Durante o [[Romantismo]], não só na Polónia, como foi dito, mas em vários países da Europa, Camões foi uma figura simbólica de grande destaque, popularizando-se versões da sua biografia que o retratavam como uma espécie de génio-mártir, com uma vida dificultosa e penalizado ainda mais pela ingratidão de uma pátria que não soubera reconhecer a fama que ele lhe trouxera, sublinhando-se o facto de a sua morte ocorrer no ano em que o país perdia a independência, unindo-se assim o triste destino de ambos.<ref name="Ramos">Ramos, Iolanda Freitas. [http://74.125.155.132/scholar?q=cache:pj1G7WCXzZUJ:scholar.google.com/+camoes+lusiadas&hl=pt-BR&lr=&as_sdt=2000&as_vis=1 ''Imagens Inglesas de Camões'']. IN ''I Congresso Internacional de Estudos Anglo-Portugueses''. Universidade Nova de Lisboa, 2001</ref> Na interpretação de Chaves, a recuperação romântica de Camões constituiu um mito com base tanto na sua biografia como na sua lenda, e cuja obra fundia elementos do belo imaginoso da tradição italiana com o sublime patriótico da tradição clássica, veiculando a partir do início do século XIX ''"uma mensagem liberal de grande dimensão humana... um recriador e um instrumento de uma importante tradição literária antiga, um herói nacional de imutável destino em que no seu mítico percurso existencial tal como na sua obra se projetaram sonhos, esperanças, sentimentos e paixões humanas"''.<ref>[http://74.125.155.132/scholar?q=cache:sKgHGzqUURgJ:scholar.google.com/+%27%27Lu%C3%ADs+Digno+Apolo+e+Digno+Homero&hl=pt-BR&lr=&as_sdt=2000&as_vis=1 Chaves, p. 124]</ref>
 
Durante longo tempo, a maior parte da sua fama repousou apenas sobre ''Os Lusíadas'' mas, nas últimas décadas, a sua obra lírica vem recuperando a alta estima que lhe foi dedicada até ao século XVII. Curiosamente, foi na Inglaterra e nos [[Estados Unidos]] que permaneceu mais viva uma tradição, que remonta ao século XVII, de equilibrar o seu prestígio entre a épica e a lírica, incluindo entre os seus apreciadores, além dos citados Milton e Burton, também [[William Wordsworth]], [[Lord Byron]], [[Edgar Allan Poe]], [[Henry Wadsworth Longfellow|Henry Longfellow]], [[Herman Melville]], [[Emily Dickinson]] e especialmente [[Elizabeth Barrett Browning|Elizabeth Browning]], que foi uma grande divulgadora da sua vida e obra. Foi produzida ainda muita literatura crítica sobre Camões nesses países, bem como várias traduções.<ref>[http://books.google.com/books?id=1DgPTzDOruMC&printsec=frontcover&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1970&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=5#v=onepage&q&f=false Monteiro, pp. 3-6]</ref>
 
O grande interesse pela vida e obra de Camões já abriu espaço para o estabelecimento da Camonologia como uma disciplina autónoma nas universidades, oferecida desde 1924 na Faculdade de Letras de Lisboa e desde 1963 na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da [[Universidade de São Paulo]].<ref>Moraes, Lygia Corrêa Dias de. [http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40141994000300054&script=sci_arttext&tlng=pt ''Filologia e Língua Portuguesa: histórico'']. IN ''Estudos Avançados''. São Paulo: Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, set.-dez. 1994. Vol.8, nº.22</ref><ref>Spina, Segismundo. [http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40141994000300057&script=sci_arttext&tlng=en ''Estudos Camonianos'']. IN ''Estudos Avançados''. São Paulo: Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, set.-dez. 1994. Vol.8, nº.22</ref> Pelo ''Protocolo Adicional ao Acordo Cultural entre o Governo da República Portuguesa e o Governo da República Federativa do Brasil'', em 1986 foi instituído o [[Prémio Camões]], o maior galardão literário dedicado à literatura em língua portuguesa, concedido àqueles autores que tenham contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua. Já receberam o prémio, entre outros, [[Miguel Torga]], [[João Cabral de Melo Neto]], [[Rachel de Queiroz]], [[Jorge Amado]], [[José Saramago]], [[Sophia de Mello Breyner]], [[Lygia Fagundes Telles]], [[António Lobo Antunes]] e [[João Ubaldo Ribeiro]].<ref>[http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugu%c3%aas/premios/Paginas/PremioDetalhe.aspx?PremioId=61 ''Prémio Camões'']. Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, Ministério da Cultura de Portugal</ref> Nos dias de hoje, estudado e traduzido para todas as principais línguas do ocidente e algumas orientais, é praticamente um consenso chamá-lo de um dos maiores literatos do ocidente, ombreando com [[Virgílio]], [[Shakespeare]], [[Dante]], [[Cervantes]] e outros do mesmo quilate e há quem o tome como um dos maiores da história da humanidade.<ref name="De Vries"/><ref name="Ramos"/><ref>Santos, Juliana Oliveira dos. [http://74.125.155.132/scholar?q=cache:N2Mw4ow0RgcJ:scholar.google.com/+camoes+lusiadas&hl=pt-BR&lr=&as_sdt=2000&as_vis=1 ''Camões, o Renascimento e Os Lusíadas'']. IN ''Cadernos do Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos''. Vol. XII, Nº 14, 2009. p. 68</ref> Reunida em Macau em 1999, a Organização Mundial de Poetas homenageou o espírito universalista de Luís de Camões, celebrando-o como um autor que ultrapassou barreiras temporais e nacionais.<ref name="Ramos"/>
 
===Críticas===
Apesar de o mérito artístico de Camões ser largamente reconhecido, a sua obra não ficou imune a críticas. O bispo de [[Viseu]], [[Francisco Alexandre Lobo|D. Francisco Lobo]], acusou-o de jamais haver amado verdadeiramente e, por isso, ter falseado o amor através do embelezamento poético. Para o crítico, o amor ''"não se declara com requebros tão ponderados, e por tão afetado estilo, como ele faz tantas vezes, ou para melhor dizer, como faz em todos esses lugares em que mais pretende engrandecer-se"''.<ref>[http://books.google.com/books?id=PpRcWSCp-jYC&pg=PA45&dq=cam%C3%B5es+amor&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1970&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=7#v=onepage&q=cam%C3%B5es%20amor&f=false Nabuco, p. 46]</ref> [[José Agostinho de Macedo]], na sua obra em dois volumes, ''Censura das Lusiadas'', examinou o poema e expôs o que considerava serem os seus vários defeitos, nomeadamente a nível de plano e acção, mas também erros de métrica e gramática, chegando a afirmar que "''Tiradas do poema as oitavas inúteis, ficava reduzido a cousa nenhuma.''" <ref>Citado em ''Memorias para a vida intima de José Agostinho de Macedo'' (Lisboa, 1899), p. 110.</ref> A seguinte passagem exemplifica bem o estilo da sua crítica: referindo-se à Oitava 14.ª («Nem deixarão meus versos esquecidos / Aqueles que nos Reinos ''lá'' da Aurora / Se fizeram por armas tão subidos...»), José Agostinho escreve: ''"Nesta Oit. 14.ª começa o vergonhoso bordão do—''lá''—que se repete com enjoo a cada página até ao fim do Poema, coisa para que os da seita Camoniana não tem sabido olhar [...] pressupondo sem exame a impecabilidade em um homem."'' <ref>José Agostinho de Macedo, ''Censura das Lusiadas'', Tomo I (Impr. Regia, 1820), p. 26.</ref> [[Robert Southey]] comparou a Ilha dos Amores de Camões a um "bordel flutuante", acrescentando que ''"não há beleza que possa desculpar a licenciosidade."'' <ref>Citado em Adolfo de Oliveira Cabral, ''Southey e Portugal, 1774-1801: aspectos de uma biografia literária'' (P. Fernandes, 1959), p. 83. Ver também ''The Poetical Works of Robert Southey: Complete in One Volume'' (A. and W. Galignani, 1829), p. 2. Frase de Southey no original: "His floating island is but a floating brothel, and no beauty can make atonement for licentiousness."</ref> [[Hegel]], embora elogiando várias qualidades d{{'}}''Os Lusíadas'', criticou a incongruência entre o tema nacionalista e o uso de modelos formais clássicos e italianos, além de apontar uma presença excessiva da voz pessoal do poeta, em várias passagens em que usa a primeira pessoa do singular para tecer uma variedade de comentários, interrompendo o fluxo da ação épica.<ref>[http://books.google.com/books?id=lq8qqV7jLNsC&pg=PT115&dq=%22el+rei+seleuco%22&lr=&as_drrb_is=q&as_minm_is=0&as_miny_is=&as_maxm_is=0&as_maxy_is=&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=11#v=onepage&q=%22el%20rei%20seleuco%22&f=false Alves, p. 118]</ref> [[Cesário Verde]] considerou o "desconcerto" camoniano, um modo errático de ser sujeito no mundo e de estar sujeito no mundo, carregando as penas do mundo sobre os ombros, como um desejo absurdo de sofrer.<ref>Silveira, Jorge Fernandes da. [http://books.google.com/books?id=foTb-QNmSsgC&printsec=frontcover&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1970&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=9#v=onepage&q&f=false ''O Tejo é um rio controverso: António José Saraiva contra Luís Vaz de Camões'']. 7Letras, 2008. p. 20</ref> [[Sérgio Buarque de Holanda]] disse que as cores épicas com que Camões pintou os feitos lusitanos não correspondem tanto a ''"uma aspiração generosa e ascendente"'', mas espelham antes uma retrospeção melancólica da glória extinta que mais desfigurou do que fixou a verdadeira fisionomia moral dos agentes da expansão marítima.<ref>Cardoso, pp. 131-132</ref>
 
[[António José Saraiva]], alinhado às teses do [[marxismo]], lamentou a falta de substância dos seus personagens, que para ele são mais estereótipos do que pessoas reais, não são heróis de carne e osso, e carecem de robustez e vigor. Também criticou que a ação fosse levada adiante sempre por esses heróis, sem que o povo português tivesse qualquer participação. Como disse, ''"o peito ilustre lusitano não passa de uma abstração incapaz de conjuntivar carnalmente as proezas sucessivas dos guerreiros"'', pois falta-lhes caracterização externa e, ao autor, uma visão histórica ampla, reduzindo a História aos feitos de armas. Completou dizendo que Camões não se distanciou suficientemente do ideal cavaleiresco para poder criticá-lo, ''"o que o coloca na situação de aparecer um pouco como um Quixote que faz literatura como o outro investia (contra) os gigantes"'', atestando o seu desajuste em relação à sua época e caindo em contradições ideológicas.<ref>[http://books.google.com/books?id=foTb-QNmSsgC&printsec=frontcover&dq=cam%C3%B5es&lr=&as_drrb_is=b&as_minm_is=0&as_miny_is=1970&as_maxm_is=0&as_maxy_is=2010&as_brr=3&hl=pt-BR&cd=9#v=onepage&q&f=false Silveira, pp. 14-20]</ref> Na mesma linha de ideias, Helgerson viu ''Os Lusíadas'' como uma reafirmação dos valores da [[aristocracia]], atribuindo os méritos da nação a uma só classe social, e considerou o tratamento épico inconsistente com os objetivos gerais da exploração marítima portuguesa, que eram em grande parte puramente comerciais, gerando contradições internas no terreno ideológico e distorcendo os factos históricos.<ref>Helgerson, Richard. [http://books.google.es/books?hl=pt-BR&lr=&id=lOYGlui0UpQC&oi=fnd&pg=PA27&dq=%22camoes%22&ots=P0xf78kEhM&sig=Ru_G6CqMlW96JOerMZjdAqYYN5U#v=onepage&q=%22camoes%22&f=false ''Camões, Hakluyt, and the Voyages of Two Nations'']. IN Dirks, Nicholas B. ''Colonialism and culture''. University of Michigan Press, 1992. pp. 27-36</ref>
Essa tendência atingiu um ponto alto por ocasião das comemorações do tricentenário da morte do poeta, realizadas entre 8 e 10 de junho de 1880. Num momento de crise por que Portugal passava, quando se questionava a legitimidade da [[monarquia]] e se ouviam fortes reivindicações pela [[democracia]], a figura do poeta tornou-se um foco para a causa política e um motivo para reafirmações do valor português contra um pano de fundo ideológico [[positivista]], agregando diferentes segmentos da sociedade, como foi sintetizado nas notícias dos jornais: ''"O Centenário de Camões neste momento histórico, e nesta crise dos espíritos tem a significação de uma revivescência nacional"''... ''"É sublime o acordo entre as conclusões científicas das mais elevadas inteligências da Europa e a intuição da alma popular que encontram em Camões o representante duma literatura inteira e a síntese da nacionalidade"''... ''"Todas as forças vivas da nação se aliavam nesse grande preito à memória do homem cuja alma foi a síntese grandiosa da alma portuguesa"''. Sugestivamente, o comité organizador das festividades intitulou-se "Comité de Salvação Pública". Diversos estudos críticos vieram a luz no momento, incluindo estrangeiros, e a festa nas ruas atraiu enorme público.<ref>Vilela, Mário. [http://books.google.es/books?hl=pt-BR&lr=&id=9gRSVQ7eIQwC&oi=fnd&pg=PA403&dq=%22camoes%22&ots=6OX5xnQdX2&sig=PD5nOsyggUroRVQWNmtlM_0Ndag#v=onepage&q&f=false ''Recepção de Camões nos Jornais de 1880'']. Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985. pp. 406-411</ref><ref name="Sandmann">Sandmann, Marcelo Corrêa. ''As Comemorações do Tricentenário de Camões no Brasil''. IN Revista ''Letras''. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, jan./jun. 2003. Nº 59, pp. 197-205</ref> O tricentenário foi comemorado no Brasil com entusiasmo semelhante, com publicação de estudos e cerimónias em muitas cidades, transbordando os círculos intelectuais, e tornou-se um pretexto para um estreitamento das relações entre os dois países.<ref name="Sandmann"/> Em vários outros países a data foi noticiada e comemorada.<ref name="Ramos"/>
 
Durante o [[Estado Novo (Portugal)|Estado Novo]] essa ideologia não foi muito modificada na essência, mas sim na forma de interpretação. O vate e a sua obra-prima tornaram-se instrumentos propagandísticos de consolidação do Estado e passou-se a divulgar então uma ideia de que Camões era não apenas um símbolo nacional, mas um símbolo cujo significado era tão particular à sensibilidade portuguesa que só poderia ser compreendido pelos próprios portugueses. A ironia é que esta abordagem gerou efeitos contrários imprevistos, e aquele mesmo estado, especialmente após a [[Segunda Guerra Mundial]], queixava-se de que a comunidade internacional não entendia Portugal.<ref name="Ronald"/>
 
Três anos depois da [[Revolução de abril]] de 1974 Camões foi associado publicamente às comunidades portuguesas de além-mar, tornando-se a data de sua morte o "Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas", no intuito de dissolver a imagem de Portugal como um país colonizador e se criar um novo senso de identidade nacional que englobasse os muitos emigrantes portugueses espalhados pelo mundo. Essa nova ideologia foi reafirmada nos anos 80 com a publicação de ''Camões e a Identidade Nacional'', um volume elaborado pela Imprensa Nacional contendo declarações de importantes figuras públicas da nação. A sua condição de símbolo nacional permanece nos dias de hoje, e outra evidência do seu poder como tal foi a transformação, em 1992, do Instituto de Língua e Cultura Portuguesa em [[Instituto Camões]], que passou da administração do [[Ministério da Educação (Portugal)|Ministério da Educação]] para a do [[Ministério dos Negócios Estrangeiros]].<ref>[http://books.google.es/books?hl=pt-BR&lr=&id=MF3-aXfWnBwC&oi=fnd&pg=PA53&dq=%22camoes%22&ots=GivHCWUp_C&sig=n4bPJZ7TdxFXYIEWbFPU3QzuEFY#v=onepage&q=%22camoes%22&f=false Freeland, pp. 52-53]</ref>
 
Tendo influenciado a evolução da literatura portuguesa desde o século XVII, Camões continua a ser uma referência para muitos escritores contemporâneos, tanto em termos de forma e conteúdo como se tornando ele mesmo um personagem em outras produções literárias e dramatúrgicas.<ref name="Jesus"/> [[Vasco Graça Moura]] considera-o o maior vulto de toda a história portuguesa, por ter sido o fundador da língua portuguesa moderna, por ter como ninguém compreendido as grandes tendências do seu tempo, e por ter conseguido dar forma, através da palavra, a um senso de identidade nacional e erguer-se à condição de [[símbolo]] dessa identidade, transmitindo uma mensagem que se mantém viva e atual.<ref>Moura, Vasco Graça. [http://www.institutosacarneiro.pt/archive/doc/Vasco_Graca_Moura.pdf ''Jantar-Conferência com Vasco Graça Moura'']. Instituto Francisco Sá Carneiro, 2007. p. 9</ref> E como afirmou Iolanda Ramos,
 
::''"O nome do poeta surge como um símbolo da união do mundo lusófono. Nesta medida, ganha lugar de destaque a acção exercida pelo Instituto Camões que, em Portugal tal como no estrangeiro, mantém vivo o nome desta figura ímpar e sublinha o elo que a une a outras personalidades nossas contemporâneas. O simples vínculo do nome de Camões a autores consagrados da língua portuguesa, como Miguel Torga, [[Vergílio Ferreira]], José Saramago, [[Eduardo Lourenço]] e Sophia de Mello Breyner Andresen incentiva, por sua vez, os mais curiosos a informarem-se sobre o poeta que dá nome ao Prémio (Prémio Camões) outorgado todos os anos desde 1989"''.<ref name="Ramos"/>
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