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[[Ficheiro:Hyghalmen Roll Late 1400s.jpg|thumb|280px|Exemplo de brasões.]]
 
{{Elementos de um brasão}}
 
==História e significado==
[[File:Bodl Canon.Misc.378 roll159B frame28.jpg|thumb|left|180px|Emblemas em escudos romanos, registrados na ''[[Notitia Dignitatum]]'', uma cópia<br><small>Cópia medieval de um documento romano.</small>]]
[[Ficheiro:Geoffrey of Anjou Monument.jpg|thumb|left|180px|Godofredo de Anjou com suas armas.]]
 
As origens da heráldica se perdem no tempo e são hoje bastante controversas, mas um panorama evolutivo geral foi bem estabelecido. Desde a [[pré-história]] a humanidade dedicou-se a criar imagens [[símbolo|simbólicas]], que transmitissem informações através de formas plásticas. Isso se revela no mundo da arte, e também na heráldica. Primeiro, acredita-se, surgiram sinais simples, mais tarde evoluindo para composições complexas, abstratas ou figurativas, ou mesclando elementos de ambas.<ref name="Davies"/><ref name="Marquês">O Marquês de Abrantes. ''Introdução ao Estudo da Heráldica''. Série Biblioteca Breve, vol. 27. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992</ref><ref name="Campos">Campos, Nuno C. J. ''Património e Simbologia: os casos de Silves e Faro''. Dissertação de Mestrado. Universidade Aberta, 2007, p. 4-23</ref>
Com a aceitação em larga escala das regras de heráldica, com sua associação principal com a elite (onde se incluíam a [[nobreza]] e o alto [[clero]]), as instituições e os Estados, e com sua importância em termos de hereditariedade, surgiu a necessidade de legalizar e controlar os brasões concedidos e eliminar as repetições ou usurpações. Assim começaram a aparecer os [[rei de armas|reis de armas]], arautos ou heraldos, altos funcionários régios que se responsabilizavam pelo registro dos brasões em listas ou catálogos oficiais e pelo próprio desenho de novas armas. Para Adrian Frutiger "o termo heráldica provém da palavra ‘heraldo’, que na Idade Média desempenhava [...] a função de diplomata”. Na interpretação de Gabriel Eysenbach, os arautos de armas "ocupavam-se de tudo o que estivesse relacionado com a heráldica, à qual deram o seu nome; participavam nas cerimônias de casamento, coroação e funeral dos reis; entregavam as declarações de guerra; estabeleceram as formalidades dos torneios e das batalhas, além de fazerem os avisos aos comandantes das cidades sitiadas".<ref name="Nogueira"/>
 
No entanto, apesar da aceitação das regras gerais, houve sempre muitas variações regionais e cronológicas em seu uso, e em certos países essa regulamentação teve, por muito tempo, pouca efetividade.<ref name="Davies"/> Na Germânia e nos Países Baixos, por exemplo, na [[Idade Média]] o principal controle oficial parece ter sido no sentido de impedir usurpações de insígnias já existentes, e mesmo camponeses podiam criar e adotar um brasão para si e suas famílias, tornando-=se um costume de ampla penetração social. Já na França, Itália e algumas outras regiões o uso de brasões entre plebeus foi bem mais raro, mas a heráldica em si conhecia a mesma popularidade: era uma língua franca continental. Diz Nogueira que "no início do século XIII o uso de brasões já se encontrava disseminado pelo continente europeu. Se inicialmente o brasão pertencia a alguns grupos militarizados, em menos de um século, o seu uso propagou-se por todos os estratos sociais. Os brasões tornaram-se hereditários, como um bem de família, 'sem falar dos municípios, das igrejas e de diversas corporações [que] utilizavam esta distinção' (Labitte, 1872 : 2). Por volta de 1350 toda a sociedade ocidental, incluindo as classes agrícolas, os utilizava e a partir do século XV os brasões invadem o quotidiano como símbolos de identificação".<ref name="Nogueira"/>
[[Ficheiro:Livro do Armeiro-Mor, Carlos Magno.jpg|thumb|[[Carlos Magno]] e suas armas no ''Livro do Armeiro-Mor''.]]
 
A heráldica tornou-se um elemento típico da cultura europeia, e enquanto a monarquia foi a forma de governo predominante, adquiriu grande importância política e social. Possuir um brasão era a confirmação simbólica do prestígio e poder da família ou do indivíduo, e não admira, desta forma, que em muitos países houvesse extensa legislação para proteger e controlar a concessão e exibição pública de armas. Em seu apogeu, que perdurou até o século XIX, os heraldistas se multiplicaram e passaram a competir em erudição, compilando extensos tratados sobre variados aspectos contidos nos brasões. Neste ímpeto, foram atribuídas armas imaginárias até mesmo a personagens da Antiguidade, como [[Adão]], [[Júlio César]] e [[Jesus]], que não as tinham, e nem a heráldica naquele tempo remoto existia. Também foram produzidos neste período florescente numerosos e importantes catálogos de brasões, os [[armorial|armoriais]] ou blasonários, alguns deles com ilustrações da mais alta qualidade estética, a exemplo do ''[[Livro do Armeiro-Mor]]'', português.<ref name="Marquês"/><ref name="Campos"/><ref name="Seixas">Seixas, Miguel Metelo de. [https://lerhistoria.revues.org/1218 "As insígnias municipais e os primeiros armoriais portugueses: razões de uma ausência"]. In: ''Ler História'', 2010 (58):155-179</ref>
 
Na virada do século XIX para o século XX, período em que muitas monarquias europeias foram extintas, as pompas e símbolos associados à nobreza caíram em desuso e se tornaram até certo ponto objeto de ridículo. Por outro lado, em alguns domínios a heráldica sobreviveu sem grandes traumas às transformações republicanas, como na armaria eclesiástica, cívico-estatal e institucional, que de fato ganharam um novo impulso no século XX, disseminando-se por todo o mundo.<ref name="Marquês"/><ref name="Campos"/><ref name="Seixas"/>
== As regras da Heráldica ==
=== Escudo e lisonja ===
O foco da heráldica moderna é o [[brasão]], ou [[cota de armas]], cujo elemento central é o [[Escudo (heráldica)|escudo]].<ref>William Whitmore. ''The Elements of Heraldry''. (Weathervane Books, New York: 1968), p.9.</ref> Em geral, a forma do escudo empregado numa cota de armas é pouco relevante, porque as formas de escudo que foram apropriadas pela arte heráldica evoluíram através dos séculos, mas é claro que há ocasiões em que um brasão especifica um formato particular de escudo. Estas especificações ocorrem principalmente fora do contexto europeu, como na cota de armas de [[Nunavut]] (imagem disponível em [[:en:Coat of arms of Nunavut]])<ref>Governo de Nunavut. n.d. ''About the Flag and Coat of Arms''. Governo de Nunavut, Iqaluit, NU, Canada. Accessado em 05 de Maio de 2009. Disponível [http://www.gov.nu.ca/english/about/symbols.shtml aqui]</ref> e na antiga [[Bophuthatswana|República de Bophuthatswana]],<ref>Hartemink R. 1996. Heráldica cívica da África do Sul - Bophuthatswana. Ralf Hartemink, Países Baixos. Accessado em 05 de Maio de 2009. Disponível [http://www.ngw.nl/int/zaf/prov/bophutsw.htm aqui]</ref> com o exemplo ainda mais insólito da [[Dakota do Norte]],<ref>[http://usheraldicregistry.com/pmwiki.php?n=Registrations.20060825L Registro Heráldico Norte-Americano (em inglês)]</ref> enquanto o Estado de [[Connecticut]] especifica um escudo "[[rococó]]".<ref>[http://americanheraldry.org/pages/index.php?n=State.Connecticut Sociedade Americana de Heráldica - Armas de Connecticut (em inglês)]</ref> — a maioria fora do contexto europeu, mas não todos: costam dos registros públicos escoceses um escudo oval, da ''Lanarkshire Master Plumbers' and Domestic Engineers' (Employers') Association'', e um escudo quadrado, da organização ''Anglo Leasing''.
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Imagem:Coat of Arms of North Dakota.svg|Escudo do estado de [[Dakota do Norte]]
São as seguintes as formas tradicionais dos escudos:
# Escudo clássico ou [[França|francês]] antigo
# [[Escudo francês moderno]], [[somático]] ou [[samnítico]]
# Escudo [[oval]] ou do [[clero]]
# Escudo em [[losango]], feminino ou lisonja
| align="center" | ''[[Purpure]]''<br />[[Ficheiro:Heraldic Shield Purpure.svg|80px]]
| align="center" | ''[[Or (heráldica)|Jalde]]'' ou ''[[Or (heráldica)|Or]]''<br />[[Ficheiro:Heraldic Shield Or.svg|80px]]
| align="center" | ''[[ArgentArgento (heráldica)|ArgenteArgento]]''<br />[[Ficheiro:Heraldic Shield Argent.svg|80px]]
| align="center" | ''[[Arminho (heráldica)|Arminho]]''<br />[[Ficheiro:Blason region fr Bretagne.svg|80px]]
| align="center" | ''[[Veiro]]''<br />[[Ficheiro:Vair plain.svg|80px]]<br />
Esmaltes são as cores usadas na heráldica, embora haja certos padrões, chamados ''[[Esmalte (heráldica)#Peles|peles]]'', e representações de figuras em suas cores naturais, ou ''da sua cor'' (distintas das cores representáveis), que também são tratados como esmaltes. Como a heráldica é, em sua essência, um sistema de identificação, a convenção heráldica mais importante é a regra da contrariedade das cores ([[:fr:Règle de contrariété des couleurs]], [[:en:Rule of tincture]]): em prol do contraste e da visibilidade, metais (que geralmente são esmaltes mais claros) nunca devem ser postos sobre metais, e cores (que geralmente são esmaltes mais escuros) nunca devem ser postos sobre cores. Quando uma [[Figuras do escudo (heráldica)|figura]] sobrepõe uma parte do fundo do escudo, a regra não se aplica. Há também outras exceções — sendo a mais famosa a das armas do [[Reino de Jerusalém]], que consistem numa cruz de ouro em fundo prata.<ref>Bruno Heim. ''Or and Argent'' (Gerrards Cross, Buckingham: 1994).</ref>
 
Os nomes usados na brasonaria lusófona para as cores e metais provêm principalmente do francês. Os mais comuns são [[Or (heráldica)|Jalde]] ou [[Or (heráldica)|Or]] (ouro), [[ArgentArgento (heráldica)|ArgenteArgento]] (prata), [[Azure (heráldica)|Blau]] ou [[Azure (heráldica)|Azure]] (azul), [[Gules]] (vermelho), [[Sable (heráldica)|Sable]] (preto), [[Vert (heráldica)|Sinopla]] ou [[Vert (heráldica)|Vert]] (verde) e [[Purpure]] (púrpura). Outras cores são utilizadas ocasionalmente, normalmente para finalidades especiais.<ref>Michel Pastoureau. ''Heraldry: An Introduction to a Noble Tradition''. (Henry N Abrams, London: 1997), 47.</ref>
 
Certos padrões chamados ''peles'' podem aparecer num brasão, e são (de modo um tanto arbitrário) classificados como esmaltes. As duas peles comuns são o [[Arminho (heráldica)|Arminho]] e o [[Veiro]]. O Arminho representa a pelagem hibernal do [[arminho]] (branca com a cauda preta). O veiro representa um tipo de esquilo que tem o dorso azulado e o ventre branco. Costuradas lado a lado, formam um padrão alternado de formas azuis e brancas.<ref>Thomas Innes of Learney. ''Scots Heraldry'' (Johnston & Bacon, London: 1978), 28.</ref>
==== Partições do escudo ====
[[Ficheiro:Divisions of the field-notext.png|thumb|right|200px|Partições do escudo]]
{{Artigo principal|[[Partições do escudocampo (heráldica)]]}}
 
O campo de um [[escudo (heráldica)|escudo]], na heráldica, pode ser dividido em mais de um [[esmalte (heráldica)|esmalte]]; do mesmo modo as várias [[figuras do escudo (heráldica)|figuras do escudo]]. Muitas cotas de armas consistem simplesmente de uma divisão do escudo em dois esmaltes contrastantes. Como estas são consideradas partições do escudo, a regra da contrariedade das cores pode ser ignorada. Por exemplo, um escudo dividido em partições azure e goles seria perfeitamente aceitável. A linha que divide o escudo em partições pode ser reta ou seguir padrões — serrilhados, ondulados, dentados, ou diversos outros.<ref>Stephen Friar and John Ferguson. ''Basic Heraldry''. (W.W. Norton & Company, New York: 1993), 148.</ref>
 
As variações de pintura seguem certos padrões de esmaltes, bem como as partições do escudo. As partições mais comuns resultam num escudo:
 
==== Figuras ====
{{Artigo principal|[[Figuras do escudo (heráldica)]]}}
Uma figura é um objeto aposto num escudo heráldico ou em qualquer outro objeto de uma composição armorial.<ref>John Brooke-Little. ''Boutell's Heraldry''. (Frederick Warne & Company, London: 1973), 311.</ref> Qualquer coisa encontrada na natureza ou na tecnologia pode aparecer num armorial como uma figura heráldica. Figuras podem ser animais, objetos ou formas geométricas. As figuras mais frequentes são a [[Cruz (símbolo)#Na heráldica|cruz]], com suas centenas de variações, o [[leão (heráldica)|leão]] e a [[águia (heráldica)|águia]]. Outros animais comuns são o alce, o javali, a [[merleta]] e o peixe. Dragões, morcegos, unicórnios, grifos e criaturas ainda mais exóticas aparecem tanto como figuras quanto como [[suporte (heráldica)|suportes]].
 
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