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==História e significado==
 
===Origens===
[[File:Bodl Canon.Misc.378 roll159B frame28.jpg|thumb|left|180px|Emblemas em escudos romanos, registrados na ''[[Notitia Dignitatum]]''<br><small>Cópia medieval de um documento romano</small>]]
[[File:Imperial Seal of Japan.svg|thumb|left|180px|O [[Selo Imperial do Japão|Crisântemo Dourado]] é o emblema da [[Casa Imperial do Japão]].]]
[[Ficheiro:Geoffrey of Anjou Monument.jpg|thumb|left|180px|Godofredo de Anjou com suas armas]]
 
As origens da heráldica se perdem no tempo e são hoje bastante controversas, mas um panorama evolutivo geral foi bem estabelecido. Desde a [[pré-história]] a humanidade dedicou-se a criar imagens [[símbolo|simbólicas]], que transmitissem informações através de formas plásticas. Isso se revela no mundo da arte, e também na heráldica. Primeiro, acredita-se, surgiram sinais simples, mais tarde evoluindo para composições complexas, abstratas ou figurativas, ou mesclando elementos de ambas.<ref name="Davies"/><ref name="Marquês">O Marquês de Abrantes. ''Introdução ao Estudo da Heráldica''. Série Biblioteca Breve, vol. 27. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992</ref><ref name="Campos">Campos, Nuno C. J. ''Património e Simbologia: os casos de Silves e Faro''. Dissertação de Mestrado. Universidade Aberta, 2007, p. 4-23</ref>
O uso desses elementos na [[Antiguidade]] foi amplamente disseminado. Escudos de guerreiros, estandartes processionais e emblemas encontrados no Egito, na Pérsia, na Grécia e Roma, entre outros lugares, costumavam apresentar desenhos identificadores. O falcão de [[Hórus]], protetor dos [[faraó]]s, o [[leão de Judá]], identificador da tribo hebraica, e a [[águia de Roma]], representando o poder imperial, são exemplos famosos, mas pouco se sabe sobre as regras de aplicação dessas decorações e seus significados precisos.<ref name="Davies">Fox-Davies, Arthur Charles. [https://en.wikisource.org/wiki/Index:A_Complete_Guide_to_Heraldry.djvu ''A Complete Guide to Heraldry'']. T. C. & E. C. Jack, 1909</ref><ref name="Campos"/>
 
A prática da Antiguidade não pode ser caracterizada como heráldica no senso mais estrito da palavra, embora esteja em sua raiz e em essência almeje os mesmos objetivos. Como hoje é conhecida, a heráldica se articulou lentamente na Europa medieval, consolidando-se em torno do século XII, padronizando usos regionais diferenciados através de uma série de regras que no geral ainda se mantém em vigor, servindo como um identificador de pessoas, famílias, lugares, nações, e expondo publicamente conquistas, ideologias, valores, dignidades, pertencimentos e ligações de parentesco.<ref name="Davies"/><ref name="Marquês"/><ref name="Campos"/><ref name="Nogueira"/> Da mesma forma, povos indígenas de várias partes do mundo, ou culturas muito antigas e sofisticadas como a japonesa e a árabe, desenvolveram sistemas de simbolismos visuais que de muitas maneiras são comparáveis à heráldica europeia, tanto nas formas de codificação da linguagem como no uso e na ampla difusão, mas produzindo emblemas e signos que para os ocidentais parecem decididamente exóticos e não-familiares.<ref name="Davies"/>
 
Tradicionalmente considerava-se que teria se originado da necessidade dos guerreiros serem identificados facilmente em campo de batalha, mas essa opinião foi em parte desacreditada, uma vez que os escudos pintados só podem ser lidos claramente a uma distância pequena. Além disso, registros primitivos apontam que em seus inícios os mesmos guerreiros podiam usar, conforme a ocasião, diferentes emblemas em seus escudos e bandeiras. Isso é bem exemplificado na [[Tapeçaria de Bayeux]] (c. 1070), que retrata a [[conquista normanda da Inglaterra]], onde os guerreiros trazem seus escudos com vários símbolos heráldicos, mas seu uso não é consistente e não foram herdados pelos descendentes daqueles guerreiros. Ao que parece, em vez, é que os brasões tinham uso mais eficiente não nas guerras, mas nos torneios e justas de [[cavalaria]], realizados dentro de um espaço limitado e bem ao alcance da leitura pelo público.<ref name="Davies"/><ref name="Marquês"/><ref name="Campos"/>
 
===Consolidação===
[[Ficheiro:Geoffrey of Anjou Monument.jpg|thumb|left|180px|Godofredo de Anjou com suas armas]]
 
Uma das primeiras representações conhecidas a empregar símbolos heraldicamente está na tumba de [[Godofredo V, Conde de Anjou]], que carrega um escudo de campo azul com leões rampantes, que teria sido concedido por [[Henrique I de Inglaterra|Henrique I]] em 1128, e depois herdado pela descendência do conde.<ref name="Davies"/> Outra representação primitiva é o selo de [[Canuto VI da Dinamarca]], depois usado como símbolo da [[Casa de Estridsen]].<ref>Bartholdy, Nils G. ''Danmarks Våben og Krone''. Kultur Ministeriet, 1995, p. 16</ref> Em Portugal estão entre os primeiros exemplos os escudos da [[Casa de Sousa|linhagem dos Sousões]] encontrados no Claustro de [[Dom Dinis]] do [[Mosteiro de Alcobaça]].<ref name="Marquês"/>
 
Com a aceitação em larga escala das regras de heráldica, com sua associação principal com a elite (onde se incluíam a [[nobreza]] e o alto [[clero]]), as instituições e os Estados, e com sua importância em termos de hereditariedade, prestígio e estatuto social — brasões foram e são considerados parte do patrimônio do ente contemplado e parte de sua imagem pública —, surgiu a necessidade de legalizar e controlar os brasões concedidos e eliminar as repetições ou usurpações.<ref name="Davies"/><ref name="Campos"/> Assim começaram a aparecer os [[rei de armas|reis de armas]], arautos ou heraldos, altos funcionários régios que se responsabilizavam pelo registro dos brasões em listas ou catálogos oficiais e pelo próprio desenho de novas armas. Para Adrian Frutiger "o termo heráldica provém da palavra ‘heraldo’, que na Idade Média desempenhava [...] a função de diplomata”. Na interpretação de Gabriel Eysenbach, os arautos de armas "ocupavam-se de tudo o que estivesse relacionado com a heráldica, à qual deram o seu nome; participavam nas cerimônias de casamento, coroação e funeral dos reis; entregavam as declarações de guerra; estabeleceram as formalidades dos torneios e das batalhas, além de fazerem os avisos aos comandantes das cidades sitiadas".<ref name="Nogueira"/>
 
No entanto, apesar da aceitação das regras gerais, houve sempre muitas variações regionais e cronológicas em seu uso, e em certos países essa regulamentação teve, por muito tempo, pouca efetividade.<ref name="Davies"/> Na Germânia e nos Países Baixos, por exemplo, na [[Idade Média]] o principal controle oficial parece ter sido no sentido de impedir usurpações de insígnias já existentes, e mesmo camponeses podiam criar e adotar um brasão para si e suas famílias, tornando-se um costume de ampla penetração social. Já na França, Itália e algumas outras regiões o uso de brasões entre plebeus foi bem mais raro, mas a heráldica em si conhecia a mesma popularidade: era uma língua franca continental. Diz Nogueira que "no início do século XIII o uso de brasões já se encontrava disseminado pelo continente europeu. Se inicialmente o brasão pertencia a alguns grupos militarizados, em menos de um século, o seu uso propagou-se por todos os estratos sociais. Os brasões tornaram-se hereditários, como um bem de família, 'sem falar dos municípios, das igrejas e de diversas corporações [que] utilizavam esta distinção' (Labitte, 1872 : 2). Por volta de 1350 toda a sociedade ocidental, incluindo as classes agrícolas, os utilizava e a partir do século XV os brasões invadem o quotidiano como símbolos de identificação".<ref name="Nogueira"/>
[[FicheiroFile:LivroLDAM do(f. Armeiro-Mor,004v) Carlos Magno, Imperador.jpg|thumb|[[Carlos Magno]] e suas armas no ''Livro do Armeiro-Mor'']]
 
A heráldica tornou-se um elemento típico da cultura europeia, e enquanto a monarquia foi a forma de governo predominante, adquiriu grande importância política e social. Possuir um brasão era a confirmação simbólica do prestígio e poder da família ou do indivíduo, e não admira, desta forma, que em muitos países houvesse extensa legislação para proteger e controlar a concessão e exibição pública de armas. Em seu apogeu, que perdurou até o século XIX, os heraldistas se multiplicaram e passaram a competir em erudição, compilandoescrevendo extensos tratados sobre variados aspectos contidos nos brasões. Neste ímpeto, foram atribuídas armas imaginárias até mesmo a personagens da Antiguidade, como [[Adão]], [[Júlio César]] e [[Jesus]], que não as tinham, e nem a heráldica naquele tempo remoto existia. Também foram produzidos neste período florescente numerosos e importantes catálogos de brasões, os [[armorial|armoriais]] ou blasonários, alguns deles com ilustrações da mais alta qualidade estética, a exemplo do ''[[Livro do Armeiro-Mor]]'', português.<ref name="Marquês"/><ref name="Campos"/><ref name="Seixas">Seixas, Miguel Metelo de. [https://lerhistoria.revues.org/1218 "As insígnias municipais e os primeiros armoriais portugueses: razões de uma ausência"]. In: ''Ler História'', 2010 (58):155-179</ref> Contudo, como antigamente os critérios de pesquisa histórica eram outros, foram cometidos muitos erros factuais nesses armoriais. O problema é que, segundo Fox-Davies, os autores antigos foram em regra considerados autoridades quase infalíveis, uma crença que os estudiosos do século XIX, empenhados em uma abordagem mais científica, começaram a mostrar ser desprovida de fundamento.<ref name="Davies"/>
 
===Atualmente===
Na virada do século XIX para o século XX, período em que muitas monarquias europeias foram extintas, as pompas e símbolos associados à nobreza caíram em desuso e se tornaram até certo ponto objeto de ridículo. Por outro lado, em alguns domínios a heráldica sobreviveu sem grandes traumas às transformações republicanas, como na armaria eclesiástica, cívico-estatal e institucional, que de fato ganharam um novo impulso no século XX, disseminando-se por todo o mundo.<ref name="Marquês"/><ref name="Campos"/><ref name="Seixas"/>
 
Ao mesmo tempo, nas décadas recentes a heráldica verdadeiramente se popularizou junto ao cidadão comum, ocorrendo uma forte onda de [[revivalismo]] e a multiplicação exponencial de novos brasões, entrando com força na [[cultura de massa]] e associando-se à nova cultura do [[logotipo]], da sinalização e da [[marca registrada]] comercial. Na esteira deste fenômeno, muitas vezes não são observadas as regras tradicionais, que têm uma significativa complexidade, ou sequer essas regras são conhecidas pelo público leigo, que tem adotado brasões desenhados de todas as formas imagináveis. Inexistindo alçadas regulamentadoras do uso de armas em países republicanos, qualquer pessoa pode adotar um brasão, e a diversidade e irregularidade têm sido a tônica, mas nas atuais monarquias há instituições que fiscalizam o campo dos brasões. Paralelamente a isso, proliferam pseudo-autoridades, instituições e websites que prometem pesquisas e levantamentos "científicos" mas na verdade enganam seus clientes com dados falsificados ou fantasiosos, enquanto estudiosos sérios lutam para revalorizar corretamente esta antiga arte.<ref name="Marquês"/><ref name="Nogueira">Nogueira, Sónia Patrícia Marques. [https://ubibliorum.ubi.pt/bitstream/10400.6/1563/1/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20S%C3%B3nia%20Patr%C3%ADcia%20_%20Do%20bras%C3%A3o%20%C3%A0%20Marca.pdf ''Tradição e Inovação na Identidade Visual dos Municípios Portugueses: Do Brasão à Marca'']. Dissertação. Universidade da Beira Interior, 2012</ref>
 
===Valor===
Mais do que uma arte e uma antiga tradição, a heráldica é hoje considerada academicamente uma valiosa auxiliar da ciência, e seu estudo permite desvendar importante conhecimento sobre costumes, sociedade, política, história, [[iconografia]], [[genealogia]] e outros campos do saber.<ref name="Marquês"/><ref name="Campos"/> Definida tradicionalmente como "a arte dos brasões", é bem mais larga do que isso e tem muitas definições entre os estudiosos. Joel Serrão, por exemplo, no ''Dicionário de História de Portugal'', a descreve como "uma ciência e uma arte que estuda, ordena e elabora os símbolos ou ‘marcas’ da personalidade singular ou colectiva, moral ou territorial". Sónia Patrícia Nogueira ofereceu uma abrangente descrição:
[[File:Ede Ravenscroft Burlington Gardens CoA Queen.jpg|thumb|O brasão do Reino Unido, que é o mesmo de [[Elizabeth II]] como rainha.]]
A heráldica floresceu por longos séculos com imenso prestígio, e depois de um período de declínio, recentemente voltou a ser popular. Analisando o caso do [[Reino Unido]], cuja heráldica nobiliárquica é famosa em todo o mundo e ainda é sujeita ao controle oficial, disse Fox-Davies: "Seria uma tolice e um erro afirmar que a posse de um brasão de armas nos dias de hoje tenha perdido toda a dignidade que lhe foi associada nos dias de antigamente". Isso porque foi sempre associada a prestígio, poder e status, um costume que tem raízes muito antigas e solidamente cravadas no imaginário e na cultura da nação, que se formou sobre os fundamentos do [[feudalismo]], um sistema de [[domínio]] e [[servidão]]. Nestes reinos muitas foram as leis emitidas regulando a concessão e uso dos brasões, mas seu fascínio e seu apelo à vaidade eram tantos que a população plebeia não podia evitar adotar os seus próprios. Periodicamente novos decretos mandatavam buscas pelo interior para verificar se alguma pessoa não autorizada oficialmente estava usando armas em público. Em muitos outros países a sociedade se organizou da mesma maneira, desenvolvendo costumes similares.<ref name="Davies"/> Fox-Davies complementa:
 
::"A glória de descender de uma antiga linhagem de ancestrais armígeros, a glória e o orgulho racial inseparavelmente entrelaçados com a herança de um sobrenome famoso, o fato de que algumas armas foram concedidas para comemorar algum feito heroico, o fato de que a exibição de um brasão tem sido o método pelo qual a sociedade mostra ao mundo que tal sujeito pertence à elite ou a uma família que gerou herois, o fato de que as próprias armas são uma prova material de uma descendência ou de um status particular, [...] e justamente porque eram prerrogativas e sinais da aristocracia, eram tão cobiçosamente desejadas, e por conseguinte, tão frequentemente adotadas sem direito".<ref name="Davies"/>
[[File:Fl- 27v Livro da Nobreza e Perfeiçam das Armas.jpg|thumb|Brasões do ''[[Livro da Nobreza e Perfeiçam das Armas]]'', famoso armorial português.]]
Mais do que um sinal de separação e distinção social em culturas elitistas, mais do que uma arte e uma antiga tradição, a heráldica é hoje considerada academicamente uma valiosa auxiliar da ciência, e seu estudo permite desvendar importante conhecimento sobre costumes, sociedade, política, história, [[iconografia]], [[genealogia]] e outros campos do saber.<ref name="Marquês"/><ref name="Campos"/> Definida tradicionalmente como "a arte dos brasões", é bem mais larga do que isso e tem muitas definições entre os estudiosos. Joel Serrão, por exemplo, no ''Dicionário de História de Portugal'', a descreve como "uma ciência e uma arte que estuda, ordena e elabora os símbolos ou ‘marcas’ da personalidade singular ou colectiva, moral ou territorial". Sónia Patrícia Nogueira ofereceu uma abrangente descrição:
 
::"A importância da heráldica é evidente. Nas áreas da identificação e da cronologia é um precioso auxiliar de investigação. Como núcleo de símbolos gráficos é um contributo irrefutável para a história, os estudos da simbólica e a história da arte. Eysenbach (1848 : 2) afirma que a heráldica é realmente 'uma ciência com grande importância social, que tinha as suas leis designadas leis de armas [exigindo-se] dos reis [...] o exercício público desta ciência. De linguagem misteriosa, [...] de utilização universal, [...] ela era a pedra basilar do edifício feudal'. A sua simbologia detém uma concepção religiosa e guerreira, evidente na Idade Média considerando o objectivo dos escudos, e uma função social, patente na questão da identificação, quase sempre relacionada com a linhagem e a importância civil. Mas embora a heráldica de família seja a heráldica propriamente dita, ela estendeu-se, ao longo do tempo, a outros campos, como a heráldica eclesiástica, real, de corporação militar, de domínio, comercial, desportiva, entre muitas outras áreas, sendo amplo o seu campo de acção e múltiplas as suas subdivisões. [...]