Abrir menu principal

Alterações

7 258 bytes removidos ,  22h41min de 25 de outubro de 2017
}}
<!-- Definição e usos médicos -->
A '''cetamina''', vendida sob a denominação comercial '''Ketalar''', por exemplo, é uma [[Medicamento|medicação]] utilizada principalmente para induzir e manter a [[anestesia]].<ref name=KetPres2013/> A substância induz um estado de [[transe]], proporcionando [[Analgésico|alívio da dor]], [[sedação]] e [[Amnésia|perda de memória]].<ref name="GreenRoback2011"/> Outros usos incluem alívio de [[Dor crônica|dor crónica]] e sedação nos [[Medicina intensiva|cuidados intensivos]].<ref>{{citar periódico|último1 =Zgaia|primeiro1 =AO|último2 =Irimie|primeiro2 =A|último3 =Sandesc|primeiro3 =D|último4 =Vlad|primeiro4 =C|último5 =Lisencu|primeiro5 =C|último6 =Rogobete|primeiro6 =A|último7 =Achimas-Cadariu|primeiro7 =P|título=The role of ketamine in the treatment of chronic cancer pain.|periódico=Clujul medical (1957)|data=2015|volume=88|número=4|páginas=457–61|pmid=26733743|doi=10.15386/cjmed-500|pmc=4689236}}</ref><ref>{{citar periódico|último1 =Zapantis|primeiro1 =A|último2 =Leung|primeiro2 =S|título=Tolerance and withdrawal issues with sedation.|periódico=Critical care nursing clinics of North America|data=Setembro de 2005|volume=17|número=3|páginas=211–23|pmid=16115529|doi=10.1016/j.ccell.2005.04.011}}</ref> A função cardíaca, a respiração e reflexos das vias respiratórias, geralmente, permanecem em funcionamento.<ref name="GreenRoback2011">{{citar periódico|último1 = Green |primeiro1 = SM |último2 = Roback |primeiro2 = MG |último3 = Kennedy |primeiro3 = RM |último4 = Krauss |primeiro4 = B |título= Clinical Practice Guideline for Emergency Department Ketamine Dissociative Sedation: 2011 Update |periódico= [[Annals of Emergency Medicine]] |volume= 57 |número= 5 |ano= 2011 |páginas= 449–61 |pmid= 21256625 |doi= 10.1016/j.annemergmed.2010.11.030 |url= http://www.annemergmed.com/article/S0196-0644%2810%2901827-5/fulltext}}</ref> Os efeitos normalmente têm início dentro de cinco minutos quando administrado por injecção e os principais efeitos analgésicos duram até 25 minutos.<ref name=Mary2014/><ref name=KetPres2013/>
 
<!-- Efeitos adversos e mecanismo -->
Os efeitos colaterais mais comuns envolvem reacções psicológicas à medida que o efeito da medicação vai passando.<ref name="StrayerNelson2008"/> Estas reacções podem incluir agitação, confusão ou [[Alucinação|alucinações]].<ref name=KetPres2013>{{citar web|título=Ketamine Injection|url=http://www.drugs.com/pro/ketamine-injection.html|website=drugs.com|acessodata=1 de dezembro de 2014}}</ref><ref name="StrayerNelson2008">{{citar periódico|último1 = Strayer |primeiro1 = RJ |último2 = Nelson |primeiro2 = LS |ano= 2008 |título= Adverse events associated with ketamine for procedural sedation in adults |periódico= [[American Journal of Emergency Medicine]] |volume= 26 |número= 9 |páginas= 985–1028 |doi= 10.1016/j.ajem.2007.12.005 |pmid= 19091264 |url= http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmedhealth/PMH0026626/}}</ref><ref name=KetSide2014/> A alta [[pressão arterial]] e tremores musculares são relativamente comuns, enquanto que a ocorrência de [[Hipotensão|baixa pressão arterial]] e diminuição da respiração são menos frequentes.<ref name=KetPres2013/><ref name=KetSide2014>{{citar web|título=Ketamine Side Effects|url=http://www.drugs.com/sfx/ketamine-side-effects.html|website=drugs.com|acessodata=1 de Dezembro de 2014}}</ref> Só raramente podem surgir [[espasmos laríngeos]].<ref name=KetPres2013/> A cetamina foi classificada como sendo um [[antagonista do receptor NMDA]]; também actua sobre os [[Receptor opioide|receptores opioides]] e [[Transportador de monoaminas|transportadores de monoaminas]], entre outros.<ref name="pmid9806706">{{citar periódico|último1 = Kohrs |primeiro1 = R |último2 = Durieux |primeiro2 = ME |título= Ketamine: Teaching an old drug new tricks |periódico= [[Anesthesia & Analgesia]] |volume= 87 |número= 5 |páginas= 1186–93 |data= Novembro de 1998 |pmid= 9806706 |doi= 10.1213/00000539-199811000-00039 |url= http://journals.lww.com/anesthesia-analgesia/Fulltext/1998/11000/Ketamine__Teaching_an_Old_Drug_New_Tricks.39.aspx}}</ref>
 
<!-- Sociedade e cultura / estado legal-->
A cetamina foi descoberta em 1962<ref name=Mary2014>{{citar web|título=Ketamine - CESAR|url=http://www.cesar.umd.edu/cesar/drugs/ketamine.asp|website=Center for substance abuse research|publicado=University of Maryland|acessodata=26 de Setembro de 2014}}</ref> e consta na lista de medicamentos essenciais da [[Organização Mundial de Saúde]], dos mais importantes medicamentos necessários num [[Sistema de Saúde|sistema básico de saúde]]. Encontra-se disponível como [[medicamento genérico]].<ref name="KetPres2013">{{citar web|título=WHO Model List of EssentialMedicines|url=http://appswww.whodrugs.intcom/irispro/bitstream/10665/93142/1/EML_18_engketamine-injection.pdf?ua=1html|obratítulo=WorldKetamine Health OrganizationInjection|acessodata=221 de abrildezembro de 2014|datawebsite=outubro de 2013drugs.com}}</ref> Encontra-se disponível como [[medicamento genérico]].<ref name=KetPres2013/> O custo grossista no [[País em desenvolvimento|mundo em desenvolvimento]] varia entre 0,08 e 0.32 dólares por dose.<ref>{{citar web|título=Ketamine|url=http://erc.msh.org/dmpguide/resultsdetail.cfm?language=english&code=KET500A&s_year=2014&year=2014&str=50%20mg%2Fml&desc=Ketamine&pack=new&frm=VIAL&rte=INJ&class_code2=01%2E1%2E2%2E&supplement=&class_name=%2801%2E1%2E2%2E%29Injectable%20medicines%3Cbr%3E|acessodata=12 de Janeiro de 2016}}</ref> A cetamina é também utilizada como uma droga de abuso<ref name=KetPres2013/> e como uma [[Uso recreativo de drogas|droga recreativa]].<ref>{{citar periódico|último1 =Morgan|primeiro1 =Celia J. A.|último2 =Curran|primeiro2 =H. Valerie|título=Ketamine use: a review|periódico=Addiction|data=janeiro de 2012|volume=107|número=1|páginas=27–38|doi=10.1111/j.1360-0443.2011.03576.x|url=http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1360-0443.2011.03576.x/full|acessodata=25 de Março de 2016|pmid=21777321}}</ref>
 
== História ==
A cetamina foi sintetizada em 1962 por [[Calvin Stevens|Calvin Lee Stevens]] no laboratório de Química Orgânica da Wayne State University - EUA, devido a colaboração com a companhia farmacêutica Parke Davis (Domino, 2010<ref name=":0">{{Citar periódico|ultimo=Domino|primeiro=Edward F.|data=2010-09-01|titulo=Taming the ketamine tiger. 1965|jornal=Anesthesiology|volume=113|numero=3|paginas=678–684|issn=1528-1175|pmid=20693870|doi=10.1097/ALN.0b013e3181ed09a2|url=http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20693870}}</ref>). Os laboratórios da Parke Davis estavam desenvolvendo pesquisas para substituição da [[Fenilciclidina|fenciclidina]] ([[Fenilciclidina|PCP]]) como anestésico, devido o PCP apresentar efeitos adversos e psicomiméticos marcantes e duradouros (Domino, 2010<ref name=":0" />). Dessa forma, o laboratório de Calvin Stevens sintetizou uma série de derivados do PCP em busca de um composto com ação mais curta e que promovesse efeitos anestésicos similares ao PCP, mas com menos efeitos adversos (Domino, 2010<ref name=":0" />). Desses compostos, o CI-581, apresentou efeitos promissores em estudos com animais e foi selecionado para estudos em humanos, sendo posteriormente chamado de cetamina (Domino, 2010<ref name=":0" />). Em 1964, Edward F. Domino, da Universidade do Michigan - EUA, foi convidado pela Parke Davis para coordenar os primeiros estudos com a cetamina em humanos (Domino, 2010<ref name=":0" />). Em agosto de 1964 foi iniciado o primeiro estudo clínico da cetamina com detentos do complexo penitenciário da Prisão de Jackson do Estado de Michigan, EUA. Já em 1965 foram então publicados os resultados dos primeiros estudos clínicos da cetamina, os quais demonstravam resultados animadores devido aos bons efeitos anestésicos (Domino et al, 1965<ref>{{Citar periódico|ultimo=Domino|primeiro=E. F.|coautores=P.|data=1965-06-01|titulo=PHARMACOLOGIC EFFECTS OF CI-581, A NEW DISSOCIATIVE ANESTHETIC, IN MAN|jornal=Clinical Pharmacology and Therapeutics|volume=6|paginas=279–291|issn=0009-9236|pmid=14296024|url=http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/14296024}}</ref>). Porém, a cetamina ainda apresentava efeitos dissociativos, em menor grau do que o PCP, e esse fato deixava os executivos da Parke Davis preocupados quanto a aprovação da droga para uso clínico pelo [[Food and Drug Administration|FDA]] (Domino, 2010<ref name=":0" />). Segundo Edward Domino, após conversar com sua mulher sobre o impasse quanto a aprovação da cetamina, ela sugeriu classifcar a cetamina como um "anestésico dissociativo" (Domino, 2010<ref name=":0" />). Essa sugestão se mostrou eficaz e favoreceu a aprovação da droga, como também cunhou o termo "anestesia dissociativa" (Domino, 2010<ref name=":0" />). A cetamina foi estão extensivamente usada para fins de anestesia, mas, nos anos 70, os pacientes começaram a reportar visões involuntárias enquanto sob seus efeitos. A cetamina também foi utilizada durante a guerra do Vietnam devido a sua margem de segurança maior, e isso auxiliou na sua popularização, principalmente relacionado aos seus efeitos dissociativos (Domino, 2010<ref name=":0" />). Em 1978, John Lilly publicou seu livro "The Scientist" e a popularidade da cetamina cresceu pelos anos 80 até que em 1995 a DEA adicionou a cetamina em sua "lista de drogas emergentes". Em 1998 & 1999, a cetamina foi descrita pela mídia e pelos legisladores com GHB como uma "droga de estupro" ('date rape drug', no original) e como uma 'club drug' e foi emergencialmente classificada pela DEA em 12 de Agosto de 1999.
 
O mecanismo de ação da cetamina só foi esclarecido na década de 1980, quando o sistema glutamatérgico e os seus receptores do tipo NMDA foram devidamente descritos e seus importantes efeitos no sistema nervoso central foram reconhecidos (Watkins e Collingridge, 1994<ref name=":1">{{Citar periódico|ultimo=Leonard|primeiro=B. E.|data=1991-12-01|titulo=The NMDA receptor. Edited by Watkins and Collingridge. IRL Press, 1990. Pages: xviii + 242. ISBN 0–19–963125–5|jornal=Human Psychopharmacology: Clinical and Experimental|volume=6|numero=4|paginas=333–333|issn=1099-1077|doi=10.1002/hup.470060412|url=http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/hup.470060412/abstract|idioma=en}}</ref>). A cetamina pode agir em uma série de receptores no sistema nervoso central, mas o seu principal sítio de ação é o receptor glutamatérgico do tipo NMDA ([[Receptor NMDA|NMDAR]]) (Watkins e Collingridge, 1994<ref name=":1" />).
 
== Mecanismo de ação ==
A cetamina é um antagonista não competitivo do receptor glutamatérgico do tipo NMDA (N-metil-D-aspartato - [[Receptor NMDA|NMDAR]]), característica responsável pelos seus efeitos terapêuticos primários (Du Jardin et al, 2016<ref name=":2">{{Citar periódico|ultimo=du Jardin|primeiro=Kristian Gaarn|coautores=Heidi Kaastrup|data=2016-06-01|titulo=Potential involvement of serotonergic signaling in ketamine's antidepressant actions: A critical review|jornal=Progress in Neuro-Psychopharmacology & Biological Psychiatry|issn=1878-4216|pmid=27262695|doi=10.1016/j.pnpbp.2016.05.007|url=http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27262695}}</ref>). Dessa forma, a cetamina impede as ações do [[Ácido glutâmico|glutamato]] sobre os NMDAR. No entanto, a cetamina também pode agir sobre outros alvos farmacológicos, sendo que os metabólitos da cetamina também podem agir sobre diferentes receptores (Du Jardin et al, 2016<ref name=":2" />). Além dos NMDAR, a cetamina e seus metabólitos podem se ligar em menor grau a receptores dopaminérgicos, serotoninérgicos, colinérgicos e opioides e canais de sódio (Du Jardin et al, 2016<ref name=":2" />).
 
A cetamina inibe o [[receptor NMDA]] ao se ligar no sítio PCP. O sítio PCP foi assim chamado devido ao fato de ser o local onde a [[Fenilciclidina|fenciclidina]] ([[Fenilciclidina|PCP]]) se liga para bloquear o receptor (Watkins e Collingridge, 1994<ref name=":1" />). Portanto, como a cetamina é um derivado do PCP, ela se liga ao mesmo sítio no receptor NMDA (Watkins e Collingridge, 1994<ref name=":1" />). Após a ligação ao sítio PCP, a cetamina acaba bloqueando fisicamente o canal do receptor, assim mesmo após o receptor ser ativado pelo glutamato não há o influxo de íons (Watkins e Collingridge, 1994<ref name=":1" />). A cetamina e outros derivados do PCP que atuam sobre o receptor NMDA podem permanecer presos dentro do canal do receptor mesmo quando ele está desativado (Watkins e Collingridge, 1994<ref name=":1" />).
 
Baixas concentrações de cetamina causam predominantemente o bloqueio do canal fechado, enquanto altas concentrações bloqueiam tanto o canal fechado como aberto. Este mecanismo de antagonismo do receptor do NMDA dependente da concentração de cetamina tem implicações clínicas, verificando-se propriedades analgésicas a baixos níveis de cetamina e os efeitos anestésicos a concentrações muito mais altas.
'''Analgesia''': A analgesia pré-operatória com cetamina diminui a sensibilização aos estímulos dolorosos, diminuindo a necessidade de morfina depois da cirurgia. A cetamina intravenosa em baixa dose é um potente e seguro adjuvante à analgesia opióide sistémica. Também poderá ser benéfica para o tratamento da dor crónica em adultos.
 
'''Depressão maior:''' Diversos estudos tem demonstrado que a administração intravenosa de doses sub-anestésicas de cetamina são capazes de induzr efeitos antidepressivos em maneira rápida, em até 4 horas, e prolongada, com duração de 7 a 15 dias (Berman et al, 2000;<ref name=":3">{{Citar periódico|ultimo=Berman|primeiro=R. M.|coautores=A.|data=2000-02-15|titulo=Antidepressant effects of ketamine in depressed patients|jornal=Biological Psychiatry|volume=47|numero=4|paginas=351–354|issn=0006-3223|pmid=10686270|url=http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10686270}}</ref> Zarate et al, 2006,<ref name=":4">{{Citar periódico|ultimo=Zarate|primeiro=Carlos A.|coautores=Jaskaran B.|data=2006-08-01|titulo=A randomized trial of an N-methyl-D-aspartate antagonist in treatment-resistant major depression|jornal=Archives of General Psychiatry|volume=63|numero=8|paginas=856–864|issn=0003-990X|pmid=16894061|doi=10.1001/archpsyc.63.8.856|url=http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16894061}}</ref> Abdallah et al, 2015<ref name=":5">{{Citar periódico|ultimo=Abdallah|primeiro=Chadi G.|coautores=Gerard|data=2015-01-01|titulo=Ketamine and rapid-acting antidepressants: a window into a new neurobiology for mood disorder therapeutics|jornal=Annual Review of Medicine|volume=66|paginas=509–523|issn=1545-326X|pmid=25341010|doi=10.1146/annurev-med-053013-062946|url=http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25341010}}</ref>). Por isso estão sendo desenvolvidos novos antidepressivos baseados no mecanismo de ação da cetamina, mas que não produzam efeitos psicomiméticos/dissociativos (Machado-Vieira et al, 2015<ref>{{Citar periódico|ultimo=Machado-Vieira|primeiro=Rodrigo|coautores=Ioline D.|data=2015-12-23|titulo=New targets for rapid antidepressant action|jornal=Progress in Neurobiology|issn=1873-5118|pmid=26724279|doi=10.1016/j.pneurobio.2015.12.001|url=http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26724279}}</ref>).
 
== Efeitos ==
== Toxicologia ==
=== Efeitos agudos ===
Os primeiros efeitos clínicos da cetamina são a anestesia e a analgesia, de forma dependente da dose (Potter e Choudhury, 2014<ref>{{Citar periódico|ultimo=Potter|primeiro=David E.|coautores=Mahua|data=2014-12-01|titulo=Ketamine: repurposing and redefining a multifaceted drug|jornal=Drug Discovery Today|volume=19|numero=12|paginas=1848–1854|doi=10.1016/j.drudis.2014.08.017|url=http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1359644614003444}}</ref>). Doses subanestésicas estão relacionadas a efeitos antidepressivos (Berman et al, 2000;<ref name=":3" /> Zarate et al, 2006,<ref name=":4" /> Abdallah et al, 2015<ref name=":5" />). A cetamina difere da maioria dos agentes anestésicos uma vez que parece estimular o sistema cardiovascular, produzindo um aumento na frequência e débito cardíacos e na pressão sanguínea. A taquicardia é o achado mais comum em utilizadores de cetamina que são encaminhados para os serviços de urgência. Os efeitos cardiovasculares geralmente não constituem perigo em pacientes sem problemas cardíacos, sendo apenas contraindicada em pacientes com doença isquémica cardíaca e desaconselhada em indivíduos com hipertensão ou patologias cerebrovasculares.
 
Os fenómenos de neurotoxicidade observados em modelos animais são causa de preocupação no uso recreativo deste composto. Os utilizadores podem não tomar a cetamina em combinação com agentes protectores como benzodiazepinas, ao contrário do que sucede na prática clínica. Acresce ao risco de neurotoxicidade o facto de muitas vezes a cetamina ser coadministrada com outros compostos neurotóxicos, como o álcool. O uso recreativo pressupõe exposições repetidas, ao contrário do uso clínico, que é esporádico. Estão descritas reacções adversas associadas ao uso crónico de cetamina, apesar de raras, e incluem diminuição da atenção e memória e comprometimento visual subtil. Até hoje, não foi ainda reportada qualquer associação entre o uso de cetamina e o aparecimento de danos cerebrais em humanos ou atraso na aprendizagem, a presumível sequela da neuroapoptose em crianças. Não há, por isso, na literatura evidências convincentes de qualquer efeito neurotóxico induzido pela cetamina ou de perdas cognitivas resultantes do uso clínico deste xenobiótico.
Utilizador anónimo