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<!-- Definição e sintomas -->
A '''disfunção alimentar''' ou '''transtorno alimentar''' (TA), é um [[transtorno mental]] que se define por padrão de comportamentos alimentares desviantes que afectam negativamente a saúde [[Saúde|física]] ou [[Saúde mental|mental]] dum indivíduo.<ref name=DSM5 /> São considerados como patologias e descritos detalhadamente pelo [[CID 10]], [[DSM IV]] e pela [[OMS]]. Incluem [[Transtorno da compulsão alimentar periódica|transtorno de compulsão alimentar periódica]] em que as pessoas ingerem uma grande quantidade de alimentos num curto período de tempo; [[anorexia nervosa]], em que as pessoas comem muito pouco e, portanto, têm um baixo [[Massa corporal|peso corporal]]; [[bulimia nervosa]], em que as pessoas comem muito e, em seguida, tentam livrar-se da comida; [[Pica (transtorno)|pica]], em que as pessoas comem produtos não-alimentares; [[transtorno de ruminação]], em que as pessoas regurgitam o alimento; [[Transtorno alimentar seletivo|transtorno alimentar restritivo evitativo]] em que as pessoas possuem falta de interesse por comida; e um grupo de outros distúrbios alimentares específicos e outros
distúrbios alimentares não-específicos.<ref name=DSM5 /> Os [[transtornos de ansiedade]], [[Depressão (humor)|depressão]] e abuso de substâncias são comuns entre as pessoas com transtorno alimentar.<ref name=NIH2015/> Esses distúrbios não estão associados à [[obesidade]].<ref name=DSM5>{{citecitar booklivro|authorautor =American Psychiatry Association|titletítulo=Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders|datedata=2013|publisherpublicado=American Psychiatric Publishing|locationlocal=Arlington|isbn=0-89042-555-8|pagespáginas=329–354|editionedição=5th}}</ref>
 
<!-- Causa e diagnóstico -->
A causa dos transtornos alimentares não é clara.<ref name=Ri2013>{{citecitar journalperiódico|last1último1 =Rikani|first1primeiro1 =AA|last2último2 =Choudhry|first2primeiro2 =Z|last3último3 =Choudhry|first3primeiro3 =AM|last4último4 =Ikram|first4primeiro4 =H|last5último5 =Asghar|first5primeiro5 =MW|last6último6 =Kajal|first6primeiro6 =D|last7último7 =Waheed|first7primeiro7 =A|last8último8 =Mobassarah|first8primeiro8 =NJ|titletítulo=A critique of the literature on etiology of eating disorders.|journalperiódico=Annals of Neurosciences|datedata=Outubro de 2013|volume=20|issuenúmero=4|pagespáginas=157–61|pmid=25206042|doi=10.5214/ans.0972.7531.200409|pmc=4117136}}</ref> Tanto os factores biológicos como ambientais parecem contribuir para a doença.<ref name=NIH2015/><ref name=Ri2013/> O ideal cultural de magreza pode afectar o indivíduo por influência social e cultural acabando por actuar na etiologia desta condição médica. Os transtornos alimentares afectam cerca de 12% dos dançarinos.<ref name=Ar2014>{{citecitar journalperiódico|last1último1 =Arcelus|first1primeiro1 =J|last2último2 =Witcomb|first2primeiro2 =GL|last3último3 =Mitchell|first3primeiro3 =A|titletítulo=Prevalence of eating disorders amongst dancers: a systemic review and meta-analysis.|journalperiódico=European Eating Disorders Review|datedata=Março de 2014|volume=22|issuenúmero=2|pagespáginas=92–101|pmid=24277724|doi=10.1002/erv.2271}}</ref> As vítimas de [[abuso sexual]] estão também mais predispostos a desenvolver a doença.<ref name=Chen2010>{{citecitar journalperiódico|lastúltimo =Chen|firstprimeiro =L|last2último2 =Murad|first2primeiro2 =MH|last3último3 =Paras|first3primeiro3 =ML|last4último4 =Colbenson|first4primeiro4 =KM|last5último5 =Sattler|first5primeiro5 =AL|last6último6 =Goranson|first6primeiro6 =EN|last7último7 =Elamin|first7primeiro7 =MB|last8último8 =Seime|first8primeiro8 =RJ|last9último9 =Shinozaki|first9primeiro9 =G|last10último10 =Prokop|first10primeiro10 =LJ|last11último11 =Zirakzadeh|first11primeiro11 =A|titletítulo=Sexual Abuse and Lifetime Diagnosis of Psychiatric Disorders: Systematic Review and Meta-analysis|journalperiódico=Mayo Clinic Proceedings|datedata=Julho de 2010|volume=85|issuenúmero=7|pagespáginas=618–629|doi=10.4065/mcp.2009.0583|pmid=20458101|pmc=2894717}}</ref> Alguns transtornos, tais como a pica e o transtorno de ruminação ocorrem mais frequentemente em pessoas com [[Retardo mental|deficiência intelectual]].<ref name=DSM5 /> Um distúrbio alimentar pode ser diagnosticado apenas uma vez num determinado momento.<ref name=DSM5 />
 
<!-- Tratamento e prognóstico -->
 
<!-- Epidemiologia -->
No [[País desenvolvido|mundo desenvolvido]] o transtorno de compulsão alimentar afecta cerca de 1,6% das mulheres e 0,8% dos homens a cada ano.<ref name=DSM5 /> A anorexia afecta cerca de 0,4% e a bulimia afecta cerca de 1,3% das jovens mulheres a cada ano.<ref name=DSM5 /> Mais de 4% das mulheres têm anorexia, 2% têm bulimia e 2% têm transtorno de compulsão alimentar periódica, em algum momento das suas vidas.<ref name=Sm2013>{{citecitar journalperiódico|last1último1 =Smink|first1primeiro1 =FR|last2último2 =van Hoeken|first2primeiro2 =D|last3último3 =Hoek|first3primeiro3 =HW|titletítulo=Epidemiology, course, and outcome of eating disorders.|journalperiódico=Current Opinion in Psychiatry|datedata=Novembro de 2013|volume=26|issuenúmero=6|pagespáginas=543–8|pmid=24060914|doi=10.1097/yco.0b013e328365a24f}}</ref> A anorexia e a bulimia são dez vezes mais propícias de surgir em mulheres do que nos homens.<ref name=DSM5 /> Normalmente começam na infância tardia ou início da idade adulta.<ref name=NIH2015>{{citecitar web|titletítulo=What are Eating Disorders?|url=http://www.nimh.nih.gov/health/topics/eating-disorders/index.shtml|website=NIMH|accessdateacessodata=24 de maio de 2015|deadurlurlmorta=no não|archiveurlarquivourl=https://web.archive.org/web/20150523184510/http://www.nimh.nih.gov/health/topics/eating-disorders/index.shtml|archivedatearquivodata=23 de maio de 2015|df=}}</ref> Os índices doutros transtornos alimentares não são claros.<ref name=DSM5 /> Os índices de transtorno alimentar parecem ser inferiores nos países menos desenvolvidos.<ref>{{citecitar journalperiódico|last1último1 =Pike|first1primeiro1 =KM|last2último2 =Hoek|first2primeiro2 =HW|last3último3 =Dunne|first3primeiro3 =PE|titletítulo=Cultural trends and eating disorders.|journalperiódico=Current Opinion in Psychiatry|datedata=Novembro de 2014|volume=27|issuenúmero=6|pagespáginas=436–42|pmid=25211499|doi=10.1097/yco.0000000000000100}}</ref>
 
== Classificações ==
 
Assim como todos outros transtornos, envolve múltiplos fatores. Dentre os fatores responsáveis, destacam-se<ref>MORGAN, Christina M; VECCHIATTI, Ilka Ramalho and NEGRAO, André Brooking. Etiologia dos transtornos alimentares: aspectos biológicos, psicológicos e sócio-culturais. Rev. Bras. Psiquiatr. [online]. 2002, vol.24, suppl.3 [cited 2011-02-19], pp. 18-23 . Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462002000700005&lng=en&nrm=iso>. ISSN 1516-4446. doi: 10.1590/S1516-44462002000700005.</ref>:
* Histórico de transtorno alimentar na família <ref>Agras S, Hammer L, McNicholas F. A prospective study of the influence of eating-disordered mothers on their children. Int J Eat Disord 1999;25(3):253-62.</ref>
* Histórico de transtornos de humor na família (como [[depressão nervosa|depressão]] ou [[transtorno bipolar]])<ref>Strober M, Lampert C, Morrell W, Burroughs J, Jacobs C. A controlled family study of anorexia nervosa: evidence of familial aggregation and lack of shared transmission with affective disorders. Int J Eat Disord 1990;9:239-253</ref>
* Famílias autoritárias (anorexia) ou negligentes (bulimia) <ref>Vandereycken W. The families of patients with an eating disorder. In: Brownell KD, Fairburn CG, editors. Eating disorders and obesity. 3 ed. New York: The Guilford Press; 1995. p. 219-23.</ref>
* Contexto sociocultural caracterizado pela extrema valorização do corpo magro <ref>Stice E, Schupak-Neuberg E, Shaw HE, Stein RI. Relation of media exposure to eating disorder symptomatology: an examination of mediating mechanisms. J Abnorm Psychol 1994;103(4):836-40.</ref>
* Disfunções no metabolismo da [[serotonina]] e [[noradrenalina]]<ref>Spoont MR. Modulatory role of serotonin in neural information processing: implications for human psychopathology. Psychol Bull 1992;112(2):330-50.</ref> <ref>Kaye WH, Ebert MH, Raleigh M, Lake R. Abnormalities in CNS monoamine metabolism in anorexia nervosa. Arch Gen Psychiatry 1984;41(4):350-5.</ref><ref>Jimerson DC, Lesem MD, Hegg AP, Brewerton TD. Serotonin in human eating disorders. Ann N Y Acad Sci 1990;600:532-44.</ref>
* Experiência sexual traumática <ref>Wonderlich SA, Brewerton TD, Jocic Z, Dansky BS, Abbott DW. Relationship of childhood sexual abuse and eating disorders. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry 1997;36(8):1107-15.</ref><ref>Palmer RL, Oppenheimer R. Childhood sexual experiences with adults: a comparison of women with eating disorders and those with other diagnoses. Int J Eating Disord 1992;12:359-64.</ref>
* Certos traços de personalidade (Baixa autoestima, Introversão, Perfeccionismo (Anorexia), Impulsividade (Bulimia), Instabilidade afetiva, evitativo, ansioso (TCAP)...)
* Fazer alguma dieta <ref>Hsu LK. Can dieting cause an eating disorder? Psychol Med 1997;27(3):509-13.</ref>
 
É frequente a comorbidade de transtornos alimentares (TAs) com transtornos de humor, [[transtornos de ansiedade]] e [[dependência química]]. Sendo assim esses transtornos são considerados fatores de risco para anorexia, bulimia, hipergafia e vigorexia. Transtornos psiquiátricos de membros da família de primeiro grau (geralmente a figura materna) estão entre os principais fatores correlacionados com os TAs. Parentes de primeiro grau de pessoas com anorexia tem 11 vezes mais chance de desenvolverem esse transtorno que o normal enquanto parentes de bulímicos tem 4 vezes mais chance. <ref>Strober M, Freeman R, Lampert C, Diamond J, Kaye W. Controlled family study of anorexia nervosa and bulimia nervosa: evidence of shared liability and transmission of partial syndromes. Am J Psychiatry 2000;157(3):393-401.</ref>
 
Mães com anorexia tem 75%-80% de chance de transferirem a anorexia para um ou mais filhos e mães com bulimia tem 45% a 55%. Acredita-se que existe um predomínio dos fatores ambientais sobre os genéticos nessa transferência pois existe uma correlação positiva entre a convivência com a mãe e a transmissão dos transtornos e a terapia comportamental é mais eficaz que a medicamentos nesses transtornos. <ref> Woodside DB. A review of anorexia nervosa and bulimia nervosa. Curr Probl Pediatr. 1995;25:67-89.</ref>
 
Alguns remédios podem alterar o padrão alimentar diminuindo ou eliminando a sensação de fome. Nesse caso não se trata de um transtorno psicológico e sim de um efeito colateral conhecido como '''anorexia medicamentosa'''.
=== Síndrome de Prader-Willi ===
 
Afeta crianças independentemente do sexo, raça ou condição social. De natureza genética, mais frequente em quem possui baixa estatura e peso, geralmente envolve retardo mental ou transtornos de aprendizagem e desenvolvimento sexual incompleto se trata de uma necessidade involuntária de comer constantemente, o que quase resulta em outros problemas de saúde como obesidade e problemas cardíacos. Leva a morte caso não tratado. Antidepressivos [[ISRS]] tem se mostrado eficaz restringindo os danos, porém essa síndrome ainda não tem cura.
 
=== Transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP) ===
=== Outros transtornos alimentares não especificados ===
 
Cerca de um terço dos diagnósticos feitos usando o DSM IV são classificados como não especificados por não possuírem um ou mais critérios essenciais para a classificação em outro transtorno. Por volta da metade desses transtornos parciais se tornam transtornos completos caso não sejam tratados adequadamente preventivamente. <ref>Fairburn CG, Walsh BT. Atypical eating disorders. In: Brownell KD, Fairburn CG, editors. Eating disorders and obesity: a comprenhensive handbook. New York: The Guilford Press; 1995. p. 183-7.</ref>
 
== Diagnóstico ==
Existem alguns testes psicológicos desenvolvidos especialmente para o diagnóstico de transtornos alimentares gerais como o Teste de Atitudes Alimentares (EAT 26) ou específicos como o Escala de Compulsão Alimentar Periódica (ECAP)<ref>Transtornos alimentares. Rev. Bras. Psiquiatr. [online]. 2002, vol.24, suppl.2 [cited 2011-02-19], pp. 79-81 . Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462002000600007&lng=en&nrm=iso>. ISSN 1516-4446. doi: 10.1590/S1516-44462002000600007.</ref> O diagnóstico geralmente é feito seguindo os critérios do [[CID-10]] ou do [[DSM IV]] tanto por médicos, psicólogos ou nutricionistas.
 
O teste de atitudes alimentares (EAT-26) foi desenvolvido por Garner e Garfinkel, originalmente usado apenas para anorexia mas revisado para identificar outros transtornos alimentares, usa 14 critérios e é voltado especialmente para identificar riscos de saúde. Já está adaptado ao português e é aprovado pela [[APA]]. <ref>Garner DM, Garfinkel PE. The Eating Attitudes Tests: an index of symptoms of anorexia nervosa. Psychol Med. 1979;9:273-9.</ref>
 
No caso específico da anorexia nervosa os critérios basicamente envolvem:
Para o diagnóstico específico da bulimia existe o Bulimic Investigatory Test Edinburgh (BITE) e para o diagnóstico de distorção corporal existe o Body Image Test (BIT).<ref>VILELA, João E. M et al. Eating disorders in school children. J. Pediatr. (Rio J.) [online]. 2004, vol.80, n.1 [cited 2011-02-20], pp. 49-54 . Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0021-75572004000100010&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0021-7557. doi: 10.1590/S0021-75572004000100010.</ref>
 
Já os critérios diagnósticos dos outros transtornos ainda são controversos e estão sendo discutidos. Critérios importantes como a quantidade de episódios de compulsão alimentar necessários para caracterizar um TCAP ainda não estão definidos, mas estão em torno de duas vezes por semana. <ref>CLAUDINO, Angélica de Medeiros and BORGES, Maria Beatriz Ferrari. Critérios diagnósticos para os transtornos alimentares: conceitos em evolução. Rev. Bras. Psiquiatr. [online]. 2002, vol.24, suppl.3 [cited 2011-02-19], pp. 07-12 . Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462002000700003&lng=en&nrm=iso>. ISSN 1516-4446. doi: 10.1590/S1516-44462002000700003.</ref>
 
=== Sintomas e outros Sinais de Alerta ===
O tratamento mais eficaz deve ser multidisciplinar, com acompanhamento [[Medicina|médico]], [[Nutricionista|nutricional]] e [[Psicologia|psicológico]], para que se possa alcançar um peso mais saudável, diminuir a influência dos fatores psicológicos mantenedores desse comportamento, medicar com psicotrópicos como [[antidepressivo]]s e [[topiramato]], acompanhar a evolução dos sintomas e prevenir ou conter as possíveis patologias associadas. Em casos graves, quando o peso corporal está a mais de 25% abaixo do mínimo ideal (por exemplo abaixo de 45kg quando o ideal é 60 kg), pode ser necessária hospitalização. Em caso de obesidade mórbida pode ser feita uma [[cirurgia bariátrica]].
 
As psicoterapias mais recomendadas são a [[Terapia analítico-comportamental]] e [[Terapia cognitivo-comportamental]] (39% de desaparecimento de sintomas a curto prazo). Os remédios psiquiátricos por outro lado tem tido eficácia significantemente menor (20% de desaparecimento de sintomas), tornando os psicotrópicos coadjuvantes dos tratamentos psicológico e nutricional mais voltados para tratar as comorbidades (como depressão e ansiedade) do que o transtorno alimentar em si. Os antidepressivos tem efeito melhor que o placebo apenas em 60% dos casos, podem ter como efeitos colaterais causar perda ou ganho de peso e tem 35% de abandono. Todos tratamentos juntos levam ao desaparecimento de sintomas em 49% dos casos. <ref>Appolinário JC, Silva JAZ. Farmacoterapia dos transtornos alimentares. In: Nunes MA, Appolinário JC, Abuchaim ALA, Coutinho W. Transtornos alimentares e obesidade. Porto Alegre: Artes Médicas; 1998. p. 164-70.</ref>
 
{{Referências}}
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