Diferenças entre edições de "Santuário dos grandes deuses de Samotrácia"

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[[Imagem:Samothraki Arsinoe rotunda 2.jpg|300px|thumb|Friso com bois, da rotunda de ''Arsinoé'' (15)]]
 
A preparação para a iniciação ocorria numa pequena construção ao sul do '''AnaktoronAnáctoro''' (16), um tipo de sacristia onde o iniciado era vestido de branco e recebia uma lâmpada. A ''myésis'' então ocorria no AnaktoronAnáctoro, literalmente ''Casa dos senhores'', grande salão capaz de acomodar numerosos fiéis já iniciados, que podiam assistir a cerimonia sentados em bancos ao longo das paredes. O candidato à iniciação praticava uma lavagem ritual em tanque situado no canto sudeste e então fazia uma [[libação]] aos deuses em um fosso circular. Ao fim da cerimonia, ele tomava seu lugar sentado numa plataforma de madeira circular em frente à porta principal enquanto danças rituais ocorriam ao seu redor. Era então levados ao salão norte, o santuário onde recebia a revelação propriamente dita. O acesso a esse santuário era interdito a todas as pessoas não iniciadas. Recebia um documento atestando sua iniciação nos mistérios e podia, ao menos no período final, pagar para ter seu nome gravado em uma placa comemorativa.
 
O segundo grau da iniciação era chamado ''épopteia'', literalmente ''a contemplação''. Em vez de um ano de intervalo entre os graus, como exigido em Eleusis, o segundo grau, não obrigatório, em Samotrácia podia ser obtido imediatamente após a ''myésis''. A despeito disso, era realizado por um pequeno número de iniciados, que nos leva a crer que envolvia outras condições, embora não fossem nem financeiras nem sociais. Lehman assegura que envolvia condições morais, quando o candidato era interrogado e devia confessar seus pecados. Esta audiência ocorria à noite em frente ao Hierão (13). Escavações revelaram a base do que devia ser uma tocha gigante. De um modo geral, a descoberta de numerosas lâmpadas e tochas naquele lugar demonstra a natureza noturna dos ritos principais. Depois do interrogatório e eventual absolvição certificada pelo sacerdote ou oficiante, o candidato era trazido ao '''Hierão''', que também funcionava como ''épopteion'', ou ''lugar de contemplação'', onde ocorria um ritual de purificação e sacrifícios eram feitos num espaço sagrado , localizado no centro do recinto. Era conduzido aos fundos do prédio, que tinha a forma de uma gruta. O ''hierofante'', também conhecido como iniciador, tomava seu lugar numa plataforma na [[abside]] onde recitava a liturgia e expunha os símbolos dos mistérios.
===A organização do santuário===
[[Imagem:Samothraki Arsinoe rotunda.jpg|300px|esquerda|thumb|Fundações da rotunda''Arsinoé'' (15)]]
A planta do santuário de Samotrácia pode parecer confusa a primeira vista, isso é resultado da topografia muito particular do local, assim como da sucessão de diferentes etapas de construção repartidas por dois séculos. O santuário ocupa, na face ocidental do monte Hagios Georgios, três terraços estreitos, separados por dois canais de água. A entrada é pelo lado leste através do [[propileu]] (''propylaeum'') de Ptolomeu II, conhecido como '''Ptolémaion''' (20) que protege o lado ocidental e funciona como ponte. Imediatamente a oeste, no primeiro terraço, uma depressão cercada de degraus circulares, com um altar no centro, devia servir de área de sacrifícios, embora não se possa saber com precisão sua função. Um caminho tortuoso descia pelo terraço principal onde se encontravam os principais monumentos do culto. Um grande [[tolo (arqueologia)|tolo]], o '''Arsinoéion''', ou como é chamada, a rotunda de Arsinoé (15), a maior sala circular coberta do mundo grego (20 metros de [[diâmetro]] ), servia para acolher os ''theóres'', os embaixadores sacros delegados pelas cidades ou associações às grandes festas do santuário. A decoração com rosetas e [[bucrânio]]s (cabeças de boi ornadas com guirlandas) faz pensar que sacrifícios podiam também acontecer. A [[Rotunda (arquitetura)|rotunda]] foi construída sobre uma base mais antiga ainda, mesmo que dela só sobreviveram as fundações. A direita do páteo aberto a direita do santuário, acha-se o maior edifício, O ''Prédio do friso das bailarinas'' (14), as vezes chamado '''Têmenos'''Têmeno, local que corresponde a uma área fechada monumental muito mais antiga. A reconstituição de sua planta varia consideravelmente, segundo o autor. É em essência um salão precedido por um propileu jônico, decorado com o bem conhecido friso das bailarinas é atribuído ao celebrado arquiteto [[Escopas de Paros|Escopas]].
 
O edifício mais importante para o culto, o ''epoptéion'', está localizado ao sul do TêmenosTêmeno. Ele ostenta o nome de '''Hierão''' (13). Não se sabe quem dedicou este edifício, mas dada a magnificência foi certamente real. é uma espécie de templo, mas não tem periptério (filas de colunas) e só um simples ''próstilo'' (em parte restauradas). Os ornamentos arquitetônicos da fachada revelam grande elaboração. O espaço interior corresponde ao maior vão livre (11 metros) do mundo grego. a construção termina ao sul por uma abside inscrita, que constitui, como o altar de uma igreja, a parte mais sacra. Esta abside pode representar-segundo o estudioso R.Ginouvés-uma gruta destinada a rituais ctônicos. O altar principal, e a construção que abriga as ofertas votivas estão localizados a oeste do Hierão (11 e 12).
 
[[Imagem:Samothraki propylon griffin.jpg|300px|thumb|Capitel da fachada oeste do Propileu de [[Ptolomeu II]] (20)]]
 
O '''Anaktoron'''Anáctoro, edifício onde ocorria a ''myésis'', localiza-se ao norte da rotunda de Arsinoé, e segundo as versões correntes é da era imperial.
O terceiro e final terraço, a oeste do centro espiritual do santuário, foi primariamente ocupado por edifícios votivos, como o '''Miletean''', assim chamado por ter sido dedicado por um cidadão de [[Mileto]] (5), e o '''Neório''', ou monumento naval (6). O edifício dos banquetes também era aqui (7). Três outros pequenos tesouros helênicos não são bem conhecidos (1, 2 e 3). Observando o terraço central, o espaço é todo dominado por um comprido pórtico (104 metros, 8) que atuava como um monumental plano de fundo do santuário, atras do [[teatro]]. É nesta parte do sitio que estão os mais recentes traços de ocupação, um quadrado forte bizantino construído com um tesouro, já que reutilizou o material das construções originais.<ref>{{citar livro|autor=Bonna D. Wescoat,Robert G.|título=Architecture of the Sacred: Space, Ritual, and Experience from Classical Greece|editora=Cambridge Press|ano=2012|páginas=70|id=ISBN 978-1-107-00823-6 [http://books.google.com.br/books?id=gS3il51BdREC&pg=PR8&dq=Sanctuary+of+the+Great+Gods&hl=pt-BR&sa=X&ei=EM6lUuTzD8z6kQfc6IGQCA&ved=0CD4Q6AEwAjgK#v=onepage&q=Sanctuary%20of%20the%20Great%20Gods&f=false GB]}}</ref>
 
De acordo com Plutarco, foi assim que o rei macedônio Felipe II encontrou sua futura esposa Olímpias, a princesa de Epirote da dinastia eácida, durante sua iniciação nos mistérios de Samotrácia. Esta anedota histórica define a lealdade da dinastia argéada ao santuário, seguida pelas dinastias dos Diádocos, dos Ptolomeus e Antigônidas, que continuamente se revesaram em benfeitorias durante o {{AC|{{séc|III}}|x}}, durante sua dominação do Egeu setentrional.
 
O primeiro soberano a se distinguir e de quem restam traços epigráficos foi o filho de Felipe II e meio-irmão de Alexandre, Felipe III da Macedônia, que foi o principal benfeitor durante o {{AC|{{séc|IV}}|x}}, ele provavelmente encomendou o TêmenosTêmeno em {{AC|340|x}}, o altar principal na década seguinte, o Hierão por {{AC|325|x}}, bem como o monumento dórico e a lateral da área circular leste, dedicada em seu nome por seu sobrinho Alexandre IV da Macedônia, que coreinou com ele de 323 a {{AC|317|x}}.
 
[[Imagem:Samothraki choral dancers.jpg|350px|esquerda|thumb|Friso das bailarinas, '' Têmenos''Têmeno (14)]]
 
A segunda fase das construções monumentais começa na década de {{AC|280|x}} com a rotunda de Arsinoé II, que deve datar do período (288-{{AC|281|x}}) em que esta filha de [[Ptolomeu I]] foi casada com o diádoco Lisímaco, então rei da Macedônia. Viúva depois de sua morte em batalha em {{AC|281|x}}, ela casou com seu próprio irmão Ptolomeu II Filadélfio em {{AC|274|x}}. Da monumental oferenda subsiste apenas um bloco da dedicatória acima da porta, de onde não se pode determinar o texto completo. O próprio Ptolomeu II fez construir o propileu que barra a entrada do santuário, a pulsante frota representada ali permite entender sua dominação sobre o essencial do mar [[Egeu]] e outras cortes trácias (Ainos, Maroneus), e as construções de Samotrácia são a testemunha dessa influência.
[[Imagem:Paris.louvre.winged.500pix.jpg|250px|thumb|[[Vitória de Samotrácia]], exposta no [[Louvre]] (9)]]
 
A fascinação pelos cultos de mistérios suscitou um interesse constante pelo local nos séculos XVII e XVIII. Os primeiros estudos arqueológicos foram obra da missão francesa de Deville e Conquart em [[1866]], depois da descoberta espetacular por Champoiseau, cônsul francês em [[Adrianópolis (Trácia)|Adrianópolis]], da celebre estátua da [[Vitória de Samotrácia|vitória alada]], hoje no museu do [[Louvre]]. O austríaco A. Conze foi o próximo a explorar o local em [[1873]] e [[1876]], revelando o Ptlomaion e a praça, e levou alguns achados superficiais do Hierão, do ArsinoéionArsineu e do TemenosTêmeno. Seu trabalho foi publicado em dois ricos volumes de uma tremenda qualidade para a época. Por um acordo com o governo turco, os austríacos partilharam seus achados , numerosos fragmentos arquitetônicos vieram para o [[Museu de História da Arte em Viena]], enquanto outros foram para o Museu Galípoli ou para o Museu Arqueológico de [[Istambul]], mas uma parte do material infelizmente desapareceu durante o transporte.
 
Champoiseau retornou em [[1891]] para procurar os blocos que formavam a proa do navio sobre os quais a vitória estava instalada e descobriu o teatro (10). A Escola Francesa de [[Atenas]] e a Universidade de [[Praga]] (Salac e Chapouthier) também levaram a cabo escavações entre [[1923]] e [[1927]], antes da Universidade de [[Nova Iorque]] começar suas escavações em [[1938]], que revelaram o AnaktoronAnáctoro, interrompidas pela guerra, tempo durante o qual o local sofreu com a ocupação búlgara, voltaram em [[1948]] e continuam até o presente. Em [[1956]] uma reconstrução parcial (anastylosis[[anastilose]]) da fachada do Hierão foi efetuada.
 
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