Abrir menu principal

Alterações

287 bytes adicionados, 17h49min de 3 de março de 2018
Na [[Antiguidade clássica]], uma das principais bases da civilização ocidental e a primeira cultura que refletiu sobre o tema, considerava-se arte qualquer atividade que envolvesse uma habilidade especial: habilidade para construir um barco, para comandar um exército, para convencer o público em um [[discurso]], em suma, qualquer atividade que se baseasse em regras definidas e que fosse sujeita a um aprendizado e desenvolvimento [[técnica|técnico]]. Em contraste, a poesia, por exemplo, não era tida como arte, pois era considerada fruto de uma [[Inspiração artística|inspiração]].<ref>Tatarkiewicz, Władysław. ''Historia de la estética I. La estética antigua''. Madrid: Akal, 2002, p. 39</ref> [[Platão]] definiu arte como uma capacidade de fazer coisas de modo [[inteligência|inteligente]] através de um [[aprendizado]], sendo um reflexo da capacidade [[Criatividade|criadora]] do ser humano;<ref>Beardsley, Monroe C. e Hospers, John. ''Estética. Historia y fundamentos''. Madrid: Cátedra, 1990, p. 20.</ref> [[Aristóteles]] a definiu como uma disposição de produzir coisas de forma [[razão|racional]], e [[Quintiliano]] a entendia como aquilo que era baseado em um método e em uma ordem.<ref>Tatarkiewicz (2002), p. 39.</ref> Já [[Cassiodoro]] destacou seu aspecto produtivo e ordenado, assinalando três funções para ela: ensinar, comover e agradar ou dar prazer.<ref>Tatarkiewicz ''Historia de la estética II. La estética medieval''. Madrid: Akal, 1989, vol. II, p. 87-88.</ref>
 
[[Imagem:Michelangelo Buonarroti - Jugement dernier.jpg|thumb|180px|[[Juízo Final (Michelangelo)|''O Juízo Final'']], de [[Michelangelo]]: a arte veiculando todo um [[universo]] [[símbolo|simbólico]], tendo um propósito [[educação|educativo]].]]
 
Essa visão atravessou a [[Idade Média]], mas, no [[Renascimento]], iniciou-se uma mudança, separando-se os ofícios produtivos e as [[ciência]]s das artes propriamente ditas e incluindo-se, pela primeira vez, a poesia no domínio artístico. A mudança foi influenciada pela [[tradução]] para o [[língua italiana|italiano]] da ''[[Poética]]'' de Aristóteles e pela progressiva ascensão social do artista, que buscava um afastamento dos [[artesanato|artesãos]] e artífices e uma aproximação dos [[intelectual|intelectuais]], cientistas e [[filosofia|filósofos]]. O objeto artístico passou a ser considerado tanto fonte de prazer como meio de assinalar distinções sociais de [[poder]], [[riqueza]] e prestígio, incrementando-se o [[mecenato]] e o [[colecionismo]].<ref>Tatarkiewicz (2002), p. 43.</ref> Começaram a aparecer também diversos [[tratado (estudo)|tratados]] sobre as artes, como o ''[[De pictura]]'', ''[[De statua]]'' e ''[[De re aedificatoria]]'', de [[Leon Battista Alberti]], e os ''Comentários'' de [[Lorenzo Ghiberti]]. Ghiberti foi o primeiro a periodizar a [[história da arte]], distinguindo a [[arte clássica]], a [[arte medieval]] e a [[arte renascentista]].<ref>Beardsley e Hospers, p. 44.</ref>
No século XVIII, começou a se consolidar a [[estética]] como um elemento-chave para a definição de arte como hoje a entendemos - a despeito da vagueza e inconsistências do conceito. Até então, toda a arte do ocidente estava indissociavelmente ligada a uma ou mais funções definidas, ou seja, era uma atividade essencialmente utilitária: servia para a transmissão de conhecimento, para a estruturação e decoração de [[ritual|rituais]] e [[festa|festividades]], para a [[invocação]] ou mediação de poderes espirituais ou mágicos, para o embelezamento de [[edifício]]s, locais e cidades, para a distinção social, para a recordação da história e a preservação de [[tradição|tradições]], para a educação [[moral]], [[civismo|cívica]], [[religião|religiosa]] e cultural, para a consagração e perpetuação de [[valor (ética)|valores]] e [[ideologia]]s socialmente relevantes, e assim por diante.<ref>Guignon, pp. 27-28</ref>
 
Esta mudança de [[paradigma]] estava ligada a transformações culturais desencadeadas pelo [[cientificismo]] e pelo [[iluminismo]]. Estas correntes de pensamento passaram a defender a tese de que a arte não era uma [[ciência]], não podia descrever com exatidão a realidade, e por isso não poderia ser um veículo adequado para o conhecimento verdadeiro. Não sendo uma ciência, a arte passou para a esfera da [[emoção]], da [[[[Sistema sensorial|sensorialidade]] e do [[sentimento]]. A própria origem da palavra "estética" deriva de um termo [[língua grega|grego]] que significa "[[sensação]]". Em trabalhos de [[Jean-Baptiste Dubos]], [[Friedrich von Schlegel]], [[Arthur Schopenhauer]], [[Théophile Gautier]] e outros, nasceu o conceito de [[arte pela arte]], onde ela tinha um fim em si mesma, despojando-a de toda a sua antiga funcionalidade e utilidade prática e associações com a moral. Ao mesmo tempo em que isso abriu um novo e rico campo filosófico, gerou dificuldades importantes: perdeu-se a capacidade de se entender a arte antiga em seu próprio contexto, onde ela era toda funcional - um testemunho desta tendência é a proliferação de [[museu]]s no século XIX, instituições onde todos os tipos de arte são apresentados fora de seu contexto original -, e criaram-se conceitos inteiramente baseados na subjetividade, tornando cada vez mais difícil encontrar-se pontos objetivos em comum que pudessem ser aplicados a qualquer tipo de arte, tanto para defini-la quanto para valorá-la ou interpretar seu significado. O [[esteticismo]] foi um dos elementos teóricos básicos para a emergência do [[Romantismo]], que rejeitou o utilitarismo da arte e deu um valor principal à [[criatividade]], à [[intuição]], à [[liberdade]] e à visão individuais do artista, erigindo-o ao ''status'' de [[demiurgo]] e [[profeta]] e fomentando, com isso, o culto do [[Gênio (pessoa)|gênio]]. Por outro lado, o esteticismo ofereceu uma alternativa para a descrição de aspectos do mundo e da vida que não estão ao alcance da ciência e da razão.<ref>Guignon, pp. 28-30</ref><ref>Eco, Umberto. ''Historia de la belleza''. Barcelona: Lumen, 2004, pp. 329-333</ref> [[Charles Baudelaire]] foi um dos primeiros a analisar a relação da arte com o progresso e a era industrial, prefigurando a noção de que não existe beleza absoluta, mas que ela é relativa e mutável de acordo com os tempos e com as predisposições de cada indivíduo. AcreditavaBaudelaire acreditava que a arte tinha um componente eterno e imutável - sua [[alma]] - e um componente circunstancial e transitório - seu corpo. Este dualismo nada mais do que expressava a [[dualidade]] inerente ao homem em seu anelo pelo [[idealismo|ideal]] e seu enfrentamento da realidade concreta.<ref>Bozal, Valeriano et alii. ''Historia de las ideas estéticas y de las teorías artísticas contemporáneas''. Madrid: Visor, 2000, vol. I, p. 324-329.</ref>
[[Imagem:Malevich.black-square.jpg|thumb|esquerda|[[Kazimir Malevich]]: ''Quadrado negro sobre fundo branco'', uma das obras paradigmáticas da escola abstrata.]]
 
Em que pese a grande influência do esteticismo, cujo [[corolário]] apareceria no início do século XX na forma do [[abstracionismo]], uma [[apoteose]] do [[individualismo]] artístico,<ref>Eco, p. 415-417.</ref> houve correntes que o combateram. [[Hippolyte Taine]] elaborou uma [[teoria]] de que a arte tem um fundamento [[sociologia|sociológico]], aplicando-lhe um [[determinismo]] baseado na [[raça]], no contexto social e na época. Reivindicou, para a estética, um caráter científico, com pressupostos racionais e [[empirismo|empíricos]]. [[Jean Marie Guyau]] apresentou uma perspectiva [[evolucionista]], afirmando que a arte está na vida e evolui com ela, e assim como a vida se organiza em sociedades[[sociedade]]s, a arte deve ser um reflexo da sociedade que a produz.<ref>Givone, Sergio. ''Historia de la estética''. Madrid: Tecnos, 2001, p. 102-104.</ref> A estética sociológica teve associações com os movimentos políticos de [[esquerda (política)|esquerda]], especialmente o [[socialismo utópico]], defendendo, para a arte, o retorno a uma função social, contribuindo para o desenvolvimento das sociedades e da [[fraternidade]] humana, como se percebe nos trabalhos de [[Henri de Saint-Simon]], [[Lev Tolstoi]] e [[Pierre Joseph Proudhon]], entre outros. [[John Ruskin]] e [[William Morris]] denunciaram a [[banalização]] da arte causada pelo esteticismo e pela sociedade industrial, e defenderam a volta ao [[Corporações de ofício|sistema corporativo e artesanal medieval]].<ref>Givone (2001), p. 112-113.</ref><ref>Beardsley e Hospers, p. 73.</ref>
 
Na mesma época, a arte começou a ser estudada sob o ponto de vista [[psicologia|psicológico]] e [[semiótica|semiótico]] através da contribuição de [[Sigmund Freud]]. Ele declarou que a arte poderia ser uma forma de representação de [[desejo]]s e de [[Mecanismo de defesa|sublimação]] de [[Pulsão|pulsões]] [[Irracionalidade|irracionais]] [[Recalque (psicanálise)|reprimidas]]. Disse que o artista era um [[narcisismo|narcisista]], e que as obras de arte podiam ser analisadas da mesma forma que os [[sonho]]s, os [[símbolo]]s e as [[doença mental|doenças mentais]]. Continuou nessa linha seu discípulo [[Carl Jung]], que introduziu o conceito de [[arquétipo]] na análise artística.<ref>Givone (2001), p. 108-111.</ref> Outra novidade foi introduzida por [[Wilhelm Dilthey]], considerando arte e [[vida]] serem uma unidade. Prefigurando a [[arte contemporânea]], reconheceu a importância da reação do público na definição do que é um objeto artístico, o que instaurava uma espécie de anarquia do gosto, inaugurando a estética cultural. Reconheceu, também, que a época assinalava uma mudança social e uma nova interpretação da realidade. Ao artista, caberia intensificar nossa [[visão de mundo]] em uma obra coerente e significativa.<ref>Bozal (2000), vol. I, p. 379-380.</ref>
 
Na primeira metade do século XX, conceitos inovadores foram introduzidos pela [[Escola de Frankfurt]], destacando-se [[Walter Benjamin]] e [[Theodor Adorno]], estudando os efeitos da [[industrialização]], da [[tecnologia]] e da [[cultura de massa]] sobre a arte. Benjamin analisou a perda da [[Aura (arte)|aura]] do objeto artístico na sociedade contemporânea, e Adorno refletiu que a arte não é um reflexo mecânico da sociedade que a produz, pois a arte expressa o que não existe e indica a possibilidade de transformação e [[Transcendência (filosofia)|transcendência]]. Representante do [[pragmatismo]], [[John Dewey]] definiu a arte como "a culminação da natureza", defendendo que a base da estética é a [[Sistema sensorial|experiência sensorial]]. A atividade artística seria uma consequência da atividade natural do ser humano, cuja forma organizativa depende dos condicionamentos ambientais em que se desenvolve. Assim, arte seria o mesmo que "expressão", onde fins e meios se fundem em una experiência agradável. Já [[Ortega y Gasset]] apontou o caráter [[elite|elitista]] e a desumanização da arte de [[vanguarda]], devido ao seu [[hermetismo]], ao repúdio da imitação da natureza e à perda da perspectiva histórica. Na escola [[semiótica]], [[Luigi Pareyson]] elaborou uma estética [[hermenêutica]], onde arte é a interpretação da [[verdade]]. Para ele, a arte é "formativa", ou seja, expressa uma forma de fazer que, ao mesmo tempo, inventa sua própria [[linguagem]] e seus meios. Assim, a arte não seria o resultado de um projeto predeterminado, mas simplesmente encontraria o resultado no processo de fazer. Pareyson influenciou a chamada [[Escola de Turim]], que desenvolveu o conceito [[ontológico]] de arte. [[Umberto Eco]], seu maior expoente, afirmou que a obra de arte só existe em sua interpretação, na abertura de múltiplos significados que pode ter para o espectador.<ref>Givone, p. 122-230</ref>
[[Imagem:Fontaine Duchamp.jpg|thumb|180px|esquerda|''A fonte'', de [[Marcel Duchamp]], originalmente um [[urinol]]: um exemplo da transformação contemporânea do conceito de arte.]]
 
Chegando-se aos meados do século XX, o assunto se tornou tão complexo, volátil e subjetivo que muitos estudiosos abandonaram de todo a ideia de que a definição do que é arte é de alguma forma possível. A título de exemplo, citecitem-se algumas opiniões: [[Morris Weitz]] declarou que "o próprio caráter aventuroso e expansivo da arte, suas constantes mutações e novidades, tornatornam ilógico que estabeleçamos qualquer conjunto de propriedades definidas". [[Robert Rosenblum]] disse que "hoje em dia a ideia de definirmos arte é tão remota que não acredito que alguém teria coragem de fazê-lo", e [[Wladyslaw Tatarkiewicz]] afirmou que "nosso século chegou à conclusão de que conseguirmos uma definição abrangente do que é arte é não apenas algo dificílimo, como impossível". Essas visões, porém, não impediram que outros críticos lançassem opiniões diferentes, crendo ser possível uma definição. Alguns delas contornaram o problema central da definição propriamente dita, e estabeleceram parâmetros externos para definir o fato artístico, recorrendo à consagração institucional, à [[autoridade]], ou à resposta do público ou de pessoas consideradas [[Experto|peritas]]. Um exemplo é a definição de [[George Dickie]]: "um objeto artístico é em primeiro lugar um artefato, e em segundo, é um conjunto de aspectos que legitimou sua proposta de merecer atenção especial de alguma pessoa ou pessoas agindo em nome de alguma instituição social". Às vezes, se recorre à sua localização e ao contexto cultural, como na declaração de [[Thomas McEvilley]], dizendo que "é arte o que está num museu... Parece bem claro que hoje em dia mais ou menos qualquer coisa pode ser chamada de arte. A questão é: ela foi chamada de arte pelo 'sistema de arte'? Em nosso século, isso é tudo o que é preciso para definir arte". Na mesma linha de ideias, [[Robert Hughes (crítico)|Robert Hughes]] disse que algo é arte "se foi criado com o fim expresso de ser considerado como tal e foi colocado em um contexto em que é visto como tal".<ref>Torres, Louis e Kamhi, Michelle Marder. ''What art is: the esthetic theory of Ayn Rand''. Open Court Publishing, 2000, pp. 94-100</ref> Segundo a definição da ''[[Encyclopædia Britannica]]'', arte é aquilo que é criado deliberadamente pelo homem como uma expressão de habilidade ou da imaginação.<ref name=brit>[http://www.britannica.com/EBchecked/topic/630806/art/ "Art"]. In: ''Encyclopædia Britannica Online''. Web. 23 de Fevereiro de 2012</ref>
 
== Formas, gêneros, técnicas ==