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{{Vertambém|Nazismo e raça}}
[[Imagem:Hessy Levinsons Taft.jpg|thumb|[[Joseph Goebbels]] selecionou pessoalmente [[Hessy Levinsons Taft]], uma jovem bebê [[Judeus|judia]], para representar o "bebê [[Raça ariana|ariano]] ideal" em uma [[propaganda nazista]]. Goebbels não sabia sobre a [[ancestralidade]] da criança. (ca. 1935)]]
A essência do fascismo e do nazismo está no [[totalitarismo]],<ref name="ARENDT, Hannah 1990">ARENDT, Hannah (1990). '''Origens do Totalitarismo'''. São Paulo: Companhia das Letras.</ref> especificamente na noção de controle totalitário, ou seja, na ideia de que o Estado e, em última instância, o chefe de Estado (no caso da Alemanha, o Führer), deveria controlar tudo e todos. Para isso, a homogeneização da sociedade é fundamental (''ver: [[Gleichschaltung]]''). As formas de controle social em regimes totalitários geralmente envolvem o uso e a exacerbação do [[medo]] a um grau extremo.<ref>CRUZ-NETO, Otávio and MINAYO, Maria Cecília de S.. Extermínio: violentação e banalização da vida. Cad. Saúde Pública [online]. 1994, vol.10, suppl.1, pp. S199-S212</ref> Todos passam a vigiar a todos e todos se sentem vigiados e intimidados. Cada indivíduo passa a ser "os olhos e ouvidos" do [[Führer]] no processo de construção de uma sociedade totalitária.<ref name="ARENDT, Hannah 1990"/> Nesse processo de homogeneização totalitária, os inúmeros festivais, atividades cívicas, como as mobilização das massas nas ruas, foram determinantes <ref>PARADA, Maurício B. A. (2004). "Cultura e Poder em Estados Totalitários: considerações sobre uma história cultural do Fascismo". '''Mneme'''. Caicó, Rio Grande do Norte, v. 5, n. n 10, p. 100-117. http://www.cerescaico.ufrn.br/mneme/pdf/mneme10/culturapoder.pdf</ref>
 
Para controlar tudo e todos, o nazismo instigava e exacerbava ao extremo o [[nacionalismo]], geralmente associado às rivalidades com outros países suposta ou realmente ameaçadores. A ideia de um inimigo externo extremamente poderoso é funcional para unir a sociedade contra o "inimigo comum". O medo<ref>BRITO, Daniel C. & BARP, Wilson J. (2008) "Ambivalência e Medo: faces dos riscos na Modernidade". '''Sociologias''', Porto Alegre, ano 10, nº 20, jul./dez. 2008, p. 20-47. http://www.scielo.br/pdf/soc/n20/a03n20.pdf</ref> de um inimigo externo é funcional para aglutinar socialmente povos que até há pouco tempo não se identificavam como uma só nação, como foram os casos de países unificados apenas no [[século XIX]] ([[Alemanha]] e [[Itália]]). Como [[Sigmund Freud]] havia demonstrado, a necessidade da criação artificial da identidade em grupos sociais pode levar à homogeneização forçada destes, e a existência de membros diferentes no grupo é desestabilizadora, o que leva o grupo a tentar eliminá-lo.<ref>OLIVEIRA, Lucas K. & MANIAKAS, Georgina C. O. F. (2005) Factores Político-Ideológicos en la construcción social de la paranoia. In: Anais do XII Jornadas de Investigación de la Facultad de Psicología, Uba - Primer Encuentro de Investigadores en Psicología del Mercosur, 2005, Buenos Aires. Vol. Tomo 2. p. 95-97. http://www.coband.org/difusion/jornadas/tomo2.pdf</ref> Tão relevante é essa explicação para entender o fenômeno do [[fascismo]] e do nazismo, que as obras de Freud estiveram entre as primeiras a serem queimadas nas famosas [[Queima de livros|queimas de livros]] organizadas pelo Partido Nazista, em 1933 e 1934.
[[Imagem:Bundesarchiv Bild 102-15750, Ausstellung "Deutsches Volk-Deutsche Arbeit".jpg|thumb|''Deutsches Volk–Deutsche Arbeit:'' Povo Alemão, Trabalho Alemão, a aliança do trabalhador e do trabalho (1934)]]
 
O nazismo também defendia um forte [[intervencionismo]] do Estado na economia para manter o capitalismo e evitar uma crise mais profunda que permitisse a ascensão dos comunistas como havia acontecido na Rússia em 1917 e quase aconteceu na Alemanha em 1918. Dessa forma, o nazismo pode ser considerado uma ideologia contrária ao [[livre mercado]] e ao [[liberalismo|liberalismo econômico]].<ref>[[Ludwig von Mises|VON MISES, Ludwig]] - ''[http://www.mises.org/etexts/mises/anticap.asp A mentalidade anticapitalista]''. Rio de Janeiro: J. Olympio Editor, 1988</ref> O próprio socialista [[George Orwell]] reconheceu que o nazismo era uma forma de capitalismo que utilizava o modelo econômico socialista. <ref>{{citar livro |autor= [[George Orwell]] | título="The Lion and the Unicorn: Socialism and the English Genius" |capitulo=Shopkeepers At War|url=http://www. http://gutenberg.net.au/ebooks03/0300011h.html |acessodata=5 de novembro de 2013|ano=1990 |editora=Penguin Book Ltd |ISBN=978-0140182378 |língua=en }} Socialism is usually defined as ‘common ownership of the means of production’. Crudely: the State, representing the whole nation, owns everything, and everyone is a State employee. … Fascism, at the German version, is a form of capitalism that borrows from Socialism just such features as will make it efficient for war purposes.</ref>
 
É relevante ressaltar que, após a [[Primeira Guerra Mundial]], mas especialmente após a [[Crise de 1929]], a maior parte dos novos movimentos políticos assumiram um discurso antiliberal, tanto no plano político como no econômico, e isso inclui desde grupos [[conservador]]es, passando por grupos moderados e defensores da [[democracia]] e da intervenção do Estado na economia, como [[keynesianos]] e [[sociais-democratas]], até movimentos [[revolucionários]] [[anticapitalista]]s [[socialistas]] ou [[comunistas]].{{Carece de fontes|sociedade=sim|pol|hist-eu|data=dezembro de 2008}}
Hitler e os outros líderes nazistas procuraram utilizar o [[simbolismo]] e a emoção cristã para propaganda junto ao público alemão, esmagadoramente cristão. Enquanto que autores não cristãos{{Carece de fontes|sociedade=sim|pol|hist-eu|data=Dezembro de 2008}} puseram ênfase na utilização externa da [[doutrina]] cristã, sem dar importância ao que poderia ter sido a [[mitologia]] interna do partido, os cristãos, baseando-se nos livros dos chefes nazis e nos folhetos de propaganda nazista que estes lançavam contra o cristianismo, tipificaram Hitler como [[ateísmo|ateu]] ou [[ocultismo|ocultista]] — ou mesmo um [[Satanismo|satanista]].
 
Declarações públicas e oficiais produzidas por autoridades católicas sobre o nazismo existem pelo menos desde o ano de 1930, bem antes da chegada de Hitler ao poder, quando o Ordinário de [[Mogúncia]], em nome do seu bispo, declarou: "O que acabamos de dizer (sobre o nazismo), responde às três perguntas que nos foram postas: a) pode um católico ser membro do partido hitleriano?; b) está um sacerdote católico autorizado a consentir que os adeptos desse partido tomem parte em cerimônias eclesiásticas, incluindo funerais?; c) pode um católico fiel aos princípios do partido ser abrangido pelos sacramentos? Devemos responder 'não' a tais perguntas". <ref>N. Micklem, ''O Nacional socialismo e a Cristandade'', Lisboa, 1940, p. 12</ref>
 
O Papa [[Pio XI]] sabia do que se passava na Alemanha e escreveu vários documentos condenando o nazismo, com destaque para a [[encíclica]] de condenação do Nazismo - ''Mit brennender sorge'' ("Com viva preocupação").<ref>[http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_14031937_mit-brennender-sorge_sp.html ''Mit brennender Sorge'', 1937]</ref> Muitos [[padre]]s e líderes católicos opuseram-se com todo o vigor ao nazismo, dizendo que ele era incompatível com a moral e a fé cristã. Tal como aconteceu com muitos opositores políticos, muitos desses padres foram condenados aos [[campo de concentração|campos de concentração]] pela sua [[oposição]]. O próprio Dr. [[Martin Niemöller]], que a princípio lhes dera apoio, foi enviado para ''[[Dachau]]''.<ref>John C. Meyer, "The Forgotten Victims of the Holocaust", ''Journal of Religion, Disability & Health'', Volume 3, nº1, 22 de Janeiro de 1999; ''Catholic Church - the Persecution of the Catholic Church in the Third Reich - Facts and Documents'', Burnes Oates, Londres, 1940.</ref>
A Páscoa de 1936 já foi preparada na Alemanha como se um grande festival pagão fosse. As livrarias encheram-se de literatura pagã e a bandeira azul com o [[disco solar]] dourado do "Movimento da Fé Germânica" (DGB) chegou às mais recônditas zonas rurais. Uma grande manifestação foi organizada em Burg Hunxe, na [[Renânia]].<ref>Stephen H. Roberts, The House That Hitler Built, Nova Iorque, Harper & Brothers, 1938, p. 275-276.</ref> Em 1937, o [[Papa Pio XI]] publica uma Carta Encíclica de condenação do Nazismo - ''Mit brennender sorge'' ("Com viva preocupação"),<ref>[http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_14031937_mit-brennender-sorge_sp.html ''Mit brennender sorge'']</ref> onde diz: ""Damos graças, veneráveis irmãos, a vós, aos vossos sacerdotes e a todos os fieis que, defendendo os direitos da Divina Majestade contra um provocador neopaganismo, apoiado, desgraçadamente com frequência, por personalidades influentes, haveis cumprido e cumpris o vosso dever de cristãos".
 
No [[Reuniões de Nuremberg|Comício de Nuremberg]], em 1937, revivia entre os nazistas o paganismo ancestral do povo ariano, surgindo um místico [[laicismo]] como um dos tópicos centrais em discussão: para que a Alemanha voltasse à sua antiga fé, não bastava a [[separação Igreja-Estado]]; as Igrejas cristãs teriam que ser destruídas e o Estado transformado numa nova Igreja; impunha-se uma nova religião nacional <ref>Edmond Vermeil, ''Germany in the Twentieth Century: A Political and Cultural History of the Weimar Republic and the Third Reich'', Nova Iorque, 1956, pp. 194-195.</ref>
 
O ano de [[1938]] veio a revelar-se como um dos pontos altos de manifestação dessa nova religião pagã. No festival [[mitologia nórdica|nórdico]], do [[Solstício]] de [[Verão]], [[Julius Streicher]], diretor do ''Strümer'' e amigo pessoal de [[Hitler]], perante uma enorme multidão de [[Alemanha|alemães]] reunidos em [[Hesselberg]] (montanha a qual o Führer declarou sagrada), ao lado de uma grande fogueira simbólica, disse: "Se olharmos para as chamas deste [[fogo]] sagrado e nelas lançarmos os nossos [[pecados]], poderemos baixar desta [[montanha]] com as nossas [[alma]]s limpas. Não precisamos nem de [[padre]]s nem de [[pastor]]es".<ref>N. Micklem, ''O [[Nacional socialismo]] e a [[Cristianismo|Cristandade]]'', [[Lisboa]], [[1940]], p. 29</ref>
Esse neopaganismo [[romantismo|romântico]], gerado pela ação dos responsáveis e [[Órgão político|órgãos]] nazistas, com destaque para, além de [[Goebbels]], [[Heinrich Himmler]] e [[Reinhard Heydrich]],<ref>Vincent Carroll e David Shiflett, ''Christianity on Trial'', São Francisco, CA, Encounter Books, 2002, p. 116</ref> entrava então já em clara ruptura com as [[igrejas]] [[Cristianismo|cristãs]], [[Protestantismo|protestantes]] e [[Igreja Católica|católica]]. Em 1938, depois das perseguições aos judeus que vinham desde a subida ao poder de Hitler, a perseguição aos cristãos passava então também a ser sistemática.
 
Mais tarde, ao estudar o fenômeno totalitário, o filósofo [[Herbert Marcuse]] identifica na ideologia do nazismo várias camadas sobrepostas, considerando precisamente o paganismo, a par do [[misticismo]], [[racismo]] e [[biologismo]], uma das componentes essenciais da sua "camada mitológica".<ref>Herbert Marcuse, ''Technology, War, and Fascism'', ed. Kellner Douglas, vol. 1, Londres, Routledge, 1998, p. 143-146</ref> A perspectiva de Marcuse foi partilhada pela "[[Escola de Frankfurt]]", especialmente por [[Max Horkheimer]] e [[Erich Fromm]]. Segundo [[Paul Tillich]], no paganismo do nazismo estava o elemento essencial que explicava o seu antissemitismo, no enfoque colocado nos "laços de sangue arianos".<ref>Paul Tillich, ''Against the Third Reich: Paul Tillich's Wartime Addresses to Nazi Germany'', ed. Stone, Ronald H. and Matthew Lon Weaver, trad. de Matthew Lon Weaver, 1ª ed., Louisville, KY, Westminster John Knox Press, 1998, p. 6.</ref> Para [[Emmanuel Levinas]], o nazismo apresentava uma forma de religiosidade pagã que se opunha a toda uma civilização [[Monoteísmo|monoteísta]]. <ref>Howard Caygill, ''Levinas and the Political'', Londres, Routledge, 2002, p. 32.</ref>
 
=== Vítimas religiosas ===