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No campo da [[arte]], a palavra '''drama''' contém múltiplos significados. Segundo os dicionários [[Dicionário Houaiss|Houaiss]] e [[Dicionário Caldas Aulete|Aulete]], "drama" pode significar: "forma narrativa em que se figura ou imita a ação direta dos indivíduos", "texto em [[verso]] ou [[prosa]], escrito para ser [[Cena|encenado]]" ou mesmo a "[[encenação]] desse texto". Por analogia, pode ser, ainda, "qualquer narrativa no âmbito da prosa literária em que haja conflito ou atrito", podendo ser [[conto]], [[novela]], [[romance]] etc., ou mesmo toda a [[arte dramática]].
 
O termo é também encontrado no [[cinema]], na [[televisão]], no [[rádio (comunicação)|rádio]], significando um texto ficcional, peça [[teatro|teatral]] ou filme de caráter "sério", não cômico, que apresenta um desenvolvimento de fatos e circunstâncias compatíveis com os da vida real.
 
== Origens ==
Originou-se na [[Grécia Antiga]] significando "ação" (δράω). [[Aristóteles]], em sua ''[[Poética]]'', classifica a [[literatura]] de sua época, que se originara da forma oral, nos seguintes modos: narrativo ou [[Poesia épica|épico]], dramático e misto. A partir desta análise, central em toda a análise dos [[Gênero literário|gêneros literários]] até os dias de hoje, [[Teoria|teóricos]] dividiram a [[literatura]] nos modos [[narração|narrativo]], dramático e [[Poesia lírica|lírico]].<ref>{{citar web|url=http://www.brasilescola.com/literatura/genero-dramatico.htm|título=Gênero Dramático|publicado=''BrasilEscola.com''}}</ref>
 
Significando "ação" em [[Língua grega|grego]], a palavra "drama" vem associada à representação teatral na Poética de Aristóteles, por aí se distinguindo da [[epopeia]], outra forma literária igualmente assente na imitação (''mimesis'') de ações. Sendo esta obra aristotélica fundamentalmente uma poética do drama, é sobretudo da definição sobre o conceito de tragédia que mais se ocupa, referindo o espetáculo (''opsis'') como o seu modo de imitação, e sendo os restantes cinco elementos que a compõem: a fábula (''mythos''), os caracteres (''ethos'') e o pensamento (''dianoia'') - como constituindo a sua matéria; a elocução (lexis) e o canto ou música (''melos'') configurando o seu meio de imitação.
Exatamente a partir do [[século XVIII]], com ''Nivelle de la Chaussée'', [[Diderot]] (''Entretiens sur Le Fils Naturel'', 1757) e [[Voltaire]] - o drama conformou-se, porém, num género específico de texto "sério" para teatro, que procurava ultrapassar a distinção clássica entre [[tragédia]] e [[comédia]], conjugando aspectos característicos de ambos (em termos de personagens e tipos de ação), e criando, deste modo, um universo mais próximo dos interesses, gostos e preocupações de um novo público, [[Burguesia|burguês]], que constituía o que então se designava por [[terceiro estado]]. Em Portugal, surgiu para designar uma obra de teatro, como o ''Teatro Novo de Correia Garção'' (1760), e dez anos mais tarde a sua Assembleia ou Partida, generalizando-se depois, como designação menos restritiva, nos últimos anos do século. Foi posteriormente conceito fulcral do teatro romântico com [[Victor Hugo]] e, entre nós, com [[Almeida Garrett]], por unir o grotesco e o sublime, prescindir do verso, adotar a linguagem do quotidiano, preferir a matéria histórica e enaltecer o sentimento e a liberdade individual, entre várias outras características.
 
Na sua relação com a literatura em geral, o drama vem referido ao modo dramático, compondo, juntamente com o lírico e o épico (ou narrativo), a tríade que foi, a partir do [[Renascimento]] e durante algum tempo, incorretamente atribuída a Aristóteles. Trata-se, com efeito, de uma elaboração teórica posterior à sua poética, mas tem sido a mais repetidamente glosada, embora seguindo diferentes critérios para a sua repartição, bem como para o reconhecimento do sentido e valor dos seus componentes.
 
Na confrontação com os outros dois modos literários, o dramático tem sido ora menorizado, ora engrandecido. Menorizado porque entendido como incompleto sem a realização cênica e, por isso, simples guião ou rascunho sem existência autónoma, ou então porque nele participam elementos não puramente literários, configurando, portanto, um caso-limite da obra literária. Mas poetas como [[John Keats]] ou [[T.S. Eliot]], advogando, em tempos diferentes e por razões e modos não absolutamente idênticos, a impessoalidade da poesia, defenderam a importância da articulação de uma outra voz que não a assumida expressão direta do sujeito poético, definindo, por isso, a superioridade do dramático. Não significa, porém, que considerassem a escrita de peças como o único processo de realização do dramático, antes admitiam que ele pudesse e devesse invadir o campo tradicional do [[Poesia lírica|lírico]].
 
Neste sentido, torna-se clara a variabilidade de critérios de definição e de avaliação dos modos literários, o que não impede o reconhecimento de um modelo mais ou menos geral de realização do dramático, que constitui a sua definição convencional, embora tenha permitido (como é regra de qualquer "contrato") a sua repetida transgressão e reformulação.
 
Elementos como [[personagem|personagens]], [[diálogo]]s e [[ação (filosofia)|ação]] (referida esta ao conflito ou colisão de forças quer externas, quer internas às personagens) são, nessa conformidade, os elementos básicos de um universo ficcional que, diferentemente do narrativo, é composto para ser representado em palco. Por razões que se prendem com essa vocacionalidade cénica e com as normais expectativas de um público quanto ao tempo de duração de um espectáculo, a ação é geralmente mais concentrada (do que numa narrativa), o que não implica forçosamente a aceitação da "regra" das três unidades (de ação, tempo e lugar), lei esta supostamente aristotélica, mas de fato de fabricação renascentista, e dominante sobretudo na composição do drama neoclássico.
 
Essa ideia de concentração condiciona, de algum modo, a intensificação do conflito, o que favoreceu a ideia de que o drama representa exemplarmente, e de forma objectiva, uma colisão de forças e uma situação de crise e exaltação, como o definiram [[Hegel]] (''Äesthetik'', 1820-1829, edição póstuma em 1835) e [[Etienne Souriau]] (''Les deux cent mille situations dramatiques'', 1950). Este último posiciona, por isso, o drama entre a vida e a consciência, como momento de entrevisão de forças obscuras que as figuras estruturais presentes no microcosmos da peça deixam pressentir, enquanto Hegel localiza na tragédia a colisão de direitos e valores opostos mas igualmente legítimos. Outros consideram que o drama é uma forma privilegiada de comentar a natureza humana, pelo que por ele o homem se engrandece ao adquirir uma consciência mais lúcida ([[Pierre Aimé Touchard]], ''Le théâtre et l’angoisse des hommes'', 1968), ao identificar um pronunciamento a respeito das relações entre os homens ([[Ronald Peacock]], ''The Art of Drama'', 1957) ou ao reconhecer nele aspetos fulcrais definidores de uma determinada cultura ([[Francis Fergusson]], ''The Idea of a Theater'', 1949).
Se, no campo do literário, o jogo de repartição e avaliação (de modos e géneros) oscila desta maneira, idêntica hesitação encontramos no campo do teatral quando se confronta o texto com os outros elementos que compõem o espetáculo. Sabemos que os [[Momo (desambiguação)|momos]] [[Idade média|medievais]], os [[Teatro de improvisação|improvisadores]] [[Século XVI|quinhentistas]] da ''[[comédia dell'arte]]'', os atores de [[pantomima]], os participantes de ''[[happening]]s'' e de [[teatro de rua]] nos [[Década de 1960|anos 60]] do [[século XX]], ou de outras formas de teatro visual e performances, não obrigam à existência de um texto fixo para se dizer em cena, mas apenas a apontamentos, roteiro ou cenários que serão desenvolvidos (com maior ou menor grau de [[Teatro de improvisação|improviso]]) no decurso do espetáculo. Todavia, a tradição erudita do dramático no teatro ocidental privilegiou o elemento literário (numa clara tendência [[Logocentrismo|logocêntrica]] visível já em Aristóteles), o que só veio a ser contestado no momento em que surgiu com alguma autonomia a figura do encenador, no final do [[século XIX]].
 
Assim, [[Edward Gordon Craig]] (''On the Art of the Theatre'', 1911) defendia uma arte do teatro verdadeiramente criadora e não apenas uma técnica interpretativa de textos, visionando à criação de obras primas teatrais a partir de elementos cénicos de que o espetáculo dispõe, pela conjugação da ação (o trabalho interpretativo do ator), das palavras (o corpo da peça), da linha e da cor (o específico da cena) e do ritmo (a essência da dança). E, num idêntico sentido de valorização do cénico, propôs, [[Antonin Artaud]], um "teatro de crueldade" (''Le théâtre et son double'', 1938), argumentando em favor das potencialidades visuais e expressivas do teatro, recusando a primazia da literatura e da palavra e sobrevalorizando a fisicalidade do ator, para melhor cumprir a sua visão de um teatro [[Metafísica|metafísico]].
{{Commons|Category:Drama}}
 
*[[Melodrama]]
*[[Dramaturgia]]
*[[Lista de dramaturgos]]
*[[Teatro]]
*[[Teoria da literatura]]