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O '''Papa Inocêncio III''', nascido '''Lottario dei Conti di Segni''' ou '''Lotário de Conti''' ([[Anagni]], [[1160]]/[[1161]] — [[Perúgia]], [[16 de julho]] de [[1216]]), foi [[papa]] da [[Igreja Católica]] de 22 de fevereiro de 1198 até a data da sua morte. Lotário nasceu na família nobre dos Conti, Condes de [[Segni]], [[Estados Papais]], e estudou nas mais importantes universidades de sua época: teologia na [[Universidade de Paris]] e direito na [[Universidade de Bolonha]]. Aos vinte e um anos tornou-se um clérigo importante em Roma, e escreveu dois livros notáveis: ''[[De Miseria Condicionis Humane]]'' (“Sobre a miséria da condição humana”) e ''De missarum mysteriis'' (“Sobre o mistério da missa”). Sendo considerado jovem, forte, erudito, inteligente e hábil foi eleito papa em 1198, com apenas trinta e sete ou trinta e oito anos de idade.{{sfn|Ott a|1910|}}
 
Como pontífice, Inocêncio deixou claroclara sua concepção própria de poder dos papas logo no início de seu reinado, como [[Vigário de Cristo|Vigário e Representante de Cristo]] que goza de poder direto para o governo da [[Igreja Católica]] e sua [[Hierarquia da Igreja Católica|hierarquia]], e também, como possuindo um poder indireto que o permitia interferir excepcionalmente em questões políticas para salvaguardar os interesses e necessidades da Igreja. Inocêncio também possuía uma ideia particular sobre o [[Sacro Império Romano-Germânico]], sobre o qual considerava, justamente fundado pelo poder indireto da Igreja e do papa no {{séc|IX}}, que criou o Império para defender a fé católica, e, assim, para se tornar Imperador, que o líder do império dependia da aprovação, unção e coroação do papa (''[[Romzug]]''). Inocêncio também lutou para recuperar o poder efetivo do papa sobre os Estados Papais, e garantir a independência desse reino batalhando contra a [[Dinastia de Hohenstaufen|dinastia Hohenstaufen]].{{sfn|Costa|2017|p=89-91, 98}}
 
Dessa forma, tendo sustentado sua autoridade sobre a Igreja e a península Itálica, também expandiu sua influência por toda a [[Europa]], criando uma "feudalidade papal" e se tornando [[suserano]] da [[Reino da Inglaterra|Inglaterra]], [[Reino de Portugal|Portugal]], [[Reino de Aragão|Aragão]], [[Dinamarca]], [[Reino da Polônia (1025–1385)|Polônia]], [[Reino da Boémia|Boêmia]], [[Reino da Hungria|Hungria]], [[Dalmácia]] e de vários outros territórios.{{sfn|Franzen|1996|p=236}} Também reformou e moralizou a Igreja, a [[Cúria Romana]], o [[episcopado]], e o clero, e aprovou novas [[Ordens religiosas]] que defendiam a pobreza e uma vida simples, como os [[Franciscanos]] e os [[Dominicanos]].{{sfn|Costa|2017|p=93}} A pesquisa histórica especializada tem ressaltado como Inocêncio levava uma vida simples como papa, e era dotado de uma autêntica espiritualidade e [[ascese]].{{sfn|Franzen|1996|p=233}}
 
Inocêncio também convocou o mais importante [[concílio]] da Idade Média, o [[Quarto Concílio de Latrão]], que destaca-se destaca por ter definido o papel da [[Eucaristia]] na Igreja por meio da declaração do [[dogma]] da [[transubstanciação]], da doutrina que “[[Doutrina da Igreja Católica|fora da Igreja não há salvação]]”, da obrigatoriedade da [[Confissão (sacramento)|confissão anual]] e de novas leis sobre a [[Parentesco|consanguinidade e o casamento]].{{sfn|Costa|2017|p=126-129}} Considerando que era sua função como papa defender a Igreja e a cristandade, convocou e organizou sete cruzadas, das quais as mais importantes foram a [[Quarta Cruzada|Quarta]] e a [[Quinta Cruzada]], que fazem parte das [[Cruzada|nove cruzadas]] contra o Islã, bem como a [[Cruzada Albigense]], que eliminou o [[catarismo]] no sul da [[Reino da França|França]], e a [[Cruzadas do Norte|Cruzada Livônia]], uma das expedições que extinguiu de forma definitiva o paganismo da [[Europa Setentrional]].{{sfn|Costa|2017|p=100}}
 
Inocêncio é considerado o papa mais importante da Idade Média,{{sfn|Küng|2012|p=373}} e uma das personalidades mais influentes da história,{{sfn|Life's Magazine|1999|}} deixando um amplo legado para a Igreja Católica, principalmente na [[teologia política]], para a Europa, e especialmente para o [[direito]], em que absorveu e aplicou vários princípios e normas das [[Direito romano|leis romanas]], que então, passaram a ser usadas pelo direito medieval e moderno. Dentro da [[historiografia]], Inocêncio é objeto de várias controvérsias e diferentes interpretações, que o caracterizam como um grande homem e um herói ou um vilão ambicioso.{{sfn|Costa|2017|p=78}}
Lotário recebeu sua educação inicial em Roma, e posteriormente estudou nas duas mais importantes universidades do [[Renascimento do século XII|renascimento de sua época]]: teologia, na [[Universidade de Paris]], curso então ministrado por teólogos famosos como [[Pedro de Corbeil]] e [[Stephen Langton]]. Quando se tornou papa, Inocêncio nomeará seus antigos professores para vários cargos eclesiásticos importantes. Posteriormente, Lotário estudou [[Direito Canônico]] na [[Universidade de Bolonha]], curso presidido por [[Huguccio de Pisa]], também notável professor e jurista na época, ao qual Lotário também se manterá próximo como papa, submetendo alguns de seus decretos pontifícios para correções e sugestões de Huguccio. Apesar de sua formação teológica, Inocêncio se destacou, sobretudo, como um grande jurista{{sfn|Costa|2017|p=87}}. Quando tornou-se adulto, Inocêncio era fisicamente pequeno e possuía uma saúde delicada, frequentemente ficando doente, porém, sua limitação física era compensada por uma personalidade forte e um espírito sagaz.{{sfn|Franzen|1996|p=234}}
 
Desde 1181, Lotário, com então vinte e um anos, foi convidado a retornar paraa Roma para trabalhar para a Cúria. Nesse momento, ocupou diversos cargos eclesiásticos durante os curtos reinadospontificados de [[Papa Lúcio III|Lúcio III]] (1181-1185), [[Papa Urbano III|Urbano III]] (1185-1187), [[Papa Gregório VIII|Gregório VIII]] (1187-1187) e [[Papa Clemente III|Clemente III]] (1187-1191). O Papa Gregório VIII ordenou-lhe [[subdiácono]], e Clemente III o tornou [[cardeal-diácono]] de [[Igreja de São Jorge em Velabro|São Jorge em Velabro]] e [[Santos Sérgio e Baco (diaconia)|São Sérgio e Baco]], em 1190. Mais tarde, tornou-se Cardeal-Presbítero de [[Santa Pudenziana]],{{sfn|Ott a|1910|}} porém não foi ordenado presbítero, permanecendo como diácono.{{sfn|Mondin|2007|p=249}} Durante o pontificado de Celestino III (1191-1198), um membro da [[família Orsini]], inimigo dos Conti, Lotário viveu exilado, possivelmente, em Anagni, dedicando-se, principalmente, à meditação e à escrita.{{sfn|Costa|2017|p=87}} Durante seu exílio, escreveu dois tratados de teologia. O primeiro é o ''[[De Miseria Condicionis Humane]]'' (“Sobre a miséria da condição humana”), também chamado de ''Liber de contemptu mundi''. O segundo é o ''De missarum mysteriis'', também chamado de ''De sacro altares mysterio'' ou ainda ''Mysteriorum legis et sacramenti eucharistiae liber sex, de quadripartitu species nuptiarum'' (“Sobre o mistério da missa”, “Sobre o sagrado mistério do altar” e “Lei misteriosa e do sacramento da eucaristia, Livro Seis, Sobre as quatro espécies de núpcias”). As obras de Inocêncio seguiam a tradição teológica monástica alegórica. O tratado ''De Miseria Condicionis Humane'' reconheceu uma grande popularidade em sua época, sobrevivendo em mais de 600 manuscritos. O ''De sacro altares mysterio'', por sua vez, expõe doutrinas sobre as núpcias entre o homem e a mulher, Deus e as almas, Cristo e a Igreja.{{sfn|Costa|2017|p=88}}
 
[[imagem:176-Innocent III.jpg|miniatura|200px|Pintura de Inocêncio na [[Basílica de São Paulo Extramuros]], local em que estão pintados todos os papas da Igreja Católica desde o primeiro até a atualidade. No retrato, Inocêncio é representando como um papa jovem, tal como seria no momento da sua eleição]]
 
====Conflitos e guerras na Itália====
[[imagem:Rathausturm Köln - Friedrich II - Innocenz III (8596-98).jpg|miniatura|esquerda|220px|Esculturas do Imperador Frederico II e de Inocêncio na torre da prefeitura de [[Colônia]], Alemanha, feito em 1865. Graças a Frederico, Inocêncio pode controlar a totalidade da península Itálica inteira.]]
 
Quando Inocêncio se tornou papa, havia se passado um ano desde a morte do Imperador Henrique VI, em 1197. Henrique havia cercado o papado e dominado a Itália do Norte e do Sul. Porém, o vazio de poder gerado pela morte de Henrique, não foi preenchido por ninguém, pois ele havia nomeando seu filho com [[Constança de Altavila]] (pertencente à Sicília), [[Frederico II do Sacro Império Romano-Germânico|Frederico II]], que então tinha apenas três anos, como o próximo Imperador. Porém, após sua morte, senhores do Sacro Império responsáveis pela eleição imperial desconsideraram essa nomeação e fizeram uma nova eleição, onde se dividiram entre dois partidos, o primeiro, composto pela maioria, elegeu [[Filipe da Suábia]], em 8 de março de 1198, irmão de Henrique VI e defensor das políticas dos Hohenstaufen.{{sfn|Costa|2017|p=98}}
 
=== Relações com o Sacro Império Romano-Germânico===
[[imagem:Otto IV. und Papst Innocenz III. reichen sich vor den ankommenden Schiffen Friedrichs II. die Hände.jpg|miniatura|esquerda|200px|Iluminura que representa o imperador Otão IV em 1209 sendo recebido no portão de uma cidade por Inocêncio. Otão é acompanhado de dois cortesõescortesãos e Inocêncio é acompanhado por um cardeal. No fundo da iluminura, no entanto, um navio já se aproxima com as tropas de Frederico II, que partiram contra Otão IV em 1212, apenas três anos depois de sua consagração pelo papa]]
 
Tendo estabelecido uma base de poder na península Itálica, Inocêncio pôde interferir também no conflito existente no Sacro Império. Entre os dois candidatos ao trono, Otão comunicou sua eleição ao papa como um partidário da Igreja e aliado do papa. Já FelipeFilipe, da dinastia Hohenstaufen, adotou claramente as políticas de sua família, e se considerou independente da Igreja.{{sfn|Costa|2017|p=98}}
 
Inocêncio, inicialmente, manteve-se neutro no conflito, expondo sua opinião na bula ''Deliberatio Domini Papae Inocentii'' de 1200. Porém, em 1 de março de 1201, manifestou-se abertamente a favor de Otão IV, reconhecendo-o como rei e oferecendo a unção e coroação pontifícia que o tornaria sacro imperador. FelipeFilipe da Suábia protestou energicamente contra o papa em uma carta de 1201, e a resposta do pontífice se deu em março de 1202, por meio do famoso decreto ''Venerabilem.''{{sfn|Costa|2017|p=98}}
 
Nesse decreto, Inocêncio reconhece que o direito de eleger o líder do Sacro Império pertence aos [[Príncipe-eleitor|príncipes e senhores eleitores]], por [[Direito consuetudinário|costume]]. Porém essa eleição torna o líder apenas rei da Germânia, é somente sua unção e coroação em seguida pelo papa que o torna verdadeiramente imperador. Inocêncio também defende que é direito do papa, como consagrador do rei, examinar a pessoa eleita e invalidar a eleição, se necessário. Do mesmo modo, defendeu que, em caso de dupla eleição imperial, após certo tempo, o papa poderia favorecer um candidato, Inocêncio justificou esse direito por considerar a Igreja a fundadora do Sacro Império.{{sfn|Costa|2017|p=98}}
 
Posteriormente, FelipeFilipe da Suábia é assassinado e Otão IV de Brunsvique se torna, indiscutivelmente, o rei, em 1208, sendo ungido e coroado imperador pelo papa, em 1209, após jurar defender os direitos da Igreja. Porém, em seguida, Otão quebra seus juramentos e invade o Reino da Sicília, que considera um território imperial, não reconhecendo mais os poderes do papa sobre essa região. Assim o papa excomunga e depõe Otão em 1210.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=463}} No mesmo ano, os senhores alemães responsáveis pela eleição do imperador acatam a decisão de Inocêncio e, também, depõem Otão, elegendo como novo rei Frederico II, então com dezesseis anos.{{sfn|Costa|2017|p=99}}
 
Dessa maneira, o Sacro Império passa por mais quatro anos de guerra, quando Otão finalmente é derrotado e Frederico considerado o novo rei em 1215. Originalmente Frederico, “devido a sua educação e proximidade com Inocêncio, é considerado o elo capital de uma nova ordem social que dissolveu as querelas entre o Sacro Império e o papado, e especialmente entre a dinastia Hohenstaufen e os papas”.{{sfn|Costa|2017|p=99}} Assim, Inocêncio se tornou o grande vitorioso e o artífice dessa nova ordem, mostrando seu poder sob o mais importante estado da Europa.{{sfn|Costa|2017|p=99}}
Inocêncio respondeu em 26 de maio de 1207, ameaçando o rei João de excomunhão, e o Reino da Inglaterra com um [[interdito]]. O rei então disse que assassinaria e torturaria todos os clérigos enviados por Roma a Inglaterra.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=464-465}} Dessa forma, Inocêncio proclamou o interdito em 24 de março de 1208, o rei João reagiu expulsando os clérigos fiéis a Roma de seus cargos e confiscando seus bens, enquanto os bispos fugiram da Inglaterra para não serem mortos. Alguns membros da nobreza se rebelaram em nome do papa e foram severamente torturados e mortos. Assim, Inocêncio, com aprovação da maioria dos nobres e bispos ingleses, em 1211 desligou todos os súditos e vassalos do juramento de fidelidade com o Rei João, autorizando sua deposição, e depois, em 1212, depôs oficialmente o rei e deu o Reino da Inglaterra para o rei [[Filipe II de França|Filipe II da França]], que deveria executar a sentença conquistando a Inglaterra em uma cruzada contra João.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=465}}
 
Porém, assim que o Filipe preparou uma frota marítima para invadir a Inglaterra, o rei João procurou o representante do papa na Inglaterra, Randulfo, em 13 de maio de 1213, reconhecendo Stephen Langton como arcebispo, permitindo a volta dos bispos exilados, prometendo indenização aos clérigos prejudicados, e além disso, entregou em [[vassalagem]] todo o Reino da Inglaterra e da Irlanda para Inocêncio, que se tornaria o senhor e [[suserano]] desses territórios, e assim, entregando anualmente, como era costume entre os vassalos na época, um tributo de mil moedas de prata. A submissão de João foi total, entregando-se a proteção de Inocêncio.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=465}} Imediatamente, Inocêncio retirou as penas sobre a Inglaterra e não permitiu mais sua invasão por FelipeFilipe. Segundo o estudioso brasileiro André Arthur Costa: "O caso da Inglaterra é um exemplo paradigmático da mudança que ocorreu no jogo político europeu, e a instalação da nova ordem assentada no papado, devido as manobras de Inocêncio. Assim, durante o reinado de Henrique VI, a Inglaterra, comandada pelo rei cruzado Ricardo Coração de Leão (1157-1199), foi um feudo do Sacro Império e de Henrique (...). Durante o pontificado de Inocêncio, sendo comandada por João Sem-Terra (1166-1216), a Inglaterra se torna justamente um feudo papal sob o controle do pontífice. A situação literalmente se inverte, e exterioriza o contexto geral europeu: da forte liderança dos Hohenstaufen, especialmente de Henrique, para uma forte liderança agora comandada pelo papado, sob comando de Inocêncio".{{sfn|Costa|2017|p=100}}
 
O enfraquecimento do poder do Rei João foi aproveitado pelos nobres que se rebelaram em 1215, e tendo vencido João, impuseram a ele a [[Magna Carta]], em 15 de junho de 1215, limitando o poder do monarca inglês. O rei João recorreu ao papa Inocêncio como seu suserano em seguida, e o papa anulou a Magna Carta por considerá-la uma violação dos direitos tradicionais do rei inglês como seu vassalo, e suspendeu e depôs Stephen Langton que apoiou o documento.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=465}} João então iniciou a [[Primeira Guerra dos Barões]], atacando e prendendo os senhores que haviam se rebelado contra ele. Porém, apenas um ano depois, em 1216, tanto Inocêncio como o Rei João faleceram.
 
===Relações com a França===
Na França, Inocêncio interveio principalmente em questões matrimoniais envolvendo seu Rei, [[Filipe II de França|FelipeFilipe II ou FelipeFilipe Augusto]]. Com a morte de sua primeira esposa, [[Isabel de Hainaut]], FelipeFilipe casou-se por razões políticas com a princesa [[Ingeborg da Dinamarca, rainha de França|Ingeborg da Dinamarca]] em 1193, esperando que o irmão de Ingeborg, [[Canuto VI da Dinamarca|Canuto VI]], ajudasse numa possível guerra contra a Inglaterra.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=466}} Já em 1193 FelipeFilipe anunciou que desejava divorciar-se de Ingeborg, o que foi aprovado por alguns bispos franceses no mesmo ano, e Ingeborg foi trancada contra a sua vontade em um mosteiro para ficar longe do Rei e da Corte francesa. O papa da época, [[Celestino III]], considerou o divórcio inválido, mas apenas pode protestar contra a sentença, sem tomar nenhuma atitude concreta. Assim, desconsiderando a decisão do papa Celestino, em 1196 FelipeFilipe casou-se com [[Inês de Merânia]], filha de um rico e poderoso senhor alemão.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=466}}
 
Porém, em 1198 quando Inocêncio tornou-se papa, a situação mudou radicalmente. Inocêncio insistiu na sentença emitida por seu antecessor, defendeu energicamente Ingeborg, que considerava a verdadeira esposa de FelipeFilipe e rainha da França, e dessa forma, emitiu um interdito contra todo o Reino da França, ordenando assim, o fechamento de todas as igrejas.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=466}} Dessa forma, em março de 1201, no concílio de [[Soissons]], FelipeFilipe reconheceu Ingeborg como sua legítima esposa publicamente, disse que jamais se separaria dela e voltou a viver com Ingeborg, levando-a no seu cavalo logo após a declaração, quando então, Inocêncio retirou o interdito da França. Porém, logo em seguida, FelipeFilipe rejeitou novamente Ingeborg e trancou ela, dessa vez, numa torre em [[Étampes]], de onde a rainha pediu socorro novamente a Inocêncio. O papa continuou insistindo na necessidade de FelipeFilipe conviver com Ingeborg, o que ele só fez em 1213, porque FelipeFilipe precisava do apoio da Dinamarca na sua expedição contra a Inglaterra.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=466}} O Rei FelipeFilipe também apelou para Inocêncio diversas outras vezes, como no [[Filipe II de França#Lutas contra Ricardo Coração de Leão|acordo de paz]] firmadoassinado em [[Vexin]] com o Rei da Inglaterra Ricardo Coração de Leão em 1198, ou para organizar uma cruzada contra o Rei inglês João Sem Terra, que não veio a acontecer. Dessa forma, Inocêncio teve um papel fundamental no Reino da França e nas decisões tomadas por seu Rei, FelipeFilipe Augusto.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=467}}
 
Inocêncio também teve um papel essencial na Universidade de Paris, através de seu aliado, Roberto de Courçon, um professor e membro ativo da Universidade. Roberto elaborou novos estatutos para a Universidade, que foram aprovados por Inocêncio por meio da bula ''Ex litteris vestre'' de 1208 ou 1209, ali Inocêncio reconhece por exemplo, o direito dos membros da Universidade de serem julgados apenas pelos tribunais da Igreja, e não pelos tribunais locais franceses.{{sfn| Ferruolo |1985|p=300}} Embora a Universidade já existisse desde 1150 (e o próprio Inocêncio tenha estudado nela quando jovem), e já possuísse privilégios dos papas anteriormente, os estatutos de Roberto aprovados por Inocêncio são o primeiro documento ainda existente sobre as regras e o funcionamento da Universidade de Paris em seu princípio.{{sfn| Ferruolo |1985|p=300-301}} Em 1211, Roberto de Courçon tornou-se [[Chanceler#Idade Média|Chanceler da Universidade]], em 1212 foi nomeado Cardeal por Inocêncio, e, em 1213 legado papal para a França, finalmente, em 1215 foi nomeado pelo papa chefe de uma comissão para investigar erros doutrinários propagados na Universidade, bem como segundo o papa “para reformar as escolas e providenciar sua futura tranquilidade”.{{sfn| Ferruolo |1985|p=301}} Roberto assim promulgou novos estatutos em 1215, proibindo alguns livros de [[Aristóteles]] recentemente traduzidos do árabe em Paris, porém, reconhecendo a independência da Universidade, que então, se estabeleceu como uma corporação autônoma e forte nessa época.{{sfn| Ferruolo |1985|p=309-310}}
[[imagem:Livio Agresti Pedro II de Aragón entrega el reino a Inocencio III Sala Regia Vaticano.jpg|miniatura|esquerda|200px|O Rei Pedro II de Aragão entrega seu Reino a Inocêncio III. Nesse afresco, Pedro II, usando uma [[toga]] amarela e coroa, se dirige a Basílica de São Pedro, onde o rei prestará a entrega de seu reino, que é simbolizado por uma miniatura do rei que personifica o seu reino, segurado por um cortesão no centro do afresco. O próprio Inocêncio não aparece na pintura. Afresco pintado por Livio Agresti na [[Sala Régia (Vaticano)|Sala Régia]], Palácio do Vaticano, 1561]]
 
A [[Península Ibérica]] cristã estava dividida nessa época entre cinco estados: [[Portugal]], [[Reino de Leão|Leão]], [[Reino de Castela|Castela]], [[Reino de Aragão|Aragão]] e [[Reino de Navarra|Navarra]], localizadaslocalizados no norte da Península, único local em que o Islã não conseguiu conquistar devido a sua geografia montanhosa.{{sfn|Costa|2017|p=61}} Na época de Inocêncio, os monarcas ibéricos se uniam por alianças matrimoniais, porém, essas alianças frequentemente eram condenáveis para a lei canônica vigente da Igreja, que proibia casamento entre parentes,{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=467}} e assim, os abusos matrimoniais existentes foram duramente punidos por Inocêncio, que interveio nos reinos de Aragão e Leão.
 
Em Aragão, seuo Rei,rei [[Pedro II de Aragão|Pedro II]] (1196-1213) tentou casar-se com sua parente, [[Branca de Navarra, condessa de Champanhe|Branca de Navarra]], porém desistiu do matrimônio devido justamente aà oposição de Inocêncio{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=467}}. Assim, em 1204, casou-se com Maria de Montpellier, não por amor, mas para incorporar ao seu reino os domínios da esposa. O mesmo Pedro II, ainda em 1204, desejando ser coroado pelo papa, partiu para Roma, onde foi ungido no monastério de São Pancrácio por [[Pietro Gallozia]], [[Diocese de Porto-Santa Rufina|cardeal-bispo do Porto]], e coroado em seguida pelo Papa. Nesse momento, Pedro jurou fidelidade a Igreja. Depois, dirigiu-se a [[Basílica de São Pedro]], onde depositou no altar o cetro e a coroa, e foi armado cavaleiro, recebendo a espada, de Inocêncio. Ali, Pedro entregou o Reino de Aragão a Inocêncio e seus sucessores, declarando-se vassalo do papa e comprometendo-se a pagar uma renda de 250 ''masmodines'' (moeda espanhola). Inocêncio concedeu a Pedro e seus sucessores o privilégio de ser coroado em [[Saragoça]] pelo [[Tarragona|arcebispo de Tarragona]], alterando o costume existente, pelo qual o rei de Aragão recebia a coroa sem uma cerimônia especial no momento que era armado cavaleiro aos vinte anos.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=467}} Pedro II, posteriormente, trouxe a Inocêncio a tentativa de se divorciar de sua esposa, Maria de Montpellier, alegando que ela havia contraído antes outro matrimônio com o conde de Cominges, que ainda estava vivo. O papa, porém, considerou o primeiro matrimônio de Maria como nulo e sem validade, e confirmou a autenticidade do matrimônio de Pedro, impedindo a separação, apesar da proximidade do relacionamento dos dois.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=468}}
 
[[imagem:Sancho I ditando ao Chanceler Julião a carta para Inocêncio III - História de Portugal, popular e ilustrada.png|miniatura|160px|Ilustração de Manuel Pinheiro Chagas no livro "História de Portugal, popular e ilustrada (1899-1905)" do historiador Alfredo Roque Gameiro, em que o Rei de Portugal Sancho I dita ao seu Chanceler Julião uma das cartas que enviou a Inocêncio III]]
Por um motivo semelhante, Inocêncio teve de intervir no Reino de Leão. O seu monarca, [[Afonso IX de Leão|Afonso IX]] (1188-1230), havia casado com [[Beata Teresa de Portugal|Teresa de Portugal]], filha de [[Sancho I de Portugal]], seu primo. O Papa Celestino III ordenou que eles deviam separar-se devido ao parentesco, e como não foi obedecido, sentenciou um [[interdito]] sobre o Reino de Leão e Portugal, o que obrigou que o casal se separasse e Teresa se retirasse para um monastério. O Rei Afonso, em seguida, decidiu casar-se com [[Berengária de Castela]], filha do Rei de Castela [[Afonso VIII de Castela|Afonso VIII]], que porém, também era parente de Afonso IX. Por causa desse segundo matrimônio, Inocêncio enviou um legado papal que colocou os Reinos de Leão e Castela em interdito, e castigou Afonso IX com a excomunhão, por um "monstruoso incesto".{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=468}} Afonso pediu dispensa das leis de proibição de consanguinidade ao papa, porém não foi atendido. Depois de seis anos vivendo juntos, finalmente o casal se separou, embora tenha tido vários filhos antes disso.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=468}}
 
Em Portugal, Inocêncio repreendeu severamente seuo monarca, [[Sancho I de Portugal|Sancho I]], por não cumprir seus deveres de rei e cristão, especialmente por não ter pago o tributo feudal que seu pai, o Rei [[Afonso I de Portugal|Afonso Henriques]] prometeu anualmente ao [[Papa Lúcio II]], além de intervir excessivamente na vida e nos cargos da Igreja. Porém, no seu testamento, Sancho I se arrependeu de sua conduta e se reconciliou com Inocêncio, atendendo suas exigências.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=468}}
 
Inocêncio foi especialmente importante para a Península Ibérica por ter se interessado profundamente pela [[Reconquista]], e concedeu a todos os soldados que participaram da [[Batalha de Navas de Tolosa]] de 1212, os mesmos privilégios da participação de uma cruzada, além de ter repetidamente ajudado o Rei de Castela na guerra contra oos Islãmouros.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=468}}
 
===Relações com os judeus===
No sul da França, o catarismo era forte e protegido pela nobreza local, especialmente no [[Languedoc]] e na [[Aquitânia]], uma vez que a doutrina da maldade da matéria cátara, permitia aos nobres confiscar os bens da Igreja nessas regiões. Os cátaros já haviam sido combatidos anteriormente, sem sucesso, pelos Papas Alexandre III e Lúcio III, que convocaram expedições militares contra eles. Inocêncio, inicialmente não era um partidário do uso da violência contra os cátaros, justificando-se dizendo que "desejava a conversão dos pecadores, e não seu extermínio".{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=480}} Dessa maneira, em 1198, enviou missionários para converter os cátaros do sul da França pacificamente, comandados por Rainerio e Guido, depois substituído por João Paulo, [[Santa Prisca (Roma)|cardeal de Santa Prisca]]. Em 1203, enviou novos missionários, dois cistercienses da [[Abadia de Fontfroide]], Raul de Fontfroide e Pedro de Castelnau, a quem se juntou Arnaldo Amaury, como legado papal.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=481}}
 
Em 1203, Pedro de Castelnau repreendeu duramente de forma pública a conduta do conde de [[Tolosa (França)|Tolosa]] [[Raimundo VI de Tolosa|Raimundo VI]] {{nwrap||1156|1222}}, que protegia os cátaros e não dava apoio aos missionários e a defesa da fé católica. Alguns dias depois, em 15 de fevereiro, Pedro foi assassinado por um súdito de Raimundo.{{sfn|Llorca|Garcia-Villoslada|Laboa|2009|p=481}} Não se sabe se Raimundo teve participação no crime, porém foi considerado cúmplice na época. Quando Inocêncio soube do assassinato, considerou Pedro um mártir e um santo, depôs Raimundo, desligou seus súditos do juramento de fidelidade, e o excomungou. A morte de Pedro também convenceu Inocêncio que a evangelização era inútil, assim o papa escreveu ao Rei da França FelipeFilipe Augusto, bem como aos condes franceses que lutassem contra Raimundo e o depusessem, e encarregou seu legado, Arnaldo Amaury de pregar uma cruzada na França para combater os cátaros. Quem participasse dessa Cruzada receberia os mesmos benefícios, [[indulgência]]s e privilégios dos soldados de uma cruzada rumo a Terra Santa, porém, sem ter que fazer a exaustiva e perigosa viagem rumo ao Oriente Médio. Isso tornou a Cruzada muito atrativa e popular, especialmente no norte da França.{{sfn|White|2013|p=167}}
 
[[imagem:Albigensian Crusade 01.jpg|miniatura|esquerda|340px|Iluminura medieval da [[British Library]] do Papa Inocêncio excomungando os cátaros ou albigenses (à esquerda), e uma batalha contra os albigenses realizada pelos cruzados (à direita). Note-se que o manto do cavalo possui um leão de prata no fundo de [[Gules|goles]], brasão de [[Simão IV de Monforte]], líder dos cruzados]]
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