Diferenças entre edições de "Iemanjá"

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Para recuperar sua esposa, Okerê decidiu interferir no curso do rio, ao se transformar em uma montanha. Mas com a ajuda de seu filho Xangô (que abriu passagem no meio dos vales criados por Okerê), Iemanjá conseguiu seguir seu caminho, tornando-se então a Rainha do Mar.
 
== Mito ==
[[Ficheiro:Nigeria o benin, yoruba, iemanjà e ibeji, xx sec..JPG|thumb|right|180px|Iemanjá amamentando os [[Ibeji]]s, início do século XX, [[Museu Afro Brasil]].]]
Muitos atributos e códigos morais de Iemanjá podem ser verificados em suas cantigas e ''[[oriki]]s'',<ref>[https://books.google.com.br/books?id=mYZtSQsR2v4C&pg=PA301&dq=#v=onepage&q&f=false Verger, pp. 301-306].</ref> tradições orais entre os [[iorubás]],<ref>Jegede, Olutoyin Bimpe. ''[http://www.ces.fe.uc.pt/publicacoes/rccs/artigos/47/Olutoyin%20Bimpe%20Jegede%20-%20A%20poesia%20laudatoria%20e%20a%20sociedade%20nigeriana,%20a%20Oriki%20entre%20os%20Yoruba.pdf A Poesia Laudatária e a Sociedade Nigeriana: a Oriki entre os Yoruba].'' pp. 76-78</ref> seus ''[[itan]]'' ou mitos e demais tradições também se preservaram de mesmo modo,<ref group="nb">Originalmente os yorubás eram ágrafos.</ref> estando segundo R. Ogunleye suscetíveis às limitações da memória e à extinção de saberes com a morte dos que a preservam.<ref>Ogunleye, Adetunbi Richard. ''[http://www.inkanyiso.uzulu.ac.za/journals/vol7i1/08%20Ogunleye%20prs.pdf Cultural identity in the throes of modernity: an appraisal of Yemoja among the Yoruba in Nigeria].'' Department of Religion & African Culture, Adekunle Ajasin University Akungba-Akoko Ondo State, Nigeria, 2015. p. 66</ref> Com a perda de muitos de seu culto durante as guerras sofridas pelo povo Egba, que resultaram na sua [[Migração humana|migração]] para uma nova região,<ref name="notasverger.293"/> não é espantoso que seus mitos originais só aludam ao suporte de seu culto na nova localidade, o rio Ògùn e não seu predecessor como adiante verificamos.
 
Os primeiros registros literários de seus mitos assim, como de alguns outros orixás, foram prejudicados por diversos equívocos. A. B. Ellis a ela associa uma gênese incestuosa influenciada por P. Baudin e repetida diversas vezes por autores como R. E. Dennett, Stephen Septimus Farrow, Olumide Lucas e [[Richard Francis Burton|R. F. Burton]] influenciados uns pelos outros,<ref name="notasverger.295">[https://books.google.com.br/books?id=mYZtSQsR2v4C&pg=PA295&dq=#v=onepage&q&f=false Verger, p. 295]</ref> e ecoada no Brasil por [[Arthur Ramos]] e [[Nina Rodrigues]].<ref>Da Costa, Valdeli Carvalho. ''Umbanda: os seres superiores e os orixás/santos : um estudo sobre a fenomenologia do sincretismo umbandístico na perspectiva da teologia católica.'' Volume 1, Edições Loyola, 1983, p. 185</ref> [[Pierre Verger|P. Verger]] inicialmente influenciado por tais mitos já alertava que os mesmos não eram mais conhecidos ou possível de se verificar na costa da [[África]]<ref>[https://books.google.com.br/books?id=mYZtSQsR2v4C&pg=PA296&dq=#v=onepage&q&f=false Verger, p. 296]</ref> e posteriormente conclui tratar-se de uma série de equívocos e os rebate duramente em obras posteriores.<ref name="artigoverger">[[Pierre Verger|Verger, Pierre]]. ''[http://blackpagesbrazil.com.br/?p=2206 Etnografia religiosa iorubá e probidade científica].'' Revista Religião e Sociedade - nº 8, ISER, Editora Cortez São Paulo, 1982.</ref> Essas influências ocidentais imprecisas refutadas por Verger aderiram na interpretação de Iemanjá em sua associação com a gênese do mundo, sendo objeto de estudo assim retomado por diversos autores que vêem em Iemanjá unida a Aganju (apresentado como irmão e marido) e posteriormente violada pelo filho,<ref>[https://books.google.com.br/books?id=GGgkDwAAQBAJ&pg=PT10&dq=false Seljan, p. 10]</ref><ref>Iwashita, p. 52</ref><ref>Moura,
Clóvis. ''[https://books.google.com.br/books?id=6Zcz0fIj91cC&pg=PA194&dq=false Dicionário da escravidão negra no Brasil].'' EdUSP, 2004, p. 194. ISBN 85-314-0812-1</ref> uma síntese da [[cosmogonia]] yorubá, passando a figurar como "mãe de todos os orixás" tal como apresentado por Poli<ref>Poli, pp. 88-90</ref> ou culminando na visão poética de Prandi com Iemanjá ajudando pessoalmente Olodumaré na construção do mundo.<ref>[http://olorum.lendas.orixas.nom.br/classificados/ebooks/015_iyamiosoronga.pdf Prandi, 2001 apud Y. Manzini, p. 19].</ref>
 
Para Poli, mesmo a concepção de Iemanjá que vislumbramos na obra de Verger é uma divindade já sincrética, como podemos conferir em sua associação a [[Yewá]] e também Yeyemowo.<ref>Poli, p. 87</ref><ref>[[Confer|Cf.]] [https://books.google.com.br/books?id=mYZtSQsR2v4C&pg=PA298&dq=#v=onepage&q&f=false Verger, p. 298]</ref> Tal confusão não é grave no seu culto no Brasil por exemplo, onde Iemanjá tornou-se em uma nova interpretação segunda esposa de [[Oxalá]]<ref>[https://books.google.com.br/books?id=bcJQBQAAQBAJ&pg=PA65&dq=false#v=onepage&q&f=false Modesto, p. 65]</ref> -uma concepção dos mesmos de Obatalá-, formando o casal da criação.<ref name="sousa">Sousa Junior, p. 128</ref> Alguns autores, como [[Lydia Cabrera|L. Cabrera]] em sua memorável explanação e abordagem sobre Iemanjá e [[Oxum]], abordaram essa visão da [[diáspora africana|diáspora]] centrada no seu novo contexto social, cultural e histórico, como é o caso de Cuba na análise da pesquisadora, não preocupando-se em um resgate propriamente a partir da origem.<ref>[https://books.google.com.br/books?id=6cSpx3vgc8sC&pg=PA13&dq=#v=onepage&q&f=false L. Cabrera, pp. 13-18]</ref>
 
No Novo Mundo, também observa-se uma moralização de sua figura em associação ao sincretismo com figuras do [[cristianismo]],<ref>Valéria Amim, Ruy do Carmo Póvoas. ''[http://docplayer.com.br/7554579-Iemanja-imagens-arquetipicas-da-grande-mae-na-diaspora.html Iemanjá: Imagens Arquetípicas da Grande Mãe na Diáspora].'' p. 6</ref> segundo Sousa Junior: "''O exemplo mais ilustrativo disso é a perda de características guerreiras em detrimento da exacerbação de elementos como virgindade, pureza e docilidade, ideais por excelência da figura da [[Virgem Maria]]'' (...)",<ref name="sousa"/> quando não em determinados momentos assume os aspectos da sensualidade em demasia, de amante, confundida na figura de [[Iara]] mesclada com as [[sereia]]s européias.<ref>Casemiro, Sandra Ramos. ''[http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8149/tde-21082012-112832/publico/2012_SandraRamosCasemiro_VRev.pdf A Lenda de Iara: Nacionalismo Literário e Folclore].'' p.22</ref> <ref>Hélio Lopes, Alfredo Bosi. ''[https://books.google.com.br/books?id=p--jHdG3PCUC&pg=PA174&dq#v=onepage&q&f=false Letras de Minas e outros ensaios].'' Ed. USP, 1997, p. 174. ISBN 85-314-0381-2</ref> como podemos verificar na ''Dona Janaína'' da obra de Jorge Amado ou das canções de [[Dorival Caymmi]] (ver seção [[#Iemanjá e a Música Popular Brasileira|Iemanjá e a Música Popular Brasileira]]), ou mesmo no culto de ''Lá Sirène'' ou [[Mami Wata]] no [[Caribe]] (ver seção [[#Sincretismo|Sincretismo]]).
 
Seus mitos permaneceram relacionados as águas, muito embora o orixá possa ter passado dos rios aos mares como observamos no [[Brasil]] e em [[Cuba]], seja em substituição de cultos de divindades esquecidas no processo de diáspora como o de [[Olokun]]<ref group="nb">O culto à Olokun é praticamente inexistente nas Nações [[Candomblé Ketu|Ketu]] e [[Nagô]] no [[Candomblé]].</ref> que foi substituído no panteão afro-brasileiro por Iemanjá,<ref>[[Roger Bastide|Bastide, Roger]]. ''As religiões africanas: contribuição a uma sociologia das interpenetrações de civilizações'', Volume 2. Livraria Pioneira Editôra, Editôra da Universidade de São Paulo, 1971, p. 341</ref> ou o estreitamento demasiado dessas duas divindades de mesma família, como observamos cunhado na figura de ''Yemayá Olokun''<ref>Margarite Fernández Olmos, Lizabeth Paravisini-Gebert ''[https://books.google.com.br/books?id=fAzYsAsJXDAC&pg=PA52&dq=#v=onepage&q&f=false Creole Religions of the Caribbean: An Introduction from Vodou and Santería to Obeah and Espiritismo].'' NYU Press, 2011, p. 52. ISBN 978-0-8147-6227-1; ISBN 978-0-8147-6228-8; ISBN 978-0-8147-2825-3</ref> explorada por Cabrera.<ref>[https://books.google.com.br/books?id=6cSpx3vgc8sC&pg=PA30&dq=#v=onepage&q&f=false L. Cabrera, p.30]</ref>
 
=== Origens ===
{| class="float" style="float:right; width:33%; background:inherit; border-collapse:collapse; border-style:none; margin:.5em .75em;"
| style="vertical-align:top; width:20px; color:#b2b7f2; font-size:40px; font-family:'Times New Roman',serif; font-weight:bold; text-align:left; padding:2px; 2px; padding-top:4px;"| “
| style="text-align:left; vertical-align:top; padding:0 10px;"|''Ògùn ó Yemonja, Ògùn ó Yemonja e lódò e lódò.
''Sà wè a Ògùn ó Yemonja.
 
''Ìyá àwa sé wè, Yemonja dò ó rere Yemonja.
 
''Ìyá àwa sé wè, Yemonja dò ó rere Yemonja.
 
<br />O rio Ògùn é de Iemanjá, o rio Ògùn é de Iemanjá. Ela tem o rio, tem o rio que escolhemos para nos banharmos, o rio Ògùn é de Iemanjá, mãe, vamos nos banhar, Iemanjá que o rio esteja bom, Iemanjá..''
| style="vertical-align:bottom; width:20px; color:#b2b7f2; font-size:40px; font-family:'Times New Roman',serif; font-weight:bold; text-align:right; padding:2px; 2px; padding:4px;"| ”
|-
| colspan="3" style="padding-top: 10px" |<p style="font-size:smaller;line-height:1em;text-align: right"><cite style="font-style:normal;">—Xirê de Iemanjá<ref>''[https://www.letras.mus.br/carlinhos-doxum/1376947/ Carlinhos D'Oxum - Xirê de Yemonjá].'' (Acessado em 01 de fevereiro de 2016).</ref>
|}
 
[[Ficheiro:Ori Olokun.jpg|thumb|left|180px|''Ori Olokun'' (Cabeça de Olokun), bronze descoberto em [[Ifé]] por Leo Frobenius.]]
Iemanjá, em seu culto original, é um orixá associado aos rios e [[desembocadura]]s, à [[fertilidade]] feminina, à maternidade e primordialmente ao processo de gênese do ''[[Àiyé (yoruba)|Àiyé]]'' (mundo) e a continuidade da vida (''[[emi]]''). Também é regente da pesca, e do plantio e colheita de [[inhame]]s.<ref>Valéria Amim, Ruy do Carmo Póvoas. ''[http://www.xiconlab.eventos.dype.com.br/resources/anais/3/1308314375_ARQUIVO_IEMANJAIMAGENSARQUETIPICASDAGRANDEMAENADIASPORA.pdf Iemanjá: Imagens Arquetípicas da Grande Mãe na Diáspora].'' p. 4</ref> [[Pierre Verger|P. Verger]], em seu livro ''Dieux d'Afrique'',<ref>[[Pierre Verger|Verger, Pierre]]. ''Dieux D'Afrique''. Paris: Paul Hartmann (1ª edição, 1954; 2ª edição, 1995). 400pp, 160 fotos. ISBN 2-909571-13-0</ref> registra: "''é o orixá das águas doces e salgadas dos [[Egba]], uma nação [[Iorubás|iorubá]] estabelecida outrora na região entre [[Ifé]] e [[Ibadan]], onde existe ainda o rio ''Yemọjá''. As guerras entre nações iorubás levaram os Egba a emigrar na direção oeste, para [[Abeokuta]], no início do [[século XIX]]. (...)O rio ''Ògùn'', que atravessa a região, tornou-se, a partir de então, a nova morada de Iemanjá.''"<ref>[[Confer|Cf.]] Zdenka Kalnická. ''[https://books.google.com.br/books?id=IZCLAAAAQBAJ&pg=PT198&dq=#v=onepage&q&f=false Wagadu: Water & Women in Past, Present & Future, Volume 3].'' Xlibris Corporation, 26 de set de 2007 - 248 páginas. ISBN 978-1-4257-5287-3, ISBN 978-1-4653-3137-3</ref> Após a guerra entre os [[Egba (povo)|egbás]] e os [[Reino do Daomé|daomeanos]], sobraram poucas pessoas desse culto, tendo em vista a dispersão ou mesmo prisão destes pelos inimigos.<ref name="notasverger.293"/> Segundo R. Ogunleye, "''Não está claro se o rio ''Ogun'' precede ''Yemoja'' ou se ''Yemoja'' trouxe o rio ''Ogun'' a existir para que ela pudesse criar um quartel-general como um assento de seu governo. Seja qual for o caso, o rio ''Ogun'' tem vindo a ser aceito pelos iorubás como o "quartel-general" de ''Yemoja''. De seu trono lá, ela se manifesta em qualquer outro corpo de água''".<ref name=ibara>Ogunleye, Adetunbi Richard. ''[http://www.inkanyiso.uzulu.ac.za/journals/vol7i1/08%20Ogunleye%20prs.pdf Cultural identity in the throes of modernity: an appraisal of Yemoja among the Yoruba in Nigeria].'' Department of Religion & African Culture, Adekunle Ajasin University Akungba-Akoko Ondo State, Nigeria, 2015.</ref> A referência da guerra e da fuga dos egbas reflete-se em sua mitologia.
 
Os principais relatos [[mitologia|mitológicos]] de Iemanjá se desenrolam com os [[orixá]]s primordiais da criação iorubá do mundo. Evidenciou-se na segunda metade do [[século XX]] um consenso entre autores de que Iemanjá é filha da divindade soberana dos mares e oceanos [[Olokun]] (esta última uma divindade feminina em Ifé e masculina no [[Benim]]), sendo esse vínculo celebrado na [[cidade]] de [[Ifé]], considerado como berço da civilização [[Iorubás|iorubá]].<ref name="mikelle">Mikelle Smith Omari-Tunkara. ''[Manipulating the sacred: Yorùbá art, ritual, and resistance in Brazilian Candomblé.'' African American life series. Wayne State University Press,‎ 2005. ISBN 9780814328521</ref><ref>[https://books.google.com.br/books?id=oZD9AwAAQBAJ&pg=PA77&dq#v=onepage&q&f=false Assef, p. 77].</ref><ref>Luna, Jayro. ''[https://books.google.com.br/books?id=8Q5CXXRDycoC&pg=PA98&dq#v=onepage&q&f=false Teoria do Neo-Estruturalismo Semiótico].'' 1ª Ed. São Paulo: Vila Rica, 2006. ISBN 85-905231-9-5, p. 98</ref><ref>Póvoas, Ruy do Carmo. ''Da porteira para fora: mundo de preto em terra de branco.'' Universidade Estadual de Santa Cruz. UESC, 2007. p. 183</ref><ref>''Exu'', Edições 1-11. Fundação Casa de Jorge Amado, 1987. p. W-24</ref><ref>Hoornaert, Eduardo. ''O cristianismo moreno do Brasil.'' Ed. Vozes, 1991 - 181 páginas. p.87</ref> R. Ogunleye alude sua origem também a partir de [[Olorun]] (''Olodumaré''), divindade do ''[[orun]]''.<ref>[http://www.inkanyiso.uzulu.ac.za/journals/vol7i1/08%20Ogunleye%20prs.pdf Ogunleye, p. 61]</ref> Se constata então como filha da união mitológica conturbada de Olokun e Olorun e irmã de [[Ajê Salugá]].<ref>Bàbá Osvaldo Omotobàtálá. ''Ajé Salugá: òrìṣà de la riqueza.'' Bayo editores, 2007.</ref> Olokun pelo caráter instável e destrutivo foi atada ao fundo do oceano em seus domínios após uma tentativa de [[dilúvio]] frustrada por Olorun,<ref>Coleção Arthur Ramos. ''Introdução a antropologia brasileira as culturas negras''. Ed. Casa do Estudante do Brasil, 1972; vol. III, pág. 65.</ref> E. L. Nascimento menciona, ao referir-se ao temor aos aspectos antissociais ou negativos dos Orixás femininos, "''Iemanjá, igualmente,<ref group="nb">Aqui a autora E. L. Nascimento, faz uma análise comparativa do lado negativo de Iemanjá com Oxum.</ref> representa em seu aspecto perigoso a ira do mar, a esterilidade e a loucura''".<ref>[https://books.google.com.br/books?id=0e7rpd-Rwg0C&pg=PA126&dq=#v=onepage&q&f=false E. L. Nascimento, p. 126]</ref> Não obstante, é muito frequente referências a natureza benéfica de Iemanjá, [[Lydia Cabrera|L. Cabrera]] assim defende: "''Sem deformar essa definição encantadora e irrefutável, podemos imaginar Iemanjá emanada de Olokun, com seu poder e suas riquezas, mas sem as características tremebundas que o associam mais à morte do que à vida, como sua manifestação feminina - ''Iemanjá é muito maternal'' - e benéfica''".<ref>[https://books.google.com.br/books?id=6cSpx3vgc8sC&pg=PA37&dq=#v=onepage&q&f=false L. Cabrera, p. 37]</ref><ref group="nb">Nesta menção L. Cabrera utiliza-se da hipótese de Olokun ser um orixá masculino.</ref> Na cosmologia e gênese de A. B. Ellis influenciada por P. Baudin é filha da união de [[Obatalá]] com [[Oduduwa]] numa manifestação feminina.<ref>Ellis, Alfred Burdon. ''The Yoruba-Speaking peoples of the Slave Coast of West Africa : their religion, manners, customs, laws, language etc. ; with an appendix containing a comparison of the Tshi, Ga, Ewe and Yoruba languages.'' London. Chapman and Hall, 1894.</ref><ref name=baudin>Baudin, Noel. ''Dictionnaire français-yoruba-français.'' Cotonou, 1967.</ref>
 
P. Verger aponta sua primeira união com [[Orunmilá]], o orixá dos segredos (essa união é amplamente celebrada no culto de ifá afro-cubano com diferentes ''[[itan]]s'' registrados por L. Cabrera, mas é negada por [[Wande Abimbola|W. Abimbọla]]),<ref>[[Wande Abimbola|W. Abimbọla]], Ivor Miller; p. 95</ref> relação que pouco durou uma vez que Orumilá a expulsa e acusa de quebrar o ''[[Ewo (tabu)|ewo]]'' que proíbe o acesso de mulheres aos [[Odu]]s e o manuseio dos objetos sagrados de [[Ifá]].<ref name="verger">[[Pierre Verger|Verger, Pierre]]. ''Orixás: Deuses iorubás na África e no novo mundo''. Ed. Corrupio, 1997. ISBN 8586551023, ISBN 9788586551024</ref><ref name="cabrera">[[Lydia Cabrera|Cabrera, Lydia]]. ''[https://books.google.com.br/books?id=6cSpx3vgc8sC&printsec=frontcover&dq=isbn:8531407427&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwiinZqY47TKAhWFWpAKHSk2AnMQ6AEIHTAA#v=onepage&q&f=false Iemanjá & Oxum: Iniciações, Ialorixás e Olorixás].'' Tradução: Carlos Eugênio Marcondes de Moura. Ed. Usp, 2004. ISBN 85-314-0742-7</ref><ref>Teixeira, Francisca Izabel. ''The Ritual of Iemanjá in Brazil: A Psychoanalytic Approach.'' University of California, Berkeley, 1992 - 174 páginas.</ref> L. Cabrera registra: "''Orunmilá teve de assistir a uma reunião de dezesseis ''awós'', convocada por Olofi.<ref group="nb">Olofi na santeria é o equivalente a Olorun.</ref> Ela ficou em casa e a todos que iam consultar seu marido, em vez de dizer-lhes que esperassem sua volta, ela fazia passar adiante e adivinhava para eles. (...)quando este voltou, todos lhe pediam quem Iemanjá olhasse para eles. Orunmilá explicava que as mulheres não podem jogar Ifá. Eles iam embora... e não voltavam mais''".<ref name=cabrera/>
[[Ficheiro:Yemoja Nigeria.jpg|thumb|left|180px|[[Elegun]] manifestada em Iemanjá durante um festival na [[Nigéria]].]]
Posteriormente, Iemanjá foi casada com Olofin [[Oduduwa]]<ref group="nb">Diversos autores, cautelosos pelo efeito de confusões por parte de autores do final do século XIX e início do século XX, costumam referir-se a Oduduwa nesse ''itan'' apenas como ''Olofin'' devido o equívoco ainda existente de Oduduwa ser um orixá feminino.</ref> criador do mundo e rei de Ifé, com a qual teve dez filhos. Alguns dos nomes enigmáticos de seus filhos parecem corresponder a orixás, Verger apresenta dois exemplos: "''Òsùmàrè ègò béjirìn fonná diwó''" (o arco íris que se desloca com a chuva e guarda o fogo nos seus punhos), e "''Arìrà gàgàgà tí í béjirìn túmò eji''" (o trovão que se desloca com a chuva e revela seus segredos).<ref name=verger/><ref name=mikelle/> Iemanjá, cansada da vivência na cidade de Ilê Ifé governada pelo marido, decide-se fugir para o Oeste, para a "''terra do entardecer''". Antes de viver no mundo, Iemanjá recebera, de Olokun, sempre precavida pois "''não se sabe jamais o que pode acontecer amanhã''", uma [[vasilha]] contendo um preparado mágico com a recomendação de que, se algum caso extremo se sucedesse, Iemanjá o quebrasse no chão. Iemanjá, que já havia se instalado no entardecer da Terra, foi surpreendida pelo exército de Olofin Oduduwa que estava a sua procura. Longe de se deixar capturar, quebrou a vasilha com o preparado conforme as indicações que recebera. O preparado mágico, ao tocar o chão, fez nascer, no mesmo lugar, um rio que levou Iemanjá novamente para ''okun'', os oceanos de Olokun onde foi acolhida.<ref name=verger/>
 
Outro mito sugere que foi casada com Okere, rei de Xaki, cidade localizada ao norte de [[Abeokuta]].<ref name=mikelle/><ref name=carybe>[[Pierre Verger|Verger, Pierre Fatumbi]], [ilustrações] [[Carybé]]. ''Lendas Africanas dos Orixás''. Tradução: Maria Aparecida da Nóbrega, 4ª edição, Corrupio: Salvador, 1997.</ref> Este mito parece complementar suas andanças após a fuga de seu [[casamento]] com Olofin Oduduwa. O mito se inicia com Iemanjá se instalando em [[Abeokuta]] que seria a terra do entardecer do mito anterior, e o desfecho muito se assemelha, com a presença da vasilha com o preparado mágico de Olokun. Iemanjá que "''continuava muito bonita''", despertou o desejo de Okere que lhe propôs casamento. A união se sucedeu com a condição que Okere em nenhuma situação expusesse o tamanho da imensidão de seus seios ao ridículo. Mas Okere certo dia bêbado retorna para casa e tropeça em Iemanjá que o recrimina, e este não tendo controle das faculdades ou emoções, grita ridicularizando-lhe os seios. Iemanjá foge em disparada ofendida com o feito de Okere, que lhe persegue. Em sua fuga, Iemanjá tropeça quebrando a vasilha que lhe foi entregue e dela nasce o rio que lhe ajudará a chegar até o mar. Okere não querendo permitir a fuga da mulher se transforma numa colina que lhe barra o caminho para qualquer direção. Iemanjá uma vez com sua rota até o [[oceano]] bloqueada, clama pelo mais poderoso de seus filhos, [[Xangô]].<ref name=carybe/><ref>Klotz, Lisa. ''Lemanjá und Sedna: Über welche Ansätze kann ein asymptotischer Vergleich zweier Meeresgöttinnen aus unterschiedlichen Kulturen erfolgen?''; ed. GRIN Verlag, março de 2010 - 112 páginas. ISBN 978-3-640-56268-8</ref>
 
Assim, Verger relata o seu desfecho: "''(...)chegou Xangô com seu [[Raio (meteorologia)|raio]]. Ouviu-se então: Kakara rá rá rá ... Ele havia lançado seu raio sobre a colina Okere. Ela abriu-se em duas e, suichchchch ... Iemanjá foi-se para o mar de sua mãe Olokun. E aí ficou e recusa-se, desde então, a voltar em Terra''".<ref name=carybe/>
 
=== Evolução e Interpretações do Mito ===
[[Ficheiro:Carybè, rilievi degli orixas, yemanjá, recorte.JPG|thumb|180px|right|Detalhe da escultura ''Iemanjá'' de [[Carybé]], onde é possível notar orixás representados dentro do seu ventre, como [[Xangô]] com seu [[oxê]] e [[Ogum]] com sua [[espada]].<ref>da Silva, Vagner Gonçalves. ''[http://pontourbe.revues.org/pdf/1267 Artes do axé. O sagrado afro-brasileiro na obra de Carybé].'' p. 10</ref> [[Museu Afro-Brasileiro]], [[Salvador (Bahia)|Salvador]], [[Bahia]].]]
Muito da interpretação de Iemanjá e de sua mitologia deve-se aos seus primeiros registros escritos como observa-se em P. Baudin e outros, o seu atributo de ''Mãe de todos os orixás'' é oriundo do relato de sua união com [[Aganju]], da qual teria surgido o orixá Orungã, este último atraído pela mãe teria tentado possuí-la em um momento de ausência do pai. Da consumação do incesto ou da mera tentativa da mesma, sucedeu-se uma fuga da parte de Iemanjá, como noutros episódios, que horrorizada cai sobre a terra e de seus seios rasgados surgem dois lagos e sucede-se assim o parto coletivo de diversos orixás, juntamente do [[Sol]] e da [[Lua]], porém este relato possui sérias inconsistências inclusive a menção a Olokun como o primeiro a nascer desse parto sendo que a sequência de nascimentos variam de um autor a outro e os desígnios dos orixás citados.<ref name="notasverger.295"/> L. Cabrera ao relatar este mito a partir de depoimentos de alguns santeiros sobrepõe em uma mesma figura duas divindades distintas, Iemanjá e Iemu, a sua ''Yemayá-Yemu'' esposa de Olorun que depois através de um Obatalá, ''Achupá'', deu à luz os orixás e os dois astros anteriormente citados, esta abordagem é comparada pela a autora a outra versão obtida de uma informante em exílio de Iemanjá casada com Aganju, que muito se assemelha ao relato dos autores P. Baudin, A. B. Ellis, R. E. Dennett, Stephen Septimus Farrow, Olumide Lucas e R. F. Burton; Cabrera em nota lança luz quanto a este mito tratar-se de uma variação do mito de Iemu verdadeira mãe de [[Ogum]] e que o incesto teria sido praticado por este,<ref>[https://books.google.com.br/books?id=6cSpx3vgc8sC&pg=PA32&dq#v=onepage&q&f=false L. Cabrera, p. 32]</ref> o mesmo é afirmado por Natalia Bolívar Aróstegui<ref>Mara Lúcia Cristan de Lomba-Viana, José Carlos Veríssimo de Lomba-Viana. ''[http://www.aps.pt/cms/docs_prv/docs/ENS4fdb841150529.pdf Desporto: Religiões, Ritos e Mitos Afro-Brasileiros].'' ISBN 978-972-99645-6-5, p. 20</ref> e outros autores.<ref>[https://books.google.com.br/books?id=fAzYsAsJXDAC&pg=PA50&dq=#v=onepage&q&f=false M. F. Olmos, L. Paravisini-Gebert, p. 50]</ref><ref>Raul Canizares. ''[https://books.google.com.br/books?id=51XAPkinhtkC&pg=PA81&dq=#v=onepage&q&f=false Santería Cubana: El Sendero de la Noche].'' Inner Traditions / Bear & Co, 2002 - 176 páginas. ISBN 0-89281-961-8, p. 81</ref>
 
Verger, que não observa os relatos de A. B. Ellis na costa da África, considera um visão equivocada e extravagante a de padre Baudin, e que só teria cruzado o Atlântico através de Ellis. O mesmo registra: "''Durante a pesquisa que fiz a partir de 1948 nos meios não letrados destas regiões da África, nunca encontrei vestígios das lendas inventadas por Rev. Padre Baudin''". Atualmente, R. Prandi, que rejeita a visão de Verger, defende que o mesmo mito é de grande conhecimento por parte dos praticantes do culto ao orixá na Bahia, com a observação que os mesmos não conservaram o nome de Orungã.<ref name="manzini">Manzini, Yaskara. ''[https://lituca.files.wordpress.com/2012/03/iyami.pdf yami Osoronga (Minha Mãe Feiticeira): O coletivo feminino na cosmogonia do Universo]''. pp. 32 e 33</ref> A visão de Prandi ignora a influência do acesso de religiosos a autores como [[Arthur Ramos]], fortemente influenciado por T. J. Bowen e A. B. Ellis, e demais estudiosos que tentaram atuar como bastiões de resgate do que acreditavam ser a [[Identidade cultural|identidade]] dos negros já perdida. Como destaca Roberto Motta, o papel do [[antropologia|antropólogo]] "''se transforma em doutor da fé, descobridor ou inventor da tradição e da memória''",<ref>Roberto Motta, [http://www.dedc2.uneb.br/wp-content/uploads/2015/09/Revista-Volume-01.pdf Revista Africa(s) — ISSN 2318.1990, p. 26]</ref> esse aparecimento gradativo do mito entre os devotos é reforçado com a comparação de dois relatos de períodos distintos, pelo relato de [[Nina Rodrigues]] em 1934: “''É de crer que esta lenda seja relativamente recente e pouco espalhada entre os nagôs. Os nossos negros que dirigem e se ocupam do culto ''yorubano'', mesmo dos que estiveram recentemente na África, de todo a ignoram e alguns a contestam''”,<ref name="manzini"/> outra menção quanto ao desconhecimento generalizado do mito, mas o seu já aparecimento é a pesquisa do escritor [[Jorge Amado]] que se utiliza da metáfora de Iemanjá e Orungã para seu livro [[Mar Morto (Jorge Amado)|Mar Morto]], o mesmo relata: "''Não são muitos no cais que sabem da história de Iemanjá e de Orungã, seu filho.''"<ref>dos Santos, José Benedito. ''[https://revistagepelip.files.wordpress.com/2013/03/a-recriac3a7c3a3o-do-mito-de-iemanjc3a1-e-orungc3a3.pdf A Recriação do Mito de Iemanjá e Orungã: uma leitura do romance mar morto, de Jorge Amado].'' p. 45</ref>
 
Outro atributo que lhe foi associado foi o poder sobre as cabeças e portanto sobre o destino. Na crença [[Religião iorubá|iorubá]], os aspectos que os seres humanos vivenciam em suas vidas são oriundos da escolha do ''[[Ori (yoruba)|ori]]'' (cabeça) que aplica o [[destino]]. Nessa tradição crê-se que após [[Obatalá]] modelar os seres, Ajàlá fornece a cabeça.<ref name="poli">Poli, Ivan da Silva. ''Antropologia dos Orixás: a civilização yorubá através de seus mitos, orikis e sua diáspora''. Ed. Acadêmica Terceira Margem, 2011. ISBN 978-85-7921-046-4</ref> Nas palavras de Abimbọla, "''Ajàlá (outra existência sobrenatural que não é reconhecida como divindade) fornece o ''[[Ori (yoruba)|ori]]'' (cabeça) de sua loja de cabeças...''"<ref>Wande Abimbọla. ''Sixteen Greats of Ifa'', Editora Unesco, ano 1975.</ref> S. Poli evidencia que Ajàlá "''É esquecido e descuidado e devido a isto nem sempre as cabeças saem boas. Como resultado disso a maioria das pessoas escolhem por si mesmas as cabeças sem recorrerem a ''Ajàlá'' e acabam assim por escolher cabeças ruins e imprestáveis"'', sendo devido a isso o motivo de serem necessários rituais como o [[Ebori (Bori)|Bori]] para estabelecer o equilíbrio que o ''[[Ori (yoruba)|ori]]'' necessita.<ref name=poli/> No [[Brasil]] a Iemanjá foi atribuída a tarefa da manutenção das cabeças, em especial no procedimento do [[Ebori (Bori)|Bori]] tornando-se a ''Iyá Ori'' ("Mãe das Cabeças"), a cerca disso [[Reginaldo Prandi|R. Prandi]] nos explica: "''Ajàlá está esquecido no [[Brasil]], tendo sido substituído por Iemanjá, a dona das cabeças, a quem se canta, no xirê, quando os iniciados tocam a cabeça com as mãos para lembrar esse domínio, e na cerimônia de sacrifício à cabeça ([[Ebori (Bori)|Bori]]), rito que precede a iniciação daquela pessoa''".<ref name=prandi/>
[[Ficheiro:Igba Ori Ioruba Tradicional (1).jpg|thumb|left|[[Igba Ori|Ilé Orí (casa de Orí)]], que contém o Ìbọ Orí, assentamento da cabeça, representação dentro do [[Religião tradicional yorubá|culto tradicional]] em [[Nigéria]]. No Brasil, um recipiente de louça que se usa como fundamento para fazer borí é chamado de igbá orí (cabaça de orí).]]
[[Ficheiro:Ritual para Ori.JPG|thumb|left|Ritual para [[Ori (yoruba)|Ori]] ao lado de uma estátua de Iemanjá no [[candomblé]], [[Ile Ase Ijino Ilu Orossi]], [[Bahia]], [[Brasil]].]]
[[Sandra Medeiros Epega|S. Epega]] defende o culto de Iemanjá como ''Iyá Ori'' justificando o porquê dessa atribuição, ela relata:
 
::"''Quando ''Yemoja'' veio do [[orun]] [mundo ancestral] para o [[aiye]] [planeta Terra], ao chegar descobriu que cada Òrìsà já tinha seu domínio na terra dos homens, e nada havia sobrado para ela. Queixou-se a [[Olorun|Olodumare]] [deus criador], que disse a ela ser seu dever cuidar da casa de seu marido [[Obatalá|Obàtálá]] [rei das roupas brancas], de sua comida, de sua roupa, de seus filhos. ''Yemoja'' se revoltou. Ela não tinha vindo do [[Orun]] para o [[aiye]] para ser dona de casa e doméstica. E tanto falou, tanto reclamou, que [[Obatalá|Obàtálá]] foi ficando perturbado, até que finalmente enlouqueceu. Ao ver seu marido<ref group="nb">Nesse relato [[Sandra Medeiros Epega|S. Epega]] reforça a ideia em torno da união de Iemanjá com [[Obatalá]].</ref> nesse estado, ''Yemoja'' pensou na atitude que [[Olorun|Olodumare]] iria ter com ela quando chegasse do [[Orun]]. E procurou os melhores frutos, o óleo mais claro e encorpado, o peixe mais fresco, o ''[[Inhame|iyan]]'' mais bem pilado, um arroz bem branco, os maiores pombos brancos, o ''[[Noz-de-cola|obi]]'' mais novo, o melhor ''[[Pimenta-da-áfrica|atare]]'', [[ekuru]] acabado de cozinhar, ''[[Ori (manteiga)|ori]]'' muito bom, os ''[[Caracol|igbin]]'' mais claros, ''[[Orogbo|orógbó]]'' macio, água muito fria, e com isso tratou a cabeça de [[Obatalá|Obàtálá]]. Ele foi melhorando com os ebós, e um dia ficou completamente curado. [[Olorun|Olodumare]] chegou do [[Orun]] para visitar [[Obatalá|Obàtálá]]. Falou à ''Yemoja'' que havia visto tudo o que acontecera, e deu-lhe os parabéns por ter curado tão bem a cabeça de seu marido. Dali para frente, ''Yemoja'' iria ajudar os homens que fizessem más escolhas de ''[[Ori (yoruba)|ori]]'' [destino, força vital], a melhorar suas cabeças, com uma oferenda determinada pelo [[Ifá|oráculo de Ifá]], através de [[Orunmilá]] [deus do destino dos homens].''”<ref name=epega>[http://bemzen.uol.com.br/noticias/ver/2012/03/31/1301-tradicoes-africanas/ Tradições africanas: Yemoja, a rainha das águas, protetora das famílias]. Acessado em 24 de dezembro de 2015.</ref>
 
Curiosamente em [[Cuba]] onde não há referência a posse desse atributo por Iemanjá, [[Lydia Cabrera|L. Cabrera]] consegue resgatar o seguinte mito:
 
::"''No começo do mundo, os [[Orixá]]s e homens confabularam contra Iemanjá, que entrava na terra, a varria continuamente com suas ondas e a todos impunha respeito. [[Olorun]] disse a [[Obatalá]]:'' 'Vá ver de que acusam Iemanjá.' ''[[Eleguá]], que ouviu a ordem recebida por [[Obatalá]], disse a Iemanjá:'' 'Consulte-se com [[Ifá]] para que você confunda todos os seus inimigos.' ''Iemanjá seguiu o conselho de [[Eleguá]], consultou [[Ifá]] e este indicou que ela fizesse um [[ebó]] (sacrifício) de carneiro. [[Obatalá]] chegou a [[ifé|Ilê Ifé]], a aldeia dos [[orixá]]s e dos homens e, enquanto todos falavam, Iemanjá saiu do mar e avançou até o grande [[Orixá]], mostrando-lhe a cabeça do carneiro. [[Obatalá]] pensou:'' 'É a única que tem cabeça!',''e confirmou seu poder e grandeza.''"<ref name=cabrera/>
 
Noutra versão, Iemanjá se encontra com [[Olorun]] na reunião por ele imposta aos [[Orixá]]s e lhe presenteia com a cabeça de um carneiro e este ao perceber que ela era a única dos presentes a homenageá-lo diz: "''Awoyó Orí dorí e".'' "Cabeça você traz, cabeça você será". A justificativa do mito seria que Iemanjá é "''cabeça que pensa por si mesmo"'' e a autora não apresenta maiores justificativas para entendermos a simbologia nele expressa, no entanto R. Prandi e A. Vallado justificam esse relato como referência da tutela dos ''oris'' por parte de Iemanjá.<ref name=vallado>Vallado, Armando. ''Iemanjá, a grande mãe africana do Brasil.'' Ed. Pallas, 2002 - 260 páginas.</ref><ref name=prandi/> L. Cabrera ao escrever sobre um mito que menciona Iemanjá novamente casada com [[Aganju]] evidencia [[Obatalá]] como dono das cabeças, atributo que [[Aganju]] sem sucesso teria tentado tomar para si.<ref name=cabrera/>
 
Olukunmi Omikemi Egbalade, sumo-sacerdote do culto a Iemanjá em [[Ibadan]], em entrevista, afirma não só a função do orixá em formar as cabeças juntamente a Obatalá, como seu papel de levar água para cuidar dos recém-nascidos modelados pelo último.<ref>The ancient river deity in yoruba culture...Iyemo̩ja. Entrevista de Olukunmi Omikemi Egbalade para a Orisun Tv em ocasião do festejo de Iemanjá em Ibadan, 0:52-1:47 (em [[Língua iorubá|iorubá]]). Acessado em 11 de dezembro de 2016.</ref> A. Apter ao explorar o aspecto político de seu culto em Ayede, em especial quanto a descrição do ritual da [[cabaça]] realizado pela sua alta sacerdotisa, escreve: "Yemoja ''frutificando a [[cabaça]] representa o útero da maternidade, a cabeça do bom destino, a coroa do rei, a integridade da cidade, mesmo o encerramento cosmológico do céu e da terra''",<ref name=apter>Andrew Apter. ''Griaule’s Legacy: Rethinking “la parole claire” in Dogon Studies.'' Artigo publicado pela ''Cahiers d’Études africaines'', XLV (1), 177, 2005.</ref> o que não é discrepante com a afirmativa de [[Sandra Epega|S. Epega]], "''(...)no ritual de bori [bo ori - louvar a cabeça], ''Yemoja'' sempre é saudada com a cantiga; 'Ori ori ire, ''Yemoja'' ori orire, ''Yemoja''' (Cabeça cabeça boa, ''Yemoja'' coloca boa sorte na cabeça, ''Yemoja'')''", ficando evidente algum aspecto do [[orixá]] quanto a cabeça.<ref name=epega/>
[[Image:Trinidad - Yamaya Tempel.jpg|thumb|right|180px|esquerda|Altar de ''Yemayá'' em templo em [[Trinidad (Cuba)]], com insígnias do [[sol]] e da [[lua]].]]
Outro atributo ou símbolo muito utilizado e presente na interpretação de Iemanjá é a [[lua]]. [[Reginaldo Prandi|R. Prandi]] relata que Iemanjá teria criado a [[lua]] para salvar o sol de extinguir-se, ele registra:
 
::"''Orum, o Sol andava exausto. Desde a criação do mundo ele não tinha dormido nunca. Brilhava sobre a Terra dia e noite. Orum já estava a ponto de exaurir-se, de apagar-se. Com seu brilho eterno, Orum <ref group="nb">Aqui ''Orum'' é a simplificação da grafia de '' Oòrùn'', sol em [[língua iorubá|iorubá]], não devendo ser confundido com [[Orun (yoruba)|Orun]], espaço espiritual oposto ao [[Àiyé (yoruba)|Àiyé]], o mundo físico.</ref> maltratava a Terra. Ele queimava dia após dia. Já quase tudo estava calcinado e os humanos já morriam todos. Os Orixás estavam preocupados e reuniram-se para encontrar uma saída. Foi Iemanjá quem trouxe a solução. Ela guardara sob a saia alguns raios de Sol. Ela projetou sobre a Terra os raios que guardara e mandou que o Sol fosse descansar, para depois brilhar de novo. Os fracos raios de luz formaram um outro astro. O Sol descansaria para recuperar suas forças e enquanto isso reinaria ''Oxu'', a Lua. Sua lua fria refrescaria a Terra e os seres humanos não pereceriam no calor. Assim, graças a Iemanjá, o Sol pode dormir. À noite, as estrelas velam por seu sono, até que a madrugada traga outro dia.''"<ref name=prandi/>
 
Em sua associação aos mares, Iemanjá através da [[lua]] e suas fases juntamente com a força do vento, que agita as águas, controlaria as marés.<ref>George Maurício, Vera de Oxaguiã, Marcelo Barros. ''O candomblé bem explicado: nações Bantu, Iorubá e Fon.'' Ed. Pallas, 2009 - 367 páginas.</ref> P. Iwashita ao discutir o arquétipo da maternidade e feminino afirma que "''Por sua vez o mais importante símbolo para a [[Anima e Animus|Anima]] é a [[lua]], por causa da relação entre as suas diferentes fases e o ciclo menstrual na mulher.''"<ref>P. Iwashita, p. 239</ref> Azevedo Filho em uma análise, justifica que pelas suas "''diversas fases, que descrevem o ciclo contínuo de aniquilamento/regeneração, a lua se tornou, sem dúvida, o símbolo maior das variações no (do) tempo(...) Correlacionada portanto com Iemanjá, a lua representa ainda a zona noturna, inconsciente, obscura da psique humana, pulsões adormecidas, mas que revivem nos sonhos, nas fantasias e no desejo impossível, ao contrário do sol(...).''"<ref>Azevedo Filho, Leodegário Amarante. ''Estudos universitários de língua e literatura: Homenagem ao Prof. Dr. Leodegário A. de Azevedo Filho.'' Tempo Brasileiro, 1993 - 665 páginas.</ref>
 
Essa analogia entre a [[lua]] e os ciclos com ''aniquilamento/regeneração'', é notável no mito registrado por [[Lydia Cabrera|L. Cabrera]] que relata a vingança de Iemanjá contra a humanidade que teria conspirado contra o seu primogênito, que foi sentenciado a morte e executado. Iemanjá tomada de ira (aqui consegue absorver as características e o objetivo de [[Olokun]], mas com grande êxito), teria destruído a ''primeira humanidade'', habitando nesse mito o contraste entre origem e destruição.<ref name=cabrera/><ref name=prandi/>
=== Mito e Política ===
{{artigos principais|[[Gelede|Sociedade Gelede]], [[Iyami-Ajé]]}}
[[Ficheiro:Gelede Mask.jpg|thumb|right|180px|Máscara [[Gelede]] da [[Nigéria]], Museu de Arte de Birmingham.]]
[[Ficheiro:Brooklyn Museum 1999.129 Gelede Body Mask.jpg|thumb|180px|right|Máscara [[Gelede]] com corpo, no [[Museu do Brooklyn]].]]
[[Pierre Verger|P. Verger]], ao discutir os aspectos políticos do culto dos [[orixá]]s na sociedade [[Iorubás|iorubá]], relata: "''O lugar ocupado na organização social pelo Orixá pode ser muito diferente se trata de uma cidade onde se ergue um palácio real, àáfin, ocupado por um rei, aládé, tendo direito a usar uma coroa, adé, com franjas de pérolas, ocultando-lhe a face ou onde existe um palácio, ilê Olójá, a casa do senhor do mercado de uma cidade cujo chefe é um balé que só tem direito a uma coroa mais modesta chamada àkòró. Nesses dois casos, o Orixá contribui para reforçar o poder do rei ou do chefe. Esse Orixá está praticamente à sua disposição para garantir e defender a estabilidade e a continuidade da dinastia e a proteção de seus súditos''". O [[orixá]] protetor de uma dinastia é amplamente celebrado pela mesma, sendo suas festividades tanto uma confirmação religiosa quanto política, como por exemplo, o festival de [[Oxum]] pelos soberanos de Oxogbô.<ref name=verger/> A respeito do aspecto político do culto de Iemanjá, A. Apter citando o festival de Ayede registra que sua alta sacerdotisa que cuida da cabeça do regente, é quem habilita o indivíduo do rei e revitaliza seu corpo político, "''Como qualquer símbolo dominante, ela abraça uma extensão de significados que vão desde bênçãos normativas e explícitas ('ela traz crianças e riqueza, ele mantém o rei saudável') para implícitas, temas proibidos de divisão e de derramamento de sangue, e é este último pólo que é poderoso e profundo''". Toda a integridade do governo, da sua legítima sucessão e da autoridade do regente é dependente do apoio de Iemanjá sua protetora e de suas sacerdotisas, que detém do poder de deposição de seu rei, assim como do mal destino, de ocasionar uma fissão política e pôr fim ao equilíbrio cósmico. "''Tais temas negativos raramente são expressos em público, mas eles representam, porém, um repertório de interpretações potenciais que, sob certas condições, pode ser invocado para mobilizar a oposição contra o [[status quo]]. O profundo conhecimento do ritual real envolve realmente o rei no sacrifício e renascimento, em que seus ícones de poder pessoal e autoridade real são literalmente desmontados e remontados por sacerdotes e sacerdotisas autorizados,''" conclui A. Apter.<ref name=apter/> [[Pierre Verger|P. Verger]] menciona que o seu cortejo em Ibará, "''vai saudar as pessoas importantes do bairro, começando por Olúbàrà, o rei de Ibará.''"<ref name=verger/> Sobre esta ainda estreita relação entre o culto de Iemanjá e a realeza de Ibará, Omari-Tunkara registra: "''Fiquei surpresa ao notar o elevado respeito do rei para a tradicional [[Religião iorubá]] e para a adoração de ''Yemọjá'', apesar do fato de que era educado ocidentalmente e um professo, devoto cristão''".<ref name=mikelle/> Todas essas menções reforçam a influência de seu culto sobre as regiões de [[Abeokuta]] e suas dinastias.
Sobre o temor do poder da ancestralidade feminina reverenciada em Iemanjá, legitimada em sua própria mitologia, Omari-Tunkara explica: "''Existem várias referências na literatura sobre os [[iorubás]] na África Ocidental para o papel de ''Yemọjá'' como [[Iyami-Ajé|Àjé]] ou [[Iyami-Ajé|Iyami]] - nossa mãe (ou bruxa no pensamento ocidental). De acordo com Peter Morton-Williams (1960), ''Yemọjá'' é a mãe da feitiçaria. Em um estudo clássico, ''Deuses Negros e Reis'', Thompson cita dois sacerdotes de alto escalão que enfatizam a estreita ligação de ''Yemọjá'' e [[Gelede]], uma sociedade dedicada à apaziguar [[Iyami-Ajé|Iyami]]: '[[Gelede]] é a adoração de ''Yemọjá'', deusa do mar e rio. As máscaras de Gèlèdé representam ela e seus descendentes do sexo feminino', e '''Yemọjá'' é proprietária de Gélèdé'.''"<ref name=mikelle/>
 
Um [[itan]] de [[Ifá]] justifica essa ligação de Iemanjá com a [[Gelede|Sociedade Gelede]]. Ela não podia ter filhos e consultou o [[Ifá|Oráculo de Ifá]], que a aconselhou a oferecer sacrifícios e dançar com imagens de madeira em sua cabeça e tornozeleiras de metal em seus pés. Depois de realizar este ritual, ela ficou grávida. Seu primeiro filho era um menino, apelidado de "Efe" (humorista); a máscara ''Efe'' enfatiza música e brincadeiras por causa da personalidade de seu homônimo. O fruto do segundo parto de Iemanjá era uma menina, apelidada de "Gelede" porque ela era obesa como sua mãe. Também como sua mãe, Gelede adorava dançar. Depois de terem se casado, nem Gelede ou a parceira de Efe podiam ter filhos. O [[Ifá|Oráculo de Ifá]] sugeriu que tentassem o mesmo ritual que tinha trabalhado com Iemanjá. Tão prontamente Efe e Gelede realizaram esta dança ritualística- com imagens de madeira em suas cabeças e tornozeleiras de metal sobre seus pés- eles começaram a ter filhos. Esses rituais desenvolvidos no [[Gelede]] de dança mascarada foi perpetuada pelos descendentes de Efe e Gelede. Esta narrativa é uma das muitas histórias que explica a origem do [[Gelede]].<ref>Lawal, Babatunde. ''The Gèlèdé spectacle : art, gender, and social harmony in an African culture.'' Seattle: University of Washington press, 1996. ISBN 978-0-295-97599-3</ref>
 
=== Outros Episódios ===
Em alguns mitos, Iemanjá teria sido mulher de [[Ogum]],<ref name="torre">De La Torre, Miguel A. ''[https://books.google.com.br/books?id=DgN8h0GreckC&pg=PA72&dq=#v=onepage&q&f=false Santeria: The Beliefs and Rituals of a Growing Religion in America].'' Wm. B. Eerdmans Publishing, 2004 - 246 páginas. ISBN 0-8028-4973-3</ref> acompanhando-o em suas inúmeras campanhas de guerra com porte do facão (obé), mas insatisfeita com seu casamento com o [[orixá]] da guerra quis livrar-se dele. O mito registrado por [[Lydia Cabrera|L. Cabrera]] se inicia com a afirmativa que naqueles tempos quando Ikú, a Morte, levava a vida de alguém não lhe sepultavam o corpo, e Iemanjá sabendo disso planejou tirar proveito. Fingiu tão bem as características e a rigidez da morte, que foi amortalhada pelo marido que a levou aos pés de [[Iroko]], a grande árvore, conforme os costumes. Mal [[Ogum]] retira-se do local em luto, o amante de Iemanjá surge para libertá-la das amarras da mortalha, e ambos fogem juntos.<ref name=cabrera/>
[[Ficheiro:Iemanja e Omulu.jpg|thumb|right|180px|Representação de Iemanjá cuidando de [[Obaluaiyê]] (Omulu).]]
Passado algum tempo, Iemanjá voltou a vender seus bolos, ''olelé'' e ''ekrú'' no mercado ao qual estava habituada. Achamadina sua filha com [[Ogum]], ao visitar o mercado em certa ocasião para comprar produtos vê sua mãe vendendo suas frituras como se estivesse viva, tomada pelo espanto corre até o pai em sua casa que não dá credibilidade alguma ao seu relato, dizendo: "''Sua mãe é [[Egungun]]''".<ref group="nb">A ironia aqui expressa por [[Ogum]] refere-se ao fato do tabu de mulheres na manifestação material do mortos no culto de [[Egungun]], única concepção [[Religião iorubá|iorubá]] que justificaria a presença física de um falecido entre os vivos. Na [[África]] as mulheres falecidas são cultuadas de forma imaterial no culto antagônico de [[Iyami-Ajé]].</ref> Passados alguns dias, Achamadina retorna novamente ao mercado, enquanto Iemanjá estava distraída com as tarefas sua filha observou-a bem e dessa vez ficou totalmente convencida, sua mãe estava viva, não tratava-se de um [[Egum]]. Indo novamente ao mercado, desta vez acompanhada do pai Ogum que, entre surpresa e fúria ao se deparar com Iemanjá viva, arrasta-lhe pelo braço até a presença de [[Olorun]], que ordenou que, daquele dia em diante, os mortos seriam sepultados no seio da terra.<ref name=cabrera/>
 
Outras menções relacionando-a a guerra lhe associam um caráter implacável. Em outro relato, teria arrancado a cabeça de [[Ogum]] com um único golpe de espada,<ref group="nb">Aqui, [[Lydia Cabrera|L. Cabrera]] explica que o mesmo não morria em tais eventos, pois sempre sua cabeça retornava ao lugar.</ref> uma vez que este demonstra um comportamento covarde durante uma campanha bélica não bem-sucedida, assustando-se durante o sono até mesmo com barulho de sapos ou rãs.<ref name=cabrera/>
 
Há um outro relato de [[Adultério|infidelidade]] de Iemanjá quando casada com Ogum na [[santeria]], tendo por amante [[Obaluayê]]. O envolvimento amoroso de ambos teria sido descoberto pelos [[Cão|cães]] de Ogum, sempre fiéis.<ref name=cabrera/><ref>Arisel Arce Burguera, Armando Ferrer Castro. ''The World of the Orishas.'' Editorial José Martí, 2002 - 267 páginas.</ref> Noutras menções, ambos são, também, casados,<ref name=torre/> no Brasil no entanto evidenciou-se um vínculo maternal entre Iemanjá e Obaluayê, orixá das doenças e da cura, que teria sido criado como filho adotivo por ela após este ter sido abandonado por sua mãe [[Nanã]], por ter nascido com o corpo coberto de feridas.<ref>Ribeiro, José. ''A magia do candomblé.'' Ed. Pallas, 1988 - 119 páginas.</ref><ref>Amaral,Rita. ''Xirê!: o modo de crer e de viver no candomblé.'' Ed. Pallas, 2002 - 119 páginas.</ref> Obaluaiyê perdoaria a mãe biológica mais tarde, mas sem jamais abandonar Iemanjá que o criou.<ref>''Revista de administração pública'', Volume 34, Edições 1-3. Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas, 2000.</ref> R. Prandi relata um mito que justificaria o título de Obaluaiyê como ''Senhor das Pérolas'' (''Jeholu'') e a posse sobre este tesouro como presente de Iemanjá ao filho.<ref name=prandi>[[Reginaldo Prandi|Prandi, Reginaldo]]. ''Mitologia dos Orixás''. Ed. Companhia das Letras, 2008.</ref>
 
É também relatada uma união de Iemanjá com Erinlé (''Odé Inlé''), orixá caçador de elefantes considerado andrógino, que segundo Verger é cultuado num rio homônimo em [[Ijexá]].<ref name=verger/><ref name=cabrera/><ref name=torre/> Como, no Brasil, Erinlé confunde-se com [[Oxóssi]], como manifestações de um mesmo princípio<ref>Júnior, Sangirardi. ''Deuses da Africa e do Brasil: Candomblé & Umbanda.'' Civilização Brasileira, 1988 - 206 páginas.</ref> e este último é considerado filho de Iemanjá<ref>''Comunicações do ISER'', Edições 43-50. Instituto de Estudos da Religião, 1992.</ref> o assunto parece [[tabu]], até verificarmos que Oxóssi ou Odé é de fato filho de Iyá Apáoká, a jaqueira, e não da primeira.<ref>de Moura, Carlos Eugênio Marcondes. ''Candomblé - Religião do Corpo e da Alma.'' Ed. Pallas, 2000 - 225 páginas.</ref><ref>de Moura, Carlos Eugênio Marcondes. ''Meu sinal está no teu corpo: escritos sobre a religião dos orixás.'' EDICON/EDUSP, 1989 - 269 páginas.</ref>
 
=== Arquétipo ===
[[Ficheiro:Orixa Yemanja Orossi.JPG|thumb|left|[[Elegun]]s em [[transe mediúnico|Manifestação]] de Iemanjá no [[candomblé]], no [[Ile Ase Ijino Ilu Orossi]]: a de verde é Asèssu e a de azul, Assagbá.]]
 
Segundo R. Fonseca, o trato dos mitos [[iorubás]] na concepção de [[arquétipo]] pode nos auxiliar na interpretação dos modelos sociais, históricos ou místicos, que neles evidenciam-se.<ref name=fonseca>Fonseca, Denise Pini Rosalem da. ''Filhas do desejo de Eva, herdeiras da sorte de Obá.'' ANPUH – XXII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – João Pessoa, 2003.</ref>
Na visão de Omari-Tunkara, "''muitos traços de personalidades das deusas estão em conformidade com os atributos míticos de ''Yemanjá'' e suas variantes e, portanto, ''Yemanjá'' pode ser considerada um arquétipo.''"<ref name=mikelle/> Tal arquétipo pode ser elucidado como a visão primordial do feminino esculpida na "''Grande Mãe''".<ref>P. Iwashita, p. 216</ref> S. Poli, focando nos padrões de comportamento faz uma comparativa do código moral de Yeyemowo com Iemanjá, e conclui que não é possível negar que pode-se observar "''(...)que vemos muito de mulheres que conhecemos ou mesmo de nossas mães neste mito''", sendo que "''Muito provavelmente por esse motivo tenha se tornado tão popular e amado entre nós na diáspora.''"<ref name=poli/> Para A. Vallado, Iemanjá representa o arquétipo da mulher zelosa e generosa.<ref name=vallado/> Na interpretação de R. Fonseca, "''Iemanjá nos fala de um precioso arquétipo feminino: o da mulher-mãe, daquela que concebe, alimenta e abriga os seus filhos. Esta mulher é fecunda e, por ser condescendente e conciliadora, ela é sistematicamente usurpada''". Numa [[análise]] mais profunda, expõe:
 
::"''A relação de Iemanjá com os homens, nas lendas mais antigas, é a de distância física. Ela está sempre farta dos esposos, sempre fugindo deles ou, no mínimo, eles estão ausentes. Não há relatos ancestrais de amores ardentes e sensuais e seus companheiros aparecem apenas como os pais materiais de seus filhos, embora ela habitualmente conceba sozinha a sua prole. A relação de Iemanjá com os seus companheiros é de a parceria, de amizade, de comunhão e não de amor sexual. (...)Quanto ao último elemento das lendas de Iemanjá, podemos dizer que os seios da mulher contêm um duplo simbolismo. Primeiramente eles representam o princípio feminino, inequivocamente, a mãe, personificada em Iemanjá. Por outro lado, os seios femininos também materializam a proteção, o refúgio, o lugar de repouso. Na ideologia mortuária iorubá, morrer nas águas significa regressar à origem, ao conforto e abrigo do corpo sagrado da Mãe. Durante os duros séculos de escravidão moderna, a imagem da mãe, à qual os [[nagô]] imaginavam regressar após a morte, era a da Mãe África, o berço da cultura iorubá.''"<ref name=fonseca/>
 
Essa primeira interpretação dos [[orixá]]s a partir da [[psicologia analítica]] credita-se a [[Pierre Verger|P. Verger]], que explora a ligação do povo de santo a uma identidade cultural definida por seres ancestrais,<ref name=fonseca/> essa ligação ocorre, de acordo com [[Reginaldo Prandi|R. Prandi]], porque
 
::"''Os iorubás acreditam que homens e mulheres descendem dos orixás, não tendo, pois, uma origem única e comum, como no cristianismo. Cada um herda do orixá de que provém suas marcas e características, propensões e desejos, tudo como está relatado nos mitos. Os orixás vivem em luta uns contra os outros, defendem seus governos e procuram ampliar seus domínios, valendo-se de todos os artifícios e artimanhas, da intriga dissimulada à guerra aberta e sangrenta, da conquista amorosa à traição. Os orixás alegram-se e sofrem, vencem e perdem, conquistam e são conquistados, amam e odeiam. Os humanos são apenas cópias esmaecidas dos orixás dos quais descendem.''"<ref name=prandi/>
Nas palavras de Omari-Tunkara,
 
::"''O retrato composto de ''Yemanjá'' é de uma pessoa que é obstinado alternadamente, produtiva, inflexível, adaptativa, protetora, apaixonada, corajosa, altiva, e às vezes arrogante; possui um grande senso de posição e hierarquia de comando e respeito; é justa, mas formal; é uma amiga dedicada e freqüentemente coloca amizades para teste; acha difícil perdoar uma ofensa e raramente esquece o erro. (...)É preocupada com os outros, é maternal, e séria. Apesar do fato de que a vaidade não é um traço saliente caracterizando ''Yemanjá'', seus iniciados ''[filhos]'' amam o luxo, a ostentação de têxteis azul-e-branco ou verde-mar, e joias caras. Eles preferem estilos de vida suntuosos mesmo quando suas circunstâncias cotidianas não permitem-lhes tal luxo.''"<ref name=mikelle/>
 
[[Lydia Cabrera|L. Cabrera]] também escreve sobre a suntuosidade dos filhos de Iemanjá mesmo quando pobres.<ref name=cabrera/>
 
== Culto ==
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