Diferenças entre edições de "Iemanjá"

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Para recuperar sua esposa, Okerê decidiu interferir no curso do rio, ao se transformar em uma montanha. Mas com a ajuda de seu filho Xangô (que abriu passagem no meio dos vales criados por Okerê), Iemanjá conseguiu seguir seu caminho, tornando-se então a Rainha do Mar.
 
== Culto ==
Para R. Ogunleye, um ponto importante para a compreensão do culto [[religião iorubá]] a Iemanjá é a observação quanto a sua pureza moral e ritual. Seu culto na Nigéria compreende diversas categorias, como o diário (privado), regular (celebra dias especiais que lhe são consagrados), especial, solicitado mediante determinadas situações ou ocorrências e anual como os seus festivais em Ibará e [[Ibadan]].<ref name=ibara/>
[[Ficheiro:Abeokuta and river Ogun 19th.jpg|thumb|right|[[Abeokuta]] à distância com rio Ògùn ao fundo, final do [[século XIX]].]]
[[Ficheiro:Yemaya-igba.jpg|thumb|right|[[Igba orixá]] de ''Yemaya'' na [[Santeria]], [[Cuba]].]]
[[Ficheiro:Oferenda para Yemanja.JPG|thumb|right|[[Igba yemanja]] no terreiro de [[candomblé]] do [[Ile Ase Ijino Ilu Orossi]], [[Brasil]].]]
O culto diário ou regular, é uma prática realizada pelo devoto em sua própria residência no santuário particular. Consiste em práticas em geral simples, que podem ocorrer na faixa da manhã como maneira de desejar ''bom dia'' ao [[orixá]], e fazer-lhe oferendas como [[noz de cola|obis]] e com o mesmo repartido conferir através de um simples ritual se a procedência do dia será ou não boa. O culto regular tende a ser mais elaborado que o primeiro, ocorrendo a cada cinco dias, inclui a visitação ao templo por parte de uma comunidade de devotos, com arrumação do santuário, oferendas, sacrifícios e outros ritos litúrgicos. Segundo R. Ogunleye, "''Neste ponto, a alta sacerdotisa (Iyaji) vai assumir, levando-os em oração ritual para deusa. Durante este tempo, ela vai oferecer sacrifícios à deusa. Isso inclui milho processado (Egbo), farinha de feijão branco (ekuru), caracóis, cana-de-açúcar, e [[noz de cola|nozes de cola]]. Depois disso, ela vai fazer petições com os nomes dos fiéis para o [[orixá]]. Em seguida, eles se separaram e arrematam a noz de cola (obi). Se tudo estiver bem pelo presságio, todos ficam felizes e todos eles dançam na presença de ''Yemoja''".<ref name=ibara/>
 
O culto especial ou ocasional pode ocorrer pelos mais diversos motivos, inclusive por solicitação de Iemanjá para uma pessoa específica ou família. Serve como base para pessoas que desejam adentrar em novos empreendimentos ou iniciativas, para bençãos às crianças, como também solicitar prosperidade, vitória em causas ou sobre inimigos e qualquer outra situação ou adversidade na vida.<ref name=ibara/><ref>Idowu, Bolaji. Olodumare: God in Yoruba Belief. Ikeja: Longman Nigeria Ltda, 1982.</ref> A última forma de culto é o ''Odun Yemojá'', a festividade anual, "''É uma ocasião para regozijo e gratidão. o que distingue adoração durante o festival anual é o programa elaborado conectado com a celebração. As pessoas vêm no seu melhor e dar o seu melhor. A celebração ocorre normalmente no santuário de ''Yemoja''. As ofertas são principalmente para ação de graças, e as refeições constituem uma oportunidade para a comunhão entre a deusa e seus 'filhos'''", explica Ogunleye.<ref name=ibara/>
 
Diversas representações na arte e em práticas rituais em sua homenagem são alguns dos componentes mais comuns dos sistemas religiosos derivados da sociedade [[Iorubás|iorubá]] em outras partes da [[América do Sul]], [[Estados Unidos]], e no [[Caribe]]. Neste contexto, a veneração de Iemanjá é transcultural e internacional. No [[Brasil]] e além, o carisma de Iemanjá ultrapassou as fronteiras que demarcam religião, classe social, etnia e raça para abraçar todos.<ref name=mikelle/>
 
Iemanjá sendo uma divindade possuidora de grande popularidade no [[Brasil]] e em [[Cuba]] é celebrada com grandes festas públicas, entre as quais se destacam o presente de Iemanjá na praia do [[Rio Vermelho (Salvador)|Rio Vermelho]] na [[Bahia]] no dia 2 de fevereiro, e a festa no dia 8 de dezembro juntamente as festividades de [[Nossa Senhora da Conceição]] no [[Brasil]]. Em [[Cuba]], suas festividades ocorrem no dia da [[Virgem de Regla]], em 8 de setembro.<ref name=verger/>
 
Segundo Omari-Tunkara, "''Na Bahia, objetos de arte sacra, dança, rituais, e o transe são os meios fundamentais utilizados para comungar com os deuses e manipular o sagrado''", Iemanjá assim como muitos [[orixá]]s é representada por diversos objetos, comidas, ritmos, e músicas.<ref name=mikelle/> É representada materialmente no [[candomblé]] e [[santeria]] pelo [[Igba yemanja]],<ref>[[Giselle Cossard|Cossard, Gisèle Omindarewá]]. ''Awô: o mistério dos orixás.'' Ed.Pallas, 2006, 215 páginas. ISBN 8534703965, ISBN 9788534703963</ref> [[Pierre Verger|P. Verger]] menciona "''Seu axé é assentado sobre pedras marinhas e conchas, guardadas numa porcelana azul. (...)Fazem-lhe oferendas de carneiro, pato e pratos preparados à base de milho branco, azeite, sal e cebola''".<ref name=verger/>
 
O ponto culminante do culto ao [[orixá]] ocorre com os seus [[iaô]]s ou [[elegun]]s mediante a possessão, onde "Yemanjá ''manifesta-se em seu ''adoxu'' ou ''Olorixá'' (termos genéricos para todos os iniciados capazes de experimentar o transe da possessão; [[médium|médiuns]])''".<ref name=mikelle/> Uma vez iniciado o processo de transe, entende-se todos os atos e comportamentos do [[elegun]] como sendo originados de seu [[orixá]].<ref name=mikelle/> Segundo Rouget, "''A possessão é caracterizada pelo fato de que, durante o transe, o sujeito é entendido como ganhador de uma diferente personalidade: a da divindade, do espírito, do gênio ou do ancestral - pelo qual podemos usar o termo geral 'divindade' - que toma posse do sujeito, substituindo-se a ele, e atuando agora no lugar do sujeito (...) por um período maior ou menor, o sujeito torna-se a própria divindade. Ele é deus. Podemos chamar essa possessão no stricto sensu da palavra''".<ref>Barbara, Rosamaria Susanna. ''[http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8132/tde-09082004-085333/publico/1rosamaria.pdf A dança das aiabás: dança, corpo e cotidiano das mulheres de candomblé]''. Tese apresentada como dissertação (Doutorado - Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2002). pp. 108-109</ref><ref>Rouget, Gilbert. ''Música e Transe.'' Turim, Einaudi, 1986. p.25</ref>
 
Durante esses fenômenos, o [[orixá]] manifestado apresenta-se respondendo corporalmente a canções que lhe são próprias entoadas por dirigentes do culto, e seguindo os ritmos que são de sua preferência, portam objetos que lhe são característicos, além de emitir pequenos gritos Ilá que lhe identificam conforme verificamos no estudo de R. S. Barbara, sendo que Iemanjá pode rir às gargalhadas<ref group="nb">Essa forma de grito é conhecida por ''Ilá'' e é notável na [[santeria]], inclusive na manifestação de [[Oxum]].</ref> ou gemer, como se estivesse chorando.<ref name="zenicola100">[https://books.google.com.br/books?id=ryZuBgAAQBAJ&pg=PT100&dq=#v=onepage&q&f=false Zenicola, p. 100]</ref> Segundo [[Roger Bastide|Bastide]], as danças religiosas na concepção africana "''constituem a evocação de certos episódios da história dos deuses. São fragmentos de mitos, e o mito deve ser representado ao mesmo tempo que falado, para adquirir todo o poder evocador.''"<ref>[[Roger Bastide|Bastide, Roger]]. ''O Candomblé da Bahia - rito nagô.'' Ed. Nacional, São Paulo, 1978.</ref> Para R. S. Barbara a função da dança dentro da ritualística do [[candomblé]] é múltipla, sendo mimética e litúrgica, entendendo como mimética o ato de imitar os movimentos típicos do [[orixá]]s e litúrgica por sinalizar e suturar todos os momentos do ritual até a expressão e manifestação mística do [[orixá]], onde forma e conteúdo unem-se numa única dimensão, o próprio [[orixá]]..<ref>[http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8132/tde-09082004-085333/publico/1rosamaria.pdf Barbara, p. 137]</ref>
 
A dança de Iemanjá reflete em maior parte sua personalidade ligada à maternidade, e seu elemento natural fluídico, a [[água]],<ref>Martins, Suzana. ''A Dança de Yemanjá Ogunté: sob a perspectiva estética do corpo. Egba - Salvador, 2008.</ref> apresentando movimentos evocativos as ondas marinhas e de distribuição que representam, nas palavras de M. Augras, "''germinação constantemente renovada''".<ref>Augras, Monique [[apud]] [https://books.google.com.br/books?id=ryZuBgAAQBAJ&pg=PT99&dq=#v=onepage&q&f=false Zenicola, p. 99]</ref> Seu ritmo predileto é o ''jinka'', que significa "ombros", indicando danças reais de caráter mais lento e que estimulam respeito.<ref>[http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8132/tde-09082004-085333/publico/1rosamaria.pdf Barbara, p. 128]</ref> [[Pierre Verger|P. Verger]] nos diz, "''Na dança, suas [[iaô]]s imitam o movimento das ondas, flexionando o corpo e executando curiosos movimentos com as mãos, levadas alternadamente à teste e à nuca, cujo simbolismo não chegamos a identificar. Manifestada em suas [[iaô]]s, Iemanjá segura um abano de metal branco e é saudade com gritos de:'' 'Odò Ìyá!!!' ''(Mãe do rio)''".<ref name=verger/> [[Reginaldo Prandi|R. Prandi]] e M. Zenicola identificam que os movimentos não entendidos por Verger sejam referência ao seu domínio sobre o [[Ori (yoruba)|Ori]] no [[Brasil]].<ref name=prandi/> F. Eramo acrescenta: "''O ritmo é também parecido com o ritmo dos oceanos, e ''Yemanjá'' dança parecendo acariciar as ondas do mar. Além da leveza e ondulação da água, ''Yemanjá'' representa a fertilidade através de sua dança. Ela movimenta a [[pélvis]] ao [[dança]]r, símbolo da reprodução e germinação. Ao se olhar no espelho, ela representa a beleza, mas uma beleza calma e pacífica. Nas festas públicas observadas, os filhos de santo que incorporam ''Yemanjá'' dançavam com muita leveza, calma e sutileza''".<ref>Eramo, Fabiana. ''Infinita Beleza: o Sétimo Sentido - A linguagem do corpo e a inteligência dos sentidos na performance da dança afro.'' Tese apresentada como dissertação (Pós-Graduação - Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal Fluminense, 2010).</ref> M. Zenicola relata outros movimentos curiosos: "''Outro movimento é estender as mãos em posição que lembra estar implorando, ou melhor, esmolando por caridade e amor''", e prosseguindo na sua análise afirma: "''Na dança de Iemanjá não existem movimentos grandes, ampliados ou mesmo em alta velocidade, possivelmente como reflexo das características do [[orixá]]; os gestual das mãos lembra carícias na água, elemento do qual faz parte, empurrando-a para trás do corpo. Seu deslocamento é suave, ligeiramente contido, como se flutuasse ou caminhasse dentro da [[água]]"''.<ref name="zenicola100"/> Na [[santeria]] apresenta danças vigorosas e com o dramatismo da influência da [[dança]] [[Espanha|espanhola]].
 
Durante suas manifestações, costuma utilizar diversos objetos ou ferramentas na cor prata, entre as quais se destaca o ''adé'' (coroa), ''abèbè'' (leque de metal com ou sem espelho), ''obé'' (espada, alfange ou faca) entre outros.<ref name=mikelle/>
 
=== Sincretismo ===
[[Ficheiro:Mami Wata poster.png|thumb|left|180px|Representação de [[Mami Wata]] por Schleisinger.]]
Iemanjá, na cultura da [[diáspora africana|diáspora]], é, sobretudo, uma [[Sincretismo|divindade sincrética]], reunindo, em si, os diferentes atributos de outros orixás femininos das águas. Sua figura embasada no arquétipo da ''Grande-Mãe'' é promovida a ''Grande-Deusa'', em especial pelo fato de que, no Brasil, tratando-se da divindade mais cultuada da Bahia, com grande prestígio popular, encontra seu par em [[Nossa Senhora da Conceição]] (no [[Rio Grande do Sul]], [[Nossa Senhora dos Navegantes]]), ou mais especificamente na [[Virgem Maria]], o que, segundo Verger, teria ocasionado uma equivalência de importância dentro do panteão iorubá, tornando-a a única do mesmo com um sincretismo iconográfico acabado.<ref name=poli/><ref name=verger/><ref>de Azevedo, Manuel Quitério. ''O culto a Maria no Brasil: história e teologia.'' Editora Santuário, 2001 - 260 páginas</ref><ref>Valente, Waldemar. ''Sincretismo religioso afro-brasileiro''. Companhia Editora Nacional, 1976 - 117 páginas.</ref><ref name=coimbra>Coimbra, Créso. ''Fenomenologia da cultura brasileira.'' LISA, 1972 - 681 páginas.</ref><ref name=marcello>Azevedo, Marcello de Carvalho. ''Teologia da inculturação e inculturação da teologia.'' Ed. Vozes, 1 de jan de 1995 - 132 páginas.</ref><ref name=humanidade>''Humanidades, Edições 35-38''. Editora Universidade de Brasília, 1994.</ref><ref>Dreher, Martin. ''Populacoes Rio-Grandenses E Modelos de Igreja.'' Editora Sinodal, 1998 - 340 páginas.</ref> Tal sincretismo ocorreu devido ao culto entusiasmado dos orixás disfarçados de santos do catolicismo pelos escravos nas [[senzalas]].<ref name=reid>Reid, Michael. ''[https://books.google.com.br/books?id=xtFpBAAAQBAJ&pg=PT53&dq#v=onepage&q&f=false Brasil: A Turbulenta Ascensão De Um País]''. Elsevier Brasil, 20 de ago de 2014 - 320 páginas.</ref> A assimilação católica também observa-se em Cuba com o culto da Virgem de Regla, todavia vale ressaltar que em tal mimetismo em que o orixá se camuflou em uma divindade católica o mesmo não se corrompeu, nas palavras de Stella e M. Loddy, "''Iemanjá é Iemanjá na Bahia, em Cuba ou no mais sincrético terreiro de umbanda''".<ref name=cabrera/><ref>Stella (de Oxóssi, Mãe.), Raul Giovanni da Motta Lody. ''Faraimará, o caçador traz alegria: Mãe Stella, 60 anos de iniciação.'' Ed. Pallas, 1999 - 412 páginas.</ref> O mesmo sincretismo é um aspecto distintivo da cultura brasileira até a atualidade.<ref name=reid/> No Brasil, seu culto também confundiu-se com o culto da ''Mãe-d'água'', a [[Iara]], o que justifica sua representação por vezes como [[sereia]].<ref name=coimbra/><ref>de Andrade, Mario. ''Música de feitiçaria no Brasil''. Nova Fronteira, 2 de jul de 2015 - 338 páginas.</ref> Essa associação à sereia contrasta evidentemente com o lado maternal de Iemanjá na concepção africana, e em especial com a Virgem Maria pela demasiada sensualidade, mas não obstante também aparece no [[Voodoo da Louisiana|Vodu da Louisiana]] e [[Vodu haitiano]], onde Iemanjá é associada à ''Lá Sirène'' e [[Mami Wata]], espíritos das águas.<ref name=humanidade/><ref>Alvarado, Denise. ''[https://books.google.com.br/books?id=qiJoEAOGmYkC&pg=PA33&dq=#v=onepage&q&f=false Voodoo Hoodoo Spellbook].'' Ed. Weiser Books, 2011 - 320 páginas. ISBN 978-1-57863-513-9</ref><ref>Lifshitz, Fima. ''[https://books.google.com.br/books?id=ghVF7yRvMA0C&pg=PA17&dq=#v=onepage&q&f=false An African Journey Through Its Art].'' AuthorHouse, 2009 - 214 páginas. p. 17</ref> Essa aglutinação com tais divindades evidencia-se na afirmativa de S. Otero e T. Falola que "''Iemanjá e [[Oxum]] fazem parte de uma rede global de [[espíritos]] da água que muitos estudiosos, especialmente Henry John Drewal, trouxeram sob a égide Mami Wata. Seja em [[Serra Leoa]], [[República Democrática do Congo|Congo]], [[Togo]], em Igbo na Nigéria, [como] ''Lasiren'' no Haiti, ''Santa Marta Dominadora'' na República Dominicana (...)os espíritos (divindades, energias, forças cósmicas) compartilham algumas semelhanças notáveis''".<ref name="mamiwata">Solimar Otero, Toyin Falola. ''Yemoja: Gender, Sexuality, and Creativity in the Latina/o and Afro-Atlantic Diasporas.'' SUNY Press, 2013 - 336 páginas. ISBN 978-1-4384-4799-5</ref> Em ''Candomblés da Bahia'' E. Caneiro confunde Iemanjá com um [[Nkisi]] do [[Candomblé bantu]] [[Ndanda Lunda|Dandalunda]], apresentando esta como um dos nomes da primeira, essa identificação das duas divindades costuma aparecer com certa frequência.<ref>FERREIRA, A. B. H. ''Novo dicionário da língua portuguesa''. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 914.</ref><ref name="edison"/>
 
=== Qualidades e Avatares ===
Segundo A. Vallado, "qualidade" é o termo que designa as múltiplas invocações ou [[avatar]]es de um mesmo orixá. Também é, por vezes, chamado de "caminho", como observamos no esclarecimento apresentado por L. Cabrera de que "''não existe mais do que uma única Iemanjá, uma só, com sete caminhos''".<ref name=vallado/><ref name=cabrera/> Muitas dessas qualidades parecem tratar-se de outras divindades, como explora S. Poli, o que também se apoia em E. Ramos com a tese de assimilação dos orixás de povos subjugados ao orixá patrono do povo conquistador em conflitos na [[África]]. Também pode ocorrer em referência a uma determinada localidade ou o segmento de um mesmo orixá mas com pequena diferenciação, o que individualiza esse como sendo uma qualidade.<ref name=poli/><ref>Ramos, Eurico. ''[https://books.google.com.br/books?id=S3sQBAAAQBAJ&pg=PT21&dq=#v=onepage&q&f=false Revendo o Candomblé].'' Mauad Editora Ltda, 2011 - 120 páginas. ISBN 978-85-7478-416-8</ref>
 
*'''Yemowô ou Yeyemowo'''
Na África, é mulher de Oxalá, sendo citada por Verger como sendo qualidade de Iemanjá. S. Poli, no entanto, a apresenta como divindade distinta.<ref name=poli/><ref name=verger/>
*'''Iemanjá Assagbá'''
''Assagbá'' (pron. Achabá), ''Iyásabáé'', ''Ayabá'' ou simplesmente ''Sabá'' é a mais velha que foi casada com [[Orunmilá]] e o desafiou, sua palavra sempre é acatada por [[Ifá]]. É considerada perigosíssima, ela é manca e lhe é característico utilizar de uma correntinha de prata no tornozelo, é descrita por Verger como estando sempre fiando algodão.<ref name=verger/><ref name=cabrera/> [[Roger Bastide]] a confunde como qualidade mais nova e a ''Ogunté'' credita o porte de mais velha.<ref>Farelli. Maria Helena. ''Os Rituais Secretos da Magia Negra e do Candomblé.'' Editora Eco, 1976 - 157 páginas.</ref>
*'''Iemanjá Asèssu'''
Também conhecida por ''Sessu'', é muito voluntariosa e respeitável, sendo a mensageira de [[Olokun]] vai no esgoto e latrinas, sendo particularmente muito séria. Apresenta certos problemas psicológicos como esquecimento. Recebe suas oferendas na companhia dos ''[[egun]]s'', come pato.<ref name=verger/><ref name=vallado/><ref name=cabrera/>
*'''Iemanjá Ogunté'''
É a que foi casada com ''Ògún Alagbedé'' ou ''Alaguedé'' e mãe de ''[[Exu (orixá)|Èṣù]]'', ''Ògún Akoro'' e ''Igbo''.<ref>[https://books.google.com.br/books?id=mYZtSQsR2v4C&pg=PA208&dq=#v=onepage&q&f=false Verger, p. 208]</ref> Vallado menciona que, diferentemente de ''Sessu'', ela não apazigua [[Ogum]], participando das guerras diretamente com ele, conforme retratado nos mitos registrados por L. Cabrera. Possuindo espírito guerreiro, "''é uma temível amazona''", violenta, muito severa e rancorosa. Apresenta-se como jovem senhora com imponência e ar desafiador, portando uma espada. Vive na mata virgem e gosta de dançar com um ''majá'' (serpente que vive nas matas em Cuba) envolto nos seus braços. Respeitável feiticeira, lhe pertencem os [[coral|corais]] e a [[madrepérola]].<ref name=vallado/><ref name=cabrera/><ref>L. Moraes. ''Bembé do Mercado: 13 de maio em Santo Amaro.'' 2009 - 177 páginas.</ref> Devido a sua ligação com Ogum, gosta de arroz com feijão preto, ao invés de arroz simples.<ref>de Moura, Carlos Eugênio Marcondes. ''[https://books.google.com.br/books?id=GePz23ZpFSwC&pg=PA102&dq=#v=onepage&q&f=false Leopardo dos olhos de fogo: escritos sobre a religião dos orixás VI, Volume 6].'' Atelie Editorial, 1 de jan de 1998 - 164 páginas. p. 102</ref>
 
=== Festivais ===
==== Nigéria ====
*'''Ibadan'''
[[Ficheiro:Festival Yemoja Ibadan.jpg|thumb|right|180px|Procissão de Iemanjá em [[Ibadan]], [[Nigéria]].]]
Em [[Ibadan]] capital do estado de [[Oyo (estado)|Oyo]] permanecem cultos e celebrações de Iemanjá como deusa padroeira, sendo reverenciada no antigo templo conhecido como ''Popo-Yemoja''. Em seu cortejo anual celebram-se quatro aspectos que para A. Folarin enfatizam a importância do [[orixá]] e de sua liturgia, "''Ela simboliza o poder da maternidade e princípios feminino, ela é a geradora do panteão do mundo [[Religião iorubá|iorubá]]; escultura tradicional que descreve ela geralmente mostra seios e quadril voluptuosos, retratando mulheres de poder e graça. A segunda é a função sociológica que gera durante a época festiva. O terceiro é o fervor espiritual ou cosmológico que transparece na celebração. Geralmente, há esse sentimento de transcendência, abrindo o coração e a mente para o mais alto ser espiritual. A quarta e mais importante é que ela é reverenciada muito bem como uma deusa da fertilidade''".<ref name=ibadan/>
 
Seu templo, construído com barro de acordo com a arquitetura tradicional [[Iorubás|iorubá]], é descrito por A. Folarin como rodeado com uma varanda de colunas de madeira esculpidas e [[Policromia|policromadas]] em vigor ''[[stacatto]]'', e suas paredes são decoradas com motivos de peixes, [[samambaia]]s, lírios de água, tartarugas e [[Caracol|caracóis]]. O cortejo que compreende três dias de cantos e [[dança]] tem, como ponto culminante, o momento em que a estátua de Iemanjá em madeira é levada em uma notável [[procissão]] de seu templo ''Popo-Yemoja'' para o palácio real de Olubadan, onde ocorrem danças por alguns minutos, e a procissão segue para Oja-Oba onde uma multidão em júbilo aguarda a sua chegada, entoando cânticos em honra do [[orixá]]. A. Folarin também enaltece que a multidão tomada pela euforia grita e dança em honra ''da mãe de todos'' com a saudação "''Iyá O!''".<ref name=ibadan/>
 
== Representações ==
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