Diferenças entre edições de "Racismo no Brasil"

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Chegando ao que viria a ser o Brasil, os portugueses se depararam com os povos indígenas. Durante séculos, grupos "científicos" <ref>{{Citar periódico|ultimo=Arteaga|primeiro=Juanma Sánchez|data=2016-05-23|titulo=Biological Discourses on Human Races and Scientific Racism
in Brazil (1832–1911)|url=http://dx.doi.org/10.1007/s10739-016-9445-8|jornal=Journal of the History of Biology|volume=50|numero=2|paginas=267–314|doi=10.1007/s10739-016-9445-8|issn=0022-5010}}</ref> e religiosos debateram se os índios eram seres humanos ou animais <ref>{{Citar periódico|ultimo=Sánchez Arteaga|primeiro=Juanma|ultimo2=Niño El-Hani|primeiro2=Charbel|data=2010-06|titulo=Physical anthropology and the description of the 'savage' in the Brazilian Anthropological Exhibition of 1882|url=http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702010000200008|jornal=História, Ciências, Saúde-Manguinhos|volume=17|numero=2|paginas=399–414|doi=10.1590/s0104-59702010000200008|issn=0104-5970}}</ref>. A cultura e a religião indígenas foram sempre vistas como inferiores e demoníacas, resultando numa "ação civilizadora" da [[Igreja Católica]] a fim de aculturar os nativos ao [[cristianismo]]. Camuflada de boas intenções, o objetivo final era a dominação. Os [[bandeirantes]], hoje considerados heróis, promoveram verdadeiras atrocidades contra as populações indígenas. Escravizados e despojados de suas terras, a maior parte da população nativa foi fisicamente aniquilada.<ref name="botosso"/><ref name="darcy"/>
 
Com a chegada dos escravos africanos, a sociedade brasileira dividiu-se em duas porções desiguais, semelhante a um sistema de [[casta]]s, formada por uma parte branca e livre e outra parte negra e escrava. Mesmo os negros livres não eram considerados cidadãos.<ref name="botosso"/> O racismo no Brasil colonial não era apenas consuetudinário, vez que tinha base legal também. Para ocupar serviços públicos da Coroa, da municipalidade, do judiciário, nas igrejas e nas ordens religiosas era necessário comprovar a "pureza de sangue", ou seja, apenas se admitiam brancos, banindo negros e mulatos, "dentro dos quatro graus em que o mulatismo é impedimento". Era exigida a comprovação da "brancura" dos candidatos a cargos.<ref name=libertos>{{citar livro|título=Escravos e Libertos no Brasil Colonial|autor =A.J.R RUSSEL-WOOD|páginas=-&ndash;-|ano=2005|publicado=Civilização Brasileira}}</ref>
 
=== Século XX ===
O racismo no Brasil continuou a ser perpetuado pela minoria branca após a independência <ref>{{Citar periódico|ultimo=Arteaga|primeiro=Juanma Sánchez|data=2016-05-23|titulo=Biological Discourses on Human Races and Scientific Racism
Oin racismoBrazil no(1832–1911)|url=http://dx.doi.org/10.1007/s10739-016-9445-8|jornal=Journal Brasilof continuouthe aHistory serof perpetuado pela minoria branca após a independênciaBiology|volume=50|numero=2|paginas=267–314|doi=10.1007/s10739-016-9445-8|issn=0022-5010}}</ref>. No Brasil republicano, o país continuava voltado ideologicamente para a [[Europa]], tendo a cultura europeia como modelo. Esse ideal contribuía para se perpetuar um sentimento de repulsa aos negros, pardos, mestiços ou crioulos.<ref name="IBGE1">{{citar web |url=http://brasil500anos.ibge.gov.br/en/territorio-brasileiro-e-povoamento/negros/a-heranca-cultural-negra-e-racismo |título=A herança cultural negra e racismo |editor=IBGE |acessodata=4 de maio de 2015}}</ref> Obcecada em "branquear" o país, no século XIX a elite política incentivou enormemente a vinda de imigrantes europeus. O racismo foi inclusive reforçado com a chegada desses imigrantes, como alemães e italianos, pois eles frequentemente mantiveram uma relação conflituosa com índios e negros.<ref name="Xokleng">{{citar web |url=https://repositorio.ufsc.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/88727/248673.pdf?sequence=1 |título=A ocupação do território Xokleng pelos imigrantes italianos no Sul Catarinense (1875-1925): Resistência e Extermínio |autor=Mauricio da Silva Selau |data=2006 |acessodata=4 de maio de 2015}}</ref><ref name="Kaingang">{{citar web |url=http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/58506/Resumo_20070946.pdf?sequence=1 |título=A Experiência Vivida por Imigrantes Italianos e Índios Kaingang na Serra Gaúcha (1808- 1910) |autor= Soraia Sales Dornelles |editor=[[Universidade Federal do Rio Grande do Sul]] |acessodata=9 de fevereiro de 2015}}</ref><ref name="fogo">{{citar web|url=http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000845753|título=Fogo cruzado : os imigrantes Italianos entre o barrete frígio e o saco de coar café|publicado=Biblioteca Digital da UNICAMP|formato=PDF-''download'' com cadastro|data=maio de 2012|autor=Melina Roberto Rovina|língua= |acessodata=21 de janeiro de 2014}}</ref><ref name="violencia">{{citar web |url=http://portal.anpocs.org/portal/index.php?option=com_docman&task=doc_view&gid=4796&Itemid=357‎ |título=História de Violência: Processos Criminais e Conflitos Inter-Étnicos |autor=Karl Monsma |editor=Departamento de Ciências Sociais Universidade Federal de São Carlos |acessodata=4 de maio de 2015}}</ref><ref name="vantagens">{{citar web |url=http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52582010000300001&lng=en&nrm=iso |título=Vantagens de imigrantes e desvantagens de negros: emprego, propriedade, estrutura familiar e alfabetização depois da abolição no oeste paulista |data=2010 |autor=Karl Monsma |editor=Departamento de Sociologia, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) |acessodata=4 de maio de 2015}}</ref> Os descendentes desses imigrantes também foram vítimas de preconceito durante o surto [[nacionalismo|nacionalista]] do [[Estado Novo (Brasil)|Estado Novo]] (1937-1945), quando línguas estrangeiras chegaram a ser proibidas de ser faladas publicamente no Brasil. Muitos imigrantes foram tratados de forma agressiva pela polícia que os reprimia. Os descendentes de alemães, em particular, eram identificados pelos brasileiros devido ao seu [[sotaque]] e [[Cabelo loiro|cabelos loiros]] e eram vistos como "outsiders", o que os tornava alvos fáceis de agressividade.{{nota de rodapé|Depoimento da Sra. Frida Höller: "Quando eu andava na escola, já quando chegava mais no centro, cabelo loiro, puxava a pronúncia, o alemão, então já tinham meninas assim que atiravam pedras – ‘alemã desgraçada!’".<ref name="campos">{{citar web |url=https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/90553/243142.pdf?sequence=1 |título= Campos de Concentração em Santa Catarina e os Conflitos Envolvendo Alemãs e Descendentes Durante o Estado Novo |autor=Janaina Santos de Macedo |data=2007 |editor=[[Universidade Federal de Santa Catarina]] |acessodata=4 de maio de 2015}}</ref>}}<ref name="vivencias">{{citar web |url=http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:S9AQeEVvJvcJ:tede.pucrs.br/tde_busca/arquivo.php%3FcodArquivo%3D4444+&cd=16&hl=en&ct=clnk&gl=br |título=Vivências Cotidianas da Guerra: A Segunda Guerra Mundial e os Judeus em Porto Alegre |autor=Mariana Barcelos Ramos |editor=[[Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul]] |data=2012 |acessodata=4 de maio de 2015}}</ref><ref name="mana">{{citar web |url=http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-93131997000100004 |título=A assimilação dos imigrantes como questão nacional |autor=Giralda Seyferth |data=1997 |acessodata=4 de maio de 2015}}</ref> Os [[Imigração portuguesa no Brasil|imigrantes portugueses]] também foram bastante discriminados durante a [[República Velha]], pois eram associados aos antigos colonizadores e responsabilizados pelas mazelas sociais que atingiam o tecido urbano brasileiro, sobretudo no Rio de Janeiro.<ref name="sangue1">{{citar web|título=Laços de Sangue|data=2003|url=http://www.cepese.pt/portal/investigacao/livro-lacos-de-sangue.-privilegios-e-intolerancia-a-imigracao-portuguesa-no-brasil |acessodata=21 de julho de 2012}}</ref><ref name="manuel">{{citar web|título=Manuéis e Joaquins: a cultura brasileira e os portugueses|data=2003|url=http://ceas.iscte.pt/etnografica/docs/vol_05/N1/Vol_v_N1_157-172.pdf |acessodata=21 de julho de 2012}}</ref> Os [[Imigração japonesa no Brasil|imigrantes japoneses]] foram igualmente alvo de discriminação, pois a chegada desse grupo asiático ao país fez reverberar um sentimento antijaponês, inclusive nos meios intelectuais, que os discriminava por suas características raciais e culturais.<ref name="suzuki">{{citar web |url=http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2004200804.htm |autor=SUZUKI Jr, Matinas. |título=História da discriminação brasileira contra os japoneses sai do limbo |editor=Folha de S.Paulo |data=20 de abril de 2008 |acessodata=17 de agosto de 2008}}</ref> Os [[Judaísmo no Brasil|judeus]] foram outro grupo mal recebido no Brasil, quando chegaram em grande número ao país entre 1920 e 1940, fugindo das perseguições em andamento na [[Europa]].<ref name="judaica">{{citar web |título=A imigração judaica no Brasil e o antissemitismo no discurso das elites |url=https://periodicos.ufsc.br/index.php/politica/article/view/2175-7984.2009v8n15p225 |autor=Natália Dos Reis Cruz |editor=Revista Política & Sociedade |data=2009 |acessodata=4 de maio de 2015}}</ref>
 
De acordo com Maria Helena Alves Moreira, no início do século XX as desigualdades entre ricos e pobres foram exacerbadas pelo tratamento diferenciado dos migrantes urbanos durante e após a [[Grande Depressão]], quando os [[Migração interna no Brasil|migrantes internos]], que eram principalmente descendentes de [[Povos indígenas do Brasil|ameríndios]] ou escravos [[Afro-brasileiros|africanos]], não receberam ajuda do governo ou treinamento na adaptação aos grandes centros urbanos, e, portanto, foram empurrados para uma espécie de "''apartheid'' social", forçados a viver em [[Favelas no Brasil|favelas]] e empregar-se em postos de trabalho desagradáveis e servis que os [[Brasileiros brancos|brancos]] evitavam. Por outro lado, os [[Imigração no Brasil|imigrantes europeus]], árabes e japoneses foram diretamente assistidos por vários programas de governo, bem como outros benefícios.<ref name=Alves>"Migrantes internos do Brasil, muitos descendentes de índios ou escravos africanos, eram totalmente abandonados à seus próprios empreendimentos nas cidades, sem subsídios governamentais, nenhum programa de apoio à imigração, nenhuma formação profissional e sem programas de habitação para ajudar no processo de adaptação. Em suma, os migrantes brasileiros se viram empurrados para um ''apartheid'' sociais nas [[Favelas na cidade de São Paulo|favelas da cidade]], com o seus trabalhos limitados àqueles que os branco não queriam, como a remoção de lixo, construção e trabalhos braçais na indústria. Em contraste, muitos imigrantes europeus e japoneses vieram sob os auspícios de programas organizados pelos respectivos governos que ajudou-os com o custo de seu transporte e de alojamento, ajudando-os a encontrar emprego, treinamento e fornecimento de vários de outros benefícios." Alves, Maria Helena Moreira "São Paulo: as transformações políticas e sócio-econômicas causadas ​​pelo novo movimento sindical na cidade e arredores." In Gugler, Josef. ''World Cities Beyond the West: Globalization, Development and Inequality'', Cambridge University Press, 2004, pp. 202-203.</ref>
{{Vertambém|Imigração no Brasil|Democracia racial no Brasil|Complexo de vira-lata}}
[[Imagem:Redenção.jpg|miniatura|esquerda|Obra ''[[A Redenção de Cam|Redenção de Can]]''<ref>{{citar web |url=http://web.archive.org/web/20081007234352/http://cienciahoje.uol.com.br/controlPanel/materia/view/2655 |editor=Ciência Hoje |título=Livro explica surgimento do ''Homo brasilis'' |data=15 de outubro de 2002 |acessodata=4 de maio de 2015}}</ref> (1895). Avó negra, filha mulata, genro e neto brancos, para o governo da época, a cada geração o brasileiro ficaria mais branco. Quadro de [[Modesto Brocos|Modesto Brocos y Gomes]].]]
No Brasil, o [[mestiço]], dependendo do tom da sua pele, era classificado como quase-branco, semibranco ou sub-branco, e tinha tratamento diferenciado do negro retinto, porém nunca era classificado como quase-negro, seminegro ou sub-negro. Por isso, a mestiçagem no Brasil sempre foi vista como o "clareamento" da população, e não como o "enegrecimento" dela .<ref name="alma"/> A ideologia do branqueamento criou raízes profundas na sociedade brasileira no início do século XX. Muitos negros assimilaram os preconceitos, os valores sociais e morais dos brancos. Por isso, "desenvolveram um terrível preconceito em relação às raízes da negritude". A recusa da herança africana e o isolamento do convívio social com outros negros eram características desses negros "branqueados socialmente". Para se tornarem "brasileiros", os negros tinham que abdicar de sua ancestralidade africana e assumir os valores "positivos" dos brancos, pois o próprio "abrasileiramento" passava por uma assimilação dos valores e modos dos brancos. Nesse contexto, o racismo brasileiro é peculiar pois a própria vítima do racismo assume o papel de seu próprio algoz, ao reproduzir o discurso discriminatório do qual ela mesmo é vítima e ao interiorizar esses conceitos dentro de sua própria comunidade.<ref name="alma"/>
 
Assim, muitos negros brasileiros cultuaram o padrão de beleza branco, associando os traços africanos à fealdade e recorrendo a diversos métodos para "mascarar" suas próprias características físicas, criando uma obsessão nas mulheres negras em alisar o [[cabelo]], estimulando a venda de produtos que prometiam "clarear a pele" e por meio de métodos excêntricos de tentar se branquear, como na crença de que beber muito [[leite]] daria esse resultado. Também por meio da assimilação dos valores morais e sociais das classes dominantes, fazendo com que toda a característica cultural que remetesse ao passado africano fosse considerada inferior e motivo de vergonha. Por meio do branqueamento biológico <ref>{{Citar periódico|ultimo=Arteaga|primeiro=Juanma Sánchez|data=2016-05-23|titulo=Biological Discourses on Human Races and Scientific Racism
Os movimentos de mobilização racial existem no Brasil desde o [[século XIX]]. No pós-abolição, a população negra foi marginalizada, o que a levou a criar dezenas de grupos (grêmios, clubes ou associações) em alguns estados, como a Sociedade Progresso da Raça Africana (1891), em [[Lages]], Santa Catarina; a Sociedade União Cívica dos Homens de Cor (1915), a Associação Protetora dos Brasileiros Pretos (1917), ambas no Rio de Janeiro e o Club 13 de Maio dos Homens Pretos (1902) e o Centro Literário dos Homens de Cor (1903), em São Paulo. No início do século XX, existiam centenas de associações negras espalhadas pelo Brasil.<ref name="movimento">{{citar periódico|url=http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1413-77042007000200007&lng=en&nrm=iso&tlng=pt|título=The brazilian black movement: some historical notes|primeiro =Petrônio|último =Domingues|publicado=|periódico=Tempo|volume=12|número=23|páginas=100–122|via=SciELO|doi=10.1590/S1413-77042007000200007}}</ref> Porém, foi a partir dos anos 1970 que todo um movimento de contestação dos valores vigentes no Brasil, por meio de política oficial e, sobretudo, alternativa, na literatura e música, emergiu. Nessa época, surgiu o [[Movimento Negro Unificado]] (MN) que, ao lado de outras organizações paralelas, passaram a discutir as formas tradicionais de poder.<ref name="lilia"/> Em 2003, o então [[presidente Lula]] criou a [[Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial]], nascida do reconhecimento das lutas históricas do movimento negro no Brasil.<ref>{{citar web|url=http://www.seppir.gov.br/sobre|título=Acesso à Informação — Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial|website=www.seppir.gov.br}}</ref>
 
Casos recentes de manifestações racistas de torcedores brasileiros em partidas de [[futebol]] têm ajudado a desconstruir o mito da democracia racial no Brasil. Cada vez mais a [[mídia]] dá atenção à problemática.<ref>{{citar web|url=http://www.cartacapital.com.br/sociedade/futebol-racismo-e-o-mito-da-democracia-racial-1282.html|título=Futebol, racismo e o mito da "democracia racial"|primeiro =|último =palomarodrigues|website=cartacapital.com.br}}</ref> A adoção de [[cotas raciais]] nas universidades e nos setores públicos também tem contribuído para a maior discussão sobre o racismo na sociedade .<ref>{{citar web|url=http://brasildebate.com.br/cotas-nas-universidades-federais-a-lei-e-seus-efeitos/|título=Cotas nas universidades federais: a lei e seus efeitos|data=7 de agosto de 2014|website=brasildebate.com.br}}</ref>
 
=== Ordenamento jurídico brasileiro ===
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