Diferenças entre edições de "Jangada"

227 bytes adicionados ,  14h51min de 14 de agosto de 2019
sem resumo de edição
A forma da jangada incorpora uma série de interessantes avanços da ciência artesanal [[Neolítico|neolítica]] - que realizava experimentos diretos, nos materiais e a partir dos fenômenos presenciados, em "projetos de pesquisa" totalmente guardados na memória dos artesãos. <ref>{{Citar web|titulo=Sobre a Jangada|url=https://www.jangadashow.com.br/sobre-a-jangada/|obra=Jangada Show|data=2013-02-12|acessodata=2019-08-14|lingua=pt-BR}}</ref>
 
Em especial sua [[vela]] triangular envolve uma série de efeitos avançados, relacionados à dinâmica dos fluidos. Também conhecida como "vela latina", ela permite navegar contra o [[vento]], aproveitando a diferença de pressão do ar, que se forma entre sua "face externa" (aquela que se torna convexa pela pressão interna do vento) e sua "face interna" (aquela que se torna côncava, lado em que se posta o navegante). As grandes embarcações também usaram a vela latina, mas de modo limitado, pois o seu emprego bem sucedido depende crucialmente da presença do navegante, que deve estar atento aos movimentos do vento: as diferenças de pressão são ativamente manipuladas por todo o tempo de navegação contra o vento. Os mesmos princípios são usados para manter os aviões no ar, graças à geometria de suas asas. <ref>{{Citar livro|url=https://books.google.com.br/books?id=ubJcBAAAQBAJ&pg=PT72#v=onepage&q&f=false|título=Jangada:|subtítulo= Uma pesquisa etnográfica|ultimo=Cascudo|primeiro=Luís da Câmara|data=2015-09-04|editora=Global Editora, p. 72|lingua=pt-BR|isbn=9788526017283}}</ref>
 
No caso da jangada, há uma graciosa curva quase-parabólica na parte superior do triângulo, e outra mais estendida e curta, abaixo. Essa assimetria se deve à altura de manipulação do [[mastro]], que gira suavemente - dessa vez usando o princípio mecânico da [[alavanca]] - em torno de seu eixo.
 
Sua tecnologia de construção consiste no emprego hábil de materiais como madeiras de flutuação (como a [[balsa]] paraense, e outras espécies de difícil obtenção na atualidade), tecidos e cordas artesanais. A jangada tradicional não possui elementos em metal (como pregos, braçadeiras, etc); toda a sua estrutura é totalmente fixada por encaixes e amarrações com cordas de fibras selvagens. <ref>{{Citar livro|url=https://books.google.com.br/books?id=i0a9CwAAQBAJ&pg=PT161#v=onepage&q&f=false|título=A menina e o gavião:|subtítulo= 200 Crônicas escolhidas|ultimo=Carvalho|primeiro=Arthur|data=2016-03-14|editora=Companhia Editora de Pernambuco (CEPE), p. 161|lingua=en|isbn=9788578583750}}</ref>
 
A jangada é feita, tipicamente, com 6 paus: 2 no centro (chamados de "meios"), 2 seguintes, dispostos simetricamente (chamados "mimburas", palavra de origem tupi), e 2 externos, chamados de "bordos". Os 4 paus mais centrais (meios e mimburas) são unidos por cavilhas de madeira mais dura que a desses paus. Já os paus de bordo são encavilhados nos mimburas, de modo a ficarem um pouco mais elevados. <ref>{{Citar livro|url=https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&id=AP9mAAAAMAAJ&dq=mimbura+jangada&focus=searchwithinvolume&q=mimbura|título=Revista do Arquivo Municipal|subtítulo= Volume 28,Edições 166-169|data=1962|editora=Departmento de Cultura, pp. 206-207|lingua=pt}}</ref>
 
Sobre essa armação básica, instalam-se 2 bancos de madeira (cada qual respectivamente suportado por 4 elegantes hastes também de madeira, presos aos mimburas. Sobre essas hastes fixa-se uma tábua de madeira rija. O banco mais central, ou banco "de vante", apóia o mastro da jangada. O outro banco, da ré, também é chamado de banco "do mestre", pois nele trabalha o diretor da jangada (que, com um remo, a dirige). <ref>{{Citar livro|url=https://books.google.com.br/books?id=_sAMAwAAQBAJ&pg=PA11#v=onepage&q&f=false|título=Ensaio Sobre As Construcções Navaes Indigenas Do Brasil|ultimo=Câmara|primeiro=A. Alves|editora=Рипол Классик|data=1888|lingua=pt|isbn=9785875178962}}</ref> O remo do mestre se encaixa entre o mimbura e um dos paus do meio (o meio de boreste). Há ainda uma outra abertura entre os dois paus do meio, para a passagem da "tábua de bolina". Essa tábua pode ser habilmente graduada em altura (o quanto é enfiada no mar) e inclinação (de forma mais limitada, no plano medial da embarcação). <ref>{{Citar livro|url=https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&id=Ir1BAAAAIAAJ&dq=bolina|título=Documentário da Vida Rural|subtítulo= Edições 11-12|data=1957|editora=Ministerio da Agricultura, Serviço de Informaçâo Agricola, p. 18|lingua=pt}}</ref> A tábua de bolina reduz o caimento da jangada quando ela navega com a proa bem cingida à linha do vento: isso é "navegar à bolina" (palavra que, por sua vez, vem do inglês "bowline"). <ref>{{Citar livro|url=https://books.google.com.br/books?id=-69cBAAAQBAJ&pg=PT175|título=História dos nossos gestos|ultimo=Cascudo|primeiro=Luís da Câmara|data=2015-09-04|editora=Global Editora, p. 175|lingua=pt-BR|isbn=9788526017238}}</ref>
 
Todos os elementos da jangada tradicional são feitos artesanalmente, desde o mastro à vela, das cordas ao banco de navegação, redes de pesca, anzóis, âncora e samburás (cestos para guardar peixes e pertences).
Os pescadores tradicionais sempre obedeceram a regras bem conhecidas de uso das marés, dos regimes de ventos, das correntes, da sazonalidade da pesca. Em função disso, suas incursões no mar variam bastante quanto ao tempo de permanência, ao trajeto navegado, e ao tipo de pesca que conseguem. Um período de permanência comum era de três dias a uma semana (algumas vezes mais, como relatam os antigos pescadores) no mar alto, a até 120 quilômetros da costa. Essa duração é cada vez mais rara, e os jangadeiros dificilmente ultrapassam os três dias, na atualidade, com incursões de até 50 quilômetros distanciados da costa. Da mesma forma, as incursões de grupos de jangadas também são cada vez mais raras, sendo mais freqüente a pesca de uma turma isolada, numa única jangada.
 
Ainda assim, em vários pontos do litoral cearense há corridas de jangadas, sendo muito famosa a que ocorre anualmente na região do porto do Mucuripe (na capital do Estado do Ceará, [[Fortaleza]]). Dezenas de jangadas participam dessas competições populares, num espetáculo sem paralelo no extenso litoral brasileiro. <ref>{{Citar livro|url=https://books.google.com.br/books?id=hJ3CTMPocYIC&pg=PA80#v=onepage&q&f=false|título=Placar Magazine|ultimo=Joffily|primeiro=Jose|data=1973|editora=Editora Abril, pp. 80-81|lingua=pt}}</ref>
 
== O surgimento da jangada no Nordeste Brasileiro ==
[[Ficheiro:Brasão do Ceará.svg|miniaturadaimagem|Jangada compondo a heráldica do [[Brasão do Ceará]], um estado brasileiro.]]
Foi na Índia que os portugueses viram pela primeira vez uma pequena embarcação chamadas de ''jang''. Eram três ou quatro toras de madeira amarrados com cordas de fibras vegetais. Os portugueses descreveram essa embarcação com ''jangá'', ''changgh'' ou ainda ''xanga''. ''Jangada'' (ou ''Chabgadam'') era seu aumentativo, ou seja, uma ''janga'' grande, construída com cinco ou seis toras. <ref>{{Citar web|titulo=Jangada|url=http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=379&Itemid=1|obra= Fundação Joaquim Nabuco|acessodata=2019-08-14|autor=Maria do Carmo Andrade}}</ref>
Como a jangada chegou ao Brasil? Ou se ela já estava aqui, seria como parte da cultura dos povos indígenas?
 
Nos idos de 1500, quando os portugueses chegaram ao Brasil, se depararam com embarcações muito parecidas com as jangadas que os indígenas chamavam de ''piperi'' ou ''igapeba'', então começaram a chamar a piperi de jangada, que era o nome já conhecido por eles e registrado em livros da época. As piperis dos indígenas brasileiros eram feitas de cinco ou seis toras bem amarradas com cipós.<ref>{{Citar livro|url=https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&id=quYWAQAAMAAJ&dq=jangada|título=Revista da S.B.P.H.|subtítulo= Edições 2-5|data=1985|editora=Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica, p. 50|lingua=pt}}</ref> O remo era chamado de jacumã. <ref>{{Citar livro|url=https://books.google.com.br/books?id=Riz9CAAAQBAJ&pg=PT148#v=onepage&q&f=false|título=Paca, Tatu, Cutia!: Glossário Ilustrado de Tupi|ultimo=Benedito|primeiro=Mouzar|data=2015-05-06|editora=Editora Melhoramento, p. 148|lingua=pt-BR|isbn=9788506077665}}</ref>
A jangada vem para o [[Brasil]] como parte da rica troca havida entre a [[Índia]], a [[África]], a [[China]] e o [[Japão]], sobretudo nos primeiros dois séculos da [[colonização do Brasil]], pelo povo [[Portugal|português]]. Incorpora ainda técnicas indígenas de corte de madeiras e extração das fibras de cordoamentos. Vem com as pessoas envolvidas nesse tráfico de outras pessoas, de bens, de animais, de plantas, de saberes - e, claro, especialmente o saber dos pescadores do [[Oceano Índico]] e das costas do [[Moçambique]], que usavam barcos artesanais semelhantes às jangadas brasileiras - mas não iguais.
 
A palavra "jangada" trai essa origem <nowiki>''</nowiki>[[Ásia|asiática]]<nowiki>''</nowiki>: vem de '''"''changadam''"''', palavra [[Língua malaiala|malaiala]] ([[Línguas dravídicas|língua dravídica]] da costa do [[Malabar]], no estado indiano de [[Kerala]]) e, mais anteriormente, do [[sânscrito]]. Muito antes de ser uma embarcação típica de qualquer zona do Brasil, o termo sempre correspondeu a uma embarcação rudimentar feita com troncos de madeira.
 
Parece, aos olhos de hoje, que as jangadas somente surgem no trecho da costa do Nordeste que vai do [[Rio Grande do Norte]] ao [[Piauí]] por curiosas razões históricas, pois poderíamos ter jangadeiros em todo o litoral do Brasil, desde o início da Colônia brasileira.
 
Isso se deveu, sobretudo, à sistemática eliminação de todas as formas de navegar que não fossem controladas pela Coroa portuguesa, em eficiente vigor desde o [[século XVII]], com o início da exploração das [[Minas Gerais]] (centro-sul do Brasil), para evitar o contrabando do [[ouro]]. Essa faixa do litoral nordeste brasileiro era despovoada e imprópria para portos dos barcos transatlânticos à vela, pois é varrida pela poderosa corrente oceânica da [[Guiana]], que dificultava terrivelmente a chegada de barcos vindos da Europa.
 
Os primeiros jangadeiros lançaram seus barcos ao mar em meio ao abandono desses séculos de solidão e isolamento, ainda que fossem parte das diversas levas migrantes que povoaram o interior nordestino desde meados do século XVII, trazendo e cultivando o gado cuja carne alimentava os trabalhadores da mineração.
 
Com sua admirável capacidade de navegar contra o vento, e de usar a força do vento para sobrepujar a corrente oceânica, a jangada encontrou nesse trecho do litoral brasileiro uma situação ideal, até a chegada dos barcos motorizados, que viabilizam os (até hoje curiosamente poucos) portos surgidos desde o [[século XIX]].
 
O conhecimento da construção dessa família de embarcações artesanais está em extinção: embora ainda haja colônias de pescadores remanescentes das primeiras comunidades que ocuparam o litoral brasileiro (sobretudo no litoral do Estado do Ceará e do Rio Grande do Norte), praticamente não se constrói mais a jangada tradicional, com troncos de madeira de flutuação, as jangadas de troncos. As atuais jangadas são feitas em pranchas de madeira industrializada ou utilizando instrumentos de corte mecanizado - as jangadas de tábuas.
{{referências}}
{{commons|Jangada}}
 
{{esboço-náutica}}
 
[[Categoria:Cultura da Região Nordeste do Brasil]]
[[Categoria:Embarcações]]
 
[[de:Floß]]
[[en:Raft]]