Diferenças entre edições de "Iemanjá"

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== Nome e Epítetos ==
[[Ficheiroimagem:Praia Camburi - Pier Iemanja - VITÓRIA - ES - panoramio (1).jpg|thumb|left|Estátua de Iemanjá na Praia de Camburi, [[Vitória (Espírito Santo)|Vitória]], [[Vitória (Espírito Santo)|Espírito Santo]].]]
"Iemanjá", nome que deriva da [[Contração (gramática)|contração]] da expressão em [[Língua iorubá|iorubá]] ''Yèyé omo ejá'' ("Mãe cujos filhos são peixes") ou simplesmente ''Yemọjá'' em referência a um rio homônimo cultuado nos primórdios do culto deste [[orixá]].<ref name="apudverger">[https://books.google.com.br/books?id=rtTDBAAAQBAJ&pg=PT812&dqfalse#v=onepage&q&f=false P. Verger, 1981 apud N. Lopes, p. 812]</ref><ref> [https://books.google.com.br/books?id=JkEeCwAAQBAJ&pg=PT160&dq=#v=onepage&q&f=false Asante, 2015]</ref><ref>[https://books.google.com.br/books?id=mc4dTf_svKcC&pg=PA237&dq=#v=onepage&q&f=false M, Kagiso p. 237]</ref> Na [[Nigéria]], ''Yemọjá'' pronuncia-se com o som de "''djá''" na última sílaba.<ref>Arnaldo Rodrigues, p. 28</ref><ref group="nb">O que leva alguns [[Templos afro-brasileiros|ilês]] a adotarem o nome ''Yemonjá'' (pron. Iêmondjá).</ref> A versão lusófona amplamente mais aceita no âmbito acadêmico é Iemanjá, por vezes também assume a grafia de ''Yemanjá'' onde a letra inicial alude a origem do nome. Isso também observa-se no caso de ''Yemayá'' na [[Santeria]] em [[Cuba]]. No [[odu]] ''Ogunda'' é chamada de ''Mọjẹlẹwu'', esposa de ''Ọkẹrẹ'' rei de S̩aki.<ref name="Bascom"/> Também é conhecida como ''Aleyo'' na mesma região de [[Egbado]], Ayetoro, Igan e Okoto.<ref name="notasverger.293">[https://books.google.com.br/books?id=mYZtSQsR2v4C&pg=PA293&dq=#v=onepage&q&f=false Verger, p. 293]</ref> Em [[Trinidad e Tobago]] é chamada de ''Emanjah'' ou ''Amanjah'', e ''Metre Silí'' ou ''Agué Toroyo'' na [[República Dominicana]].<ref name=''nei''>[https://books.google.com.br/books?id=rtTDBAAAQBAJ&pg=PT813&dqfalse#v=onepage&q&f=false N. Lopes, 2004]</ref>
 
 
== Mito ==
[[Ficheiroimagem:Nigeria o benin, yoruba, iemanjà e ibeji, xx sec..JPG|thumb|right|180px|Iemanjá amamentando os [[Ibeji]]s, início do século XX, [[Museu Afro Brasil]].]]
Muitos atributos e códigos morais de Iemanjá podem ser verificados em suas cantigas e ''[[oriki]]s'',<ref>[https://books.google.com.br/books?id=mYZtSQsR2v4C&pg=PA301&dq=#v=onepage&q&f=false Verger, pp. 301-306].</ref> tradições orais entre os [[iorubás]],<ref>Jegede, Olutoyin Bimpe. ''[http://www.ces.fe.uc.pt/publicacoes/rccs/artigos/47/Olutoyin%20Bimpe%20Jegede%20-%20A%20poesia%20laudatoria%20e%20a%20sociedade%20nigeriana,%20a%20Oriki%20entre%20os%20Yoruba.pdf A Poesia Laudatária e a Sociedade Nigeriana: a Oriki entre os Yoruba]{{Ligação inativa|1={{subst:DATA}} }}.'' pp. 76-78</ref> seus ''[[itan]]'' ou mitos e demais tradições também se preservaram de mesmo modo,<ref group="nb">Originalmente os yorubás eram ágrafos.</ref> estando segundo R. Ogunleye suscetíveis às limitações da memória e à extinção de saberes com a morte dos que a preservam.<ref>Ogunleye, Adetunbi Richard. ''[http://www.inkanyiso.uzulu.ac.za/journals/vol7i1/08%20Ogunleye%20prs.pdf Cultural identity in the throes of modernity: an appraisal of Yemoja among the Yoruba in Nigeria].'' Department of Religion & African Culture, Adekunle Ajasin University Akungba-Akoko Ondo State, Nigeria, 2015. p. 66</ref> Com a perda de muitos de seu culto durante as guerras sofridas pelo povo Egba, que resultaram na sua [[Migração humana|migração]] para uma nova região,<ref name="notasverger.293"/> não é espantoso que seus mitos originais só aludam ao suporte de seu culto na nova localidade, o rio Ògùn e não seu predecessor como adiante verificamos.
 
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[[Ficheiroimagem:Ori Olokun.jpg|thumb|left|180px|''Ori Olokun'' (Cabeça de Olokun), bronze descoberto em [[Ifé]] por Leo FrobeniusFrobeniu.]]
Iemanjá, em seu culto original, é um orixá associado aos rios e [[desembocadura]]s, à [[fertilidade]] feminina, à maternidade e primordialmente ao processo de gênese do ''[[Àiyé (yoruba)|ÀiyéAiê]]'' (mundo) e a continuidade da vida (''[[emi (iorubá)|emi]]''). Também é regente da pesca, e do plantio e colheita de [[inhame]]s.<ref>Valéria Amim, Ruy do Carmo Póvoas. ''[http://www.xiconlab.eventos.dype.com.br/resources/anais/3/1308314375_ARQUIVO_IEMANJAIMAGENSARQUETIPICASDAGRANDEMAENADIASPORA.pdf Iemanjá: Imagens Arquetípicas da Grande Mãe na Diáspora] {{Wayback|url=http://www.xiconlab.eventos.dype.com.br/resources/anais/3/1308314375_ARQUIVO_IEMANJAIMAGENSARQUETIPICASDAGRANDEMAENADIASPORA.pdf |date=20160307160327 }}.'' p. 4</ref> [[Pierre Verger|P. Verger]], em seu livro ''Dieux d'Afrique'',<ref>[[Pierre Verger|Verger, Pierre]]. ''Dieux D'Afrique''. Paris: Paul Hartmann (1ª edição, 1954; 2ª edição, 1995). 400pp, 160 fotos. ISBN 2-909571-13-0</ref> registra: "''é o orixá das águas doces e salgadas dos [[Egba]], uma nação [[Iorubás|iorubá]] estabelecida outrora na região entre [[Ifé]] e [[Ibadan]], onde existe ainda o rio ''Yemọjá''. As guerras entre nações iorubás levaram os Egba a emigrar na direção oeste, para [[Abeokuta]], no início do [[século XIX]]. (...)O rio ''Ògùn'', que atravessa a região, tornou-se, a partir de então, a nova morada de Iemanjá.''"<ref>[[Confer|Cf.]] Zdenka Kalnická. ''[https://books.google.com.br/books?id=IZCLAAAAQBAJ&pg=PT198&dq=#v=onepage&q&f=false Wagadu: Water & Women in Past, Present & Future, Volume 3].'' Xlibris Corporation, 26 de set de 2007 - 248 páginas. ISBN 978-1-4257-5287-3, ISBN 978-1-4653-3137-3</ref> Após a guerra entre os [[Egba (povo)|egbás]] e os [[Reino do Daomé|daomeanos]], sobraram poucas pessoas desse culto, tendo em vista a dispersão ou mesmo prisão destes pelos inimigos.<ref name="notasverger.293"/> Segundo R. Ogunleye, "''Não está claro se o rio ''Ogun'' precede ''Yemoja'' ou se ''Yemoja'' trouxe o rio ''Ogun'' a existir para que ela pudesse criar um quartel-general como um assento de seu governo. Seja qual for o caso, o rio ''Ogun'' tem vindo a ser aceito pelos iorubás como o "quartel-general" de ''Yemoja''. De seu trono lá, ela se manifesta em qualquer outro corpo de água''".<ref name=ibara>Ogunleye, Adetunbi Richard. ''[http://www.inkanyiso.uzulu.ac.za/journals/vol7i1/08%20Ogunleye%20prs.pdf Cultural identity in the throes of modernity: an appraisal of Yemoja among the Yoruba in Nigeria].'' Department of Religion & African Culture, Adekunle Ajasin University Akungba-Akoko Ondo State, Nigeria, 2015.</ref> A referência da guerra e da fuga dos egbas reflete-se em sua mitologia.
 
Os principais relatos [[mitologia|mitológicos]] de Iemanjá se desenrolam com os [[orixá]]s primordiais da criação iorubá do mundo. Evidenciou-se na segunda metade do [[século XX]] um consenso entre autores de que Iemanjá é filha da divindade soberana dos mares e oceanos [[Olokun]] (esta última uma divindade feminina em Ifé e masculina no [[Benim]]), sendo esse vínculo celebrado na [[cidade]] de [[Ifé]], considerado como berço da civilização [[Iorubás|iorubá]].<ref name="mikelle">Mikelle Smith Omari-Tunkara. ''[Manipulating the sacred: Yorùbá art, ritual, and resistance in Brazilian Candomblé.'' African American life series. Wayne State University Press,‎ 2005. ISBN 9780814328521</ref><ref>[https://books.google.com.br/books?id=oZD9AwAAQBAJ&pg=PA77&dq#v=onepage&q&f=false Assef, p. 77].</ref><ref>Luna, Jayro. ''[https://books.google.com.br/books?id=8Q5CXXRDycoC&pg=PA98&dq#v=onepage&q&f=false Teoria do Neo-Estruturalismo Semiótico].'' 1ª Ed. São Paulo: Vila Rica, 2006. ISBN 85-905231-9-5, p. 98</ref><ref>Póvoas, Ruy do Carmo. ''Da porteira para fora: mundo de preto em terra de branco.'' Universidade Estadual de Santa Cruz. UESC, 2007. p. 183</ref><ref>''Exu'', Edições 1-11. Fundação Casa de Jorge Amado, 1987. p. W-24</ref><ref>Hoornaert, Eduardo. ''O cristianismo moreno do Brasil.'' Ed. Vozes, 1991 - 181 páginas. p.87</ref> R. Ogunleye alude sua origem também a partir de [[Olorun]] (''Olodumaré''), divindade do ''[[orun]]''.<ref>[http://www.inkanyiso.uzulu.ac.za/journals/vol7i1/08%20Ogunleye%20prs.pdf Ogunleye, p. 61]</ref> Se constata então como filha da união mitológica conturbada de Olokun e Olorun e irmã de [[Ajê Salugá]].<ref>Bàbá Osvaldo Omotobàtálá. ''Ajé Salugá: òrìṣà de la riqueza.'' Bayo editores, 2007.</ref> Olokun pelo caráter instável e destrutivo foi atada ao fundo do oceano em seus domínios após uma tentativa de [[dilúvio]] frustrada por Olorun,<ref>Coleção Arthur Ramos. ''Introdução a antropologia brasileira as culturas negras''. Ed. Casa do Estudante do Brasil, 1972; vol. III, pág. 65.</ref> E. L. Nascimento menciona, ao referir-se ao temor aos aspectos antissociais ou negativos dos Orixás femininos, "''Iemanjá, igualmente,<ref group="nb">Aqui a autora E. L. Nascimento, faz uma análise comparativa do lado negativo de Iemanjá com Oxum.</ref> representa em seu aspecto perigoso a ira do mar, a esterilidade e a loucura''".<ref>[https://books.google.com.br/books?id=0e7rpd-Rwg0C&pg=PA126&dq=#v=onepage&q&f=false E. L. Nascimento, p. 126]</ref> Não obstante, é muito frequente referências a natureza benéfica de Iemanjá, [[Lydia Cabrera|L. Cabrera]] assim defende: "''Sem deformar essa definição encantadora e irrefutável, podemos imaginar Iemanjá emanada de Olokun, com seu poder e suas riquezas, mas sem as características tremebundas que o associam mais à morte do que à vida, como sua manifestação feminina - ''Iemanjá é muito maternal'' - e benéfica''".<ref>[https://books.google.com.br/books?id=6cSpx3vgc8sC&pg=PA37&dq=#v=onepage&q&f=false L. Cabrera, p. 37]</ref><ref group="nb">Nesta menção L. Cabrera utiliza-se da hipótese de Olokun ser um orixá masculino.</ref> Na cosmologia e gênese de A. B. Ellis influenciada por P. Baudin é filha da união de [[Obatalá]] com [[Oduduwa]] numa manifestação feminina.<ref>Ellis, Alfred Burdon. ''The Yoruba-Speaking peoples of the Slave Coast of West Africa : their religion, manners, customs, laws, language etc. ; with an appendix containing a comparison of the Tshi, Ga, Ewe and Yoruba languages.'' London. Chapman and Hall, 1894.</ref><ref name=baudin>Baudin, Noel. ''Dictionnaire français-yoruba-français.'' Cotonou, 1967.</ref>
 
P. Verger aponta sua primeira união com [[Orunmilá]], o orixá dos segredos (essa união é amplamente celebrada no culto de ifá afro-cubano com diferentes ''[[itan]]s'' registrados por L. Cabrera, mas é negada por [[Wande Abimbola|W. Abimbọla]]),<ref>[[Wande Abimbola|W. Abimbọla]], Ivor Miller; p. 95</ref> relação que pouco durou uma vez que Orumilá a expulsa e acusa de quebrar o ''[[Ewo (tabu)|ewo]]'' que proíbe o acesso de mulheres aos [[Odu]]s e o manuseio dos objetos sagrados de [[Ifá]].<ref name="verger">[[Pierre Verger|Verger, Pierre]]. ''Orixás: Deuses iorubás na África e no novo mundo''. Ed. Corrupio, 1997. ISBN 8586551023, ISBN 9788586551024</ref><ref name="cabrera">[[Lydia Cabrera|Cabrera, Lydia]]. ''[https://books.google.com.br/books?id=6cSpx3vgc8sC&printsec=frontcover&dq=isbn:8531407427&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwiinZqY47TKAhWFWpAKHSk2AnMQ6AEIHTAA#v=onepage&q&f=false Iemanjá & Oxum: Iniciações, Ialorixás e Olorixás].'' Tradução: Carlos Eugênio Marcondes de Moura. Ed. Usp, 2004. ISBN 85-314-0742-7</ref><ref>Teixeira, Francisca Izabel. ''The Ritual of Iemanjá in Brazil: A Psychoanalytic Approach.'' University of California, Berkeley, 1992 - 174 páginas.</ref> L. Cabrera registra: "''Orunmilá teve de assistir a uma reunião de dezesseis ''awós'', convocada por Olofi.<ref group="nb">Olofi na santeria é o equivalente a Olorun.</ref> Ela ficou em casa e a todos que iam consultar seu marido, em vez de dizer-lhes que esperassem sua volta, ela fazia passar adiante e adivinhava para eles. (...)quando este voltou, todos lhe pediam quem Iemanjá olhasse para eles. Orunmilá explicava que as mulheres não podem jogar Ifá. Eles iam embora... e não voltavam mais''".<ref name=cabrera/>
[[Ficheiroimagem:Yemoja Nigeria.jpg|thumb|left|180px|[[Elegun]] manifestada em Iemanjá durante um festival na [[Nigéria]].]]
Posteriormente, Iemanjá foi casada com Olofin [[Oduduwa]]<ref group="nb">Diversos autores, cautelosos pelo efeito de confusões por parte de autores do final do século XIX e início do século XX, costumam referir-se a Oduduwa nesse ''itan'' apenas como ''Olofin'' devido o equívoco ainda existente de Oduduwa ser um orixá feminino.</ref> criador do mundo e rei de Ifé, com a qual teve dez filhos. Alguns dos nomes enigmáticos de seus filhos parecem corresponder a orixás, Verger apresenta dois exemplos: "''Òsùmàrè ègò béjirìn fonná diwó''" (o arco íris que se desloca com a chuva e guarda o fogo nos seus punhos), e "''Arìrà gàgàgà tí í béjirìn túmò eji''" (o trovão que se desloca com a chuva e revela seus segredos).<ref name=verger/><ref name=mikelle/> Iemanjá, cansada da vivência na cidade de Ilê Ifé governada pelo marido, decide-se fugir para o Oeste, para a "''terra do entardecer''". Antes de viver no mundo, Iemanjá recebera, de Olokun, sempre precavida pois "''não se sabe jamais o que pode acontecer amanhã''", uma [[vasilha]] contendo um preparado mágico com a recomendação de que, se algum caso extremo se sucedesse, Iemanjá o quebrasse no chão. Iemanjá, que já havia se instalado no entardecer da Terra, foi surpreendida pelo exército de Olofin Oduduwa que estava a sua procura. Longe de se deixar capturar, quebrou a vasilha com o preparado conforme as indicações que recebera. O preparado mágico, ao tocar o chão, fez nascer, no mesmo lugar, um rio que levou Iemanjá novamente para ''okun'', os oceanos de Olokun onde foi acolhida.<ref name=verger/>
 
 
=== Evolução e Interpretações do Mito ===
[[Ficheiroimagem:Carybè, rilievi degli orixas, yemanjá, recorte.JPG|thumb|180px|right|Detalhe da escultura ''Iemanjá'' de [[Carybé]], onde é possível notar orixás representados dentro do seu ventre, como [[Xangô]] com seu [[oxê]] e [[Ogum]] com sua [[espada]].<ref>da Silva, Vagner Gonçalves. ''[http://pontourbe.revues.org/pdf/1267 Artes do axé. O sagrado afro-brasileiro na obra de Carybé].'' p. 10</ref> [[Museu Afro-Brasileiro]], [[Salvador (Bahia)|Salvador]], [[Bahia]].]]
Muito da interpretação de Iemanjá e de sua mitologia deve-se aos seus primeiros registros escritos como observa-se em P. Baudin e outros, o seu atributo de ''Mãe de todos os orixás'' é oriundo do relato de sua união com [[Aganju]], da qual teria surgido o orixá Orungã, este último atraído pela mãe teria tentado possuí-la em um momento de ausência do pai. Da consumação do incesto ou da mera tentativa da mesma, sucedeu-se uma fuga da parte de Iemanjá, como noutros episódios, que horrorizada cai sobre a terra e de seus seios rasgados surgem dois lagos e sucede-se assim o parto coletivo de diversos orixás, juntamente do [[Sol]] e da [[Lua]], porém este relato possui sérias inconsistências inclusive a menção a Olokun como o primeiro a nascer desse parto sendo que a sequência de nascimentos variam de um autor a outro e os desígnios dos orixás citados.<ref name="notasverger.295"/> L. Cabrera ao relatar este mito a partir de depoimentos de alguns santeiros sobrepõe em uma mesma figura duas divindades distintas, Iemanjá e Iemu, a sua ''Yemayá-Yemu'' esposa de Olorun que depois através de um Obatalá, ''Achupá'', deu à luz os orixás e os dois astros anteriormente citados, esta abordagem é comparada pela a autora a outra versão obtida de uma informante em exílio de Iemanjá casada com Aganju, que muito se assemelha ao relato dos autores P. Baudin, A. B. Ellis, R. E. Dennett, Stephen Septimus Farrow, Olumide Lucas e R. F. Burton; Cabrera em nota lança luz quanto a este mito tratar-se de uma variação do mito de Iemu verdadeira mãe de [[Ogum]] e que o incesto teria sido praticado por este,<ref>[https://books.google.com.br/books?id=6cSpx3vgc8sC&pg=PA32&dq#v=onepage&q&f=false L. Cabrera, p. 32]</ref> o mesmo é afirmado por Natalia Bolívar Aróstegui<ref>Mara Lúcia Cristan de Lomba-Viana, José Carlos Veríssimo de Lomba-Viana. ''[http://www.aps.pt/cms/docs_prv/docs/ENS4fdb841150529.pdf Desporto: Religiões, Ritos e Mitos Afro-Brasileiros]{{Ligação inativa|1={{subst:DATA}} }}.'' ISBN 978-972-99645-6-5, p. 20</ref> e outros autores.<ref>[https://books.google.com.br/books?id=fAzYsAsJXDAC&pg=PA50&dq=#v=onepage&q&f=false M. F. Olmos, L. Paravisini-Gebert, p. 50]</ref><ref>Raul Canizares. ''[https://books.google.com.br/books?id=51XAPkinhtkC&pg=PA81&dq=#v=onepage&q&f=false Santería Cubana: El Sendero de la Noche].'' Inner Traditions / Bear & Co, 2002 - 176 páginas. ISBN 0-89281-961-8, p. 81</ref>
 
 
Outro atributo que lhe foi associado foi o poder sobre as cabeças e portanto sobre o destino. Na crença [[Religião iorubá|iorubá]], os aspectos que os seres humanos vivenciam em suas vidas são oriundos da escolha do ''[[Ori (yoruba)|ori]]'' (cabeça) que aplica o [[destino]]. Nessa tradição crê-se que após [[Obatalá]] modelar os seres, Ajàlá fornece a cabeça.<ref name="poli">Poli, Ivan da Silva. ''Antropologia dos Orixás: a civilização yorubá através de seus mitos, orikis e sua diáspora''. Ed. Acadêmica Terceira Margem, 2011. ISBN 978-85-7921-046-4</ref> Nas palavras de Abimbọla, "''Ajàlá (outra existência sobrenatural que não é reconhecida como divindade) fornece o ''[[Ori (yoruba)|ori]]'' (cabeça) de sua loja de cabeças...''"<ref>Wande Abimbọla. ''Sixteen Greats of Ifa'', Editora Unesco, ano 1975.</ref> S. Poli evidencia que Ajàlá "''É esquecido e descuidado e devido a isto nem sempre as cabeças saem boas. Como resultado disso a maioria das pessoas escolhem por si mesmas as cabeças sem recorrerem a ''Ajàlá'' e acabam assim por escolher cabeças ruins e imprestáveis"'', sendo devido a isso o motivo de serem necessários rituais como o [[Ebori (Bori)|Bori]] para estabelecer o equilíbrio que o ''[[Ori (yoruba)|ori]]'' necessita.<ref name=poli/> No [[Brasil]] a Iemanjá foi atribuída a tarefa da manutenção das cabeças, em especial no procedimento do [[Ebori (Bori)|Bori]] tornando-se a ''Iyá Ori'' ("Mãe das Cabeças"), a cerca disso [[Reginaldo Prandi|R. Prandi]] nos explica: "''Ajàlá está esquecido no [[Brasil]], tendo sido substituído por Iemanjá, a dona das cabeças, a quem se canta, no xirê, quando os iniciados tocam a cabeça com as mãos para lembrar esse domínio, e na cerimônia de sacrifício à cabeça ([[Ebori (Bori)|Bori]]), rito que precede a iniciação daquela pessoa''".<ref name=prandi/>
[[Ficheiroimagem:Igba Ori Ioruba Tradicional (1).jpg|thumb|left|[[Igba Ori|Ilé Orí (casa de Orí)]], que contém o Ìbọ Orí, assentamento da cabeça, representação dentro do [[Religião tradicional yorubá|culto tradicional]] em [[Nigéria]]. No Brasil, um recipiente de louça que se usa como fundamento para fazer borí é chamado de igbá orí (cabaça de orí).]]
[[Ficheiroimagem:Ritual para Ori.JPG|thumb|left|Ritual para [[Ori (yoruba)|Ori]] ao lado de uma estátua de Iemanjá no [[candomblé]], [[Ile Ase Ijino Ilu Orossi]], [[Bahia]], [[Brasil]].]]
[[Sandra Medeiros Epega|S. Epega]] defende o culto de Iemanjá como ''Iyá Ori'' justificando o porquê dessa atribuição, ela relata:
 
=== Mito e Política ===
{{artigos principais|[[Gelede|Sociedade Gelede]], [[Iyami-Ajé]]}}
[[Ficheiroimagem:Gelede Mask.jpg|thumb|right|180px|Máscara [[Gelede]] da [[Nigéria]], Museu de Arte de Birmingham.]]
[[Ficheiroimagem:Brooklyn Museum 1999.129 Gelede Body Mask.jpg|thumb|180px|right|Máscara [[Gelede]] com corpo, no [[Museu do Brooklyn]].]]
[[Pierre Verger|P. Verger]], ao discutir os aspectos políticos do culto dos [[orixá]]s na sociedade [[Iorubás|iorubá]], relata: "''O lugar ocupado na organização social pelo Orixá pode ser muito diferente se trata de uma cidade onde se ergue um palácio real, àáfin, ocupado por um rei, aládé, tendo direito a usar uma coroa, adé, com franjas de pérolas, ocultando-lhe a face ou onde existe um palácio, ilê Olójá, a casa do senhor do mercado de uma cidade cujo chefe é um balé que só tem direito a uma coroa mais modesta chamada àkòró. Nesses dois casos, o Orixá contribui para reforçar o poder do rei ou do chefe. Esse Orixá está praticamente à sua disposição para garantir e defender a estabilidade e a continuidade da dinastia e a proteção de seus súditos''". O [[orixá]] protetor de uma dinastia é amplamente celebrado pela mesma, sendo suas festividades tanto uma confirmação religiosa quanto política, como por exemplo, o festival de [[Oxum]] pelos soberanos de Oxogbô.<ref name=verger/> A respeito do aspecto político do culto de Iemanjá, A. Apter citando o festival de Ayede registra que sua alta sacerdotisa que cuida da cabeça do regente, é quem habilita o indivíduo do rei e revitaliza seu corpo político, "''Como qualquer símbolo dominante, ela abraça uma extensão de significados que vão desde bênçãos normativas e explícitas ('ela traz crianças e riqueza, ele mantém o rei saudável') para implícitas, temas proibidos de divisão e de derramamento de sangue, e é este último pólo que é poderoso e profundo''". Toda a integridade do governo, da sua legítima sucessão e da autoridade do regente é dependente do apoio de Iemanjá sua protetora e de suas sacerdotisas, que detém do poder de deposição de seu rei, assim como do mal destino, de ocasionar uma fissão política e pôr fim ao equilíbrio cósmico. "''Tais temas negativos raramente são expressos em público, mas eles representam, porém, um repertório de interpretações potenciais que, sob certas condições, pode ser invocado para mobilizar a oposição contra o [[status quo]]. O profundo conhecimento do ritual real envolve realmente o rei no sacrifício e renascimento, em que seus ícones de poder pessoal e autoridade real são literalmente desmontados e remontados por sacerdotes e sacerdotisas autorizados,''" conclui A. Apter.<ref name=apter/> [[Pierre Verger|P. Verger]] menciona que o seu cortejo em Ibará, "''vai saudar as pessoas importantes do bairro, começando por Olúbàrà, o rei de Ibará.''"<ref name=verger/> Sobre esta ainda estreita relação entre o culto de Iemanjá e a realeza de Ibará, Omari-Tunkara registra: "''Fiquei surpresa ao notar o elevado respeito do rei para a tradicional [[Religião iorubá]] e para a adoração de ''Yemọjá'', apesar do fato de que era educado ocidentalmente e um professo, devoto cristão''".<ref name=mikelle/> Todas essas menções reforçam a influência de seu culto sobre as regiões de [[Abeokuta]] e suas dinastias.
=== Outros Episódios ===
Em alguns mitos, Iemanjá teria sido mulher de [[Ogum]],<ref name="torre">De La Torre, Miguel A. ''[https://books.google.com.br/books?id=DgN8h0GreckC&pg=PA72&dq=#v=onepage&q&f=false Santeria: The Beliefs and Rituals of a Growing Religion in America].'' Wm. B. Eerdmans Publishing, 2004 - 246 páginas. ISBN 0-8028-4973-3</ref> acompanhando-o em suas inúmeras campanhas de guerra com porte do facão (obé), mas insatisfeita com seu casamento com o [[orixá]] da guerra quis livrar-se dele. O mito registrado por [[Lydia Cabrera|L. Cabrera]] se inicia com a afirmativa que naqueles tempos quando Ikú, a Morte, levava a vida de alguém não lhe sepultavam o corpo, e Iemanjá sabendo disso planejou tirar proveito. Fingiu tão bem as características e a rigidez da morte, que foi amortalhada pelo marido que a levou aos pés de [[Iroko]], a grande árvore, conforme os costumes. Mal [[Ogum]] retira-se do local em luto, o amante de Iemanjá surge para libertá-la das amarras da mortalha, e ambos fogem juntos.<ref name=cabrera/>
[[Ficheiroimagem:Iemanja e Omulu.jpg|thumb|right|180px|Representação de Iemanjá cuidando de [[Obaluaiyê]] (Omulu).]]
Passado algum tempo, Iemanjá voltou a vender seus bolos, ''olelé'' e ''ekrú'' no mercado ao qual estava habituada. Achamadina sua filha com [[Ogum]], ao visitar o mercado em certa ocasião para comprar produtos vê sua mãe vendendo suas frituras como se estivesse viva, tomada pelo espanto corre até o pai em sua casa que não dá credibilidade alguma ao seu relato, dizendo: "''Sua mãe é [[Egungun]]''".<ref group="nb">A ironia aqui expressa por [[Ogum]] refere-se ao fato do tabu de mulheres na manifestação material do mortos no culto de [[Egungun]], única concepção [[Religião iorubá|iorubá]] que justificaria a presença física de um falecido entre os vivos. Na [[África]] as mulheres falecidas são cultuadas de forma imaterial no culto antagônico de [[Iyami-Ajé]].</ref> Passados alguns dias, Achamadina retorna novamente ao mercado, enquanto Iemanjá estava distraída com as tarefas sua filha observou-a bem e dessa vez ficou totalmente convencida, sua mãe estava viva, não tratava-se de um [[Egum]]. Indo novamente ao mercado, desta vez acompanhada do pai Ogum que, entre surpresa e fúria ao se deparar com Iemanjá viva, arrasta-lhe pelo braço até a presença de [[Olorun]], que ordenou que, daquele dia em diante, os mortos seriam sepultados no seio da terra.<ref name=cabrera/>
 
 
=== Arquétipo ===
[[Ficheiroimagem:Orixa Yemanja Orossi.JPG|thumb|left|[[Elegun]]s em [[transe mediúnico|Manifestação]] de Iemanjá no [[candomblé]], no [[Ile Ase Ijino Ilu Orossi]]: a de verde é Asèssu e a de azul, Assagbá.]]
 
Segundo R. Fonseca, o trato dos mitos [[iorubás]] na concepção de [[arquétipo]] pode nos auxiliar na interpretação dos modelos sociais, históricos ou místicos, que neles evidenciam-se.<ref name=fonseca>Fonseca, Denise Pini Rosalem da. ''Filhas do desejo de Eva, herdeiras da sorte de Obá.'' ANPUH – XXII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – João Pessoa, 2003.</ref>
== Culto ==
Para R. Ogunleye, um ponto importante para a compreensão do culto [[religião iorubá]] a Iemanjá é a observação quanto a sua pureza moral e ritual. Seu culto na Nigéria compreende diversas categorias, como o diário (privado), regular (celebra dias especiais que lhe são consagrados), especial, solicitado mediante determinadas situações ou ocorrências e anual como os seus festivais em Ibará e [[Ibadan]].<ref name=ibara/>
[[Ficheiroimagem:Abeokuta and river Ogun 19th.jpg|thumb|right|[[Abeokuta]] à distância com rio Ògùn ao fundo, final do [[século XIX]].]]
[[Ficheiroimagem:Yemaya-igba.jpg|thumb|right|[[Igba orixá]] de ''Yemaya'' na [[Santeria]], [[Cuba]].]]
[[Ficheiroimagem:Oferenda para Yemanja.JPG|thumb|right|[[Igba yemanja]] no terreiro de [[candomblé]] do [[Ile Ase Ijino Ilu Orossi]], [[Brasil]].]]
O culto diário ou regular, é uma prática realizada pelo devoto em sua própria residência no santuário particular. Consiste em práticas em geral simples, que podem ocorrer na faixa da manhã como maneira de desejar ''bom dia'' ao [[orixá]], e fazer-lhe oferendas como [[noz de cola|obis]] e com o mesmo repartido conferir através de um simples ritual se a procedência do dia será ou não boa. O culto regular tende a ser mais elaborado que o primeiro, ocorrendo a cada cinco dias, inclui a visitação ao templo por parte de uma comunidade de devotos, com arrumação do santuário, oferendas, sacrifícios e outros ritos litúrgicos. Segundo R. Ogunleye, "''Neste ponto, a alta sacerdotisa (Iyaji) vai assumir, levando-os em oração ritual para deusa. Durante este tempo, ela vai oferecer sacrifícios à deusa. Isso inclui milho processado (Egbo), farinha de feijão branco (ekuru), caracóis, cana-de-açúcar, e [[noz de cola|nozes de cola]]. Depois disso, ela vai fazer petições com os nomes dos fiéis para o [[orixá]]. Em seguida, eles se separaram e arrematam a noz de cola (obi). Se tudo estiver bem pelo presságio, todos ficam felizes e todos eles dançam na presença de ''Yemoja''".<ref name=ibara/>
 
 
=== Sincretismo ===
[[Ficheiroimagem:Mami Wata poster.png|thumb|left|180px|Representação de [[Mami Wata]] por Schleisinger.]]
Iemanjá, na cultura da [[diáspora africana|diáspora]], é, sobretudo, uma [[Sincretismo|divindade sincrética]], reunindo, em si, os diferentes atributos de outros orixás femininos das águas. Sua figura embasada no arquétipo da ''Grande-Mãe'' é promovida a ''Grande-Deusa'', em especial pelo fato de que, no Brasil, tratando-se da divindade mais cultuada da Bahia, com grande prestígio popular, encontra seu par em [[Nossa Senhora da Conceição]] (no [[Rio Grande do Sul]], [[Nossa Senhora dos Navegantes]]), ou mais especificamente na [[Virgem Maria]], o que, segundo Verger, teria ocasionado uma equivalência de importância dentro do panteão iorubá, tornando-a a única do mesmo com um sincretismo iconográfico acabado.<ref name=poli/><ref name=verger/><ref>de Azevedo, Manuel Quitério. ''O culto a Maria no Brasil: história e teologia.'' Editora Santuário, 2001 - 260 páginas</ref><ref>Valente, Waldemar. ''Sincretismo religioso afro-brasileiro''. Companhia Editora Nacional, 1976 - 117 páginas.</ref><ref name=coimbra>Coimbra, Créso. ''Fenomenologia da cultura brasileira.'' LISA, 1972 - 681 páginas.</ref><ref name=marcello>Azevedo, Marcello de Carvalho. ''Teologia da inculturação e inculturação da teologia.'' Ed. Vozes, 1 de jan de 1995 - 132 páginas.</ref><ref name=humanidade>''Humanidades, Edições 35-38''. Editora Universidade de Brasília, 1994.</ref><ref>Dreher, Martin. ''Populacoes Rio-Grandenses E Modelos de Igreja.'' Editora Sinodal, 1998 - 340 páginas.</ref> Tal sincretismo ocorreu devido ao culto entusiasmado dos orixás disfarçados de santos do catolicismo pelos escravos nas [[senzalas]].<ref name=reid>Reid, Michael. ''[https://books.google.com.br/books?id=xtFpBAAAQBAJ&pg=PT53&dq#v=onepage&q&f=false Brasil: A Turbulenta Ascensão De Um País]''. Elsevier Brasil, 20 de ago de 2014 - 320 páginas.</ref> A assimilação católica também observa-se em Cuba com o culto da Virgem de Regla, todavia vale ressaltar que em tal mimetismo em que o orixá se camuflou em uma divindade católica o mesmo não se corrompeu, nas palavras de Stella e M. Loddy, "''Iemanjá é Iemanjá na Bahia, em Cuba ou no mais sincrético terreiro de umbanda''".<ref name=cabrera/><ref>Stella (de Oxóssi, Mãe.), Raul Giovanni da Motta Lody. ''Faraimará, o caçador traz alegria: Mãe Stella, 60 anos de iniciação.'' Ed. Pallas, 1999 - 412 páginas.</ref> O mesmo sincretismo é um aspecto distintivo da cultura brasileira até a atualidade.<ref name=reid/> No Brasil, seu culto também confundiu-se com o culto da ''Mãe-d'água'', a [[Iara]], o que justifica sua representação por vezes como [[sereia]].<ref name=coimbra/><ref>de Andrade, Mario. ''Música de feitiçaria no Brasil''. Nova Fronteira, 2 de jul de 2015 - 338 páginas.</ref> Essa associação à sereia contrasta evidentemente com o lado maternal de Iemanjá na concepção africana, e em especial com a Virgem Maria pela demasiada sensualidade, mas não obstante também aparece no [[Voodoo da Louisiana|Vodu da Louisiana]] e [[Vodu haitiano]], onde Iemanjá é associada à ''Lá Sirène'' e [[Mami Wata]], espíritos das águas.<ref name=humanidade/><ref>Alvarado, Denise. ''[https://books.google.com.br/books?id=qiJoEAOGmYkC&pg=PA33&dq=#v=onepage&q&f=false Voodoo Hoodoo Spellbook].'' Ed. Weiser Books, 2011 - 320 páginas. ISBN 978-1-57863-513-9</ref><ref>Lifshitz, Fima. ''[https://books.google.com.br/books?id=ghVF7yRvMA0C&pg=PA17&dq=#v=onepage&q&f=false An African Journey Through Its Art].'' AuthorHouse, 2009 - 214 páginas. p. 17</ref> Essa aglutinação com tais divindades evidencia-se na afirmativa de S. Otero e T. Falola que "''Iemanjá e [[Oxum]] fazem parte de uma rede global de [[espíritos]] da água que muitos estudiosos, especialmente Henry John Drewal, trouxeram sob a égide Mami Wata. Seja em [[Serra Leoa]], [[República Democrática do Congo|Congo]], [[Togo]], em Igbo na Nigéria, [como] ''Lasiren'' no Haiti, ''Santa Marta Dominadora'' na República Dominicana (...)os espíritos (divindades, energias, forças cósmicas) compartilham algumas semelhanças notáveis''".<ref name="mamiwata">Solimar Otero, Toyin Falola. ''Yemoja: Gender, Sexuality, and Creativity in the Latina/o and Afro-Atlantic Diasporas.'' SUNY Press, 2013 - 336 páginas. ISBN 978-1-4384-4799-5</ref> Em ''Candomblés da Bahia'' E. Caneiro confunde Iemanjá com um [[inquice]] do [[Candomblé bantu]] [[Dandalunda]], apresentando esta como um dos nomes da primeira, essa identificação das duas divindades costuma aparecer com certa frequência.<ref>FERREIRA, A. B. H. ''Novo dicionário da língua portuguesa''. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 914.</ref><ref name="edison"/>
 
==== Nigéria ====
*'''Ibadan'''
[[Ficheiroimagem:Festival Yemoja Ibadan.jpg|thumb|right|180px|Procissão de Iemanjá em [[Ibadan]], [[Nigéria]].]]
Em [[Ibadan]] capital do estado de [[Oyo (estado)|Oyo]] permanecem cultos e celebrações de Iemanjá como deusa padroeira, sendo reverenciada no antigo templo conhecido como ''Popo-Yemoja''. Em seu cortejo anual celebram-se quatro aspectos que para A. Folarin enfatizam a importância do [[orixá]] e de sua liturgia, "''Ela simboliza o poder da maternidade e princípios feminino, ela é a geradora do panteão do mundo [[Religião iorubá|iorubá]]; escultura tradicional que descreve ela geralmente mostra seios e quadril voluptuosos, retratando mulheres de poder e graça. A segunda é a função sociológica que gera durante a época festiva. O terceiro é o fervor espiritual ou cosmológico que transparece na celebração. Geralmente, há esse sentimento de transcendência, abrindo o coração e a mente para o mais alto ser espiritual. A quarta e mais importante é que ela é reverenciada muito bem como uma deusa da fertilidade''".<ref name=ibadan/>
 
 
== Representações ==
[[Ficheiroimagem:Yemoja Ibadan.jpg|thumb|left|180px|Representação de Iemanjá em [[Ibadan]], na [[Nigéria]].]]
[[Ficheiroimagem:Carybè, rilievi degli orixas, yemanjá.JPG|thumb|180px|right|''Iemanjá'' de [[Carybé]], no [[Museu Afro-Brasileiro]], em [[Salvador (Bahia)|Salvador]], na [[Bahia]].]]
[[Ficheiroimagem:Image of Lemanjá, Brazil.jpg|thumb|left|180px|Representação sincretizada com uma [[sereia]] europeia.]]
Em [[África]], Iemanjá é senhora de traços negros com formas bem evidenciadas e seios muito volumosos, por vezes representada grávida. [[Richard Francis Burton|R. F. Burton]] menciona: "''Ela é representada por um pequeno ídolo com a pele de um amarelo desbotado. Tem os cabelos azuis, usa contas brancas e uma roupa listrada''".<ref name=burton>[[Richard Francis Burton|Burton, Richard Francis, Sir]]. ''Abeokuta and the Camaroons Mountains : an exploration''. London, Chatto & Windus, 1884.</ref> P. Baudin e outros autores também nos apresentam a mesma descrição.<ref name="notasverger.295"/> Omari-Tunkara é primorosa em sua descrição: "''Suas imagens contemporâneas são esculturas em madeira pintada a esmalte que geralmente retratam uma mulher com seios muito grandes amamentando um ou mais filhos e, muitas vezes cercada por outras crianças. As esculturas figuram o papel de ''Yemọjá'' como mãe carinhosa, protetora, vigilante e agente de [[fertilidade]]. Um colar especial composto por várias vertentes de pequenas [[miçanga]]s de cristal claro atadas por dois ou três contas maiores em vermelho, branco e azul veneziano serve como um símbolo de ''Yemọjá'' em Ibara e está representado nas esculturas que se conformam em grande estilo para o cânone [[Iorubás|iorubá]] típico.''"<ref name=mikelle/> [[Sandra Epega|S. Epega]] escreve: "''Suas estátuas enfatizam o aspecto da maternidade. Ela é uma mulher tranquila, com grande ventre túrgido, seios imensos, pés bem plantados no chão, pondo as mãos sobre crianças''". Essa [[iconografia]], segundo Agbo Folarin, muito se assemelha às representações das tradicionais [[Epa (máscara)|Máscaras-Epa]] de festejos tradicionais da [[Nigéria]].<ref name=epega/><ref name=ibadan>Folarin, Agbo. ''MATERNAL GODDESS IN YORUBA ART: A New Aesthetic Acclamation of Yemoja, Oshun and Iya-Mapo.'' Ann Arbor, Michigan: MPublishing, University of Michigan Library, 1993.</ref> Não há menções antigas de sua representação como peixe da cintura para baixo.<ref name="utopia">Risério, Antonio. ''A utopia brasileira e os movimentos negros''. Ed. 34, São Paulo, 2007. ISBN 978-85-7326-385-5</ref>
 
 
Referindo-se a essa nova manifestação da figura de Iemanjá, escreve Verger: "''Ela é representada como uma espécie de fada, com a pele cor de alabastro, vestida numa longa túnica, bem ampla, de musselina branca com uma longa cauda enfeitada de estrelas douradas; surgindo das águas, com seus longos cabelos pretos esvoaçando ao vento, coroada com um diadema feito de pérola, tendo no alto uma estrela-do-mar. Rosas brancas e estrelas douradas, desprendidas de sua cauda, flutuam suavemente no marulho das ondas. Iemanjá aparece magra e esbelta, com pequenos seios e o corpo imponentemente encurvado.''"<ref name=verger/>
[[Ficheiroimagem:Iemanjá yemanjá rainha do mar.JPG|thumb|left|185px|Representação popular de Iemanjá difundida pela [[Umbanda]].]]
Alguns autores atribuem que essa adaptação tenha surgido do [[sincretismo]] religioso com a figura de [[Nossa Senhora]], já que, para os baianos, Iemanjá está ligada a [[Nossa Senhora da Conceição]].<ref name=festa>Couto, Edilece Souza. ''Tempo de festas: homenagens a Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição e Sant’Ana em Salvador (1860-1940)''. Ed. SciELO - EDUFBA, 1 de jan de 2010 - 217 páginas.</ref> Essa forma de representação persistiu em especial com a [[teledramaturgia]], como na [[novela]] [[Porto dos Milagres]], em que, em nenhum momento, a figura da Iemanjá branca, personagem que sutura silenciosamente a trama, cede a alguma representação negra. A imagem de Iemanjá totalmente branca viria a atender a devoção da [[umbanda]], que, nos últimos anos, tem se espalhado pelo território nacional brasileiro, introduzindo essa nova percepção popular.<ref>Orphanake, J. Edson. ''Conheça a umbanda''. Tríade Editorial, 1985 - 150 páginas.</ref> T. Bernardo é bastante incisiva em sua pesquisa: "''Monique Augras, em 1989, analisa a imagem de Iemanjá que já mostra ter sofrido um processo de [[moral]]ização realizado pela [[umbanda]]. Mais precisamente, essa expressão religiosa parece dar sinais de haver uma transformação da imagem de Iemanjá em andamento. Em 1991, Pedro Iwashita publicou ''Maria e Iemanjá: análise de um sincretismo''. Ao estudar as duas deusas, mostrou que são duas faces do mesmo [[arquétipo]]. No entanto, provavelmente para não parecer [[Racismo|racista]], não confronta Maria diretamente com Iemanjá, mas interpõe uma terceira deusa, [[Ísis]], a grande mãe do [[Egito antigo]], distante da realidade aqui tratada e, portanto, figura neutra para o debate atual''".<ref>Bernardo, Terezinha. ''Negras, mulheres e mães: lembranças de Olga de Alaketu.'' Educ, 2003 - 194 páginas.</ref>
 
 
=== Festa do Rio Vermelho ===
[[Ficheiroimagem:Presente para Iemanja Praia do Rio Vermelho3.jpg|thumb|180px|Imagem de Iemanjá na oferenda]]
[[Ficheiroimagem:Praia do Rio Vermelho com oferendas para Iemanja.jpg|thumb|[[Ialorixá]] e filhos na entrega da oferenda a Iemanjá]]
 
A tradicional [[Festa de Iemanjá]] na cidade de [[Salvador (Bahia)|Salvador]], capital da [[Bahia]], tem lugar na praia do [[Rio Vermelho (bairro de Salvador)|Rio Vermelho]] todo dia [[2 de Fevereiro]].<ref>http://www.soulbrasil.com/index.php?page=ed/52/07-principal.php&lang=en</ref><ref>{{Citar web |url=http://brazzil.com/component/content/article/229-february-2011/10462-in-brazil-oldies-and-greens-cant-agree-on-how-to-celebrate-the-queen-of-the-sea.pdf |titulo=Cópia arquivada |acessodata=2014-06-13 |arquivourl=https://web.archive.org/web/20160303184222/http://brazzil.com/component/content/article/229-february-2011/10462-in-brazil-oldies-and-greens-cant-agree-on-how-to-celebrate-the-queen-of-the-sea.pdf |arquivodata=2016-03-03 |urlmorta=yes }}</ref> Na mesma data, Iemanjá também é cultuada em diversas outras praias brasileiras, onde lhe são ofertadas velas e flores, lançadas ao mar em pequenos barcos artesanais.