Diferenças entre edições de "Kitsch"

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==O ''kitsch'' e a estética==
===Características gerais e a dinâmica arte popular x arte erudita===
[[File:William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) - Love on the Look Out (1890).jpg|thumb|left|170px180px|[[William-Adolphe Bouguereau]]: "Amor observando", 1890, um exemplo da arte acadêmica condenada pelos modernistas como ''kitsch'']]
[[Ficheiro:Gadget1-umedecedor de selos.jpg|thumb|left|170px180px|Publicidade de um ''gadget'' dos anos 1950: umedecedor de selos em forma de dentadura com língua exposta. A legenda original dizia: "Lamba-os com um sorriso! ... Garantimos que não vai morder!"]]
 
Embora Moles o descreva acima de tudo como "uma maneira de ser",<ref>Moles, p. 11</ref> o conceito de ''kitsch'' é mais empregado no terreno da [[estética]]. Sua definição não é fácil, pois, baseando-se geralmente em juízos de valor, padece das inconsistências comuns a todos os tipos de valorações, que variam segundo os tempos, os grupos sociais, as preferências individuais e as geografias, mas geralmente é tido, em suma, como sinônimo de algo banal, barato e de mau gosto. Muitas vezes, é considerado uma oposição completa ao conceito de [[arte]], enquanto outras vezes ele é aceito como arte, mas de má qualidade. A despeito dos esforços dos eruditos em estabelecer definições claras, é problemática a identificação de traços objetivos para descrever um objeto como ''kitsch''. Como observou Tomáš Kulka, tipicamente falta-lhe uma estrutura caracterológica intrínseca que possibilite demonstrar cabalmente que um objeto é de mau gosto ou de escasso valor estético, contrapondo-o ao mundo da "arte", ou pelo menos da arte erudita, e as análises geralmente se baseiam em conceitos paralelos derivados da [[antropologia]], [[sociologia]] ou da [[história]] para reforçar suas conclusões.<ref name="Kulka">Kulka, pp. 1-12 </ref>
 
Em que pese a ressalva do autor, vários outros estudiosos apontaram indícios genéricos do que é um objeto ''kitsch''. Entre eles, como se encontra nos sumários do ''[[Itaú Cultural|Instituto Itaú Cultural]]'', se destacam: falsificação de materiais (madeira pintada como mármore, objetos de zinco dourados como bronze, sempre procurando aparentar ser algo mais nobre do que é); preferência pela cópia ou adaptação de modelos eruditos; distorções em relação ao modelo original; uso de cores vivas ou em combinações exóticas; tendência ao exagero, ao empilhamento e à acumulação; [[onívoro|onivoria]] e [[sincretismo]];<ref name="Itaú"/> dinamismo, fluência e inconstância; tendência sentimental; funcionalidade deslocada ou minimizada pela ênfase no decorativo; tradução de um código complexo para um mais simples, ao mesmo tempo que dissemina o produto de um público reduzido para um mais vasto.<ref>Morais, Frederico. [http://www.itaucultural.org.br/consumo/kitsch/kit.htm "ABC do ''Kitsch''"] {{Wayback|url=http://www.itaucultural.org.br/consumo/kitsch/kit.htm |date=20130731183244 }}. Itaú Cultural</ref>
 
Moles acrescentou, a estes traços, os de propósito [[hedonista]] e ocasionalmente humorístico, alguma dose de [[surrealismo]], alienação, dependência da indústria (é um produto), autenticidade no que se propõe (espontaneidade), heterogeneidade, [[sinestesia|percepção sinestésica]], mediocridade (no sentido de que se adequa ao gosto médio e é por isso democrático), universalidade, ofelimidade, urbanidade e permanência, dizendo jocosamente que ele é tão permanente quanto o [[pecado]].<ref>Moles, pp. 10-11; 26-27; 32; 38; 40; 61; 74</ref> Além disso, Călinescu assinalou que o ''kitsch'' pode aparecer somente na dependência de contextos específicos, sem que seus objetos constituintes o sejam, remetendo ao princípio de ''inadequação estética'' comcomo característico do ''kitsch'' e dando como exemplo hipotético a instalação de um autêntico quadro de [[Rembrandt]] no elevador de uma residência milionária. Outros exemplos podem ser materiais descartados usados como decoração, tais como livros estragados, cartões-postais velhos, banheiras antigas enferrujadas e assim por diante.<ref>Călinescu, p. 236</ref>
 
Desde os louvores de [[Rimbaud]] ao "lixo poético" e às "pinturas estúpidas", passando pelas irreverências [[dadaísta]]s e as extravagâncias oníricas dos [[surrealista]]s, a arte de [[vanguarda]] no século XX primou pelo uso de uma enorme variedade de procedimentos heterodoxos no intuito de derrubar todas as tradições e questionar as bases da própria arte, emprestando-os diretamente do ''kitsch'' por suas virtudes irônicas e iconoclastas.<ref name="Călinescu1"/> Neste processo em que o ''kitsch'' foi incorporado pela vanguarda ao universo da arte culta, a produção da [[academicismo|arte acadêmica]], antes a forma culta dominante, se tornou reversamente sinônimo de ''kitsch'', acusada de artificial, previsível, estereotipada, banal, sentimental, mercantilista e insensível às demandas por uma nova sociedade.<ref>Banes, Sally. ''Greenwich Village 1963: avant-garde performance and the effervescent body''. Duke University Press, 1993, p. 104 </ref><ref> Guilbaut, Serge. ''How New York stole the idea of modern art: abstract expressionism, freedom, and the cold war''. University of Chicago Press, 1985, p. 36 </ref><ref>Macdonald, Duwight. "A Theory of Mass Culture". In: Peters, John Durham & Simonson, Peter. ''Mass communication and American social thought: key texts, 1919-1968''. Rowman & Littlefield, 2004, p. 346</ref>
Quando a vanguarda afinal entrou na moda, isso em meados do século, o ''kitsch'' passou a ganhar uma espécie de prestígio negativo, mesmo entre os círculos intelectuais mais sofisticados. Então ele foi incorporado pela [[cultura camp|cultura ''camp'']], onde o mau gosto era cultivado deliberadamente como se fosse um refinamento superior. Susan Sontag cristalizou esta filosofia na frase "é belo porque é feio", que veio a se tornar uma corrente de grande peso na cultura norte-americana do pós-guerra, e dali passou a influenciar uma verdadeira ressurreição do ''kitsch'' em larga escala, chegando a ganhar espaço em alguns museus respeitados, redimido pela sensibilidade ''camp''.<ref name="Călinescu1">Călinescu, pp. 229-230</ref> Ao mesmo tempo, a [[arte pop|arte ''pop'']] também o tomou como referência importante, num período em que a [[massificação]] da cultura começava a se tornar um fenômeno global e se tornava tema artístico por si mesma. Vários artistas destacados desta escola, como [[Andy Warhol]], [[Roy Liechtenstein]] e [[Richard Hamilton (artista plástico)|Richard Hamilton]], incorporaram, como crítica social ou como humor, traços ''kitsch'' e [[ícone]]s populares em suas obras, tais como fragmentos de [[história em quadrinhos|histórias em quadrinhos]] e imagens de astros do cinema, contribuindo para tornar a arte culta mais acessível às massas e livrar um pouco o ''kitsch'' de suas conotações negativas.<ref name="Razo">Razo, José Luis Mejía. ''The Greenberg Paradox: the effects of Modernism and Kitsch in Contemporary art''. Instituto Tecnologico y de Estudios Superiores de Monterrey (ITESM), dez 2009, s/pp. </ref>
 
Este período coincidiu, segundo Moles, com a crise do [[Funcionalismo (artearquitetura)|funcionalismo]] - a estética típica da [[Bauhaus]] e um dos grandes adversários do ''kitsch'' - e com o encerramento do ciclo do "''kitsch'' histórico", dando lugar ao "neo-''kitsch''", quando ocorreu grande expansão nos varejos e consolidou-se a "estética das redes de supermercado", onde primam o princípio da uniformidade e o da obsolescência acelerada dos bens de consumo, estimulada pela criação de necessidades artificiais e pela introdução de processos de extinção programada daqueles bens. Entra, em cena, um elemento lúdico, popularizam-se o [[plástico]] e os ''[[gadget]]s'', e o discurso oficial prega "conforto e felicidade para todos".<ref>Moles, pp. 161-214</ref>
[[File:Puppy GuggenheimMuseum Bilbao.jpg|thumb|180px|esquerda|[[Jeff Koons]]: ''Puppy'', 1992, escultura contemporânea na forma de um cão gigante realizada com flores]]
 
Esgotando-se as vanguardas modernistas, que haviam assumido a responsabilidade de destruir a tradição e inventar um novo paradigma de cultura, consolidou-se, a partir dos anos 801980, a [[pós-modernidade]], desenvolvendo uma ampla, flexível e pluralista revisão do passado artístico da sociedade ocidental e questionando se toda aquela destruição teria valido a pena. Aqui, o fenômeno ''kitsch'' adquiriu foros de verdade artística, e o que para os modernos era mau gosto e tradição foi reincorporado como citação positiva em obras pós-modernas numa frequência tal que se tornou lugar-comum, em evocações nostálgicas ou piedosas, referências irônicas, humor, combinações anárquicas, contraditórias e carnavalescas de estilos históricos díspares, anacronismos deliberados, paráfrases e comentários.<ref>Călinescu, pp. 275-284</ref>
 
A situação se tornou complexa ao ponto de que os limites da arte se tornaram atualmente tão fluidos e vagos que fica extremamente difícil o julgamento crítico mesmo para os peritos no assunto.<ref name="Kulka"/> Assim como o ''kitsch'' sempre dependeu da referência culta, a sua apropriação pela cultura erudita continua sendo uma tendência forte, a exemplo da influente obra de artistas como [[Jeff Koons]], [[Damien Hirst]], [[Mariko Mori]] e [[Banksy]], que transformam-no em vanguarda estética.<ref name="Razo"/><ref name="Botz">Botz-Bornstein, Thorsten. ''The Aesthetics of Frozen Dreams: Kitsch and Anti-Kitsch in Jeff Koons and Mariko Mori''. Art in Society, s/d.</ref>