Diferenças entre edições de "Kitsch"

== O ''kitsch sacro'' ==
 
Similares são as associações do ''kitsch'' com as religiões [[salvação|salvacionistas]] como o [[cristianismo]]. Nestas correntes, a felicidade final acontece somente após a morte, quando a alma se eleva a um paraíso de beatitudes eternas. Em outras sociedades, em que prevalece a ideia de que o tempo é circular, a despeito das dificuldades passageiras a continuidade da vida é assegurada num universo em essência harmônico,. masAo contrário, nas religiões salvacionistas o mundo é concebido como essencialmente mau, o que impõe a necessidade de uma libertação definitiva, fundada numa [[ética]] de postergação da gratificação e numa perspectiva [[evolucionista]] da vida. Contudo, ocorre que, com o advento da modernidade, muitos mitos religiosos se exauriram e perderam apelo popular, ao mesmo tempo em que as mudanças vertiginosas em toda a sociedade desencadearam o nascimento de um sentimento de ansiedade diante da impermanência das coisas e da instabilidade das tradições. Isso converge com a crítica política de que o ''kitsch'' serve como um sedativo para as dores do mundo, e o imaginário cristão transborda de representações adocicadas e pré-digeridas da promessa da recompensa pós-morte, tornando-se assim produtos para consumo e conforto imediatos e incitando respostas previsíveis sem a necessidade de fundas reflexões.<ref>Călinescu, pp. 246-247</ref><ref>Brown, Frank Burch. ''Good Taste, Bad Taste, & Christian Taste: Aesthetics in Religious Life''. Oxford University Press, 2003, pp. 143-144</ref>
[[File:Lourdes boulevard de la grotte 16-2.jpg|thumb|180px|Estampas de anjinhos à venda na loja de artigos religiosos no santuário de [[Lourdes]]]]
[[File:Krishna clock.jpg|thumb|180px|Relógio com estatuetas de [[Krishna]] e [[Radha]]]]
 
Entretanto, a análise do ''kitsch'' em relação à [[arte sacra]] é delicada e dependente de uma ampla variedade de determinantes, e muitos acadêmicos, bem como líderes religiosos, por isso a temtêm evitado, não desejando ferir suscetibilidades. Reconhecem que, mesmo uma arte sacra sendo ''kitsch'', ela, muitas vezes, exerce uma influência positiva junto ao público a que se destina. Por isso, há quem considere a qualidade da arte, no que toca à religião, um assunto de menor relevância, levando em conta os objetivos espirituais legítimos que ela almeja, tornando-se sua crítica quase sinônimo de impiedade. Mesmo quando cristãos admitem que a arte que preferem contemplar é ''kitsch'', encontram razões teológicas ou humanísticas para defendê-la, minimizando a questão estética.<ref name="Brown1">Brown, pp. 133-137; 146-147</ref><ref name="Viladesau">Viladesau, Richard. ''Theological Aesthetics: God in Imagination, Beauty, and Art''. Oxford University Press, 1999, p. 163-164 </ref> [[David Morgan]] lembrou que o reconhecimento da legitimidade de sentimentos como doçura, amor e ternura, centrais na religiosidade popular, é fator indispensável para a compreensão do fenômeno ''kitsch'' na esfera da arte sacra. Além disso, observou que esse tipo de imagem raramente é usada sozinha, sendo apenas uma parte de um leque de práticas piedosas, que incluem oração, cultivo de tradições antigas e outras que, juntas, formam um todo complexo, organizado e coerente.<ref>Morgan, David. ''Visual piety: a history and theory of popular religious images''. University of California Press, 1999, p. 24</ref>
 
Outros, porém, consideram que a arte sacra ''kitsch'' cobra um preço alto em troca do proveito que tenciona produzir, conduzindo a um rebaixamento da espiritualidade e um relaxamento da vivência de seus rigores inerentes, substituindo-os por mero sentimentalismo fácil.<ref>Brown, pp. 142-147</ref> Paul Coates chegou a afirmar que esta arte é uma fórmula impotente que não só banaliza e emascula os sujeitos sublimes que representa, mas os cobre de ridículo,<ref>Coates, p. 80 </ref> o que parece se confirmar na existência não apenas de arte sacra de má qualidade, mas também de uma avalanche de itens que só cabem nas categorias de ''souvenir'' ou pura quinquilharia, embora decorados com imagens da religião.<ref>Moles, pp. 45-48</ref> Ao mesmo tempo, surgem novos cultos que se caracterizam como ''kitsch'' pelo seu [[proselitismo]] espetaculoso e emocional, pelas suas numerosas concessões a preferências individuais e pela sua falta de sólidos fundamentos morais. Disse [[David Klinghofer]] que "esta diluição cria uma sensação de espiritualidade sem exigir uma crença ortodoxa e uma ação definida. O resultado é que a Igreja perde membros para alternativas como as academias de ginástica, a política, os movimentos ''[[Nova Era|New Age]]''". [[Richard Neuhaus]] continuou a ideia considerando que "se a religião que está florescendo atualmente é uma 'religião nos meus próprios termos', então a secularização triunfou de todo, uma vez que uma religião deste tipo se destina a atender necessidades e abandonou a função de transmitir verdades".<ref>Thomson, Irene Taviss. ''Culture wars and enduring American dilemmas''. University of Michigan Press, 2010, p. 46 </ref>
 
Nem só as religiões ocidentais experimentam os efeitos do ''kitsch''. Na [[Tailândia]], recentemente foi criada uma imagem gigante do [[Buda]] com o aspecto de um super-homem, quebrando uma arraigada tradição iconográfica, o que desencadeou uma grande polêmica a respeito da irreverência do artista. O governo chegou a recomendar que ela fosse destruída.<ref>Taylor, James. ''Buddhism and postmodern imaginings in Thailand: the religiosity of urban space''. Ashgate Publishing, Ltd., 2008, pp. 78-79</ref> No [[Japão]], no [[Sri Lanka]] e na [[China]], novamente o [[budismo]], bem como outras tradições imemoriais, vêm sofrendo uma massificação. Em parte causada por um rápido acúmulo de uma vasto ''corpus'' de pesquisas acadêmicas laicas realizadas por ocidentais, que dessacralizam os mitos, estimula-se paralelamente o incremento do [[turismo]] e uma banalização da espiritualidade através do aparecimento massivo de artigos, artes e práticas pseudo-religiosospseudorreligiosos como roupas íntimas ''[[zen]]'', óperas, estátuas e templos feéricos, incensos afrodisíacos, terapias alternativas, "perfumes [[Samsara]]" e outros produtos de apelo popular.<ref>Morrell, Robert. "Literatura and Scripture". In: Swanson, Paul Loren & Chilson, Clark. ''Nanzan guide to Japanese religions''. University of Hawaii Press, 2006, p. 261</ref><ref>Davis, Edward Lawrence. ''Encyclopedia of contemporary Chinese culture''. Taylor & Francis, 2005, p. 15 </ref><ref>Atkinson, Brett. ''Sri Lanka''. Lonely Planet, 2009, p. 141 </ref> Da mesma forma, um conhecimento imperfeito do budismo pelos ocidentais, que o disseminam à larga em suas terras de origem, dá lugar a práticas ''kitsch'' que contemplam o comodismo antes do que o [[ascetismo]], imitando o que sucede no cristianismo.<ref>Norvine, Jim et alii. "I Love You, Man: Values in Flux". In: Norwine, Jim & Smith, Jonathan M. ''Worldview flux: perplexed values among postmodern peoples''. Lexington Books, 2000, p. 33</ref><ref> Gumbrecht, Hans Ulrich. ''Production of presence: what meaning cannot convey''. Stanford University Press, 2004, p. 149 </ref> Fenômenos semelhantes são visíveis no [[hinduísmo]] contemporâneo, produzindo legiões de simpáticos [[Ganesha]]s e doces [[Krishna]]s com circulação no oriente e ocidente, desvirtuando ao mesmo tempo as tradições musicais, iconográficas e literárias, transformando templos seculares em locais de entretenimento e transportando imagens sagradas para as histórias em quadrinhos, brinquedos e outros objetos de consumo de massa.<ref>Scruton, s/pp.</ref><ref>Chaudhuri, Amit. ''Clearing a space: reflections on India, literature and culture''. Peter Lang, 2008, pp. 160-161</ref>
 
==O ''kitsch'' erótico==