Diferenças entre edições de "Vidas Secas"

 
===O tempo===
Para [[Affonso Romano de Sant'Anna]], a história de ''Vidas Secas'' é a-histórica, ou seja, ainda segundo ele, "um tipo de [[acronia]], uma vez que não se situa em nenhum tempo específico."<ref>Sant'Anna, 1984, p. 167.</ref> No entanto, embora não haja delimitação exata de tempo [[Cronologia|cronológico]] na narrativa,<ref>Soares, 2012, p. 33.</ref> que indicasse ser contemporânea ao autor ou mais antiga ou até futurista, alguns elementos da própria narrativa marcam certos aspectos histórico-sociais: tem sido notado, por exemplo, que o final de ''Vidas Secas'' representa de maneira exemplar a [[migração nordestina no Brasil|migração nordestina]] para o [[sudeste do Brasil|Sudeste]] e o [[Sul do Brasil|Sul]] industrializados tal como ocorria com expressividade na [[década de 1930]] no contexto da [[história da industrialização no Brasil]].<ref name="Achcar2001133" /> Historiadores, porém, destacam longas [[estiagem|estiagens]] anteriores à [[seca]] da [[década de 1930]], na segunda metade do [[século 19]], com retratos ainda mais duros numa série de registros e documentos.<ref name="LuizCláudioFerreiraEBC">Luiz Cláudio Ferreira, "[https://www.ebc.com.br/especiais-agua/vidas-secas/ Vidas Secas - Catástrofes Atravessaram o Século]". Especial da ''[https://www.ebc.com.br/ EBC]'' - [[Empresa Brasil de Comunicação]]. Consultado em 22/03/2021.</ref> Por exemplo, há estimativa de que a seca de [[1877 no Brasil|1877]] e [[1879 no Brasil|1879]] tenha provocado a morte de cerca de 400 mil pessoas, o equivalente à metade da população [[cearense]] da época.<ref name="LuizCláudioFerreiraEBC" /> Foi a partir de [[1888 no Brasil|1888]], num período severo de seca, que o fenômeno climático da estiagem passou a ser uma questão nacional, aponta o geógrafo e ambientalista Lucivânio Jatobá.<ref name="LuizCláudioFerreiraEBC" />
 
Esse dado é particularmente importante, porque a seca de [[1915 no Brasil|1915]], por exemplo, será imortalizada na ficção regionalista ''[[O Quinze]]'' de [[Rachel de Queiroz]], lançada em [[1930 no Brasil|1930]].<ref name="LuizCláudioFerreiraEBC" /> E, mais do que isto, não há dúvidas, ainda, que, em trechos sutis, ''Vidas Secas'' dá ideia clara de tempo cronológico justamente em torno desse fenômeno telúrico: "''Recordou-se do que lhe sucedera anos atrás, antes da seca, longe.''", diz um trecho do capítulo "Contas".<ref>Ramos, 2001, p. 94.</ref> Portanto, segundo o jornalista Luiz Cláudio Ferreira, a seca de [[1932 no Brasil|1932]]-[[1936 no Brasil|1936]], entre a última grande seca ([[1958 no Brasil|1958]]) com impactos socioeconômicas registrada no Brasil, inspirou ''Vidas Secas'' ([[1938 no Brasil|1938]]), sendo aquela seca parte do contexto do romance, assim como o quadro ''[[Retirantes]]'' ([[1944 no Brasil|1944]]) de [[Portinari]] (conferir, na última imagem da seção anterior, correspondência de Graciliano ao pintor), já que essa estiagem atingiu não só estados nordestinos, como também chegou a [[Minas Gerais]], [[Rio de Janeiro]] e [[São Paulo]].<ref name="LuizCláudioFerreiraEBC" /> Assim, a seca de 1932, que foi a última catástrofe, chocou Graciliano;<ref name="LuizCláudioFerreiraEBC" /> conforme conta o pesquisador e autor de livros de história nordestina Cicinato Ferreira, "Foi uma seca que teve uma visibilidade maior por causa dos campos de concentração. Para evitar que as populações de [[Fortaleza]] sofressem os efeitos da [[migração]], colocavam as pessoas em barracas, em espécies de [[Curral|currais]]. Muitas pessoas doentes morreram nessas condições subumanas".<ref name="LuizCláudioFerreiraEBC" />
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